ILARI, Rodolfo - Linguística Românica

July 17, 2017 | Author: CamilaCanabarro | Category: Latin, Phonology, Natural Language, Linguistics, Vowel
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Destacando a importância da linguística românica para o estudo de nosso idioma, o professor Rodolfo Ilari, da Unicamp, f...

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83

RODOLFO ILARI Do D epartam ento de Lingüística da Unicamp

Lingüística Romanica com um ensaio de Ataliba T. de Castilho sobre “ O Português do B ra sil”

3.a edição

ea

editor«átira

Editor Nelson dos Reis Edição e preparação de texto Ivany Picasso B atista Edição de arte (m iolo) M ilto n Takeda Divina Rocha Corte C om posição/Paginação em video Fernando Peres dos Santos Neide Hirom i Toyota Capa Paulo César Pereira

ISBN 85 08 04250 7 1999 Todos os direitos reservados pela Editora Ática Rua Barão de Iguape, 110 - CEP 01507-900 Caixa Postal 2937 - CEP 01065-970 São Paulo - SP Tel.: (011) 3346-3000 - Fax: (011) 277-4146 Internet: http://www.atica.com .br e-m ail: [email protected] atica.com .br

Ao Professor A lbert Audubert

Nota da Editora Por encontrar-se em fase final de edição, este livro não incorpora as a tu a li­ zações necessárias no que tange às transform ações p o líticas que estão ocorrendo na ex-União S oviética e na Iugoslávia, im p lica nd o a redivisão de territórios. O le ito r perceberá isso nas referências a essas áreas geográ­ ficas que se fazem principalm ente nas páginas 195, 197 (mapa 26) e 226.

Sumário

R e l a ç ã o d o s m a p a s e c r é d i t o s __________________ 9 S í m b o l o s f o n é t i c o s ________________________________ 10 A b r e v i a t u r a s u t i l i z a d a s n o t e x t o ________________ 12 N o t a p r é v i a _________________________________________ 13

Primeira Parte: História e métodos da Lingüística Românica 1. A s o r i g e n s d a L i n g ü í s t i c a R o m â n i c a ; o m é t o d o h i s t ó r i c o - c o m p a r a t i v o _____________

17

1.1 Diez e os primeiros c o m p a r a ti s ta s __________________ 17 1.2 Os n e o g r a m á tic o s __________________________________18 1.3 O m étodo c o m p a r a t i v o ____________________________ 20 Documento: Da com paração à re c o n s titu iç ã o ____________ 22

2. O i m p a c t o d a g e o g r a f i a l i n g ü í s t i c a e d a s p e s q u i s a s d e c a m p o ___________________________ 25 2.1 G illié r o n __________________________________________ 2.2 O m ovimento “ palavras e coisas” __________________ 2.3 O Idealismo L in g ü ístic o ____________________________ 2.4 O E s tr u tu r a lis m o __________________________________ 2.5 A G ram ática G e r a t i v a _____________________________ 35 Docum ento: Os principais atlas lingüísticos e de palavras e c o is a s _______________________________________________ 35

25 31 31 32

Segunda Parte: A romanização 3. R o m â n i a , r o m a n o e 3.1 3.2 3.3 3.4 3.5

r o m a n c e _________________

41

A expansão territorial do Estado r o m a n o __________ 41 Decadência do Império e perdas te r r ito r ia is _________ 46 A difusão do latim e a r o m a n i z a ç ã o _______________ 48 O term o R o m a n ia e seus c o g n a t o s _________________ 49 A Rom ânia a t u a l __________________ ________ 51

Terceira Parte: O latim vulgar 4. O la tim v u lg a r e o la tim lite rá rio n o p r im e ir o m i l ê n i o _____________________________________________ 57 4.1 Sociolingüística do latim vulgar ____________________ 4.2 Latim vulgar e latim literário na Alta Idade M é d i a ___ 4.3 Variedades de latim e línguas r o m â n i c a s ____________

57 61 64

5. A s p r e c á r i a s f o n t e s e s c r i t a s d o p ro to -ro m a n c e _______ ________________ 65 5.1 Textos que opõem intencionalmente duas formas de l a t i m ______________________________________________ 66 5.2 Obras em que o latim vulgar penetra parcialm ente____ 66 5.3 In sc riç õ e s_________________________________________ 68 5.4 Termos latinos vulgares transmitidos por empréstimo às línguas não-românicas v iz in h a s __________________ 69 Documento: As primeiras 50 glosas do A p p en d ix P r o b i____ 71 6. C a r a c t e r í s t i c a s f o n o l ó g i c a s d o la tim v u l g a r ________________________________________________ 6.1 Acentuação e v o c a lis m o ___________________________ 6.2 As consoantes do latim v u l g a r _____________________ Documento: Os sistemas fonêmicos em algumas línguas r o m â n ic a s ______________________________________________

12 72 77 85

7. C a r a c t e r í s t i c a s m o r f o l ó g i c a s d o la tim v u l g a r ________________________________________________

88

7.1 A morfologia dos n o m e s ___________________________ 7.2 Os p r o n o m e s ______________________________________

88 94

7.3 A m orfologia do verbo ______ ________ 7.4 As palavras invariáveis _ _ _ ____ __________ Documento: A conjugação em latim clássico e vulgar

8. C a r a c t e r í s t i c a s s i n t á t i c a s d o l a t i m v u l g a r

96 102 103 105

8.1 Alguns fatos a lembrar na construção sintática

vulgar de algumas formas

__

8.2 A sintaxe da oração ________ ____ 8.3 A sintaxe do p e r í o d o ____________ _________

Documento: O T estam entum porcelli

___

9. O l é x i c o e m l a t i m v u l g a r

105 108 111 * 115 118

9.1 Processos de formação de palavras _ 9.2 Tendências gerais na m udança de significado 9.3 Preferências e diferenças regionais

Documento: Notas sobre o léxico ibérico

119 124 131 132

Quarta Parte: A formação das línguas romãnicas 10. F a t o r e s d e d i a l e t a ç ã o d o l a t i m v u l g a r

135

10.1 M udanças fônicas determinadas por pressões 10.2 10.3 10.4 10.5

paradigmáticas _________________________ Mudanças fônicas devidas ao entorno Os substratos _ Os superstratos __ __ ____________ Os adstratos ...

136 137 139 143 149

11. A f o r m a ç ã o d e d o m í n i o s d i a l e t a i s na R o m â n ia

________

___ ______________

157

11.1 A fragmentação lingüística da Rom ânia no final do primeiro m i l ê n i o __________________________ 159 11.2 Rom ânia Oriental e România Ocidental _ 164 11.3 Recapitulação _____ __ _________ _ __ 166

12. O s d o m í n i o s d i a l e t a i s n a R o m â n i a do s é c u lo XX 12.1 Península Ibérica .... 12.2 Os dialetos da Gália

__________ ______________ _____________

I68 168 178

12.3 Os dialetos d a Itália e da Suíça M e r i d i o n a l _______ 185 12.4 Os dialetos do r o m e n o _______________ ____________ 195

13. O a c e s s o d o s r o m a n c e s à e s c r i t a : os prim e iros d o c u m e n to s em ro m a n c e

198

13.1 Condições de acesso dos romances à e s c r i t a _______ 13.2 Os primeiros documentos em r o m a n c e ____________ Documento: O laboratório das línguas r o m â n i c a s ______

198 199 211

14. A c o n s t i t u i ç ã o d a s l í n g u a s n a c i o n a i s _____ 213 14.1 Critérios para o reconhecimento das línguas n a c io n a is _______ _______ ________________________ 213 14.2 O despontar das línguas nacionais r o m â n i c a s _____ 216 14.3 Algumas linhas comuns na história das línguas r o m â n ic a s _________ ______ ____________________ 226 D ocumento: Momentos da constituição do português literário _______________________________________ __ 233

Apêndice: O P o r t u g u ê s d o B r a s i l ____________________________ 237 R e f e r ê n c i a s b i b l i o g r á f i c a s _______________________ 270 1. Bibliografia g e r a l ___________________________________ 270 2. Com plem entação b ib lio g rá fic a ______________________273 3. Bibliografia do A p ê n d i c e ___________________________ 277

R ela çã o d o s m ap as e créd itos M apa M apa M apa M apa Mapa Mapa Mapa M apa M apa

M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa M apa

1

Distribuição das denominações do galo no sudoeste da França (Miazzi) ........................................................ 2 — Distribuição das denominações da abelha no terri­ tório francês (Miazzi) .................................................. 3 — Os nomes da galinha nos dialetos italianos (Magno) 4 — Os nomes da galinha nos dialetos portugueses (Magno) ........................................................................... 5 — As regiões da Itália Antiga (A tlas o f A n cien t and Classical G eography, Dent & Sons) ........................ 6 — Formação do Império Rom ano (Operti-Alasia) 7 — Divisão administrativa do Império sob Dioeleciano (Enciclopédia M irador) ............................................... 8 — As línguas românicas no m undo (Renzi) ............... 9 — Formação dos reinos rom ano-barbáricos no final do século (F. Schrader, A tla s de Géograph ie H islorique) ............................................................ 10 — As principais isoglossas da România no fim do primeiro milênio, segundo Agard ............................ 11 — Algumas isoglossas na România do século IX, segundo Robert Hall .................................................... 12 — Os sistemas dialetais na Rom ânia Antiga (Tagliavini) .................................................................................... 13 — As regiões da Hispania rom ana (A tlas o f A ncien t and Classical G eography, Dent & Sons) ............... 14 — Línguas da Península Ibérica por volta de 930 (Lapesa) ........................................................................... 15 — As inovações fonéticas que definem o castelhano, na época da Reconquista (Lapesa) .......................... 16 — Línguas da Península Ibérica por volta de 1072 (Lapesa) ........................................................................... 17 — Línguas da Península Ibérica por volta de 1200 (Lapesa) ........................................................................... 18 — Línguas da Península Ibérica por volta de 1300 (Lapesa) ........................................................................... 19 — Línguas da Península Ibérica na atualidade (Lapesa) 20 — Os dialetos galo-românicos antes da absorção pelo francês .............................................................................. 21 — Algumas aloglossas no domínio galo-românico (Tagliavini) ....................................................................... 22 — Os dialetos occitanos (Tagliavini) ............................ 23 — Línguas e dialetos na Itália do século XX (Taglia­ vini) .................................................................................... 24 — Dialetos da Sardenha (Tagliavini) ............................ 25 — Dialetos réticos (Tagliavini) ...................................... 26 — Dialetos romenos (Tagliavini) ...................................

27 30 37 38 43 45 47 53

145 162 164 169 175 175 176 176 177 177 178 183 184 185 186 188 191 197

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não fricativas laterais

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CONSOANTES

Os símbolos fonéticos utilizados são os da tabela abaixo, tirados, com do Alfabeto Fonético Internacional (IPA).

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D- Çj.

A breviaturas u tilizad as no texto

adj. adn. — adjunto adnominal adj. adv. — adjun to adverbial alv. — alveolar arc. — arcaico bil. — bilabial cat. — catalão cláss. — clássico cp. — compara dat. — dativo dent. — dental d en t.a. — dental-alveolar eng. — engadino esp. — espanhol t'em. — feminino fr. — francês fric. — fricat iva gen. — genitivo germ. — germânico gr. — grego ingl. — inglês it. — italiano lat. — latim .pl.dent. — labiodental lg. — língua masc. — masculino med. — medieval

MT — modo-tem po neut. — neutro nom. — nominativo N P — número-pessoa obl. — oblíquo oclus. — oclusiva OD — objeto direto OI — objeto indireto opos. — oposição p. — pessoa pal.a. — palatal-alveolar plur. — plural port. — português prep. — preposição pron. — pronúncia, pronunciado prov. — provençal rom. — romeno sing. — singular SN — sintagma nominal SP — sintagma pronominal suj. — sujeito SV — sujeito-verbo v. — verbo vel. — velar VS — verbo-sujeito vulg. — vulgar

Nota prévia

Algumas décadas atrás, a Lingüística (ou “ Filologia” ) R om a­ nica ocupava, na form ação do professor de Português, um lugar privilegiado, com outras disciplinas referentes à história da língua. Muito secundarista iniciou-se nos mistérios da língua por essa pers­ pectiva, e aprendeu assim a valorizá-la como uma sempre presente instituição social. Mais recentemente, o ensino tem tom ado por base teorias que encaram a língua por um ângulo sincrônico, valorizando seu ca rá ­ ter sistemático ou procurando expressar com rigor matemático suas regularidades. Mas a história das línguas românicas continua a ter um forte interesse formativo para todas as pessoas interessadas nas origens de nosso idioma. O livro foi escrito antes de mais nada para esse tipo de leitor, e visa a dar um a visão equilibrada, não técnica, do c o njunto de p ro ­ blemas que se costum a reunir sob o rótulo “ Lingüística R om âni­ c a ” ; mas deveria servir tam bém ao estudante de Letras, como estí­ mulo e orientação na busca de leituras mais especializadas. Por isso, a bibliografia consultada na elaboração do livro foi organizada por grandes temas na “ Com plem entaçào bibliográfica” da p. 273. Neste mesmo volume, o professor Ataliba T. de Castilho dáme a honra de publicar o ensaio “ O Português do Brasil” , onde

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I INCil'ISTICA RO MÂN ICA

expõe as vicissitudes da língua portuguesa no continente americano e situa com meridiana clareza os problemas encontrados por quem se dedica ao seu estudo. É o trabalho de um dos principais especia­ listas no estudo da língua portuguesa, p ro po ndo um a visão de c o n ­ ju n to num tema onde a principal dificuldade é separar as questões dando-lhes o realce adequado. Sem demérito para outras obras congêneres (Sílvio Elia, N as­ centes...), pensamos que os dois textos poderão ser úteis ao profes­ sor universitário de Lingüística Românica e de História da Língua Portuguesa, facilitando-lhes a tarefa de organizar uma bibliografia extremamente ampla num caso e extremamente dispersa no outro. Lsperamos tam bém ter d ado pontos de referência mais exatos a todos aqueles que, sem compromissos profissionais, se interessam em recuperar a memória de nossa língua. D epartam ento de Lingüística da Universidade Estadual de Campinas

I

Primeira Parte:

História e métodos da Lingüística Românica

1

As origens da Lingüística Românica; o método histórico-comparativo

1.1 l)iez e os primeiros comparatistas A Lingüística R om ânica é uma disciplina de orientação histó­ rica, que se constituiu na segunda metade do século X IX , com o nome de Filologia Românica, graças aos trabalhos de Friedrich Diez, cujos textos fundamentais (G ram ática cias línguas rom ânicas, de 1836, e D icionário etim ológico das línguas rom ânicas, de 1853) deram um exemplo marcante de rigor e método no tratam ento histó­ rico das línguas românicas, m ostrando a possibilidade de tratar “ cientificamente” de um a série de temas que haviam preocupado os intelectuais durante séculos, mas que haviam sempre sido a b o r d a ­ dos com certa dose de impressionismo e assistematicidade. O nome “ Filologia R om ânica” , com que a disciplina surgiu, é significativo do contexto intelectual em que se deu seu apareci­ mento. Desde o período do H um anism o (o m ovimento intelectual que precede e prepara a Renascença), muitos estudiosos vinham-se dedicando ao trabalho de estudar textos da antiguidade clássica, um a tarefa que exigia, além de conhecimentos técnicos (por exemplo, de edótica e diplomática) indispensáveis para restabelecer o texto em sua forma original, a capacidade de manipular informações extre­ mamente variadas sobre a época a que se referiam os documentos e um domínio muito grande das línguas antigas. A esse interesse no

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LINGÜÍSTICA ROMÂNICA

desvendamento das literaturas antigas chamou-se Filologia Clássica respeitando de algum m odo a etimologia de filo lo g ia , “ am or pela expressão” ; mas, dada a importância dos conhecimentos lingüísti­ cos que se exigiam para que o estudo literário se tornasse viável, a expressão Filologia Clássica designou desde sempre o estudo erudito daquelas línguas. Esse estudo, que por razões óbvias só podia ser histórico, ganhou um caráter com paratista no início do século XIX , quando Franz Bopp, com o livro Sobre o sistem a cie conjugação da lingua sânscrita, em co n fro n to com o das línguas grega, latina, persa e germ ânica, estabeleceu que as semelhanças existentes entre as lín­ guas clássicas (em particular as semelhanças referentes ao domínio da gramática) só poderiam ser explicadas pela origem comum. O projeto de Bopp, que foi logo retomado por o utro erudito da época, Jacob Grimm , deu ao estudo das línguas antigas um caráter gené­ tico e fez aparecer a preocupação de reconstituir, pela com paração, o indo-europeu, considerado como a origem com um das línguas das principais culturas clássicas. Diez confirmou que havia entre o latim e as principais línguas românicas uma relação genética semelhante à do indo-europeu com o latim, o grego e o sânscrito; aplicando o m étodo comparativo dos indo-europeístas chegou a algumas teses que são hoje postula­ dos da Lingüística Românica: um a dessas teses é que as línguas românicas não se originam do latim clássico, mas de uma outra variedade de latim, conhecida com o “ latim vulgar” ; outra é que não tem qualquer fundam ento a hipótese (defendida pelo francês Raynoudard) segundo a qual todas as línguas românicas teriam como ascendente mais próximo o provençal. Diez se interessou ta m ­ bém pelo estudo de narrativas em espanhol arcaico; assim, seu tra ­ balho, que tinha orientação paralela ao da Filologia Clássica, criou espaço para um a Filologia R om ânica, com o duplo aspccto de estudo textual (justificado pelas dificuldades que apresenta(va) a lei­ tura dos docum entos românicos escritos antes da invenção da imprensa e da definitiva consolidação das línguas românicas) e de investigação genética das línguas derivadas do latim.

1.2 Os neogramáticos A geração de Diez, fun dad or da Lingüística Românica, esteve sob influência direta da filosofia espiritualista dos românticos,

AS ORIG EN S DA LINGUISTIC A R O M A N R A ; () Mi-TOIX) HISTORIC ()-t Ό Μ Ι 1AKA 11 VO

I1)

impregnada de historicismo; a próxim a escola lingüística com influência m arcante p a ra a romanística esteve ao contrário sob uma forte influência das ciências naturais (que faziam então enormes progressos) e do darwinismo. Essa escola se constituiu na Universi­ dade de Leipzig, onde atuou nas últimas três décadas do século XIX; seus nomes mais representativos são os de Brugm ann, Leskien e O sthoff, mas é com um referir-se a ela como um grupo, utilizando o nome de neogram áticos (Ju n ggram m atiker), que lhe foi dado de início por troça, mas que acabou tornando-se respeitado, à medida que ela passou a representar a posição “ oficial” em m atéria de his­ tória das línguas. Os neogramáticos ganharam espaço no universo acadêmico da época pro pu gn and o um program a que afro ntav a ostensivamente as orientações comparatistas vigentes. Fizeram troça do propósito que havia anim ado seus predecessores no domínio da Lingüística Indo-européia — encontrar pela com paração a protolíngua, que esta­ ria na origem das línguas modernas; recom endaram ao contrário que a atenção dos pesquisadores se voltasse para as línguas vivas, onde os processos de evolução lingüística poderiam ser vistos em ação, e onde poderia ser captado o papel das forças psicológicas que estão na base do funcionam ento e da evolução das línguas. Na prática, o trabalho dos neogramáticos se caracterizou por um a exigência de extremo rigor, que se traduziu na crença de que as “ leis" da evolução fonética agem de maneira absolutamente regu­ lar, admitindo exceções apenas qu ando sua ação é contrariada pela ação da força psicológica da analogia. Exemplos simples de como a analogia atua no funcionam ento das línguas podem ser e n c on tra ­ dos na fala das crianças, em erros como fa z i ou trazi por fiz ou trouxe·, na expressão de Saussure, que retom a o conceito de an alo­ gia dos neogramáticos, operaria aí um a espécie de regra de três: se viver, correr etc. fazem o perfeito em -i pode-se esperar que fa z e r e trazer tam bém o façam. Um exemplo muito simples de como a analogia afeta a evolução das línguas é o verbo português render, e seus correspondentes românicos rendre, rendere etc.: essas formas não poderiam provir do verbo que significa render em latim clás­ sico, ou seja, reddere: nenhum a lei fonética conhecida justificaria o aparecimento de um -n- fechando a primeira sílaba: as formas românicas derivam verossimilmente de *rendere, construído por analogia com o verbo que significa “ t o m a r ” , isto é, prendere (clás­ sico prehendere). Pela maneira mecanicista como representaram o funciona­ mento das leis da evolução fonética, os neogramáticos atraíram as

20

1 I N G Ü IS r iC A R O M Â N IC A

críticas de autores que, ou por razões teóricas (como o lingüista ale­ mão Hugo Schuchardt) ou por estarem em contacto direto com a realidade multiforme dos dialetos (como o dialetólogo italiano Graziadio Ascoli) não estavam dispostos a aceitar a tese de que as leis fonéticas operam de maneira cega. Tiveram contudo uma influência determinante, para a lingüística e para a romanística. Ferdinand de Saussure, em quem se costuma reconhecer o fu nd ad or da Lin­ güística M oderna, era neogramático de form ação, tendo estudado com Brugmann na Universidade de Leipzig; como se sabe, Saussure teve entre seus alunos alguns lingüistas de grande porte, como Bally, Sechehaye e Meillet, e seu ensinamento deu origem à lingüística estrutural; também teve form ação neogramática o mais im portante romanista depois de Diez, Meyer-Lübke, cujas obras Gramática das línguas rom ânicas e D icionário etim ológico rom ânico (este geralmente conhecido pela sigla REW, form ada pelas três primeiras letras do título original) são ainda hoje fundamentais. Os trabalhos dos neogramáticos em geral, e de Meyer-Lübke em particular, refi­ naram o método de Diez, isto é, o m étodo histórico-comparativo, que é fundam ental nos estudos de lingüística histórica em geral, e nos estudos românicos em particular.

1.3 O método comparativo C om parar é uma tendência natural e um a im portante fonte de intuições e de descobertas em todos os campos do conhecimento. Na análise das línguas, a com paração e o confro nto levam às vezes ao estabelecimento de tipologias (como a que distinguia, tradicio­ nalmente, entre línguas monossilábicas, aglutinantes e flexivas), outras vezes à busca de características supostam ente inerentes a tod a língua h u m a n a (como nos levantamentos acerca dos “ univer­ sais da linguagem” realizados pela lingüística estrutural americana nas décadas de 1950 e 1960). Nesses casos, a com paração nada tem a ver com genealogia. E m Lingüística Românica, porém, o m étodo comparativo assume tipicamente propósitos genéticos, de reconstituição. Entendese, em outras palavras, que a semelhança constatada entre expres­ sões pertencentes às diferentes línguas românicas prova que elas se originam de um a mesma palavra latina; e que a form a que essas palavras assumem nas línguas românicas é indício da form a que deve ter tido a expressão originária.

AS ORIG EN S DA 1 INGÜISTICA ROMANICA; O Ml 1 0 1 ) 0 HI ST OR ICO -C OM PA RAT IVO

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Q uand o se co m param , por exemplo, port, e esp. saber, fr. savoir, it. sapere fica legitimada a conjectura de que tenham uma origem latina com um , num a palavra (i) cuja primeira sílaba começa por sibilante e (ii) cuja segunda sílaba é tônica e co m p o rta uma c o n ­ soante bilabial ou labiodental (p , b ou v). Constatando-se além disso que na evolução do latim para o espanhol e o português é regular a passagem do p intervocálico a b\ que o p intervocálico do latim passa regularmente a f r e e m seguida a v em francês; que, ainda em francês, o e longo das sílabas tônicas não travadas passa a ei, depois oi, oé, ué e wá (a grafia acom p an ho u esta evolução apenas até a form a oi), torna-se legítimo supor que a form a originária com um fosse *sapére, paroxítona. A identificação de *sapére como a form a de que se originaram saber e seus correspondentes românicos não deixa de ser surpreendente q uan do referida ao vocabulário conhecido do latim clássico: o latim clássico tinha um verbo sápere, conjugado como cápere, que significava entre outras coisas “ sabo­ rear, provar uma comida para sentir-lhe o sa b o r” . Este verbo sápere deve ter sido conjugado em latim vulgar como um verbo da 2 a con ­ jugação; por outro lado deve ter sofrido um a alteração de sentido, ou seja, a habilidade em não confundir o gosto dos alimentos deve ter sido to m a d a como representação metafórica da esperteza e inte­ ligência (quem é esperto e vivido “ não come gato por lebre” ). A form a e o sentido distinto que o verbo sápere assume em latim vul­ gar não são fatos isolados: a com paração de outras formas ro m â n i­ cas a ponta para conclusões semelhantes. Assim, port .fa z e r , caber, esp. haeer, caber m ostram que o latim vulgar deve ter tido facére capére, ao invés das formas clássicas fá cere e cápere-, e o uso de m etáforas físicas para representar operações do pensamento é com um , mesmo em latim clássico (por exemplo, o nosso pensar e o mais erudito p onderar provêm de verbos que significam “ p esar” , “ colocar pesos na balança” etc.). C onform e ficou exemplificado no parágrafo anterior, o método histórico-comparativo permite que os romanistas façam conjecturas bastante exatas sobre as formas românicas originárias. É até certo ponto casual que essas formas resultantes de conjecturas baseadas na com paração sejam efetivamente encontradas nos textos latinos que sobreviveram até nós, ou seja, que sua existência passada possa ser confirm ada mediante provas documentais. Às vezes, a prova documental é possível. Por exemplo, as formas port, velho, esp. viejo, fr. v/e//, it. vecchio, rom . vechi levam a um a form a veclus (que se explica a partir de veculus e vetulus, esta última diminutivo

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I INGUÍSTICA RO MÂN IC A

da forma clássica vetu s, “ velho” ). Veclus é atestada no A p p en d ix P rob i, um glossário que pode rem ontar aos séculos III ou IV d.C ., e que apo n ta um a série de formas correntes na época, que as pes­ soas cultas deveriam evitar por não serem as formas próprias do latim literário. Outras vezes ainda, formas que haviam sido p ro po s­ tas como hipótese de trabalho a partir da com paração das línguas românicas acabaram por ser encontradas em textos. É o caso da form a anxia, da qual derivam port, ânsia e seus cognatos. Muitas vezes, por fim, as formas resultantes de reconstituição permanecem não atestadas; neste último caso, os romanistas, à imitação do que faziam os indo-europeístas, antepõem à palavra um asterisco. I· im portante perceber que as formas com asterisco (que, segundo um a estimativa reproduzida em Vidos — 1956 — não passam de 10% do total de materiais com que têm trab alh ad o os romanistas) não são menos importantes ou menos seguras do que as formas ates­ tadas: as línguas românicas tom adas em seu conjunto num a visão comparativa são a melhor fonte para o conhecimento de sua p r ó ­ pria origem, um fato que ressalta q uando se leva em conta a preca­ riedade das fontes escritas do latim não literário. As conclusões que se tiram da com paração das línguas ro m â ­ nicas são tanto mais seguras q uanto maior for o núm ero de línguas românicas que ap on tam para elas e q u anto mais afastadas no espaço forem esSas línguas. O Sardo e o Romeno, que se situam hoje nos limites da România, e se desenvolveram por assim dizer à parte, sem comunicação com as outras línguas românicas, constituem uma espé­ cie de teste da antiguidade e do caráter pan-rom ânico das regularidades apontadas pela com paração. O campo em que o método com parativo deu os resultados mais sistemáticos é o da fonética; em morfologia e em sintaxe, sua aplicação exige a m anipulação de dados mais complexos, e seus resultados foram menos espetaculares.

Documento: Da comparação à reconstituição P ara ilustrar o funcionam ento do m étodo histórico-comparativo, considerem-se as palavras do q u a d ro a seguir. Ele com porta cinco colunas, sendo que a primeira é fo rm ad a por palavras do latim clássico e as outras contêm palavras portuguesas, espanholas, fran ­ cesas e italianas. O quadro permite dois tipos de com paração: (i) entre formas românicas; (ii) entre estas e o latim clássico. Estes

AS OR IGF NS DA I INGL'ISTIC A ROMANIC A; o Ml I ODO HIS ] OR ICO-COM P AR A I [VO

li

dois tipos de com paração são os que um a pessoa culta faria mais espontaneamente; e foram , historicamente, os que ocuparam as atenções dos primeiros romanistas.

português

espanhol

francês

italiano

( 1 ) novu movet mordit porta populu

novo move morde porta povo

nuevo mueve muerde puerta pueblo

neuf meut niord porte peuple

nuovo muove morde porta popolo

(2) flõrehora solu

flor hora só(ant. soo) famoso corte prosa

flor hora solo

fleur heure seul

fiore hora solo

famoso corte prosa

fameux cour prose

famoso corte prosa

(3) gula juvene ulmu unda bucca furnu musca

gola jovem olmo onda boca forno mosca

gola joven olmo onda boca horno mosca

gueule jeune orme onde bouche four mouche

gola giovane olmo onda bocca forno mosca

(4) luna virtute mutare

lua virtude m udar

luna virtud m udar

lune vertu muer

luna virtú mutare

latim

famosu eo(ho)rte prorsa

O quadro foi dividido em quatro grandes blocos, conforme as palavras latinas compreendem (1) um o breve (e acentuado), (2) um o longo, (3) um u breve ou (4) um u longo. Dito isto, é possível veri­ ficar no quadro acima (que é apenas um a pequena am ostra das com ­ parações possíveis no terreno das vogais) um a série de correspondên­ cias, que registramos a seguir, sem a preocupação de ser totalmente exatos e exaustivos: Bloco 1: onde o latim tinha um o aberto e acentuado, o espa­ nhol tem, sempre, o ditongo ue; o francês tem [0], [oe] grafados eu e o italiano tem o ditongo uo desde que na palavra latina a mesma sílaba fosse aberta, isto é, sem consoante depois da vogal; o p o rtu ­ guês tem o.

24

LINGÜÍSTICA ROMÂNICA

Bloco 2: onde o latim tinha um o fechado, as línguas rom âni­ cas do quadro apresentam um o, exceto o francês; esta língua tem eu (pron. [], [oe]) quando a sílaba latina era aberta, e tem o ou ou (pron. [u]) quando a sílaba latina era fechada. Bloco 4: onde aparecia o u longo latino, todas as línguas do quadro têm u (em francês, aparece u na grafia, correspondendo à pronúncia [y]). Examinando o bloco 3, que propositalmente foi deixado para o final destes comentários, constata-se que valem para ele, exata­ mente, as mesmas observações que foram feitas para o bloco 2. Esta constatação é importantíssima pois leva à conclusão de que na origem das línguas românicas está u m a variedade de latim com um quadro vocálico no interior do qual o o longo e o u breve do latim clássico se confundiam num a única vogal. De certo m odo, então, a com para­ ção das línguas românicas permite opor ao quadro vocálico bem conhecido do latim clássico um outro quadro mais simples, no qual a série posterior se reduz a três vogais distintas entre si não pela d u ra ­ ção, mas pelo timbre: lat. cláss.

it longo

lg. rom.

: u

u breve L

o longo

o breve

J

í o aberto

o teehado

ete.

A medida que se acumulam observações deste tipo configurase um a variedade de latim que se pode estudar em confronto com o latim clássico, mas que não se confunde com ele: é a essa variedade de latim, cuja existência histórica é com provada pela comparação das línguas românicas, que se cham ou de latim vulgar ou protoromance. Evidentemente, as semelhanças das línguas românicas com o latim vulgar são mais diretas: por exemplo, o quadro acima pode­ ria ser reduzido a três blocos, sendo as regularidades que ele exempli­ fica retomadas como segue:

latim vulgar

português

espanhol

francês

italiano

o aberto

síl. aberta si% fechada

o o

ue ue

eu 0

uo o

o fechado

síl. aberta síl. fechada

0 0

0 0

eu o, ou

o o

u

u

u

u

u

2 O impacto da geografia lingüística e das pesquisas de campo

No final do século XIX e nas primeiras décadas do século X X, várias tendências reagem contra o método histórico-comparativo e contra a m aneira como ele levava a representar a form ação das línguas românicas: algumas dessas orientações “ n ov as” resul­ tam de um a reflexão filosófica ou teórica sobre linguagem, como é o caso do cham ado “ idealismo lingüístico” ou da escola lingüís­ tica de Saussure; outras surgem no próprio cam po de estudo das lín­ guas românicas, como resultado de um contacto mais direto com os dialetos neolatinos. Estão neste último caso as orientações que se costum a reunir sob o título genérico de “ geografia lingüística” . C om o orientações da “ geografia lingüística” , serão m enciona­ dos aqui (i) as investigações sobre os dialetos galo-românicos de Jules Gilliéron; (ii) o movimento “ W õrter und Sachen” de Schuchardt; e (iii) a proliferação, inspirada pelas duas orientações ante- c riores, de atlas lingüísticos p ara regiões do território românico.

2.1 Gilliéron Entre 1897 e 1901, um professor de dialetologia da École P r a ­ tique de H autes Etudes dirigiu um a alentada pesquisa de campo que consistiu em aplicar um questionário de 1 920 perguntas em 639

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LINGÜÍSTICA RO MANICA

pontos do território dos dialetos galo-românicos. A aplicação do questionário, que com preendia perguntas destinadas a levantar dados não só sobre fonética, mas tam bém sobre morfologia e sin­ taxe, foi feita por um auxiliar (Edm ond Edm ont), ao passo que o próprio Gilliéron se dedicou principalmente à triagem e interpreta­ ção dos dados e à sua apresentação na forma de atlas. Resultou dessas pesquisas de cam po o A tla s linguistique de la France (ALF) (publicado entre 1902 e 1912). () trabalho de Gilliéron é inovador, e historicamente im p o r­ tante, antes de mais nada, por sua metodologia: ao passo que os comparatistas utilizavam principalmente fontes escritas (docum en­ tos antigos, glossários e dicionários dos dialetos, textos dialetais etc.), Gilliéron dá prioridade aos dados que resultam de um a pes­ quisa de cam po. Com isso, cria-se, no dom ínio dos estudos românicos, uma consciência autenticamente geográfica, graças a um a deli­ mitação relativamente exata das áreas em que vigoram determ ina­ das realidades lingüísticas; além disso, o próprio m étodo prestavase a provocar o aparecimento de um a quantidade de dados antes não catalogados. Mas os estudos de Gilliéron foram sobretudo importantes pelas descobertas a que levaram, que obrigaram de certo m od o a a b a n d o ­ nar definitivamente a concepção com paratista segundo a qual a dialetaçào do latim teria resultado sem outras complicações de um tr a ­ tam ento fonético diferenciado que as expressões do latim vulgar teriam recebido em cada região. Gilliéron m ostrou que essa perspec­ tiva era infundada, e que além da evolução fonética operou crucial­ mente na formação dos dialetos românicos a criatividade dos falan­ tes, particularmente ativa toda vez que se tornava necessário desfa­ zer colisões homonímicas e salvar palavras foneticamente pouco consistentes, ou toda vez que a etimologia popular alterou a forma de um a palavra para relacioná-la a algum paradigm a conhecido. Um bom exemplo de como a criatividade verbal dos falantes interfere na evolução fonética para desfazer colisões homonímicas são as denominações do galo nos dialetos do sul da França. Essas denominações incluem não só os derivados das palavras latinas gal­ lus ( = “ galo” ) e p u llu s (por gallus p u llu s = “ galo filhote” ), mas ainda formas semelhantes ao francês vicaire e fa isa n (respectiva­ mente: “ vigário” e “ fa isã o ” ). Segundo Gilliéron, houve um m om ento em certos dialetos do sul da França em que, por efeito da evolução fonética, gallu e cattu se confundiram n um a única pala­ vra gat, com o inconveniente de tornar homônimas as denominações

»

O IMPACTO DA GEOGRAFIA LINGÜÍSTICA E DAS PESQUISAS DE CA MP O

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para dois animais domésticos bastante comuns. Para desfazer a homonímia, os dialetos em questão recorreram ao nome do vigário, que compartilha com o galo a tarefa de acordar os paroquianos pela manhã, e veste um barrete que lembra um a crista; outros dialetos recorreram ao nome de um outro galináceo, o faisão.

Mapa 1: D istribuição das denom inações do galo no sudoeste da.França

28

LINGÜÍSTICA ROMÂN ICA

Um exemplo célebre de como a etimologia popular interfere na evolução fonética segundo Gilliéron é a história da palavra fra n ­ cesa fu m ie r , “ m o n tu r o ” : o latim tinha p ara “ esterco” a palavra fim u s ,' i, sobre a qual deve ter sido form ada *fim arium , “ lugar onde se ju n ta esterco” ; entretanto para chegar-se à form a francesa, é preciso passar por fu m a riu m . P ara Gilliéron esta form a deve ter sido criada, efetivamente, por influência do verbo fu m a re: o m o n ­ turo deve ter sido representado em algum m om ento com o um lugar de onde se exalam fumaças, provavelmente a partir do hábito eu ro ­ peu de queimar neles durante o ou to no as soqueiras dos cereais colhidos no verão. A palavra fu m ie r, em suma, teria ganho sua form a atual ao ser incorporada por um a família de palavras com a qual não tinha de início nenhum a relação. Mas Gilliéron dá uma dem onstração ainda mais impressio­ nante de como se podem interpretar os dados do A LF ao comentar o m apa que representa as denominações da abelha. Nesse m apa, cabe observar antes de mais nada a grande variedade de deno m in a­ ções — m ouche à m iei, m o u c h e tte , avette, essette, aveille etc. — , o que já é, por si só, um fato digno de nota. C h a m a a atenção por outro lado o fato de ter sido a d otad a pelo dialeto de Paris a d eno ­ minação típica do provençal (abeille, do lat. apic(u)la, não é pala­ vra francesa pois nos dialetos que form am a base do francês stan­ dard, o p intervocálico passa a J e e m seguida a v; cp. trapalium > travail). Para justificar esse empréstimo provençal, Gilliéron reconstitui com o segue a história dos nomes da abelha nos dialetos do norte da França: 1 etapa: de ape a és 1. o latim ape passa a (’/ ( s i n g u l a r ) , és (plural); 2. sobre o plur. és forma-se um sing, é (por u m a reinterpretaçào da form a que lembra a “ derivação regressiva” ); 3. para reforçar foneticamente o sing, é, usa-se em seu lugar o plu ­ r a l pelo singular; chega-se assim a um a fase em que abelha se diz indistintamente és, é ou éf, prevalecendo a primeira.

2 a etapa: de és a ep 4. nos dialetos do norte da F ran ça alternam , em contextos fonéti­ cos relevantes para o caso, as pronúncias [é] e [wé]; por conse­ guinte, as frases [v 1 d ezes] e [v 1 dez es] tornam-se h om ônim as, significando “ vôo de pássaros” ou “ vôo das ab elh a s” ; p ara des­ fazer a colisão, a língua substitui os dois termos em conflito: de

Ο I M P A C I O Ι)Α CIFOCiRAIIA I INGUISTICA Ε DAS PESCJUISAS DE C A M PO

2')

um lado, toma-se essaim (do lat. examen , “ e n x am e ” ) com o cole­ tiv o/p lural de abelha, o que leva por sua vez a buscar novos ter­ mos para “ enx am e” ; de o u tro substitui-se o termo p ara “ pássa­ r o " (ézé, wezé) por moineau, oiselet etc.; 5. a mesma flutuação de p ronúncia confunde os nomes da abelha e da vespa: (w)és ( < lat. ape) = wés ( < lat. vispa); desfaz-se mais esta colisão to m a n d o do dialeto da lie de France a form a ep.

3? etapa: de ep a m o uchette 6. foneticamente fraco, ep reforça-se em é-ep, és-ep e mouche-ep·, 7. as duas últimas formas são reconstruídas nas form as assonantes essette e mouchette.

4 “ etapa: de m o u ch ette a m o u ch e à m iei 8. mouche à miei substitui mouchette. em conflito com o diminutivo de mouche', 9. mouche à miei opòe-se a mouche guêpe , nome da vespa.

5 “ etapa: de m ouche à m iei a abeille 10. no dialeto de Paris, toma-se emprestada a forma provençal abeille, criando o par opositivo mouche abeiüe (assonante com mouche

à miei) / mouche guêpe; 11. perm anece abeille, nome atual da abelha em francês standard.

Na análise de Gilliéron, o fato de o francês standard ter a d o ­ tado p ara designar a abelha um term o provençal aparece com o o último episódio de um a longa história na qual a evolução fonética é apenas um dos aspectos relevantes. O exemplo da palavra abeille mostra que a evolução fonética intervém na história da língua sobre­ tudo como um fator de desestabilização, ao provocar o enfraqueci­ mento das formas e ao criar “ colisões hom oním icas” . As soluções a essas instabilidades não poderiam ser fonéticas no sentido estrito das “ leis fonéticas” ; para superá-las, aceitam-se empréstimos de dialetos vizinhos, e recorre-se a formas compostas, duplicadas ou assonantes; freqüentemente, essas formas revelam um a análise que coloca a palavra em contraste com outras palavras de um mesmo cam po nocional. Com isso, Gilliéron não apenas m ostra que na história da lín­ gua intervém um trabalho de reflexão dos falantes (um trabalho epilingüístico, se diria provavelmente hoje), mas ainda desloca a análise do terreno da fonética (para os comparatistas, o caso de abeille seria um problem a fonético, e um a exceção) para o terreno da lexicologia.

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I INGUISTICA ROMANICA

Mapa 2: D istribuição das denom inações da abelha no te rritó rio francês

lim it e s d o s d e p a r ta m e n t o s a tu a is

o u t r a s d e n o m in a ç õ e s

O I M P \ ( T O Ι ) Λ Cii I X . R A H \ L I NC. L I S I U Λ I I) \ S P I - S Q L I S A S Ρ Γ C Λ Μ Ρ Ο

31

2.2 O movimento “ palavras e coisas” A revista IVòrter u n d Sachen, fu n d ad a cm 1909 por Meringer e Schuchardt dá o nome a um outro m ovim ento que encara a pes­ quisa de cam po como prioritária em oposição ao estudo de d ocu ­ mentos escritos. A tese que distingue este movimento é que, freqüen­ temente, a verdadeira etimologia de um a palavra só é explicada por um estudo acurado da realidade que ela designa e dos conhecimen­ tos que a cercam: recomenda-se, então, que os estudiosos da língua considerem com mais interesse as “ coisas” , em oposição a uma tr a ­ dição que se preocupou quase que exclusivamente com as “ palavras” . O exemplo sempre lembrado para ilustrar este enfoque é a his­ tória da palavra fíg a d o e de seus cognatos românicos (esp. hígado , fr. f o i e , it. fe g a to , cat. e prov. fe tg e , eng. fiv a t, rom. fic á t). E m bora estas palavras sejam a tradução exata do latim iecur, não é possível, evidentemente, traçar entre esta e aquelas um a derivação fonética regular. Entre iecur e as formas *ficatu, *fícatu que resul­ tam da com paração das línguas românicas encontra-se contudo um elo q u ando se considera mais de perto a “ coisa” , no caso o inte­ resse gastronômico que os antigos tinham no fígado das aves e a técnica de sua produção. O fígado era um prato altamente apreciado, e para obter fígados maiores e mais saborosos, era hábito alimen­ tar os gansos com grandes quantidades de figos. Da expressão iecur fic a tu , que indica o fígado engordado com figos, sobrevive fic a tu , que tem inicialmente o mesmo sentido, e que se substitui depois a iecur com o significado genérico de “ fígado” . (Por um a derivação análoga, pêssego se origina de mcilum p ersicu m , significando “ maçã pérsica” , isto é, “ maçã da Pérsia” .) Uma orientação afim ao estudo das palavras e coisas é a da onom asiologia, que consiste no levantamento de todas as expres­ sões que designam um mesmo objeto ou conceito. Este estudo leva naturalm ente a representar o vocabulário como um conjunto de “ campos sem ânticos” estruturados por relações de sinonímia e o p o ­ sição.

2.3 O Idealismo Lingüístico Desde sua origem, os estudos de lingüística românica consti­ tuem um terreno privilegiado para a aplicação de hipóteses filosófi­ cas sobre a natureza das línguas e os mecanismos de sua evolução.

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LINGÜÍSTICA ROMÂN ICA

Assim, não adm ira que nas primeiras décadas deste século a filoso­ fia espiritualista de Bergman e Croce tenha repercutido nos estudos românicos, dand o origem a movimentos que valorizavam a criativ i­ dade individual dos falantes como um aspecto central da língua e a intuição como faculdade mestra do lingüista. Esses movimentos são geralmente conhecidos como “ Idealismo Lingüístico’’; seu repre­ sentante mais célebre é o lingüista alemão Karl Vossler que, num livro significativamente intitulado Língua e cultura de França, a n a ­ lisa as grandes tendências da cultura francesa ao longo dos séculos e busca na língua, particularmente a língua literária, um a c o n tra p a r­ tida para as mesmas. O Idealismo Lingüístico constituiu um a poderosa reação à orientação dos neogramáticos, então dominante; contra a m etodolo­ gia atomística e positivista destes (coleta dos materiais, rigor nas tarefas de docum entação, formulação indutiva de regras) preconizou uma metodologia intuitiva e sintética, voltada para form u la­ ções globais que em geral resultam em apresentar os fatos lingüísti­ cos (isto é, as inovações registradas num determ inado período da história de um a língua) como a expressão do espírito de um a deter­ m inada época, grupo ou nação. As explicações propostas pelos idealistas são freqüentemente discutíveis qu ando não francamente inverossímeis. Po r exemplo, Vossler explica o aparecimento dos artigos partitivos em francês como manifestação de um a mentalidade interesseira e comercial que teria to m ado conta da França no fim da Idade Média, uma explicação que é no mínimo forçada. Assim, o grande mérito dos idealistas não reside nas suas explicações, mas no fato de terem c h a ­ m ado a atenção para um aspecto que as pesquisas anteriores e as orientações então dominantes colocavam à margem: a importância da expressividade e criatividade individual como fator de evolução da língua. Por esse enfoque, o Idealismo Lingüístico, cuja influência se prolongou por várias décadas, preparou o terreno p ara um m ovi­ mento de crítica literária de inspiração filológica, que teve forte repercussão nos países de língua espanhola: a Estilística.

2.4 O Kstruturalismo Bem mais marcante foi para a Lingüística Românica a influên­ cia exercida pelo Estruturalismo, nome que cobre um a vasta gama

Ο IMP ACT O DA G E OG RA FI A I INGUIST1CA [ DAS PESQUISAS DE C A M P O

.1.1

de orientações cujo traço com um é a crença de que a língua se carac­ teriza, no dizer de A ndré M artinet, “ por um tipo de organização sui generis que transcende as semelhanças acidentais entre as realiza­ ções de unidades isoladas” . O Estruturalismo lingüístico rem on ta às idéias do suíço Ferdi­ nand de Saussure, em particular à sua concepção da língua como um sistema onde as unidades contam principalmente pelas relações que entre elas se estabelecem. O caráter sistemático da língua, segundo Saussure, aparece principalmente qu ando se considera um a língua ou dialeto não ao longo do tempo (“ diacronia” ), mas num a perspectiva que procura abranger todas as unidades e suas respectivas relações num mesmo m om ento (“ sincronia” ). Assim, Saussure lançou o p rogram a da lin­ güística dita “ sincrônica” , que rom pia com mais de um século de tradição historicista e que orientou desde então as investigações lin­ güísticas de vanguarda. Aplicadas aos sons da língua, as idéias de Saussure levaram a desenvolver, em paralelo aos tratam entos tradicionais de cunho fonético, um tratam en to voltado para o estudo dos sons enquanto unidades distintivas, o que resultou no desenvolvimento de uma nova disciplina, a Fonologia. A perspectiva do fonólogo é, por defi­ nição, sistemática: um fonem a só existe como tal na medida em que se opõe a todos os demais fonemas do mesmo sistema; a fo n o ­ logia ilustra de maneira cabal a tese estruturalista de que o sistema precede logicamente as unidades de que se compõe. A principal influência que o Estruturalismo exerceu sobre o estudo evolutivo das línguas românicas prende-se a essa perspectiva sistemática: no Estruturalismo, as mudanças fônicas deixam de ser encaradas como fatos isolados, ou como fatos que ocorrem em deter­ minadas condições sintagmáticas (por exemplo, os neogramáticos tinham insistido na importância da assimilação de sons aos sons vizi­ nhos na cadeia falada como um fator de evolução) e passam a ser encarados como soluções que a língua a d ota para corrigir desequilí­ brios no seu próprio sistema fonológico; ao aceitar essa tese, o lin­ güista é levado a reconhecer que certas mudanças fônicas alteram o sistema fonológico da língua como um todo; essas mudanças são q u a ­ litativamente diferentes daquelas que resultam em mudanças de p ro ­ núncia, sem repercussões no sistema. Eis alguns exemplos: a) Desfonologização A duração das vogais era um traço distintivo no latim arcaico, e manteve-se com o tal no latim clássico; sabe-se entretanto que o traço distintivo da duração desapareceu no latim vulgar, e não é

34

LING ÜÍS TI CA RO MAN IC A

fonologicamente pertinente nas línguas românicas: desde o latim vulgar, as variações no parâm etro de duração produzem variantes livres ou estilísticas, mas não bastam para distinguir palavras com significações diferentes. Podem os dizer nesse caso que houve desfonologização da quantidade vocálica. b) Fonologização 1 Em compensação, em latim vulgar e na m aioria das línguas românicas há palavras que se distinguem unicamente pelas vogais / e / , / ε / e / o / , / n / . C om o essas diferenças não existiam no período de form ação do latim vulgar, a abertura, enq uan to traço fonológico, passou de três a quatro graus, conform e se indica no esquema a seguir:

graus

latim arcaico

latim vulgar

anteriores posteriores

an teriores posteriores

1

2

/

u e

3

o α

1 2 3 4

u

i

o

e S

3 α

Podemos dizer nesse caso que houve fonologização de um quarto grau de abertura. c) Fonologização 2 Os fonemas latinos vulgares / k / , / g / , /1/, / n / , / s / seguidos de vogal anterior ou de “ i” semivogal recebiam um a p ronúncia fo r­ temente palatalizada. Com o tempo, esses sons palatalizados passa­ ram a opor-se aos demais fonemas da língua, distinguindo palavras com sentido diferente (exemplos: port, m ala-m alha, sono-sonho, assar-achar; it. chiglia-ciglia)', essas realizações palatalizadas se trans­ form aram assim em verdadeiros fonemas; em outras palavras, houve fonologização do traço de palatalidade. d) Transfonologização O traço de sonoridade era conhecido do latim vulgar, cf. / p / - / b / , / c / - / g / , / t / - / d / . O português e outras línguas românicas estenderam-no a / s / e / f/ , donde os fonemas / z / e / v / . Pelo p ro ­ cesso de transfonologização, um traço pertinente estende sua esfera de atuação, criando novos fonem as que preencherão assim “ casas vazias” do sistema.

O IMP ACT O DA G t O G R A H A 1 [ M i l '1ST 1C A Γ DAS PESQUISAS DE C A M P O

.15

C om o o Estruturalism o alcançou seus primeiros sucessos im portantes no domínio da fonologia, era natural esperar que os primeiros êxitos dos estruturalistas no estudo evolutivo das línguas românicas se fizessem sentir no cam po da fonologia; mas as idéias estruturalistas alim entaram desde cedo a reflexão dos romanistas também em outras áreas; no tocante ao léxico, por exemplo, refor­ çaram a idéia de que o aparecim ento de uma nova palavra, ou a alteração do sentido de um a palavra já existente repercutem sobre o sentido de outras palavras “ próxim as” no sistema. Assim, q uando a palavra trabalho perdeu o sentido de “ suplício” (“ tr a b a lh o ” sig­ nificou na origem “ três p a u s ” , o suplício dos três paus), e passou a significar mais neutram ente “ prestação de serviços em troca de iem uneração , deslocou dessa posição “ n e u tra ” outras expressões como obrar, lavrar e m anobrar etc. que assumiram valores específi­ cos (“ trab alhar os ca m p o s” , “ trab alhar com as m ã o s” etc.). Q uand o a evolução fonética do francês aproxim ou a form a do a d je ­ tivo ouvrab/e (ligado historicamente a ouvrier, “ o p e rá rio ” e azuvre, “ o b r a ” ) do verbo ouvrir (“ a b rir ” ) a expressão jo i/r ouvrable p a s­ sou a ser interpretada com o significando “ dia em que o comércio a b re ” e não “ dia de tr a b a lh o ” .

2.5 A Gramática Gerativa É difícil, por falta de perspectiva histórica, avaliar as contri­ buições que a romanística vem recebendo da G ram ática Gerativa indiscutivelmente a orientação mais prestigiada da lingüística atual. Limitemo-nos a observar que os últimos desenvolvimentos da gramática chomskiana têm dado um a atenção especial às línguas românicas, apresentando-as como surpreendentemente distantes entre si quando julgadas por alguns dos principais parâmetros chomskianos. A gramática chomskiana realça assim algumas diferenças fun da ­ mentais entre as estruturas sintáticas das línguas românicas, que teríamos tendência a minimizar, por razões culturais e históricas. Docum ento: Os principais atlas lingüísticos e de palavras e coisas Registram-se aqui, em ordem cronológica, alguns im portantes trabalhos de geografia lingüística elaborados no dom ínio românico: 1881-

— P etit A tla s P honétique du Valais R o m ain (Jules Gillié­ ron)

,16

LING ÜÍS TI CA ROMAN ICA

1902- 1912 — A lla s Linguistique de la France (J. Gilliéron e E. Edm ont) (baseado num questionário de 1 920 pergun­ tas, aplicado em 639 localidades do território galoromânico). — Linguistischer A tlas des dakorum anischen Sprach1909gebietes de Weigand. 1914- 1915 — A tla s Linguistique de la Corse (J. Gilliéron e E. E d m o nt) (publicação in terro m pida pela Prim eira G uerra Mundial). 1923 1939 — A tla s Linguistic de C atalunya (Mons. Antoni Griera) (os cinco volumes publicados totalizam 858 cartas das 3 500 previstas; foram pesquisadas 250 localidades, com um questionário de 2 866 perguntas). 1925 ... — A tla s Lingüístico de la Península Ibérica (Navarro Tom ás, A. M. Espinosa e Rodrigues Castellano; Moll e Sanchis Guarner, O thero G usm ão e Lindley Cintra). 1928 1940 — Sprach u n d Sachatlas It aliens u n d der Sudschw eiz (“ Atlas lingüístico e de coisas da Itália e Suíça do Sul” ) (Karl Jaberg e J a k o b Jud) (1 705 m apas para 405 localidades da Itália, inclusive Sicilia e Sardenha, e do sui da Suíça). 1931 ... — Atlante Lingüístico Italiano (M. Bartoli e Ugo Pellis; B. Terracini a partir de 1947). 1935 1942 — A tlante Lingüístico Etnográfico Italiano delia Corsica (Gino Bottiglioni). 1938 ... — A tla su l L inguistic R o m an (S. Puscariu, S. P o p e E. Petrovici) (598 cartas nos primeiros três volumes que saem até 1942. A publicação é interrom pida pela guerra, e retom ada a partir de 1956). 1957 ... — P rojeto de A tla s Lingüístico E tnográfico de P ortugal e Galiza (Paiva Boléo, J. G. C. H erculano de C a rv a ­ lho e F. Lindley Cintra). 1958 ... — Bases para o A tla s Lingüístico do Brasil (Antenor Nascentes). — A tla s Prévio dos Falares B ahianos (Nélson Rossi) 1963 (154 mapas). 1977 — E sboço de um A tla s Lingüístico de M inas Gerais (José Ribeiro, M. Zaggari e colaboradores). 1980 1985 — A tla s L ingüístico da Paraíba (M aria do Socorro Silva de A ragão e Cleusa P. B. de Meneses). — A tla s L ingüístico de Sergipe (Carlota da Silveira Fer­ 1987 reira e colaboradores).

O IMI»Α Π Ο [)Α ( ,ί ( Κ ,Κ Λ Μ Λ LINGÜÍSTICA Ε DAS PESQUISAS DE C A M PO

Mapa 3: Os nomes da galinha nos diale tos ita lia n o s

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LING ÜÍSTICA ROMANIC A

Mapa 4: Os nomes da galinha nos diale tos portugueses



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c ó -có chou ch a o u tro s : xixa tic a p ic h a c h o rre s c a c h u rra e s g a rb e ta d e ira

Segunda Parte:

A romanização

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3

România, romano e romance

3.1 A expansão territorial do Estado romano O Estado ro m a n o teve origem no século VIII ou IX a .C . (a tradição fixa em 753 a.C . a fundação de Roma, sua capital), e engrandeceu-se progressivamente até constituir em sua fase de maior esplendor, no primeiro século de nossa era, um dos mais vastos impé­ rios de todos os tempos. O bra de séculos, a constituição do Império R om ano foi um processo político de grande complexidade, cuja descrição detalhada cabe, obviamente, à H istória das Civilizações. Lim itando a exposição ao essencial, lembraremos que a histó­ ria ro m a n a se divide em três fases, correspondentes às três formas de governo: da Realeza (das origens a 509 a .C .), d a R epública (de 509 a.C. a 27 a .C .)le do Im pério (de 27 a.C. a 476 d.C.); em bora não tenham muito ã ver com a história do latim e das línguas ro m â ­ nicas, essas três datas são, tam bém p a ra os rom anistas, pontos de referência obrigatórios. U m aspecto notável da história do Estado ro m a n o é a d e m o ­ cratização progressiva do poder: ao lado das instituições políticas baseadas nos patrícios, a classe fechada e conservadora que gover­ nou a Urbe nos primeiros tempos, surgiram e g an haram espaço cada vez m aior instituições representativas das classes adventicia

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LINGÜÍ STI CA RO MÂN ICA

ou plebéia (esta se fortaleceu progressivamente à custa da primeira). A adoção da form a de governo do império não representa, como se poderia pensar, um retorno ã oligarquia, senão o resultado n a tu ­ ral da anarquia militar e da demagogia política que m arcaram o final do período republicano. O u tro aspecto notável da história do Estado ro m an o foi sua capacidade de absorver outros povos e sua espantosa expansão ter­ ritorial, ocorrida entre os séculos V a.C . e II d.C. Lembremos, em síntese, os principais mom entos dessa expan­ são: a) Conquista da Itália peninsular Depois de ter consolidado seu poderio no Lácio através de lutas ou alianças que levaram à assimilação de vários povos vizi­ nhos (sabinos, volscos, equos, etruscos etc.), Roma completou em pouco mais de meio século a conquista da Itália peninsular, d o m i­ nando as populações itálicas lideradas pelos samnitas (349-290 a.C.) e as populações gregas da M agna Grécia, confederadas sob a lide­ rança de Tarento e apoiadas militarmentc por Pirro, rei do Epiro (282-272 a.C.). b) Conquista da E uro pa mediterrânea Pelas próprias condições geográficas da península, a conquista da Itália projetou Roma na política mediterrânea, causando sua riva­ lidade com C artago, a im portante colônia fenícia que, desde época antiquissima, explorava o comércio marítimo, tendo estabelecido empórios desde o atual Líbano até Portugal. O conflito pela hegemonia comercial no M editerrâneo foi a causa de três guerras sangrentas que se estenderam por mais de um século e ficaram conhecidas com o Guerras Púnicas, a partir do nome com que os rom anos indicavam os cartagineses (púnicos, do gr. phoínicoi, isto é, “ fenícios” ). A primeira guerra púnica eclodiu em 264 a.C. e prolongou-se até 241. Vencedores depois de duros reveses, os rom anos tom aram de seus adversários as ilhas da Sicília (241 a.C .), da Sardenha e da Córsega (238 a.C.). A fastada por algum tempo a am eaça cartaginesa, R om a fir­ mou seu poder na Itália do Norte: até 230 foi d om in ada a Ligúria; em 229-228 foi a vez d a Ilíria (costas da Iugoslávia) e da Gália Cisal­ pina (correspondente à bacia hidrográfica do Pó). Contudo, em 216 Cartago já se havia refeito dos reveses ante­ riores, e partia para o revide com andada pelo grande Aníbal. A

ROMANIA, ROMANO E ROMANI I

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segunda guerra púnica (219-201) quase se resolveu a favor dos carta­ gineses, mas a vitória final foi mais um a vez rom ana, R om a estabele­ ceu nessa ocasião as suas primeiras colônias não italianas, ambas na Ibéria: a Bética (atual Andaluzia) e a Tarraconense (atuais provín­ cias de Castela, Múrcia e Valência) (197-183). Em 190 foi tom ado aos sírios um pequeno território da A natólia que os rom anos cham a­ ram pomposam ente de “ Asia” ; eptre 197 e 146 foram submetidas a Macedonia e a Grécia. Mapa 5: As regiões da Itália Antiga

-------------- lim ite s das regiões atuais

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LINGÜÍSTICA ROMANICA

Ao mesmo tempo, Roma provocou um a terceira guerra púnica, que lhe permitiu livrar-se definitivamente de sua rival: Cartago foi arrasada em 146 a.C. depois de heróica resistência, e a região da Tunísia se tornou província rom ana com o nome de África. Poucos anos depois foram desbaratados os lusitanos (resistên­ cia de Viriato, 139), e a Gália Narbonense (atual Provença) formou uma nova província (118). Trinta anos depois da destruição de Cartago, Roma dominava assim toda a Europa mediterrânea, além de alguns pequenos territó­ rios da África do Norte e da Ásia Menor. Tais territórios haviam sido conquistados às vezes por meios políticos (alianças); mas em geral as conquistas resultaram de ações militares de vulto, aliás con­ duzidas simultaneamente em várias frentes. É fácil entender que o exército rom ano tenha contado, a partir do século III a.C ., com imi número cada vez maior de soldados originários da Itália peninsu­ lar, e de outras regiões onde a “ pax ro m a n a ” já estivesse consolidada. c) Gália e Europa Central, Ásia Menor e África Esses dois traços — o aproveitamento de socii no exército e a ação militar simultânea em regiões afastadas — m arcaram ainda mais fortemente a expansão territorial romana nos dois séculos seguin­ tes, q uando Roma guerreou em três frentes principais: a Gália e a Europa Central, a Ásia Menor e a África. Até 60 a.C ., aproveitandose das rivalidades entre os reinos da Ásia Menor, Roma submeteu Chipre, a Bitínia, a Galácia, a Capadócia e a Síria (incluindo a Pales­ tina); praticamente contemporâneas sâo, na África, as conquistas da Cirenaica e de Creta (74 a.C.), da Numídia (46 a.C.), da M auritâ­ nia (42 a.C.) e do Egito (30 a.C.). Na E uropa continental, a conquista mais im portante deste período é a Gália, submetida por Júlio César entre 58 e 51 a.C. Na época de Augusto foram tom adas na região do Danúbio a Réeia (17 a.C.), a Nórica (17 a.C.), a Panônia (9 a.C.) e a Mésia (23 a.C.); a conquista da Britânia data de 43 d.C. Com a conquista da Trácia (46 a.C.), o Império Rom ano teve por limites naturais o Reno e o Danúbio; o Mar Mediterrâneo, transform ado numa espécie de lago interior, fazia jus havia muito tempo ao nome de “ Mare Nostrum Internum ” . d) Conquistas tardias Conquistas tardias do período imperial foram a Caledônia, isto é, a atual Escócia (85 d.C.), a Dácia, atual Romênia (106 d.C.) e a Arábia Pétrea.

EGITO 30 a.C.

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LINGÜÍSTICA ROMÃNICA

3.2 Decadência do Império e perdas territoriais Desde T rajano, isto é, a partir do século II d .C ., o Império R om ano entra em decadência. À sólida unidade política anterior, baseada na superioridade de Rom a sobre as províncias, sucedeu um a descentralização progres­ siva, provocada pela própria extensão do Império e agravada por um a política inconseqüente. Desde cedo, os habitantes das regiões mais afastadas predom i­ naram no exército e na administração; os próprios imperadores foram freqüentemente provinciais, aliás com andantes militares de exércitos de fronteira elevados ao poder pela força exclusiva das armas. Latente na “ Constitutio Antoniniana” do imperador Caracala (212), que concedia paridade de direitos a todos os súditos do Império, nas disposições de Galieno (imperador de 260 a 268), que conferia ampla autonomia militar às regiões mais afastadas, e finalmente na “ tetrarquia” de Diocleciano (286), que repartia o Império em quatro regiões administrativas, a divisão consumou-se em 395, quando foi desmembrado em Império Romano do Oriente, com a capital Constantinopla, e Império Rom ano do Ocidente, com a capital Roma. O poder central opôs uma resistência cada vez mais fraca aos bárbaros (do gr. bárbaroi, “ estrangeiros” , isto é, não romanos), populações não rom anizadas que dem andavam o território rom an o, pressionadas por migrações de povos de origem asiática. Nos territó­ rios rom anos que margeavam o D anúbio e o Reno, os bárbaros to r ­ naram-se cada vez mais numerosos, sob a form a de infiltrações (fre­ qüentemente, os rom anos assentaram populações bárbaras em seus territórios, com a finalidade de pacificá-las, e de usá-las como escudo contra outros invasores), incursões e finalmente de verdadei­ ras invasões e conquistas. Por volta de 270, o norte da Gália foi invadido pelos francos e a Récia pelos alam anos. Sob o im perador A ureliano, os godos entraram pela Península Balcânica adentro, causando o a b an don o das terras além do Danúbio (Dácia, Agri Decumates); um século mais tarde, a Pan ôn ia foi o c up ada pelos ostrogodos, a Nórica pelos érulos e a Britânia pelos ânglios e pèlos saxões. No século V, a presença de populações bárbaras no Império era ainda mais maciça. Durante um a incursão dos visigodos pela Itália, foi deposto o imperador Rômulo Augústulo (476), fato que os histo­ riadores utilizam como marco cronológico do fim do Império Romano.

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LING ÜÍS TI CA RO MÂN IC A

3.3 A difusão do latim e a romanização C om os povos submetidos, os rom anos a d o ta ra m geralmente uma política bastante aberta para a época. Im pun ham o direito rom ano e exploravam economicamente a região, mas respeitavam as tradições religiosas dos vencidos, e permitiam que estes continuas­ sem a utilizar a sua língua materna, ao menos nos contactos entre si. Na realidade, os rom anos consideravam um motivo de grande h onra para si o uso do latim pelos vencidos. As línguas com que o latim entrou em contacto por efeito das conquistas pertenciam a diferentes famílias lingüísticas, e eram bas­ tante diferentes entre si. Na Península Itálica, o latim encontrou o um bro e o osco, lín­ guas próximas, pertencentes como ele ao ram o itálico do indo-euro­ peu; além delas, encontrou línguas indo-européias dos ramos ilírico, grego e celta, e línguas não indo-européias, como o etrusco e o lígure. Nas ilhas italianas, os rom anos entraram em contacto com lín­ guas que representavam um antigo substrato mediterrâneo, além do grego (indo-europeu) e do fenício (semita). As línguas faladas pelos povos da Ibéria não eram indo-euro­ péias (ibero, vascão), exceto na região próxima à França, onde dom inava o celtibero. Idiomas indo-europeus predominavam na França e na Panônia (domínios do celta), e na Ilíria (domínio do ilírico, antepassado do albanês atual); também eram faladas línguas indo-européias na Trácia e na Macedônia; e o grego não só era falado na Grécia, mas pre­ dominava em grande parte da Anatólia e do Mediterrâneo oriental, onde, à chegada dos romanos, tinha suplantado os idiomas locais. A Síria e o Egito falavam, respectivamente, línguas semíticas e camíticas, tendo grande influência o grego com o língua de cultura. O latim não suplantou as línguas indígenas em to do o território do Império: impôs-se como língua falada no Mediterrâneo ocidental e na Europa continental, mas esteve sempre em situação de inferiori­ dade na Grécia, na Anatólia e no Mediterrâneo oriental. De certo m odo, a divisão política do Império R om ano sob o imperador Cons­ tantino consagrou um a divisão que já estava completamente consoli­ dada do ponto de vista cultural e lingüístico, ao separar um Estado de fala e cultura latinas e um E stado de fala e cultura gregas. A ten­ tativa realizada por esse mesmo im perador, de fazer do latim a lín­ gua da administração no Império R om ano do Oriente, que poderia ter transform ado Constantinopla num centro irradiador da cultura

ROMÂNIA, ROMANO E ROMANCE



latina, não teve êxito, apesar de ter sido deslocada pa ra o oriente um a verdadeira multidão de funcionários públicos. No que diz respeito ao ocidente — Itália incluída — seria inge­ nuidade acreditar que os povos vencidos trocaram instantaneam ente suas línguas maternas pelo latim; ao contrário, a fala dos vencedo­ res conviveu por décadas e mesmo por séculos com as locais, sendo o bilingüismo a situação típica depois da conquistaTf Dessas situa­ ções de bilingüismo há vários testemunhos: por exemplo, foram encontradas em Pompéia, rem on tand o ao século I d .C ., inscrições em osco, língua dos samnitas, que os rom anos haviam submetido desde 290 a.C .; e há indícios de que Santo Agostinho, que pregava em Cartago no começo do século V, falava para um auditório em que boa parte das pessoas ainda com preendia o púnico; com efei­ to, ao traduzir umas poucas expressões daquela língua para o latim, ele se desculpa com aquela parte do auditório para a qual a tr a d u ­ ção era desnecessária. Seja com o for, o latim, presente nas regiões submetidas num a variedade popular (o latim falado do exército, dos comerciantes e, em certos casos, dos veteranos assentados com o colonos), e num a variedade erudita (a variedade escrita dos magistrados, da jurisdi­ ção e, até onde esta existia, da escola) ia-se im pondo com o a língua que exprimia um a cultura mais avançada e que abria melhores pers­ pectivas de negócios e ascensão política e social (o lingüista suíço W alter von W artburg lembra opo rtu na m e nte como as principais famílias gaulesas, habilmente atraídas pela pro p a g a n d a rom ana, davam a seus filhos um a educação latina, m and an do -o s para isso estudar na Itália). No século III, a absorção pelo latim das línguas indígenas da porção ocidental do Império R om ano era fato consum ado, e essa unidade lingüística representava para os povos latinizados o traço mais evidente de um a forte unidade espiritual, precisamente qu ando o Império, com o instituição política, dava mostras cada vez mais fortes de instabilidade.

3.4 O termo R om ania e seus cognatos O desaparecimento político do Império R om ano não impediu que ele fosse encarado ao longo dos séculos como um exemplo de ordem universal que caberia imitar e se possível restaurar. O Cristia­ nismo herda de algum m od o esse ideal de universalidade, ao mesmo tem po que a Igreja constrói u m a e strutura que aproveita em grande

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LING ÜÍS TI CA RO MAN IC A

parte as divisões administrativas do Império; os Estados barbáricos que se form am no território o u tro ra do m inado pelos rom anos se autod eno m inam rom anos e nascem com o propósito de restaurar o Império — um objetivo que se traduz na escolha dos títulos de seus chefes. Ainda no tem po de Dante e de Maquiavel, restaurar o Império era o projeto de vida de muitos pensadores insignes, que viram nisso a condição necessária p ara que o m un do reencontrasse uma ordem política estável. Se o Império sobreviveu com o um ideal de ordem política durante toda a Idade Média, a unidade lingüística e cultural dos ter­ ritórios rom anizados não impressionou menos os antigos, rom anos ou bárbaros. P ara denom inar essa unidade lingüística e cultural, emprega-se o term o R om ania, cujo registro mais antigo está nesta passagem do historiador Paulo Orosio (séc. V), que atribui ao rei godo Ataulfo o propósito de reconstruir um Império G odo sobre as ruínas do Império Romano: Nam ego q u oq ue ipse virum referentem audivi se familiarissimum A tau lph o ap ud N a rb o n a m fuisse, ae de eo saepe sub testificatione didicisse, q uo d ille referre solitus esset se in primis ardenter inhiasse ut, obliterato R o m an o nomine, R o m a n u m o m n e solum G o th o ru m im perium et faceret et vocaret, essetque, ut vulgariter lo quar, G othia q uo d Rom ania fuisset. [Na verdade, eu tam bé m ouvi pessoalm ente um varão a relatar que foi muito ligado a A taulfo em N a rb o n a , e ouviu dizer acerca dele muitas vezes, com a co nfirm ação de testem unhas, que ele costum ava dizer que, um a vez esquecido o nom e “ ro m a n o ” , seu m aior desejo era to rn ar e c ham a r som ente godo tod o o Im pério R o m an o , e que, em poucas palavras, fosse G o tia aquilo que antes fora R om ania .]

R om ania deriva de rom anus, e este foi o term o a que n a tu ra l­ mente recorreram os povos latinizados, para distinguir-se das cultu­ ras barbáricas circunstantes: assim, os habitantes da Dácia, isola­ dos entre povos eslavos, au todenom inaram -se ro m ini e os réticos se autodeno m in aram R o m a u n tsch , p ara distinguir-se dos povos ger­ mânicos que os haviam em p u rra d o contra a vertente norte dos Alpes suíços. Sobre rom anus formou-se o advérbio rom anice, “ à maneira r o m a n a ” , “ segundo o costume ro m a n o ” , e a expressão romanice loqui se fixou para indicar as falas vulgares de origem latina, em o p o ­ sição a barbarice loqui, que indicava as línguas não românicas dos bárbaros, e a latine loqui que se aplicava ao latim culto da escola. D o advérbio romanice, derivou o substantivo rom ance, que na origem se aplicava a qualquer composição escrita em uma das línguas vulgares.

ROM ANI A, R O M AN O E RO M ANC E

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3.5 A Komânia atual Pelo termo Rom ânia designa-se m odernam ente a área o c u ­ pada por línguas de origem latina. Se com pararm os a Rom ânia atual com o Império Rom ano, em sua fase de maior estabilidade, notarem os que os limites de am bos não coincidem. Boa parte das regiões o u tro ra dom inadas pelos rom anos falam hoje línguas germânicas (como a Britânia), gregas (como a Grécia), semíticas (como a Síria e grande parte da África do Norte) etc. Por o utro lado, falam-se línguas românicas na América Latina, que está fora dos horizontes do m undo antigo. As razões por que o latim não conseguiu manter-se como lín­ gua falada em todo o Império são várias: a) Rom anização superficial Na Caledonia (atual Escócia), na G erm ânia, em boa parte dos países danubianos e mesmo em certas regiões m ontanhosas da E u ro pa continental e mediterrânea, com o os Alpes e a Albânia, a pequena densidade demográfica e as dificuldades de comunicação impediram a form ação de grandes cidades, dan do à rom anização um caráter superficial. Submetidas posteriorm ente pelos bárbaros, algumas dessas regiões a d o ta ra m a língua dos novos senhores. Em outras, pode-se falar em sobrevivência de línguas pré-romanas. b) Superioridade cultural dos vencidos Q uatro séculos de ocupação não b astaram p ara im por o latim com o língua falada na Grécia e no M editerrâneo oriental. Nessas regiões, que a cultura helenística havia p rofun dam en te impregnado, o grego manteve-se como língua coloquial e culta, um a posição que o Cristianismo — utilizando o grego com o língua oficial nas suas origens — fortaleceu ainda mais. c) Superposição maciça de populações não-ro m anas Durante alguns séculos, a África mediterrânea, desde a Cirenaica até G ibraltar, foi p rofu n d a m e n te rom ana. Floresceram ali os estudos latinos, destacando-se autores do porte de Apuleio, Tertuliano, São Cipriano e Santo A gostinho. Nos séculos VI e VII, os árabes superpuseram-se aos rom anos (e aos vândalos, que ali haviam fundado um reino, depois de do m in arem o sul da Península Ibéri­ ca), introduzindo um a nova língua e u m a nova cultura. Apenas a toponom ástica e os diíletos árabes (berberes) da região conservam vestígios latinos, que constituem para os rom anistas elementos importantes p ara a reconstituição dos estágios mais antigos do latim.

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LING ÜÍSTICA RO MAN IC A

P or outro lado, através dos m ovimentos colonialistas iniciados com as grandes navegações do século XVI ou dos movimentos de propagação do catolicismo patrocinados sobretudo por Portugal e pela Espanha, as línguas românicas foram levadas para os novos con­ tinentes onde se superpuseram às línguas autóctones como “ línguas de c u ltu ra ” e como “ línguas oficiais” ; a recuperação da independên­ cia pelas colônias tem feito às vezes com que as antigas línguas nacio­ nais recuperassem seu status de línguas oficiais. — O p o rtu g u ês é falado hoje no Brasil, em alguns portos da Ásia (Macau, Timor, G oa, a península da Malaia), na Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Ilha da M adeira e São Tomé e Príncipe. — O espanhol é a língua de to da a América do Sul (excetuando-se Brasil, G uiana, Suriname e G uiana Francesa), da América Cen­ tral (excetuando-se Haiti, Jamaica); é ainda um a das duas línguas dos Estados bilíngües dos Estados Unidos: Flórida, Califórnia e Texas. — Fala-se fra n c ê s na região de Quebec (Canadá), na Louisiana, na G uiana Francesa, no Haiti, no Senegal e em Madagáscar. — O italiano foi levado em fins do século passado e inícios do atual à Eritréia, à Somália e à Líbia. Nas vicissitudes por que passam as línguas neolatinas nas anti­ gas colônias da América e da África, que podemos evidentemente observar em nossos dias, reproduzem-se as situações por que passou o latim nas colônias rom anas; um traço que ressalta dessa observação é a grande uniform idade da língua nas colônias (por exemplo, do p o r­ tuguês no Brasil) em oposição à extrema fragm entação dialetal do país de origem (por exemplo, a dialetação do português europeu); vários lingüistas julgam que o latim tam bém devia ser mais variado na Itália do que nas colônias da R om ânia Antiga.

Mapa 8: As línguas românicas no mundo

m

francês ita lia n o

português espanhol

Terceira Parte:

O latim vulgar

4 O latim vulgar e o latim literário no primeiro milênio

4.1 Sociolingüística do latim vulgar Todas as línguas vivas apresentam naturalm ente um a variação vertical (correspondente à estratificação da sociedade em classes), e horizontal (correspondente a diferenças geográficas); além disso, os falantes expressam-se de maneiras diferentes conform e o grau de formalidade da situação de fala. O latim, língua de um a sociedade que ia evoluindo e se to r ­ nan do cada vez mais complexa, não poderia escapar a essa regra: seria normal que apresentasse diferentes socioletos, já que a socie­ dade rom ana foi por m uito tem po estratificada em patrícios, ple­ beus e escravos; e que apresentasse desde a época em que foi a lín­ gua do Lácio e da Itália central diferentes variedades geográficas, já que teve que se im por a outras línguas, com estrutura às vezes muito próxima. P or o utro lado, tornando-se a sociedade rom ana cada vez mais complexa e articulada, é fácil imaginar que se diversi­ ficariam tam bém as situações de uso da língua: por exemplo, um hom em público do final do período republicano não utilizaria a mesma linguagem p ara discursar no fo r u m , p ara escrever cartas aos amigos e familiares e p a ra dirigir-se a seus serviçais. U m aspecto da diversificação da sociedade rom an a é o apareci­ mento da literatura latina; durante muito tempo, os autores latinos

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LINGÜÍSTICA ROMÂNICA

procu raram pautar seus escritos pelo ideal da urbanitas, evitando formas ou expressões que conotassem arcaísmo ou provincianismo, ou que lembrassem a educação precária das classes subalternas e do cam po (rusticitas). Desta variedade do latim, conhecida como latim clássico e bem representada nas obras de autores como Cícero e Virgílio, chegaram até nós um bom número de docum entos, gra­ ças ao trabalho dos copistas da Idade Média; por ela se interessaram estudiosos de todos os tempos e em particular os humanistas da Renascença; por isso ela é ainda hoje a variedade do latim a que as pessoas cultas melhor conhecem; não se deve porém esquecer que o latim clássico é apenas um a das variedades do latim, ligada à criação de um a literatura aristocrática e artificial, que teve seu apogeu no final da República e no início do Império. O utra era a língua efetivamente falada no mesmo período. Desde Diez, ficou claro que as línguas românicas não derivam do latim clássico, mas das variedades populares. Assim, se o inte­ resse pela literatura latina e pelos ideais do H um anism o latino leva naturalm ente ao estudo do latim clássico, a observação das línguas românicas nos obriga a indagar acerca das outras variedades de latim, ao mesmo tempo que a semelhança entre as línguas ro m â n i­ cas deixa entrever que na antiga Rom ânia, nos primeiros séculos, deve ter sido falada um a língua latina relativamente uniforme. A essa variedade, que aparece assim com o um “ p ro to -ro m a n ce ” , isto é, como o pon to de partida da form ação das línguas românicas, Diez cham ou de latim vulgar, term o com que visava a opô-la ao latim literário. O que é exatamente o latim vulgar? A palavra “ vulgar” admite três interpretações distintas e sus­ cita acerca do proto-rom ance três enfoques em que compensa deter­ se um pouco: (i) pode-se to m a r “ vulgar” no sentido de “ corriquei­ r o ” , “ b a n a l” , sem conotações pejorativas; o latim vulgar aparece então como a língua que as várias cam adas da população rom ana (inclusive a aristocracia) falaram e escreveram em situações in fo r­ mais; (ii) pode-se to m a r a palavra “ vulgar” com o sentido p e jo ra ­ tivo de “ reles” , “ baixo ” que se çostum a associar a vulgo e vulgari­ dade: o latim vulgar é então a expressão própria das camadas p o p u ­ lares mais humildes da sociedade rom an a; (iii) finalmente, pode-se interpretar “ vulgar” em conexão com “ vulgarismo” , nom e que ainda hoje os puristas dão às form as e expressões que julgam co n­ denáveis por suas conotações populares, provincianas ou arcaizantes.

O LATIM V U L G A R E O LATIM I I T E R A R I O NO PR IM EI RO M I I Ê N I O

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O primeiro desses três enfoques, aplicado ao proto-romance, é certamente equivocado. Existiu, é verdade, um latim coloquial falado pela aristocracia: e os gramáticos e escritores rom anos reco­ mendaram freqüentemente que a linguagem da literatura se baseasse nele; mas essa era u m a recomendação de caráter conservador, e visava a evitar que a língua literária se afastasse de seu suporte tradi­ cional — a língua falada pela aristocracia — não a aproximá-la do proto-romance. P ara indicar a expressão coloquial da aristocracia, tal como aparece por exemplo na correspondência de Cícero, os escri­ tores latinos usam às vezes o nome de serm o vulgaris, o que só agrava a confusão. Q uanto ao segundo sentido de “ vulgar” , há bons motivos p ara crer que o proto-rom ance foi de fato um a língua eminente­ mente popular. Segundo o mais im po rtante rom anista brasileiro, o saudoso P ro f. T eodoro H enrique M aurer Jr., que dedicou à ques­ tão um trabalho de peso (M aurer, 1962), o caráter popular do protorom ance se confirm a por vários argum entos históricos dos quais alguns são citados a seguir (a e b)\ e por algumas características estruturais que teriam em todas as línguas um cunho eminentemente pop ular ( c a / ) : a) Os autores latinos aludiram freqüentem ente à existência de um a variedade de língua d enom inada rusticitas, peregrinitas, sobre a qual fizeram pesar um a severa sanção, impedindo que suas for­ mas tivessem acesso à escrita; levando em conta o caráter geral­ mente conservador e aristocrático da literatura latina, M aurer con­ clui que essas variedades de língua são populares. O ra, a gram ática e o vocabulário do proto-rom ance, tais como resultam da c o m p a ra ­ ção das línguas românicas, apresentam precisamente esses elemen­ tos que os escritores latinos discriminavam por sua natureza p o p u ­ lar ou rústica: po r exemplo, a com paração das línguas românicas leva a supor que no proto-rom ance os ditongos grafados em latim clássico as, as, au se pronunciavam respectivamente [ε], [e] e [o] e que o h inicial da grafia clássica não era p ronunciado. H á depoi­ m entos de escritores latinos que a p o n ta m como vulgarismos a p r o ­ núncia [kekilius], [pretor], [edus] por [kaskilius], [prsetor], [haedus]; e a história ro m a n a registra a iniciativa demagógica do político C lau­ dius, que viveu no fim da República e que, ao renunciar a sua c o n ­ dição de patrício p a ra candidatar-se ao cargo de tribuno da plebe, se fez cham ar Clódio p a ra que seu nom e fosse “ mais p o p u la r” .

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I ING UiSTICA RO MAN ICA

b) Na latinização d a Rom ânia, o elemento plebeu foi p re p o n ­ derante; seria necessário, mesmo a priori, admitir que a língua levada à Rom ânia foi m arcadam ente popular. c) A estrutura do proto-rom ance é mais simples que a do latim culto: é m enor o núm ero de declinações, faltam alguns tipos de numerais, é mais reduzido o leque de demonstrativos e indefinidos, empregam-se relativamente poucas negações etc. d) O proto-rom ance recorre à expressão analítica das funções e relações sintáticas: o papel dos termos na oração é expresso por preposições ao invés das terminações casuais; empregam-se perífrases com verbos auxiliares para indicar tem po e m odo; cria-se uma passiva analítica; generaliza-se o uso de comparativos e superlativos analíticos etc. e) Recorre-se com mais freqüência a formas concretas e expres­ sivas: maior núm ero de nomes concretos, de artigos e de p ro n o ­ mes; a b un dan te prefixação e sufixação; hipocorísticos que substi­ tuem as formas correntes; geminação expressiva etc. f) O proto-rom ance tem pouca resistência a termos exóticos: assim, termos gregos com o parubolé (que deu origem ao port, p a la ­ vra), termos celtas com o bracae e bertium (cp. port, bragas e ber­ ço) e germânicos como werra (cp. guerra) parecem ter sido incorpo­ rados desde cedo ao proto-rom ance, j á que aparecem representados nas principais línguas românicas. Os argum entos de M aurer m ostram , em suma, que o protoromance foi um a língua vulgar no sentido de língua popular, expres­ são de cam adas sociais que não tiveram acesso à cultura fo rmal c escrita. Não fica excluído que essa variedade pudesse ser falada t a m ­ bém pela aristocracia em situações extremamente informais; mas certamente não é essa a característica que a define. Q uanto à relação latim vulgar/vulgarism os, ela não chega p r o ­ priamente a nos representar um a língua: afinal, uma língua é muito mais do que um catálogo de “ erros” ; mas ela é o po rtu n a por nos lembrar que a variedade culta e o latim vulgar (proto-romance) co n­ viveram num mesmo espaço sociõímgüístico, e que suas semelhanças estruturais eram suficientemente grandes para dar m argem a interfe­ rências que eram vistas como “ erros” : só assim os “ vulgarismos” poderiam ser encarados como ameaça à pureza da língua literária. P ara esclarecer essa “ convivência” , compensa desfazer mais alguns equívocos: a) Alguns autores deram a entender no passado que o latim vulgar teria surgido da “ c o rru p ç ã o ” do latim literário, associando

O LATIM VULGAR Ei O LATIM LITE RÁ RIO NO P R IM EI R O MILÊNIO

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lalvez a decadência da literatura latina e a tran sform ação do latim nas línguas românicas: a hipótese é insustentável, po rq ue o latim vulgar se constituiu ao mesmo tem po que o latim clássico, e já se encontrava fo rm ado , em seus traços essenciais, q u a n d o este atingiu seu apogeu. São provas da antiguidade do latim vulgar. — a difusão de um grande núm ero de fenômenos vulgares em tod a a România, que não seria possível se eles constituíssem caracte­ rísticas tardias do proto-rom ance; — a presença de fenômenos vulgares em tontes escritas do final da República; — a presença abund ante de fenômenos vulgares em autores da tase antiga, por exemplo, Plauto; _o grande núm ero de arcaísmos na língua v ulgar; como era im pro­ vável que estes arcaísmos deixassem de existir no latim culto e voltassem em seguida a aparecer na sua “ corrupção , deve-se admitir que o latim vulgar já estava constituído q u a n d o o latim literário atingiu seu apogeu, sobrevivendo ao lado dele durante alguns séculos. b) As relações entre o latim clássico e o vulgar foram às vezes falseadas pela crença de que corresponderam respectivamente ao latim escrito e falado, e que o latim literário surgiu por imitação do grego. Essa crença tem um fundo de verdade; de fato o latim vulgar faz raras aparições em textos escritos; mas se revela falsa qu ando se lem­ bra que o latim literário foi um a língua falada e teve um suporte direto na expressão coloquial da aristocracia rom ana. Q uan to à influência grega na língua literária, ela foi certamente m enor do que a influência exercida pelo grego sobre o latim vulgar. Em suma, a grande diferença entre as duas variedades do latim não é cronológica (o latim vulgar não sucede ao latim clássico), nem ligada à escrita, senão social. As duas variedades refletem duas cul­ turas que conviveram em Roma: de um lado a de u m a sociedade fechada, conservadora e aristocrática, cujo primeiro núcleo seria constituído pelo patriciado; de outro, a de um a classe social aberta a todas as influências, sempre acrescida de elementos alienígenas, a partir do primitivo núcleo da plebe.

4.2

Latim vulgar e latim literário na Alta Idade Média Ύ.

O utra grande diferença é que, ao longo do tempo, o latim lite­ rário aparece com o um a língua extremamente estável, ao passo que o latim vulgar inova constantemente.

112

I INGUISI II A ROMAN ICA

E n q u a n to o latim literário permanecia relativamente estável como língua da escrita e como a língua falada de todas as situações mais formais, o latim vulgar foi derivando para variedades regio­ nais que, no fim do primeiro milênio, já prefiguravam as atuais lín­ guas românicas. A essas variedades costuma-se c ham ar “ rom ances” . A separação irreversível entre os dois tipos de cultura que se cos­ tu m a designar pelas expressões latine loqui e rom anice loqui se resol­ veu, obviamente, em favor dos romances, que acabaram por assu­ mir todas as funções antes reservadas ao latim literário, inclusive as ligadas à escrita; mas, com o se pode imaginar, esse foi um p ro ­ cesso longo, pontilhado de influências recíprocas e de tentativas de fechar o fosso que se ia cavando entre ambos. Um exemplo da influência exercida pelo latim vulgar sobre o literário é o núm ero cada vez m aior de vulgarismos na língua da lite­ ratura. P o r ou tro lado, certas inovações românicas supõem uma influência clássica: é o caso dos cham ados “ futuros rom ân ico s” (cantarei, cantaré, chanterai, canterò, construídos com base na perífrase cantare havo, com uma ordem de palavras tipicamente clás­ sica com base na ordem vulgar, seria de esperar hayo cantare). Um exemplo de evolução paralela é a síncope das sílabas vi, ve nos perfeitos fracos (laudasti por laudavisti). A influência do latim literário no romance se fez sentir sobre­ tudo no período da c h am ada “ Renascença C arolíngia” , q uando, por efeito de um a p ro fu n d a revivescência dos estudos latinos, m ui­ tas expressões clássicas passaram do latim literário ao francês, sendo a dotadas posteriorm ente pelas línguas românicas do ocidente. Q uanto às interferências do vulgar no latim escrito, elas foram cada vez mais numerosas com o passar do tem po, na pena de escribas que pensavam de fato em vulgar, desconhecendo os modelos clássicos, e dom inavam o latim de maneira primária. A “ Renascença Carolíngia teve um papel m uito im portante em m ostrar que esse latim tinha m uito pouco a ver com o verdadeiro latim literário, criando condições p ara que os romances começassem a ser utiliza­ dos na escrita. Como iniciativa de aproximação entre a língua vulgar e o latim culto, pode-se citar a decisão da Igreja, no tempo de São Jerônim o, de redigir em um latim tanto qu anto possível popu lar os textos do Novo Testamento. Essa iniciativa rem o nta ao tempo em que São Jerônim o (século IV a.C .), a pedido do pa p a São D ám aso, cuidou da versão da Bíblia conhecida com o “ V ulgata” . O Antigo Testa-

() L A 1 1Μ VULGAR E Ο Ι.ΛΤ1Μ I I I ER ARI O NO P R IM EI R O MILÊNIO

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mento havia sido traduzido por São Jerônim o diretamente do hebraico, n u m latim literário impecável, sem levar em conta as ver­ sões anteriores (conhecidas pelo nom e de Itala Vetus), feitas a p a r ­ tir do grego e eivadas de expressões e construções populares. Contase que q u an d o São Je rônim o se prep arav a p ara traduzir o Novo Testamento, lhe apareceu em sonho um anjo, que o censurava por ser mais ciceroniano do que cristão (“ ciceronianus es, non cristianu s” ). Segundo a tradição, foi esse o motivo pelo qual o texto do Novo Testam ento foi decalcado mais diretamente na ítala Vetus, apresentando um a linguagem de caráter bem mais popular. Eviden­ temente, essa tradição reflete um a orientação da Igreja no sentido de aproxim ar sua linguagem da do povo; é a mesma orientação que se resume nesta frase de um outro grande escritor cristão, muito atento a questões de língua, Santo Agostinho: melius est reprehendant nos grammatici q uam non intelligant populi, [antes ser repreendido pelos gram áticos do que não ser com preendido pelo povo].

P a ra ter um a idéia da (relativa) estabilidade do latim literário em confron to com a mobilidade do rom ance, compensa com parar essa atitude da Igreja do século IV com a decisão que a mesma Igreja fez valer cinco séculos mais tarde, a partir do Concilio de Tours (813), orden an do que os bispos e diáconos tratassem de tr a ­ duzir seus sermões para o vulgar para que os fiéis pudessem co m ­ preendê-los: ut easdem homílias quisque aperte transferre studeat in rusticam r o m a n a m linguam aut thiotiseam, q uo facilius cuncti possint intelle­ gere quas dicuntur. [que cada um se aplique em traduzir claramente as mesmas homílias na língua ro m a n a rústica ou na germ ânica, a fim de que todos p os­ sam compreender mais facilmente o que se diz],

A decisão do Concilio de Tours tem objetivos semelhantes aos de São Jerônim o e Santo Agostinho: representa um a iniciativa da Igreja em adaptar-se à língua falada, para ser com preendida pelo povo; mas vale ao mesmo tempo pelo reconhecimento de que entre a língua falada e o latim dos textos que serviam de base às ho m í­ lias, se havia cavado um fosso completamente intransponível. Com esta segunda iniciativa da Igreja, consagra-se um im portante avanço dos romances em direção à plenitude de usos lingüísticos.

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LING ÜÍSTICA RO MAN ICA

4.3 Variedades de latim e línguas românicas A título de resumo, será útil visualizar num q uadro a cro no lo ­ gia das principais variedades de latim escrito e falado, e suas rela­ ções com as línguas românicas:

lat. cláss.

lat. medieval

/ ------------- + -----------------------/

V d .c .

XVI



escrito ✓

culto

lat. arc. (só lalado)

/

/

/

/



/

t alad o \\

------------------------------------------------- ζ

VI a.C . Ill a.C .

serm o u rbanus N ------------------------- +

\

V I1 d.C. \

\ \ \

latim p o p u lar (só talado)

pro toro m an ce

línguas ro m ân icas

v -------------------------------------------------------- + ---------------- + -

VII d .C .

VI II-XV d.C.

5 As precárias fontes escritas do proto-romance

É incorreto identificar sem maiores ressalvas o proto-rom ance com ei latim falado já que na sociedade rom ana se falaram também outras variedades de latim; mas é certo que o proto-rom ance não Ioi uma língua escrita; desde a form ação do latim literário, as pes­ soas que se pro p u n h am a tarefa de escrever, por m enor que fosse sua cultura, procuraram fazê-lo usando a variedade culta, refor­ çando uma tendência de imitar os modelos clássicos que — exceto cm ocasiões muito particulares que serão apontadas a seguir — pre­ valeceu como n orm a por vários séculos. O uso consciente dos romances na escrita só ocorreu na última clapa de sua emancipação: costuma-se entender que as línguas românicas nascem q u an do substituem o latim como línguas escritas, na icdação de textos práticos, literários ou de edificação religiosa; mas para começar a escrever conscientemente as línguas faladas de seu lempo os letrados românicos precisaram tom ar consciência de que o latim, tal como era escrito, além de não ter mais qualquer conlacto com a língua falada, tam bém se havia distanciado irremedia­ velmente dos modelos clássicos. A parentem ente, isto foi mais um efeito da “ Renascença Carolíngia” : com o renascimento dos estu­ dos latinos, ficou claro até que ponto o latim clássico era mal conhe­ cido e até que po nto a língua escrita havia sido permeada de elemenlos vulgares: a distância entre o latim e a língua falada pôde ser

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LINGÜÍSTICA RO MAN IC A

avaliada de maneira mais exata, abrindo-se espaço para que os vul­ gares passassem a ser escritos, em épocas que variam de região para região, mas que se localizam perto do fim do primeiro milênio. As tontes do latim vulgar podem ser enquadradas na seguinte tipologia:

5.1 Textos que opõem intencionalmente duas formas de latim 5.1.1 Mestres de retórica como Cícero e Tertuliano, gramáticos como Varrão c até grandes poetas com o Catulo deixaram observa­ ções esparsas sobre os “ e rros” e os hábitos verbais dos indoutos de seu tempo. Às vezes, a referência ao caráter popular ou regional desses “ e rro s” é explícita, como nesta observação de Varrão, onde se opõem a pronúncia vigente em Roma e a pronúncia que prevale­ cia nas áreas rurais do Lácio: Latio rure edus quod in urbe h x d u s

5.1.2 Fruto da atividade de um gramático cham ado Probo, que deve ter vivido no século III, e lecionado em Roma ou talvez no norte da África, chegou até nós um a lista com mais de 200 erros e respectivas correções. É conhecida como A p p e n d ix P robi e seus itens são todos da forma nurus non nura socrus non soera neptis non nepticla

colum na non colom na olim non oli plebes non plevis

onde a primeira expressão pertence ao latim literário e a segunda é o erro que se trata de corrigir. C om o freqüentemente acontece com os erros de escolares, muitos desses “ erros” nada mais são do que a tradução da forma literária num a variedade discriminada, no caso, o latim vulgar; a lista é suficientemente rica para apontar para certas tendências do latim vulgar que o exame das línguas românicas con­ firma; por exemplo as seis palavras acima (e muitas outras da lista) confirmam que a quarta declinação se tinha deixado absorver pela primeira e segunda; e exemplificam o uso do diminutivo -icidus, -icula aliás reduzido a -iclus, -ida, a passagem de u breve a o, o enfra­ quecimento do m final, a alternância de b intervocálico com v etc.

5.2 Obras em que o latim vulgar penetra parcialmente 5.2.1 O latim vulgar penetra parcialmente em algumas obras escri­ tas que chegaram até nós devido à escassa erudição literária de seus autores. Estão neste caso a Peregrinatio a d Loca Sancta da m onja

\ S PREC ARIAS I O NT I S ESC'RI I \ S DO FR OT H R< ) \ l \ N ( 1

67

t i heria (ou Egéria), que rem onta ao século V, o tratado de veterin.ii ia conhecido como M ulom edicina C hironis, várias obras de agri >

> p o r t , terreno p o r t , seguro p o r t , chegar

o breve o lon g o u breve

/O /

cp.

operare coperare lucrare

> > >

port, port, port,

obrar cobrar lograr

2\') De outro lado, há uma certa tendência de as vogais átonas caírem, tanto em posição pré-tônica com o pós-tônica, como atestam as línguas românicas e, neste caso, a terceira glosa do A p p en d ix Probi, speculum non speelum,

permite inferir que a form a corrente (e errada segundo Probo) era speelum , precisamente aquela que se exige para chegar “ regularmen­ te ” ao port, espelho, esp. espejo, it. specchio etc. Muitas “ formas divergentes” presentes nas línguas românicas (lembre-se que se fala em formas divergentes sempre que temos duas palavras derivadas de um mesmo étimo latino, um a por via popular, via latim vulgar e o u tra por via erudita, isto é, recriada pela iniciativa de algum “ hu m a n ista ” a partir do latim literário) conservam as fei­ ções diferentes que u m a mesma palavra assumiu em latim culto e em latim popular: completa e pro parox íton a na variedade culta, sin­ copada e paroxítona na vulgar. Vejam-se, a título de exemplo, estes pares do português:

76

[ INGUÍSTICA ROMÂN ICA

óculo(s) artículo partícula coágulo

olho(s) artelho partilha coalho

e) As métricas românicas: tonicidade e rima Com a perda da quantidade vocálica, desaparece obviamente a possibilidade de um a poesia baseada n a duração das sílabas, como foi a poesia do latim literário. A métrica rom ânica recorrerá, ao invés disso, a um a contagem de sílabas que se faz até a última sílaba tônica, e a uma distribuição estratégica dos acentos tônicos no verso. A rima, que pareceu num a certa época tão intrinsecamente associada à noção de poesia, aparece inicialmente nos cânticos cristãos como um recurso mnemônico.

6.1.2 Os ditongos O latim clássico tem três ditongos de origem latina — í t \ a u , ce — aos quais se acrescenta um quarto de origem grega: eu. No latim vulgar esses quatro ditongos aparecem geralmente reduzidos a uma única vogal, com uma resistência maior para au: lat.eláss.

c x lu

lat.v u lg .

ce / ii

quserit pccna auricula tauru

quzrit pena oricla towro ( u - s e m i v o g a l )

Novos ditongos aparecem pela queda de consoantes intervocálicas, ou pela vocalização de consoantes, como se vê com p arand o as duas conjugações regulares do perfeito do indicativo, e em numerosos casos de transposição de sons: lat.eláss.

amavi l a t . v u l g . amavit ianuariu

amaj amawt janajru ( c o m d u a s o c o r r ê n c i a s d e /-sem iv o g al)

6.1.3 Os hiatos Dos numerosos hiatos do latim clássico, aos form ados por vogais iguais corresponde geralmente em latim vulgar um a única vogal: coorte > corte, m ih i > m i, nihil > nil, m o rtuus > m ortus.

CARA CTE RÍ ST IC AS FO NOL ÓG ICA S DO LATIM VULGAR

77

Onde o latim clássico tem hiatos form ados por e, i + vogal ou o, u + vogal, o latim vulgar semiconsonantiza a primeira vogal, sur­ gindo o i-sem ivogal e o u-sem ivogal lat. cláss.

cave-a. Une-a foli-a (/' em hiato)

lat. vulg.

cavja, linja fo lja (í-semivogal, em ditongo)

coagulare

k wagulare

6.2 As consoantes do latim vulgar 6.2.1 O sistema consonantal do latim clássico O sistema consonantal do latim clássico com punha-se de 17 co n­ soantes, incluídas as duas semivogais j e w e a aspirada h. Q uanto às suas propriedades articulatórias, esses 17 sons se relacionavam con ­ forme indicado no quadro abaixo:

oclus. surdas oclus. sonoras nasais laterais vibrantes fric. surdas fric. sonoras semivogais

bil.

1. dent.

P b 111

d

dent. a.

pal.

vel.

uvul.

k , kw* g, gw*

t 11

1 r f H’

h

s J

* grafados c/u e gu, respectivamente, são consoantes labiovelares.

Na origem, deve ter sido esse o sistema das consoantes do latim vulgar; com o tempo, porém , o latim vulgar introduziu nesse sistema várias alterações, geralmente determ inadas pelo “ e n to rn o ” em que as próprias consoantes eram usadas. Nos próximos parágrafos, p r o ­ curaremos a co m panh ar a evolução do sistema consonantal em duas etapas. A prim eira dessas etapas, a que cham arem os de “ período lati­ n o ” , vai grosso m o d o até o final do Império, q uand o a Rom ânia ainda se conservava unida. A o falar desse período, estaremos consi­ derando inovações que afetaram , ao menos como tendências, o latim vulgar como um to do , em contraste com o latim clássico. Em resumo,

78

LING ÜÍS TI CA R OM ÂN IC A

essas tendências resultam, para o latim vulgar, num q uadro conson an­ tal que explora mais amplamente o trecho anterior da cavidade bucal, prenunciando a grande variedade de consoantes anteriores que en tra ­ rão em contraste fonológico nas línguas românicas. Eis o quadro resultante:

bil. oclus. surdas oclus. sonoras nasais laterais vibrantes fric. surdas fric. sonoras semivogais

1. dent.

dent. a.

/

t d n 1 r s

P b m

pal.

vel.

uvul.

k g

V

w

j

A segunda etapa, que cham arem os como é de hábito “ período ro m ân ico” , começa com a queda do Império R om an o no século V d .C ., e o conseqüente desm em bram ento da R om ânia n um a série de domínios lingüísticos mais ou menos estanques. Nesse período, sur­ gem em maior n úm ero as inovações independentes, que levarão, com o passar do tempo, aos sistemas consonantais das línguas românicas, tais como as conhecemos hoje.

6.2.2 Consoantes simples São estes, em resumo, os principais pontos de contraste entre o consonantismo clássico e o vulgar, afetando consoantes simples: a) a palatalização das velares antes de vogais anteriores; b) a perda do apêndice labial nas labiovelares; c) a africação da labial sonora b\ d) o desenvolvimento de um a consoante palatal, a partir do /semivogal·, e) a transform ação do u-sem ivogal em consoante bilabial so­ nora; f) o desaparecimento d a aspirada h\ g) o ab rand am ento das consoantes surdas intervocálicas; h) a queda freqüente das consoantes finais.

CA RA CTE RÍ ST IC AS FON OL OG IC AS DO LATIM VULGAR

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a) A palatalização das velares Período latino: os sons que a escrita representava pelos sinais
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