Paul-Laurent Assoun - Freud, A Filosofia e Os Filósofos

October 29, 2017 | Author: Fernando Fraga | Category: Sigmund Freud, Thought, Psychoanalysis, Unconscious Mind, Science
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FREUD A filosofia e os filósofos Esta obra constitui mais uma elucidação do pensamento de Freud e dos pressupostos de sua teoria psicanalítica. Ao analisar detidamente seus textos metapsicoló-

gicos, revela alguns dos fundamentos epistemológicos em que se apóiam. Com efeito, o objetivo central da obra consiste em discutir e responder a ·duas questões que sempre atormentaram o fundador da. "ciência do inconsciente": a) qual o sentido da filosofia? b) quem são os filósofos? Estamos diante de interrogações elementa· res. Mas que interessam diretamente às relações da psicanálise com a .filosofia. Curiosamente, a resposta a ·tais indagações vem sendo protelada. Ou então, mais ou menos unilateralmente dada. Neste domínio, salvo raras exceções, de parte a parte os preconceitos parecem constituir a regra. Talvez fundados na ignorância da teoria psicanalítica ou no desconhecimento do que vem a ser a filosofia. Ora, a partir do momento em que a psicanálise se tornou um capítulo do discurso filosófico, o que faremos com essa série imensa de textos em que o próprio Freud define uma atitude resolutamente crítica em relação a esse campo do saber que, por uma espécie de surpreendente reviravolta, volta a. tomar Freud e ·suas teorias .como objeto de investigação? PortantÔ, o que está _em jogo é uma pesquisa sobre a inteligibilidade dos textos metapsícológicos, em que se .esboça a relação de Freud com. a filósofia e com certos grandes fi16!-iofos. São tais questões, de efeitos teó-. ·ricos incalculáveis, que o autor discute e tenta responder. Apoiado ampl22. Este detalhe tem mais significação para nosso propósito do que parece atribuirlhe Jones: atesta que, paralelamente a uma carreira médica em vias de decisão, Freud preservara este zelo de leitor filosófico que havia manifestado enquanto era estudante. O que é extraordinário, sobretudo, é o fato de ter escolhido o instrumento filosófico como modo de comunicação de si com a pessoa a ele mais intimamente ligada: a inclinação filosófica de Freud pode liberar.se nos limites estreitos da comunicação privada. Enfim, tudo se passa como se Freud sentisse a necessidade de refazer, para sua noiva, o trabalho de iniciação que seu mestre Brentano realizara, para ele, uns dez anos antes. Podemos até mesmo detectar certo mecanismo de relação identificadora entre o tipo de comunicação pedagógica, que Freud inaugura nessa ocasião, e o que o ligava a Brentano. Assim, este pequeno empreendimento, cujo conteúdo permanece ignorado, Jietira sua importância do projeto mesmo. Traduz a necessidade sentida por Freud de elucidar os delineamentos de sua lógica. A escolha da forma didática está destinada a, pelo menos, levá-lo a elucidar seus próprios conceitos. No momento em que Freud, simples prático da ciência médica, não possui ainda a especificidade de seu objeto, a especulação filosófica traduz a busca de um instrumeQto conceitual de ba,se28.

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Outro lato vem àtestar essa estrutura de pensamento. Tra· ta-se de uma frase notável encontrada numa carta a Martha Bernays, de 16 de agosto de 1882: "A filosofia, que sempre imaginei como um objetivo e como um refúgio para minha velhice, cada vez mais me fascina todos os dias"24• O engajamento na prática científica parece, pois, andar junto com um crescimento contínuo da ambição especulativa. Na correspondência com Wilhelm Fliess, em plena gênese da psicanálise, iremos ainda encontrar expresso o desejo espe.,. culativo: "Alimento, na profundidade de mim mesmo, a esperança de atingir, pelo mesmo caminho, meu primeiro objetivo: a filosofia" (carta de 19 de janeiro de 1897). Freud chega mesmo a afirmar esse desejo como absolutamente originário: "Era a isso que eu aspirava antes de ter compreendido bem por que estava no mundo"2 ~. Da mesma forma, numa carta de 2 de abril de 1896, declara: "Em meus anos de juventude, só aspi· rei aos conhecimentos filosóficos e, agora, estou prestes a realizar este desejo, passando da medicina à psicologia"26• Assim, cada etapa é apresentada como o reinvestimento, incessante· mente deslocado, da finalidade filosófica da origem117• Devemos notar, não obstante, que tais fórmulas são avan· çadas sob o selo do sigilo de urna correspondência privada, num espírito também especulativo - o que justifica essas confidências e sela entre os dois homens uma verdadeira aliança nos anos 1887-190()28 , A segunda fala

:b então que surge, no discurso de Freud sobre a filosofia, essa segunda /ala que se põe a duplicar a outra como um eco invertido e contínuo. É nos textos oficiais, nos quais Freud procede a "retificações" teóricas, que ela se desenvolve de modo essencial. Na Contribuição à história do movimento psicanalítico, em 1914, declara que é à falta de "gosto pela leitura dos autores filosóficos em sua juventude"29 que se deve atribuir sua ignorância de um texto de Schopenhauer3°: como se se tratasse de anular, retrospectivamente, os enunciados anteriores, exatamente contrários. Em 1925, na Selbsdarstellung, Freud declara ter sempre "evitado cuidadosamente aproximar-se da filosofia propriamen· 16

te ditaH, ·acrescentando que "uma incapacidade constitucional facilitou·lhe bastante essa abstenção" 31 • Portanto, aqui, a incultura filosófica é reivindicada como um fato lamentável. Por outro lado, ao invés da pouca inclinação, faz decididamente apelo a uma limitação co,nstitucional. Em 1930, diante de uma solicitação a tomar posição no que diz respeito a certas questões filosóficas, Freud responde: "Os problemas filosóficos e suas formulações são tão estranhos para mim, que não sei o que dizer a respeito"32• Desta vez, apresenta-se como um estranho aos temas filosóficos. O antigo desejo parece rompido e o antigo investimento retratado. Freud parece ter-se tão "corajosamente afastado" da especulação filosófica, que até perdeu sua lembrança e não pretende mais reconhecê-la. Simultaneamente, multiplicam-se críticas e sarcasmos em relação aos filósofos33, enquanto que, por um paradoxo desconcertante, investem o discurso as referências a teorias filosóficas precisas3 f. Metodologia da pesquisa e plano

Aqui termina o enfoque fenomenológico, que manifestou suficientemente a duplicidade do discurso freudiano. Para apreendermos a lógica subjacente a essa aparente contradição, convém especificarmos o discurso global, determinando os diversos níveis da abordagem freudiana. Para realizar esse pro· jeto, o princípio metodológico absoluto deve ser a investigação exaustiva dos textos onde se situa a posição do objeto "filosofia". Essa exaustividade é exigida ao mesmo tempo extensivamente ~ pois só se pode julgar a integralidade dos textos onde algo de essencial sobre a questão torna-se significativo - e compreensivamente - porque é desenvolvendo, pela análise, a lógica da argumentação na integralidade de suas condições e de suas conseqüências, que podemos cernir o discurso total de Freud. Assim, tomarão forma, pouco a pouco, sob nossos olhos, as recorrências que, numa série de seqüências descontínuas, restabelecem as mesmas significações e esboçam uma verdadeira sistematicidade. :b uma afirmação particularmente clara de Freud que nos servirá de primeiro esquema para operarmos uma primeira dis·

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tinção operatória, relatada por Lou AndreasMSalomé em seu Journal, em 23 de fevereiro de 1913: "Falamos de sua defesa diante da filosofia pura; do sentimento por ele sentido de que, no fundo, seria preciso lutar contra a necessidade racional de uma unidade definitiva das coisas, pois ela provém de uma raiz e de hábitos altamente antropomórficos; em segundo lugar, porque ela pode ser incômoda ou perturbadora na pesquisa científica positiva individuar•as. Essa declaração, transmitida en passant como o eco de um discurso familiar a Freud - o que ele estava acostum~do a dizer da jilosofia - sintetiza admiravelmente a dupla abordagem crítica da realidade filosófica que pode ser extraída da literatura freudiana sobre o assunto: de um lado, há o obstáculo para a pesquisa científica, representado pela filosofia como tipo de relação com o real; do outro, há o diagnóstico da filosofia como "atividade" de pensamento e "forma cultural"36. ToM davia, o que não se encontra indicado nesse texto, é a presença da filosofia na argumentação freudiana, aí operando positiva e ativamente. É essa outra fala que precisa ser detectada37. Todo juízo sobre a atitude freudiana em relação à filosofia e aos filósofos deve partir daquilo que dfz Freud. Portanto, devemos reconstituir essa fala em suas modalidades complexas, em suas estatificações precisas, e manter o discurso de Freud a fim de determinar seu lugar pr6prio. Trata-se de determinar de onde ele fala situando-nos onde ele fala, e seguindo a lógica esboçada pelo discurso. É no término desse trajeto que teremos condições de responder à questão colocada nos termos mesmos que requer seu lugar ideológico.

NOTAS 1. Emst Jones, La vie et l'oeuvre de Sigmund Freud, Presses Universitaires de France, 1970, t. I, p. 32. 2. Ver Selbstdarstellung, G.W., XIV, 34; e as precisões de Jones, op. cit., t. I, p. 31-32; cf. infra, 2~ parte, cap. V. 3. Selbstdarstellung, G. W., XIV, 34.

4. Ibid. 18

5. Jones, op. cit .• t. I, p. 41. 6. lbid. 1. lbid. 8. Cf. infra, 2ª' parte. 9. Jones, op. cit., p. 40. 1O. Sobre a verdadeira significação dessa expatriação-, cf. infra, conclusão. 11. Jones, op. cit., t. I, p. 41. 12. lbid. 13. lbid., p. 42. 14. Ibid., p. 62. 15. Sobre o desenvolvimento dessa influência, ver infra, cap. Il, 2ª' parte. 16. Jones, op. cit., t. I, p. 62. 17. S~bre o sentido dessa aliança, ver infra, 2ª' parte, caps. IV e V. 18. DeveMse notar o interesse de Freud pelos filósofos conte~ tados ou marginais, de Brentano a Schopenbauer. 19. Foi por essa obra que ele marcou a psicologia associacionista bem como a fenomenologia. Freud nela encontra, entre outros, os conceitos de afeto e de representação, difundidos na psicologia inspirada também de Herbardt. 20. Ludwig Binswanger, Souvenirs sur Sigmund Freud, trad. fr., Gallimard, 1970, p. 340. 21. Cf. Maria Dorer, Historische Grundlagen der Psychoanalyse, 1932, p. 114. 22. Jones, op. cit., t. I, p. 190. 23. O instrumental metapsico16gico con~titui um longínquo herdeiro; cf. infra, cap. lll. 24. Citado por Jones. 25. Citado por Jones. 26. Citado por Jones. 27. Ver La naissance de la psychanalyse, P.U.F., 1973, pp. 143M144. 28. Ver La naissance de la psychatuzlyse. 29. G.W., X, p. 53. 30. Ver infra, cap. V, 2~ parte. 31. G.W., XIV, p. 86. 32. Ver infra, cap. I, e nota 3 para a referência, p. 41 33. Ver infra, caps. I e 11 notadamente. 34. Ver 2
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