"O Urso" de Faulkner

July 9, 2019 | Author: Amanda Fievet | Category: Cães, Povos Indígenas das Américas, Caça, Tempo, Imortalidade
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"O Urso" de Faulkner...

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O Urso – William Faulkner (1942)

Tinha dez anos. Mas aquilo j á  começara antes, muito antes do dia em que – afinal – escreveu a idade com dois algarismos e viu pela primeira vez o campo de ca ça onde seu pai, o Major Spain, o velho General Compson e os outros passavam duas semanas todo m ês de novembro novembro e outras duas todo mês de junho. Então, já  herdara deles – sem nunca o ter visto sequer – o medonho urso da pata aleijada numa armadilha. O urso que, numa área de quase cento e cinquenta quil ômetros de circunfer ência, ganhara direito a um nome, a um tratamento, como um homem. Há  muitos anos que ele ouvia a hist ória, a lenda dos celeiros roubados, de leit ões e cevados, de vitelos levados inteiros para a floresta e devorados; de armadilhas e fossos desfeitos e c ães mutilados ou mortos; de chumbadas de ca çadeiras e at é de carabinas atiradas quase à queima-roupa com menos resultado do que se fosse um punhado de ervilhas atirado por uma crian ça. Histórias de um corredor de ru í na na e destrui ção, que começava antes do seu nascimento e atrav és do qual corria, não muito depressa mas com a delibera ção implacável e irresistí vel vel de uma locomotiva, o vulto hirsuto e medonho. O urso. Já  antes de ver o urso ele lhe surgia tal como era, especialmente nos sonhos. Muito antes de ter sequer avistado os bosques onde o animal deixava a sua pegada torta, era capaz de descrev ê-lo, felpudo, enorme, de olhos vermelhos, antes grande do que maldoso, grande demais para os c ães que tentavam acoss á-lo, para os cavalos que tentavam derrub á-lo, para os homens e as balas que o perseguiam, grande demais para a pr ópria região a que estava limitado. Parecia v ê-lo inteiro, muito antes de ter visto a solid ão selvagem e condenada, de orlas constantemente e covardemente cortadas e ro í das das por homens com machados e arados, que tinham medo dela por ser selvagem, homens que sem conta e sem nome uns para os outros na regi ão onde o pr óprio urso ganhara um nome. Viu-o, mesmo, muito antes de imaginar a regi ão através da qual corria n ão só  um animal mortal mas um sabe Deus o qu ê, indomável e invencí vel, vel, vindo de um tempo j á  morto; um fantasma, ep í tome tome e apoteose daquela vida selvagem que o enxame de homens covardes lacerava numa f úria de ódio e de terror, como pigmeus em torno das patas de um elefante sonolento, e sobre o velho urso solit ário, indomável e só, viúvo sem filhos e s ó, absolvido da mortalidade e s ó.

Até os dez anos de idade, quando chegava o m ês de novembro, o rapaz via o carro ção com os cães, as camas, a comida, as armas, o pai, o negro Jim da Tennie e o í ndio ndio Sam Fathers (filho de uma escrava e de um chefe de í ndios ndios Chicksaw), todos partindo pela estrada para a vila, para Jefferson, onde o Major e os outros se reuniam. No entender do rapaz, aos sete, oito e nove anos, eles n ão iam ao Vale Fundo para ca çar ursos ou veados. Iam para ter um encontro com o urso, que nem sequer pensavam em matar. Tanto é que voltavam ap ós duas semanas de ca ça, sem trof éus, sem peles nem cabeças. Nem ele esperava por elas. Nem temia que o carro ção trouxesse alguma coisa. Acreditava que quando fizesse dez anos e o pai o levasse tamb ém à  ca ça nas duas semanas de novembro, ele seria apenas um dos participantes, com o pai, o Major e o General Compson, com os outros, com os cães que tinham medo de o acossar e as ca çadeiras que nem sangue lhe faziam: seria mais um no cortejo anual de homenagem à imortalidade do velho urso. Até que ouviu os c ães. Foi na segunda semana da sua primeira ca çada. Ficou parado ouvindo, com o Sam Fathers, de encontro a um enorme carvalho, ao lado do cruzamento que vigiava j á por nove manhãs. Ouvira-os já   uma vez antes disso, numa das manh ãs da semana anterior. Ouvira um murmúrio que ecoav ecoavaa pelos pelos bosque bosquess molhad molhados, os, cresce crescendo ndo em vozes vozes separ separada adas, s, poss poss í veis veis de reconhecer e chamar pelo nome. Levantou a arma com o dedo no c ão – tal como Sam ensinara – e

de novo ficou imóvel, enquanto o alarido, a corrida invis í vel, se aproximava, passava, morria ao longe. Quase lhe parecia ver o veado macho, fulvo, cor de fumo, retesado pela velocidade, voando, desaparecendo, os bosques, a solid ão cinzenta ainda a vibrar mesmo depois da algazarra dos c ães ter desaparecido. – Agora solte o c ão – disse Sam. – Você já sabia que eles n ão vinham pra´qui. – Sabia. Quero que aprenda o que deve fazer quando n ão disparar. É   depois que se perde a oportunidade de atirar que acontecem desastres aos homens e aos c ães. Seja como for – disse depois – não passava de um veado. E agora, na d écima manhã, ouviu outra vez os c ães. Aprontou a espingarda comprida e pesada – como Sam ensinara – ainda antes que o í ndio desse ordem. Mas desta vez n ão havia veado, nem coro de cães a correr sobre um rastro f ácil. Era um latir fatigante, uma oitava acima, com qualquer coisa de indeciso e at é de abjeto; que parecia n ão se mover e levava tempo enorme para ficar longe do alcance do ouvido. E que ent ão deixava no ar um eco agudo, levemente hist érico, quase lamentoso, humano. Aquilo n ão podia ser a persegui ção a qualquer animal fugitivo, cor de fumo, herbí voro. E o Sam, que lhe ensinara a armar a espingarda antes de mais nada, a tomar posi ção de onde pudesse ver tudo e depois n ão se mexer nem bulir na espingarda, viera para o lado dele. O rapaz ouvia o í ndio respirando sobre o seu ombro e via a curva arqueada das narinas do velho. – Ah – disse Sam – nem se d á ao trabalho de correr. Vem andando. – É o velho Ben – a voz do rapaz estava excitada. – Mas t ão aqui em cima? – Faz isso todos os anos – disse o í ndio. – Uma vez. Provavelmente para ver quem veio este ano, se é gente que sabe atirar ou n ão. Para ver se j á temos o cão capaz de acoss á-lo e meter-lhe os dentes. Vai levar os c ães todos ao rio e depois mand á-los para trás. O menino ficou ouvindo. Sam disse vamos voltar e depois disse, mais para si pr óprio: – Vai ver o aspecto deles, quando chegarem de volta ao acampamento.

Quando chegaram ao acampamento os c ães já estavam lá, dez deles, encolhidos atr ás da cozinha. O rapaz e o í ndio acocoraram-se para espreitar na escurid ão onde estavam amontoados, silenciosos, de olhos reluzentes que acendiam e apagavam. E nem um único som. S ó  aquele pressentimento de qualquer coisa mais forte do que um c ão e não apenas um animal ou fera. Nada houvera diante daquele latir abjeto e quase doloroso sen ão a solidão selvagem. E quando o und écimo cão chegou, ao meio-dia, todos olharam, at é  o velho tio Ash – que se dizia cozinheiro antes de mais nada. E Sam tratou-o com terebentina e massa de untar os eixos, passando mãos cheias na orelha em tiras e na esp ádua. E para o rapaz, o autor de tudo aquilo continuou a ser a solidão selvagem que castigara com uma pancada leve a temeridade do c ão. Aquilo não parecia obra de uma criatura viva, mortal. – Tal e qual um homem – disse Sam. – Tal e qual. Foi demorando, demorando o mais poss í vel, adiando a ocasi ão de ter coragem, sabendo perfeitamente que mais tarde ou mais cedo teria de ganhar coragem para poder continuar merecendo o nome de c ão; e sabendo antecipadamente o que lhe aconteceria, quando a coragem chegasse. Nessa tarde, montado na mula caolha do carro ção, que não se importava com o cheiro de sangue (nem, como lhe contaram, com o dos ursos), e com Sam ao lado montado na outra, cavalgaram durante mais de tr ês horas naquele dia de inverno. N ão seguiram nenhuma senda, nenhum atalho

que ele percebesse. Em pouco tempo estavam num lugar desconhecido para eles. Ent ão, compreendeu porque é  que Sam lhe dera a mula menos espantadi ça. A outra parou, tentou voltar a fugir. Mesmo quando o í ndio desceu e agarrou as r édeas, bem curto, ela continuou bufando, puxando, querendo voltar. Sam incitava a mula a correr, gritando com ela, porque n ão queria arriscar amarrá-la. Finalmente, ela avan çou, bufando sempre. O rapaz n ão teve dificuldade com a sua, mas tamb ém desceu e segurou as r édeas, curto. De pé, ao lado de Sam, no escuro da tarde que morria, olhos no tronco apodrecido e virado, estripado e riscado de marcas de garras, o rapaz viu na terra molhada, ao lado, a pegada da enorme pata de dois dedos, torta. Agora sabia que cheiro sentira quando fora olhar os c ães encolhidos debaixo da cozinha. Pela primeira vez compreendeu que o urso que via antes, que aparecia nos seus sonhos desde que se conhecia como gente e que devia ter existido antes nos sonhos do pai, do Major e até  do velho General Compson, que esse urso era um animal mortal. E que – pensou – se eles tinham partido todos os anos no m ês de novembro para a ca çada sem esperan ças de voltar com o trof éu, não era porque este n ão pudesse ser abatido, mas porque at é  aqui eles não tiveram ainda verdadeiras esperanças de ca çá-lo. – Amanhã – disse ele. – Tentaremos amanh ã – emendou Sam. – Mas ainda n ão temos cão. – Temos onze. Contamos esta manh ã. Só é preciso um. Mas n ão está  aqui. Talvez n ão esteja em parte alguma. A única maneira é  ele dar de cara, por acidente, com algu ém que esteja armado. – Não seria comigo. Seria o Walter, ou o Major, ou… – Podia ser – disse o í ndio. – Amanhã  tenha muito cuidado. Porque ele é  matreiro. É  por isso que ainda não morreu. Se estiver cercado e tiver de escolher algu ém a quem atacar, escolherá você. – Por quê? – perguntou o rapaz. – Como é que ele vai saber… Voc ê quer dizer que ele j á me conhece, sabe que é a primeira vez que venho, que ainda n ão tive tempo de… – parou novamente e olhou para Sam bem nos olhos. O rosto do velho nada revelava, a n ão ser quando sorria. Depois disse humildemente, sem espanto algum: – Foi a mim que ele veio observar. E n ão foi preciso vir aqui mais de uma vez, n ão é?

Na madrugada seguinte sa í ram do acampamento tr ês horas antes de amanhecer o dia. Desta vez foram montados, porque era muito longe para ir a p é. Até os cães foram na carripana. Mais uma vez o nascer do dia cinzento o surpreendeu em um lugar que nunca vira antes. Sam indicou o lugar onde devia ficar, e depois o deixou. Com a espingarda na m ão – a espingarda que era grande demais para ele porque não era dele e sim do Major, e que apenas disparara uma vez, num cepo, no primeiro dia, para conhecer o coice e aprender a carreg á-la – encostou-se a uma árvore-de-borracha, ao lado de um riacho cuja água negra e tranquila escorria sem ru í do através de um canavial, atravessava uma aberta e se metia outra vez entre as canas onde, invis í vel, um pássaro (o enorme pica-pau que os negros chamam senhor-pra-deus) matraqueava num tronco morto. Era um posto como qualquer outro, apenas incidentalmente diferente do que ocupara todas as manhãs durante dez dias. Um territ ório novo para ele e, no entanto, t ão estranho quanto esse outro que, ao fim de duas semanas come çara a acreditar que conhecia ligeiramente. O mesmo isolamento, a mesma solidão que seres humanos apenas atravessaram sem alterar, sem deixar marcas, nem cicatrizes, que se mantinha exatamente como a devia ter encontrado no primeiros dos antepassados í ndios de Sam, ao chegar e olhar em volta, de cacete ou machado de pedra, ou zagaia de osso em

punho. Diferente apenas porque, acocorado ao p é da cozinha, sentira o cheiro dos c ães encolhidos e acovardados diante dela. E porque vira em tiras a esp ádua e a orelha do que fora obrigado a ter coragem para merecer (segundo Sam) o nome de c ão. E porque, na v éspera, vira na terra úmida ao lado do tronco riscado, a marca da pata. Não ouviu os c ães. Não chegou a ouvir o latido deles. Ouviu apenas o matraquear do pica-pau parar de repente. E soube que o urso estava olhando para ele. N ão chegou a v ê-lo. Não podia saber se ele estava à  sua frente ou nas costas. N ão se mexeu. Nas m ãos a inútil espingarda, que nem sequer armara e que agora n ão valia a pena armar, sentindo na saliva aquele travo met álico que conhecia agora porque sentira o cheiro do urso quando espreitara os c ães encolhidos debaixo da cozinha. Depois, foi-se embora. T ão repentinamente como se interrompera, o martelar seco e mon ótono do pica-pau recomeçou. E depois de algum tempo o rapaz pensou que ouvia os c ães, mas s ó pensou, sem ouvir. Vinha da floresta um murm úrio, quase que nenhum ru í do, mas de repente aquele ru í do encheu a floresta at é o alcance do ouvido do rapaz e de novo se afastou, morrendo ao longe. Não se aproximaram dele. Se era um urso o que perseguiam, seria outro urso. Sam saiu do canavial e atravessou o riacho, seguido pelo c ão ferido na véspera. O bicho vinha sem fazer barulho, quase rastejando, como um perdigueiro. Veio e agachou-se junto à  perna de Sam, tremendo, os olhos bem abertos para o canavial. – Não o vi. – disse o rapaz; e repetiu – n ão o vi, Sam. Sua voz não tremia, mas havia um tom estranho, emocionado. Sam respondeu, calmo: – Eu sei. Quem veio aqui foi ele mesmo. E voc ê nem pode dizer de que lado ele veio, n ão é? – Não, eu… – Ele é matreiro – explicou Sam – matreiro demais. Olhou para o cão, que tremia fraca e continuamente junto ao joelho do rapaz. Da esp ádua retalhada escorriam algumas gotas de sangue fresco. Tornou a falar: – É grande demais. Ainda n ão temos cão para ele. Talvez um dia, e n ão acredito que seja ainda na próxima primavera. Mas um dia… Então, tenho de ver esse bicho, tenho de v ê-lo, pensou o rapaz. Se, pelo menos, visse o urso… Porque se n ão visse, parecia a ele que aquilo continuaria sempre como continuara com o pai e o Major (que era mais velho do que o pai), e at é com o velho General Compson (que em 1865 j á tinha idade suficiente para comandar uma brigada). Se n ão o visse agora, aquilo continuaria sempre da mesma maneira, na pr óxima vez e na seguinte, e depois, e depois, e depois. Não queria admitir ele próprio e o urso mergulhados no limbo de onde emergia o tempo, tornando-se eles pr óprios tempo: o velho urso, absolvido da mortalidade, e ele, partilhando um pouco, bastante, dessa absolvi ção. E agora sabia qual era aquele cheiro dos c ães encolhidos e aquele travo na saliva. Reconhecia o medo. Tenho de ver esse bicho, tenho de ver, pensou de novo. Sem medo mas sem muita esperan ça.

Foi em julho do ano seguinte. Tinha onze anos. Estavam outra vez no acampamento, festejando os aniversários do Major e do General Compson. Embora o primeiro tivesse nascido em setembro e o outro pertinho do inverno e dez anos depois, encontravam-se sempre durante duas semanas para pescar, atirar aos esquilos e ao peru selvagem e perseguir com os c ães, à noite, os texugos e os gatos bravos. Isto é: o rapaz, mais Boon Hogganbeck e os negros é  que faziam isso; n ão s ó  o Major e o

General (que passavam as duas semanas sentados numa cadeira de balan ço, diante de uma enorme panela de ferro, mexendo e provando e discutindo com o velho Ash a melhor maneira de fazer a panelada, e vendo o Jim da Tennie passando aguardente do garraf ão para a caneca de lata e da caneca de lata para o est ômago), mas at é  o pai e o Walter Ewell, que ainda eram bastante mo ços, desdenhavam esses passatempos e apenas atiravam aos perus selvagens para fazer apostas de pontaria. Ou, pelo menos, o pai e os outros julgavam que ele ia à caça dos esquilos. At é o terceiro dia pensou que o Sam Fathers tamb ém o julgava. Saí a do acampamento todas as manh ãs logo depois do almoço, agora, com a sua pr ópria espingarda, presente de Natal. Voltou à árvore da beira do riacho, onde estivera naquela manh ã. Olhando a b ússola que o velho General Compson lhe dera, partiu deste ponto, em c í rculos. Sem saber, estava aprendendo a ser um batedor melhor do que o vulgar. No segundo dia encontrou at é  o tronco gadanhado onde vira pela primeira vez a pegada torta. A madeira estava agora quase completamente desfeita. E voltara com inacredit ável rapidez e um abandono apaixonado e quase vis í vel para a terra que dera origem à árvore. Percorria agora os bosques de ver ão, verdes e frondosos (se havia diferen ça era por causa da obscuridade maior do que a nebulosidade cinzenta de novembro). O sol, mesmo quando estava a pino, apenas salpicava a terra aqui e ali, que nunca secava por completo e por isso vivia coberta de serpentes: cobras-d´ água, mocassins, cascav éis, todas da cor da sombra malhada e que portanto ele nem sempre via, a n ão ser quando se moviam, se se moviam. E cada vez ele voltou mais tarde. No terceiro dia, ao passar ao crep úsculo pela pequena estacaria que cercava o est ábulo de madeira onde Sam dava guarda aos cavalos, preparando-os para a noite, o í ndio disse: – Ainda não procurou como deve ser. Parou. Durante um momento n ão respondeu. Depois, calmamente, cedendo pacificamente como aquelas represas em miniatura que as crian ças fazem nos riachos, disse: – Fui até a árvore. Cheguei a encontrar outra vez aquele tronco. Eu… – Acho que fez bem. Se calhar, ele tem at é andado a espi á-lo. Não viu a pegada dele? – Não – confessou o rapaz – n ão vi. Não pensei… – É a arma – explicou Sam. Parou ao lado da sebe; im óvel, o velho, o í ndio de ganga desbotada e pu í da e com o chap éu de palha de cinco cêntimos que fora a marca da escravid ão da raça negra e agora era a ins í gnia de sua liberdade, estava olhando firme. O acampamento, o terreno desbravado, a casa, o barrac ão, e o seu pequeno equipamento com que o Major esgravatava de leve a solid ão selvagem, tudo se dissolvia no crepúsculo, voltando à escuridão imemorial da floresta. A arma, a arma – pensou o rapaz. – Assuste-se – disse o í ndio. – Isso não se pode evitar. Mas n ão tenha medo. N ão há bicho nenhum na floresta que nos possa fazer mal, desde que n ão esteja cercado ou que n ão fareje que estamos com medo. Um urso ou um veado, tal qual como um homem corajoso, precisam do medo dos covardes. A arma, a arma – pensou o rapaz. – Você tem de escolher – disse Sam. Deixou o acampamento antes de nascer o dia, muito antes de tio Ash acordar nos seus cobertores do chão da cozinha e acender o fogo para fazer o almo ço. Levou s ó a bússola e a vara para as serpentes. Sabia o caminho at é  um quilômetro antes de precisar da b ússola. Sentou-se num cepo,

com a invisí vel bússola na mão (também ainda invisí vel), enquanto os ru í dos secretos da noite – interrompidos com os seus movimentos – de novo se esgueiravam e se interrompiam de vez. E os mochos se calaram para dar lugar ao despertar dos p ássaros da manh ã. Ah, já   vi a bússola. Continuou rápida e silenciosamente a caminhada. Conhecia cada vez melhor a floresta, mas n ão tinha consciência disso. Ao nascer, o sol levantou um veado e a f êmea, fazendo-os sair da cama. Ficaram a uma dist ância curta, e ele viu bem at é o reflexo nos olhos deles, e ouviu o barulho que os rabinhos brancos faziam batendo no mato. Depois viu a f êmea saltar e o veado saltar atr ás dela mais velozmente do que  julgara possí vel. Batia a floresta na direção devida, contra o vento, como Sam ensinara. N ão era que isto agora tivesse alguma importância. Abandonara a espingarda. De sua pr ópria vontade e resolução não aceitaria compromissos, escolhas, mas sim uma condi ção em que tinham sido anulados não s ó o at é agora inviolável anonimato do urso como todas as antigas regras e vantagens do caçador e da presa. Não teria medo, nem mesmo no momento em que o terror o tomasse por completo, sangue, pele, entranhas, ossos, mem ória da eternidade antes de se tornar mem ória sua – tudo, menos a lucidez aguda, clara, imortal, que o distinguia daquele urso e de todos os outros ursos e veados que havia de matar com a humildade e o orgulho da sua per í cia e resist ência. A lucidez a que Sam se dirigira quando se encostara à estacaria, na v éspera, à boca da noite. Ao meio-dia ultrapassara de muito o pequeno riacho. Nunca penetrara at é  tão longe na regi ão nova e desconhecida. J á não caminhava s ó pelo velho relógio de prata, pesado, volumoso, que pertencera ao avô. Quando finalmente parou, foi a primeira vez que o fez depois de se ter levantado, de madrugada, do tronco em que estivera sentado quando consultara a b ússola. Estava bastante longe. Saí ra do acampamento fazia nove horas. Dali a nove horas a noite teria ca í do há uma hora. Mas n ão pensava nisso. Pensou: “Bom; est á  bem; mas ent ão?” E parou durante um momento, parecendo estranho e min úsculo no meio da solid ão verde e sobranceira, respondendo à própria pergunta antes de ela se ter formulado e terminado. Era o rel ógio, a bússola, a vara – os tr ês aparelhos inanimados que durante nove horas ele usara contra a solid ão selvagem. Pendurou cuidadosamente o rel ógio e a bússola num arbusto, encostou o pau ao lado deles e entregou-se completamente a ela. Durante as últimas duas ou tr ês horas não caminhara muito depressa. N ão andava mais depressa agora, já  que a dist ância não tinha importância. E estava tentando n ão perder o rumo da árvore em que deixara a b ússola, procurando descrever um c í rculo que o fizesse voltar a ela ou, pelo menos, se interceptasse a si pr óprio, já que a direção não tinha importância agora. Mas n ão encontrou a árvore, e fez o que Sam lhe ensinara: descreveu novo c í rculo na direção oposta, para que os dois percursos se interceptassem mais longe. No entanto, n ão cruzou as suas próprias pegadas e acabou encontrando a árvore mas num lugar errado, sem o arbusto, a b ússola, o rel ógio; e nem a árvore era a mesma, porque ao lado dela havia um cepo baixo. Fez o que Sam Fathers lhe ensinara a fazer em seguida e em último lugar. Ao sentar-se no cepo viu a pegada torta, o medonho corte aleijado que se enchia de água, mesmo diante dos seus olhos. Quando olhou para cima a solid ão uniu-se, solidificou-se, e a clareira, a árvore procurada, o arbusto, o rel ógio, a bússola, refulgiam batidos por um raio de sol. E viu então o urso. Não apareceu de parte alguma: estava ali, simplesmente im óvel, sólido, firmado nas manchas quentes da tarde verde e sem brisa, n ão tão grande como o sonhara, mas t ão grande como esperava, desmedido, recortado na obscuridade pintalgada, olhando para o rapaz que, sentado no cepo, lhe devolvia o olhar. Depois moveu-se. N ão fez barulho. Não se apressou. Atravessou a clareira caminhando durante um

instantinho sob a luz crua do sol. Quando chegou ao outro lado parou outra vez e olhou-o por cima do ombro, enquanto o rapaz, no seu respirar tranquilo, inspirou e expirou tr ês vezes. E desapareceu. Não caminhou para a floresta, para o mato. Desvaneceu-se, voltou a dissolver-se na solid ão, como um peixinho que o rapaz vira um dia afundar-se e desaparecer na fundura negra da lagoa sem um único movimento das barbatanas.

Será no pr óximo outono – pensou. Mas não foi no pr óximo outono, nem no seguinte, nem no outro. Tinha ent ão 14 anos. Matara o seu primeiro veado e Sam Fathers marcara-lhe a cara com o sangue; e no ano seguinte matou um urso. Mas já  antes disso tornara-se t ão competente na floresta como muitos adultos que tem experi ência. Num raio de 50 quil ômetros, a partir do acampamento, n ão havia território que não conhecesse, riacho, outeiro, árvore ou atalho. Era capaz de conduzir qualquer pessoa a qualquer ponto sem hesitação, e trazê-la de volta. Conhecia pistas de ca ça que nem mesmo Sam Fathers conhecia. Aos 13 anos descobrira a cama de um veado, às escondidas do pai pediu a carabina a Walter Ewell, deitou-se à espera de o sol raiar e matou o veado quando ele voltava à  cama, pois Sam lhe contara como faziam os velhos í ndios Chicksaw. Mas não o urso velho. Embora agora j á lhe conhecesse melhor as pegadas do que as suas pr óprias, e não só   a pegada da pata aleijada. Quando via uma das outras tr ês era capaz de reconhec ê-la imediatamente. Não só pelo tamanho – havia outros ursos dentro desses 50 quil ômetros, capazes de deixar marcas t ão grandes – era mais do que isso. Se Sam Fathers fora o seu aio e os coelhos e esquilos do quintal da casa o seu jardim de inf ância, então a solidão selvagem percorrida pelo velho urso era para ele o col égio e o próprio urso velho, há tanto tempo viúvo e sem filhos que se tornara o ing ênito pai dele pr óprio, a sua universidade. Mas nunca mais vira o urso. Sabia agora encontrar a pegada torta quase sempre que bem entendesse, a vinte, quinze ou dez quilômetros, e por vezes nesses tr ês anos, enquanto esperava, ouvira os c ães na pista do urso, por acaso. Na segunda vez pareceram seguir a pista, ladrando alto, abjetamente, quase humanos de histerismo, como naquela primeira manh ã  de dois anos atr ás. Mas nunca o urso. Lembrava-se daquela tarde de tr ês anos atr ás, a clareira, ele, o urso, im óveis na terra pintalgada e quieta; e parecia-lhe que aquilo nunca acontecera, que tamb ém aquilo fora sonho. Mas tinha acontecido. Tinham-se olhado, emergidos daquela solid ão velha como a terra, sincronizados naquele instante por qualquer coisa mais forte do que a carne e os ossos que os envolviam. E tinham tocado, afiançado e afirmado qualquer coisa mais duradoura do que a fr ágil teia de ossos e carne que um breve acidente podia destruir.

Até que tornou a v ê-lo. Precisamente pelo fato de n ão pensar noutra coisa, j á  se esquecera de procurar por ele. Andava ainda com a carabina de Walter Ewell: viu o urso atravessar o fundo de um comprido t únel, corredor que um tornado varrera, atravessando mais por entre a rede de troncos e ramos do que correndo sobre eles, como faria uma locomotiva, correndo com uma rapidez de que nunca o julgara capaz, quase t ão depressa como um gamo, porque um gamo passaria a maior parte daquele tempo no ar; mais rápido do que faz uma pessoa para acertar as miras da carabina. E compreendeu ent ão qual fora o seu erro durante aqueles tr ês anos. Sentou-se num cepo, vacilante e tr êmulo, como se

nunca tivesse visto a floresta, nem o que havia dentro dela, perguntando a si mesmo, com um espanto incr édulo, como pudera ter esquecido o que o velho í ndio lhe dissera e o urso confirmara no dia seguinte e voltara a reafirmar agora, depois de passados tr ês anos. Agora sim, compreendia o que lhe disseram Sam Fathers a respeito do c ão necessário, de um c ão em que a import ância não estava no tamanho. E quando sozinho em abril (n ão havia escola nessa altura: os filhos dos lavradores trabalhavam no cultivo da terra e o pai dera-lhe, finalmente, licen ça, com a condi ção de voltar em quatro dias), quando voltou, tinha o c ão. Era dele o animal, um rafeiro da espécie que os negros chamavam fyce, ca çador de ratos, ele pr óprio não muito maior do que um rato e possuidor daquela valentia que h á muito tempo deixara de ser coragem para ser temeridade. Não precisou de quatro dias. De novo sozinho encontrou a pista, na primeira manh ã. N ão era uma cilada; antes uma emboscada. Contou o tempo do encontro quase como se se tratasse de um compromisso com um ser humano. Na madrugada seguinte foram à  pista, contra o vento; ele agarrando no rafeiro amordaçado com uma saca e o Sam Fathers com dois c ães amarrados por um bocado de corda. Chegaram t ão perto dele que o urso voltou sem correr – como se estivesse surpreendido pelo alarido agudo e fren ético do rafeiro solto – voltando-se em defensiva, encostado ao tronco de uma árvore, plantado sobre as patas traseiras. O rapaz pensou que ele nunca mais acabaria de se erguer, de t ão alto. E até os dois cães pareceram ganhar uma coragem desesperada ao acompanharem o rafeiro que ia na corrida. Só aí   o rapaz compreendeu que o c ão não ia parar. Saltou, atirou fora a arma e correu. Quando alcançou e agarrou o rafeiro, que rodopiava freneticamente tentando escapar, pareceu-lhe que estava debaixo dos pés do urso. Sentia o cheiro muito forte, quente, espesso, do urso. Agachado, levantou os olhos para o vulto que se elevava sobre ele, alto, forte e pesado como uma carga de chuva e escuro como uma trovoada, familiar, tranquila e at é  lucidamente familiar; até  que se lembrou: fora assim que sempre sonhara com ele. Depois, desapareceu. N ão o viu desaparecer. Ajoelhou-se agarrando com as m ãos o rafeiro frenético, ouvindo o vergonhoso latir dos c ães a afastar-se ao longe. At é  que Sam veio para perto dele. – Esta é  a segunda vez que o urso v ê  voc ê  com uma espingarda na m ão. Desta vez n ão podia ter falhado o tiro. O rapaz levantou-se, ainda agarrando o rafeiro. Mesmo nos seus bra ços e longe do ch ão o animal gania furiosamente, aos pux ões e repelões para seguir o alarido long í nquo dos dois cães, como um feixe de molas de a ço. O rapaz ofegava ligeiramente, mas desta vez n ão vacilava nem tremia. – E não disparaste – disse o pai, espantado. – A que dist ância estavas? – Não sei, pai. Vi uma grande cicatriz na perna direta do bicho. Isso vi. Mas ent ão não tinha a espingarda. – E quando tinhas a espingarda tamb ém não fizeste fogo. Por qu ê? Mas o rapaz n ão respondeu. E o pai n ão esperou que ele respondesse. Atravessou o quarto por cima da pele do urso que o filho matara h á  dois anos e da pele do outro maior que ele pr óprio matara antes de o seu filho ter nascido; atravessou o quarto e foi em dire ção à estante que ficava por baixo da cabeça embalsamada do primeiro veado que o mo ço abatera. O pai chamava aquele quarto de escritório e era ali que tratava todos os neg ócios da plantação. Fora ali que o rapaz, aos 14 anos de idade, ouvira as mais interessantes de todas as conversas. O Major ia l á  e às vezes o velho General Compson também; e Walter Ewell, Boon Hogganback, Sam Fathers e o Jim da Tennie, que eram caçadores, conheciam os bosques e toda a ca ça que havia neles.

O rapaz ouvia a conversa, sem falar nem um pouquinho, mas à  escuta. E a conversa era a solid ão selvagem, a enorme floresta, maior e mais velha do que qualquer documento dos brancos, convencidos vaidosamente de que tinham comprado parte dela, maior e mais velha do que qualquer documento dos í ndios, inflexivelmente convencidos de que alguma vez tinham transmitido parte dela. Mas a floresta pertencia aos homens, n ão brancos nem negros ou vermelhos, mas simplesmente aos homens, aos ca çadores com vontade e aud ácia para resistir e a humildade para sobreviver; e aos c ães e aos ursos e aos veados justapostos e aliados contra ela, ordenados e impelidos pela solidão, na luta antiqu í ssima e inadi ável regida por antiqu í ssimas e inatingí veis regras que anulavam o remorso e n ão permitiam quartel. As vozes eram tranquilas, graves, deliberadas pela retrospec ção, pela recorda ção, pela lembrança exata, enquanto ele se acocorava ao pé  do fogo com o Jim da Tennie, que s ó  se metia para jogar mais lenha e passar a garrafa de uns copos para os outros. Porque a garrafa estava sempre presente: o passado um bocado parecia-lhe que aqueles duros instantes de ânimo, esperteza, coragem, astúcia, rapidez, se concentravam naquele lí quido escuro que as mulheres, os rapazes, as crian ças não bebiam, só   os caçadores, bebendo nele o sangue derramado, mas uma condena ção do espí rito mortal e ardente, bebendo-o moderada, humildemente at é, não com a baixa esperan ça do pagão de obter as virtudes da ast úcia, da força e da velocidade, mas em sauda ção a elas. O pai voltou com o livro, sentou-se de novo, come çou a abrir as páginas. – Escuta. – disse ele. Leu alto as cinco est âncias, com a sua voz calma e ponderada, enchendo o quarto em que não havia fogo porque era primavera. Depois levantou os olhos. O rapaz observava. – Bem. – disse o pai – escuta. Tornou a ler, mas desta vez s ó a segunda estrofe, at é o fim, at é aos dois últimos versos. E fechou o livro, colocando-o a seu lado, na mesa. – “Ela não pode morrer, embora tu n ão consigas ser feliz como pretendes; eternamente a amar ás e ela será bela” – repetiu. – Ele fala de uma mo ça – disse o rapaz. – De alguma coisa tinha de falar – respondeu o pai. E acrescentou: – Falava da verdade. A verdade é eterna. A verdade é só uma. Abrange todas as coisas sobre a terra. A honra, o orgulho, a piedade, a justiça, a coragem, o amor. Compreendes agora? O rapaz n ão sabia bem. Talvez tudo fosse mais simples do que aquilo. Havia um velho urso, duro e implacável, não apenas para continuar a viver, mas com o feroz orgulho da liberdade e da independ ência, suficientemente orgulhoso para n ão sentir medo ou alarma ao v ê-las ameaçadas. Mais: que “algumas vezes, parecia at é arriscar deliberadamente essa liberdade e independ ência para melhor saborear, para incitar os seus fortes e velhos ossos e a carne a manterem-se ágeis e capazes de as defender e conservar”. Havia um velho, filho de uma escrava negra e de um rei í ndio, herdeiro, por um lado, de um povo que aprendera a humildade no sofrimento e a dignidade nessa resist ência que sobrevive ao sofrimento e à injustiça; e, pelo outro lado, da história de outro povo, mais antigo sobre aquela terra do que o primeiro, mas que j á não existia sobre ela sen ão na fraternidade solitária do sangue estranho de um negro e do esp í rito selvagem e invenc í vel de um urso velho. Havia um rapaz que queria aprender a humildade e o orgulho para poder tornar-se destro e digno da floresta, mas que estava-se adestrando t ão rapidamente que temia n ão chegar nunca a tornar-se digno, por não ter aprendido essa humildade e orgulho (embora tivesse tentado aprender), at é  que um dia, de repente, descobriu que um velho incapaz de definir qualquer das duas coisas o levara pela mão àquele ponto em que o urso velho e um c ãozinho lhe haviam revelado que, possuindo

outra, possuiria ambas. E havia um c ãozinho, anônimo, sem raça, filho de todos, adulto mas com menos de dois quilos e meio de peso, como que dizendo para si: “N ão posso ser perigoso, porque nada h á  muito mais pequeno do que eu; n ão posso mostrar f úria porque diriam que é  um ruí do sem importância; não posso ser humilde porque j á estou demasiadamente pr óximo do chão para poder ajoelhar; n ão posso ser orgulhoso, porque estaria demasiadamente longe dele para ser poss í vel ver quem produzia a sombra; e nem sequer sei que n ão vou para o c éu, porque j á  está  decidido que a minha alma n ão é imortal. Só me resta, portanto, ter coragem. Mas est á bem. Terei coragem, mesmo que digam que é um ruí do sem importância”. E pronto. Era simples, muito mais simples do que um homem, num livro, falar da juventude de uma moça por quem nunca precisaria se afligir, porque nunca lhe seria poss í vel aproximar-se mais dela, ou necess ário afastar-se. Ouvira falar de um urso, acabara por ter idade para perseguir o urso e por fim, com uma espingarda nas m ãos, encontrara o velho urso e n ão disparara. Porque um cãozinho… Mas podia ter disparado muito antes de o c ãozinho ter corrido os trinta metros até ao urso que esperava; e o Sam Fathers podia ter disparado em qualquer momento durante aquele interminável instante em que o velho Ben estivera em cima deles, de p é nas patas traseiras. Interrompeu-se. O pai observava-o gravemente através do maduro crep úsculo primaveril do quarto. Quando falou, as palavras foram t ão calmas como o crep úsculo; não muito altas, porque seriam duradouras. – Coragem, honra, dignidade – disse o pai – piedade, amor da justi ça e da liberdade. Tudo isso toca o coração; e o que o cora ção aceita torna-se verdade at é  onde é  possí vel conhecê-la. Compreendes agora? O Sam, o velho Ben e o Nip, pensou o rapaz. E ele pr óprio também tivera razão – o pai assim o dissera.

– Sim, pai. – disse ele. ***

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