DELUMEAU, Jean - A Civilização do Renascimento

August 6, 2017 | Author: masr82 | Category: Renaissance, Holy Roman Empire, Europe, Human Nature, High Middle Ages
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Jean Delumeau

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A CIVILIZAc;AO DO RENASCIMENTO Volume I

Jean Delumeau considera 0 Renascimento enquanto "pro­ rnocao do Ocidente numa epoca em que a civilizacao da Europa ultrapassou , de modo decisivo , as civilizacoes que lhe eram paralel as' ' . Encarado numa persp ectiva de "desa­ fio e resposta " , 0 Renascimento passa pela "cntica do pen­ sarnento clerical da ldade Media , pela recuperacao demografica , pelos progressos tecnicos , pela aventura marf­ tima , por uma estetica nova , par urn cristianismo reelabo­ rado e rejuvenescido". 0 regresso a Antiguidade , "0 aparente regre sso as fontes da beleza, do saber e da reli­ giao foi apena s urn meio de progredir" . Nesta obra em dois volume s encontrarnos a ori gem dos movimentos e das pro­ fundas aspiracoes do nosso tempo.

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NOVA HISTORIA

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>? No dia em que todos os povos - mas estara proximo esse dia? - se confor­ marem a semelhante regra poderemos certamente falar tambem de um verdadeiro Renascimento. Raymond Bloch

(') Niio dependernos de urn rei; Que cada urn seja senhor de si proprio. (N. do T.)

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INTRODU~AO

A PROMO 1320 e 1450 abateu-se sobre a Europa uma co91uncao de desgra~Lpri­ '0i~oes, ep1dem1aS; guei'rl!~,gYm~AfO:-_~.m!al da mOrtaIfaaae;'dlininuiCao da producao de metais preciosos, avanco dos-'TiiICOS;desafios'essesque foraw vencittos com coragem e'·com genio:-A'hist6fia do Renascimento e a hist6ria desses desafios e dessas respostas. A crftica do pensameiill> clerical da Idade Media, a recuperacao demograflca~"osprogreSsos-i~cni­ cos;ii'l\vell.tura: maritima; \iiiia"e-sfehca nova, urn cristiaiiISiiio'reeIabolido .i"'rejiivenescldo":-'eli"'os'principais elementos da resposta do Ocidente as tao variadas dificuldades que no seu caminho se haviam acumulado. «:Qt:~!i.2...~--(t:~PQS~: pode-se aqui reconhecer a terminologia de A. Toyn­ bee, e eu penso que ela traduz admiravelmente 0 fen6meno do Renas­ cimento. Mas nao vou mais alem na esteira desse grande historiador Ingles, Vistas a uma certa distancia, a historia da Humanidade em geral e, mais especialmente, a da humanidade ocidental parecem menos uma sucessao de crescimentos e de desagregacoes que uma marcha para diante, entrecortada, e certo, de paragens e regressoes; mas paragens e regressoes apenas provis6rias. E verdade que houve porcoes de humanidade local­ mente falhadas, mas a Humanidade, globalmente considerada, nunca deixou de progredir de seculo em seculo, e isso tambem nos perlodos de conjuntura desfavoravel, Assim, e sem negligenciar 0 estudo da conjun­ tura na epoca do Renascimento, insisti principalmente nas modificacoes das estruturas materiais e mentais que permitiriam a civilizacao europeia avancar, entre os seculos XIII e XVII, no caminho do seu extraordi­ nario destino.

*

Identificar urn caminho nao implica acha-lo sempre belo, como nlio implica que nao haja outro possfvel. Como ao historiador compete com­ preender e nao julgar, nao procurei saber se 0 perlodo do Renascimento deveria ser preferido a «idade das catedraiss ou privilegiado em relacao ao «grande seculos. Para que essa estranha mas frequente distribuicao de premios? Por isso olio apresentei um Renascimento em que tudo fosse . exitos e beleza. Pelo contrario, a mais elementar obrigacao de lucidez conduz-nos a declarar que os seculos XV e XVI viram, de certo modo, um aumento de obscurantismo - 0 obscurantismo dos alquimistas, dos astrologos, das feiticeiras e dos cacadores de feiticeiras. Continuaram a dar relevo a tipos de homens - por exemplo, os condottieri - e de sen­

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timentos, como 0 desejo de vinganca, que durante muito tempo foram tidos por caracteristicos do SY.lla§.£ipI~.nt()_ quando, na verdade, consti­ tuiam heranca do periodo anterior. Tempo de 6dios, de lutas terriveis, de processos insensatos, aepoca de Barba-Azul.e Torquemada, dos

!!1~~g~~-AQ.~..E9j~Qs_~li",n9i.~~--dQi.~~Ut.9~e~t~; impr~ssiOM.~.Qlb~m

o historiador do seculo XX pela dureza da sua vida social. Nao s6 inaugl/l"ou a deportacao dos _Negr~s Pa.I."a. 0 Novo . Mundo como tambem alargou, na-pr6prIa'Europa~ 0 fosso que separava()s· humildes dos privi­ Iegiados, Os ricos tomaram-se mais ricos, os pobres passaram a ser mais pobres. Nlio se repisou ja muito a ascensao da burguesia na epoca de Jacques Coeur, dos Medicis ..e..D.Q$¥.u~n~er? A realidade e mais cODlpli~~a, pois os novos-ricos .IlPJessa.ram"sc a pa.ssar-.Lricliia.a::qiie-'j~jID 'se' viu renovada e insuflada. Claro que ela foi cada vez mais d6cll eni-rela~ao ao Principe. Mas"'ii~m por isso deixou de ser..a.. classe..possuidora. E, ao converter-se a culture - fen6meno cuja-'lmportancia ainda nao foi bas­ tante salientada -, impcs a civilizacao ocidental uma estetica e uns gos­ tos aristocraticos que tinham por contrapartida 0 desprezo pelo trabalho manual. Raramente numa fase da Hist6ria 0 melhor ombreou tanto com 0 pior como no tempo de Savonarola e dos Borgia, de Santo Inacio e do Aretino. Por isso 9-..E£!1.ll~.sItto_~'!..~~...a.~ I!0.ssos olhos. .c01l!0 um o£~~_Wl..de._contradj~, um concerto por vezes estridente de aspiracoes divergentes, uma diffcil concomitancia da vontade de poderio e de uma ciencia ainda balbuciante, do desejo de beleza e de um apetite malslio pelo horrivel, uma mistura de simplicidade e de complicacoes, de pureza e de sensualidade, de caridade e de 6dio. Recusei-me, portanto, a mutilar o Renascimento e a nao ver nele, como H. Haydn, senao um espirito anticientifico ou, em sentido oposto, como E. Battisti, senao a caminhada para 0 racional. Nisso residem 0 seu caracter desconcertante, a sua com­ plexidade e a sua inesgotavel riqueza. Por exemplo, ao dar ao numero, na tradicao dos pitagoricos, urn caracter quase mistico e religioso, 0 Renascimento foi, todavia, condnzido, por esse caminho indirecto, para o quantitativo e para a no~iio cientificamente fecunda segundo a qual a Matematica constitui 0 teeido do Universo. '"

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o Renascimento

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maior artista 'de todos os tempos. Demoliu-se Arist6teles com base em Platao e Arquimedes. Colombo descobriu as Antilhas gracas aos erros de catculo de Ptolomeu. Lutero e Calvino, julgando restaurar a Igreja primitiva, deram uma face nova ao cristianismo. 0 Renascimento, que se comprazia com os «emblemaes e os criptogramas, dissimilou a sua profunda originalidade e 0 seu desejo de novidade por tras de um hie­ r6glifo que ainda causa ensanos: a falsa imagem de um resresso ao passado. Atrave, de contradiCOes, e por caminhos complicados, mas sempre sonhando com paraisos mitol6gicos ou com impossivei" utopias, 0 Renas­ cimento deu um extraordimirio saito para diante. Nunca uma civilizacao dera tao grande lugar a pintura e a musica, nem erguera ao ceu tao altas cupulas, nem elevara ao nivel da alta Iiteratura tantas hnguas nacionais encerradas em tao exiguo espaco. Nunca no passado da Huma­ nidade tinham surgido tantas Invencces em tao pouco tempo. ~ Renascimento foi, especialmente, progresso tecnico, deu ao homem do OCidente malOr-dOiiiIiiTo· sobre Um-'milttdo"mairbem cOIilieddo:-EnsIDou_ fundido, aservir-se das armas de fogo, a eontar as horas com Urn motor, a imprimir, a utilizar dia a dia a-Teria'de cambici e"oseguro rnarltimo.

__espiritual paralelo ao progresso mate­

rial -, iniciou aliberta~ao do individuo ao tira-lo do seu anonimato

medievare-oomeCandoa"Qesemoai'a¢ii~r(nfasTimltlrCQe"S" Burck­

hardt observoii-delormageiilaI'estil'ClITaeteristie-lf (fa-epoca'-que estuda va.

Todos os seus sucessores 0 tem de seguir nesse caminho, mas sublinhando

quao doloroso foi esse nascimento do homem modemo, acompanhado por

um sentimento de solidao e de pequenez. Os contemporaneos de Lutero

e de Du BeIIay descobriram-se pecadores e frageis, sujeitos as ameacas

do Diabo e das estrelas. Houve uma melancolia do Renascimento. E tal­

vez nao tenha sido errado - sob condicao de se nao tomar a f6rmula em

mau sentido - 0 definir-se a doutrina da justifica~ao pela fe como urn

«romantismo da consolaCao». Mas falar apenas de descoberta do Homem

e dizer muito pouco, A historiografia recente demonstrou que 0 Renas­

cimento foi tambem descoberta da erian~a, da familia, no sentido estrito

da palavra, do casamento e da esposa, A civilizacao ocidental fez-se entao

menos antifeminista, menos hostil ao amor no lar, mais sensivel a fragili­

dade e a delicadeza da crianca,

.iheaarravessarOS·6~etthos;'afabri~tfetro

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coTecHvas:

tinha 0 gosto dos caminhos escusos. E por isso que ainda hoje 0 regresso a Antiguidade obceca certos espiritos que preten­ dem avaliar a epoca de Leonardo em fun~ao desse aspecto e Ihe repro­ yam ter-se deixado atrasar por aquele passado ja de h3. muito suplantado. Na verdade, 0 aparente regresso as fontes da heleza, do saber e da reli­ giao foi apenas urn meio de progredir. Alegremente se «pilhou os templos de Atenas e de Roma» para omamentar os de Fran~, de Espanha e de Inglaterra. A partir do seculo XVI identificou-se em Miguel Angelo 0

o cristianismo viu-se nessa altura perante uma nova mentalidade, uma mentalidade complexa, feita do receio da danacao, da necessidade de devocao pessoal, da aspira~o a uma cultura mais laica e do desejo de integracao da vida e da heleza na religiao. 0 anarquismo religioso dos seculos XIV e XV levou, sim, a uma ruptura, mas tambem a um cristianismo rejuvenescido, mais estruturado, mais aberto as realidades do dia a dia, mais habitflveI pelos leigos, mais permeavel a beleza do corpo e do mundo. 0 Renascimento foi, sem duvida, sensual; e optou,

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por vezes, especialmente em Padua, por uma filosofia materialista. Mas o seu paganismo, mais aparente que real, iludiu certos espfritos que bus­ cavam, principalmente, 0 aned6tico e 0 escandaloso. Deslumbrado com a beleza do corpo, pede restituir-lhe 0 seu legftimo lugar na arte e na vida. Mas, com isso, nlio aspirava a romper com 0 cristianismo. A maioria dos pintores representou com igual conviccao as cenas bfblicas e os nus mitol6gicos. Ao faze-lo, nlio tinham 0 sentimento de estar em contra­ dieao consigo pr6prios. A mensagem de Lorenzo Valla foi compreendida: cristianismo nao significava, forcosamente, ascetismo. A laicizacao e a humanizacao da religiao nao constitufram, nos seculos XV e XVI, urna descristianizacao,

Esta explicacao convida a outra, de natureza diferente. Ambas, porem, provem do mesmo desejo de explorar em profundidade um perfodo que tern sido fascinante principalmente pelo seu cenario, as suas festas e os seus excesses. Pois nao irfamos aqui ceder A facilidade e apre­ sentar urn Renascimento em que 0 veneno dos Borgia, as cortesas de Veneza, os casarnentos de Henrique VITI e os bailes da corte dos Valois tivessem posicao de primeiro plano. Em vez disso, 0 que deve chamar as atencoes sao as transformaeoes de incalculavel alcance, escondidas por falsas perspectivas como as que todas as epocas tem. Seguindo John U. Nef, acentuei, portanto, a promocao do quantitativo e a elevacao do espirito de abstraccao e de organizacao, a lenta mas firme consolidacao de uma mentalidade mais experimental e mais cientifica. Fugindo a caminhos muito trilhados, A anedota e ao superficial, desejoso de oferecer uma sintese nova e de empreender uma reinterpre­ tacao do Renascimento, tive todavia a constante preocupacao de evitar o paradoxo e as formulas, que atordoam mas nao convencem. Procurei, em vez disso, demonstrar, esclarecer, fomecer ao leitor uma documentacao tao vasta quanto possivel. Quando estava a escrever este livro veio-me muito A mem6ria uma frase de Calvino. No fim da vida, ao dar uma olhadela as suas obras, Calvino disse: «esforcei-me por alcancar a simpli­ cidades. Tambem euprocurei fazer 0 mesmo. Estas poucas paginas de introducao tiveram a finalidade de criar uma ligacao, uma cumplicidade entre 0 leitor e 0 autor. Eu devia a quem viesse a ler-me as explicacbes necessarias, Chegou agora 0 momento de recolher-me e dar Iugar ao assunto que tratei; mas nao sem mostrar 0 plano seguido. A primeira parte constitui uma colocacao dos principals factos nos quatro dominios: politico, econ6mico, cultural e religioso. A segunda e uma penetracao no interior das realidades concretas da vida quotidiana. A terceira, paralela A segunda, mas na ordem espiritual, pro­ cum identificar uma mentalidade diferente da do passado e captar a vinda a superficie de novos sentimentos.

PRIMEIRA PARTE

LINHAS DE FOR~A

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CAPITULO I

A EXPLOSAO DA NEBULOSA CRISTA

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A importancia da Europa na epoca do Renascimento nao esta no populacao, em-tlSOO;--atfidii imcnitiilgia cern milhoes de habitantes, quando, segundo parece, era este 0 mimero de habitantes cia india no principio do seculo XVI: 30 ou 40 milh6es no Decao e 60 milhoes no Norte. A China, por volta de 1500, teria ja 53 milh6es de almas; e 60 em 1578. Claro que a Africa e a America tambem eram pouco povoaclas em relacao a imensidao dos seus territ6­ rios: arrisca-se a calcular em relacao a Africa uns 50 milhoes de habitantes no principio do seculo XVI; quanto a America, hesita-se entre os 40 e os 80 milhoes, Mas em ambos esses continentes havia vastas zonas desertas a separar nucleos de povoamento muito intenso. A plataforma vulcanica mexicsna (cerca de 510000 km") teria 25 milh6es de habitantes quando Cortez • C) e os Espanh6is irromperam nesse mundo ate entao desconhe­ cido dos Europeus. 0 Imperio inca, no inicio do seculo XVI, reuniria 8 a 10 milhoes de siibditos. Ora a Franca, considerada nos seus actuais limites territoriais, tinha menos de 15 milhoes de habitantes em 1320; e nao e certo que, em 1620, tenha ultrapassado os 18 milhoes, Entre estas duas datas, por causa das pestes, das fornes, das guerras, 0 progresso demogra­ fico cia Europa foi muito fraco. A Italia passou, talvez, de 10 a 12 milhoes de almas; a Alemanha (nas fronteiras de 1937) de 12 a 15 milh6es; a Espanha de 6 rnilhoes e meio a 8 milh6es e meio; a Inglaterra e a Esc6cia, juntas, de 4 a 5 milh6es e meio. Vale ainda a pena fazer notar que, no principio do seculo XVI, as mais importantes cidades do mundo estavam fora da esfera cia civilizaeao ocidental. Assim, Constantino­ pla> e Mexico, duas capitals que se ignoravam mutuamente, teriam, a primeira, 250 000 habitantes e a segunda 300000, mais, portanto, que Paris (talvez 200 000 almas) e Napoles> (cerca de 150000). Mas era na Europa, e mais especialmente no Oeste do continente, que estavam 0 dinamismo e as chaves do futuro. plano_~..!!!o&rlifi~o.-A-

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{I} As palavras assinaladas no texto com urn asterisco correspondem artigos do «Indice Documental» no fim desta obra. (N. do E.)

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Descobrir-se-a uma primeira prova desse dinamismo ao comparar dois mapas da Europa: 0 de 1320 e 0 de 1620. Entre estas duas datas, quantas transforma~oes! No iniSio .99.-s-ec.YJ.QJgY1..a,,~C:$s!JJa, Jb~!"ica esta repartida em cinco estados: Navarra, Aragao, _Castela, portugal e 0 ~~I.!!~]f~rr~nada"P.9rtu~al nao pOs -amd-a pe'-e-m:-Africa. S6em 14fs, ao apoderar-se de ~,{f- fara, Castela, rasgada por querelas intestinas ao longo de todo 0 seculo XIV, e derrotada em 1319 por Granada e em 1343 por Algeciras. Em contrapartida, Aragao, mais vigoroso, tenta criar urn imperio mediterranico. _ A Fr~de..Yili~_ VI· de _Valois -:- que sobe ao trono em 1328­ ~ ~Bru~~!!iiiS..iiaojnduiMetz. nem Gr~nQble. nem _Mar· selha nem Montpellier, sem falar, naturalmente, de Estrasburgo ou de perpIgnari~ryon"es~' na fronteira do ducado da Sab6ia. Bordeus, Baiona e toda a ~.~~m comQ•.o-ponthieu....estio em maos iiiglesas,'embOfa orel Inglaterra ainda aceite prestar homenagem ao seu suserano de

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Quaritl,i tnglaterra, conseguiu, nlio sem dificuldade, anexar 0 Pais de Gales _ que, porem, s6 no reinado de Henrique VIII· sera total­ mente absorvido. Esta, no entanto, em mas relacoes com 0 reino da Esc6cia, vizinho e rival. A Irlanda ja e uma especie de co16nia inglesa, mas uma co16nia desprezada, cuja costa oriental e a unica regiao efecti­ vamente dominada por Eduardo III·, feito rei de Inglaterra em 1327. o Imperio esta entregue, de uma forma cronica e duravel, ~ anar­ quia e ~ impotencia. Mas a Liga Hanseatica, nascida em meados do se­ culo XII da penetracao germanica nas costas do Baltico, constitui uma potencia. Em 1370 formara urna federa~lio de setenta e sete cidades, capaz de impor ao rei da Dinamarca, pela paz de Stralsund, a isencao de direitos alfandegarios aos navios hanseaucoe que atravessassem 0 Sund. Em 1375 0 imperador Carlos IV consasrara a grandeza da Hansa· diri­ gindo-se a Lubeck em visita solene. Mas, na Alemanha do principio do seculo XIV, 0 Brandeburgo ainda nao pertence aos Hohenrollern, que s6 em 1415 0 adquirirlio. Quanto aos Habsburgos, duques da Austria e da Estiria, sofreram derrotas nas lutas contra os Sui~os - a Confedera~lio data de 1291 _ e nlio possuem ainda a Carlntia, nem 0 Tirol nem a Carniola. S6 em 1440, com Frederico III, obteriio a coroa imperial. A noroeste, os Paises Baixos ainda nlio nasceram como unidade politica. A leste, 0 seculo XIV e urna epoca brilhante para 0 reino da Boemia, parte integrante do Imperio ~ qual estao Iigadas a Moravia e a Silesia. A dinastia dos Luxemburgos instala-se em Praga em 1310. S6 se extin­ guira em 1437. 0 seu apogeu situa-se no reinado de Carlos IV, rei da Boemia de 1347 a 1378, rei da GennAnia desde 1346, coroado imperador em 1355, que foi 0 fundador da Universidade de Fraga. Os imperadores, teoricamente, tern direitos de tutela numa parte da Italia; mas esta, na realidade, escapa-se-lhes. As viagens de Henrique VII. em 1312, e de Luis de Baviera, em 1328, ~ peninsula redundaram em

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REINO ZElANmAS

REINO

~ DOS HAFSIDAS

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1. A EUROPA NO IN/C/O DO SECULO XIV.

fracassos. A urn tempo esplendorosa e dividida, a Italia e formada por muitos pequenos estados que fazem, cada urn, 0 seu pr6prio [ogo. A si­ tuacao, portanto, e muito fluida: vai modificar-se muitas vezes entre 1320· e 1620. Depois das Vesperas Sicilianas de 1282, a Sicilia pertence a Ara­ gao, que anexa a Sardenha em 1325. Mas s6 a partir de 1442 havera urn Reino das Duas Sicflias, estendido, portanto, ~ Italia do SuI. Mais a norte, os feudais parecem senhores do «Estado eclesiastico», que 0 papado aban­ donou ao instalar-se, em 1309, em Avinhlio. Em Florenca ", onde Dante, exilado em 1302, nlio podera voltar, as lutas intestinas nlio estorvam os negocios. A cidade do Arno, porem, grande centro bancario e thtil, ainda domina apenas urn pequeno territ6rio e s6 tera acesso ao mar em 1406 depois de veneer Pisa. Em Millio·, os Visconti· comeearam uma carreira que sera brilhante - principalmente no fim do seculo XIV e na primeira metade do seculo XV. Em 1395-1397, Gian Galeazzo recebera do imperador os titulos de duque de Millio e da Lombardia. Bloqueada por terra pelos Apeninos, Genova. e no seculo XIV uma rica cidade

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maritima, orgulhosa des suas Ieitorias do Mar Negro e do EgeIJ. CaITa. na Crimeia, onde ternnnam as rotas terrestres do Extreme Oriente, per. tence-lhe uesde 1286. Em frente da costa ce Asia Menor, usOO5, Chio! e Sames cacm tambem em seu poder entre 1340 c 1360. Genova passa a dominar a produc;ao e a venda do alumen .. oriental, especialmente 0 de Foglia, a antiga Poceta. A .rumiga de Genova, Yeneza ., inccre,.t:< "*1'"

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Eo mar, cada vez mais quente a medida que se ia andando para 0 sui, enrrava em ebuli~o no Equador.

Mas cs pafses maravilhosos nao estavam todos a teste. 0 Eldorado' mais exactamente. 0 Rio d'Oro (0 «Rio de Ourot)- foi primeira­ mente localizado em Africa, pols foi 0 Duro do Sudiio que originou esta Ienda -de vida tenaz, jli. que os conquistadores do seculo XVI ainda pro­ curaram na actual Venezuela esse pals de abundftncia. Quanto ! noo;io da

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Atllinlida, continente atlfl.ntico desaparecido do qual, todavia, subsistinarn

ainda alguns pedacos, sabe-se Que vern de platao. Mas robrevivia ainda no

6. NAUFRAGIO l'ROYOCADO l'ELAS l'£DRAS-IMAN QUE ESTAO NO FUNDO DO MAR.

(G'avlJ,a em madeira eXl,aida de um Hortus sanneus de 149/.)

Renascirnento, reavlvada per lendas crislas. Dizla-se que, DO pnnctplo da Idade Media, S. BrandAo visitara mares tantasrtcos e ilhas encantadas a noroeste da Irlanda. Tambem se cria na viagem dos sete bispoe que teriam partido da Espanha muculmana, teriam navegado no Atlfl.ntico e encon­ trado urna ilha de felicidade onde fundaram sete cidades. Esta tradi~ao persis[ia ainda no tempo de Henrique, 0 Navegador: urn capitao rela tou-lhe que linha descoberto a ilha dos sete santos. Ern meados do seculo XV[ ainda uns aventureiros espanh6is procuravam na regiao do Mississipi urn oculto paraoo baptizado de «sete cidades de Cibola•. E a i1ha de S. Brandao figura, a 5' a oeste das Caniirias, num mapa de... 1755! Todas estas miragens servirnm de contrapeso aos horrores espalhados entre os marinheiros por narralivas terrlveis. Dina-se que os navios se afundavam ao passar perto de certas «pedras de 1man., pois os pregos do casco, atraldos peto (man, saltayam do casco e este desconiuntava-se. 4

melhor conhecimento des trabalhos e das concepcees geograficas des Gregcs tambem revoreceu as grandea viagens maritimas do Renas­ cimento. MQvimento intelectual caractertsuco deste perfodo: em multos domfnios, 0 regresso ao paesado provocou urn enorme salto para diante. Os Gregos, a partir da escota pitag6rica, e depois com Ansrcteles, tinham afirmado a esfericidade da Terra. Uma boa parte da Idade Media eria, pelo contraric, que a Terra era urn disco, achatada. Esta coneeJ)Ciio per. deu muito da sua autoridade depcls de Alberto Magno (1200-1280) e de Roger Bacon 0214-1294). Eratcstenes (276-194 a. C.) dera uma medida notevetmerue exacta do pertmetro do Equador (39690 krn). Mas Ptolo­ meu (127-160) considerava uma circunferencia muitc mats pequena, com 28350 km: erro fecundo que dell a Colombo ccragem para empreender a grande viagem para oeste. Ptolomeu foi esqueetdo durante rode urn pertodo da Idade Media. Mais tarde, no seculo XlII, a sua Cosmogra/ia (Almagesto), traduzida do arabe, veto parar as maos dos Ocidentais. E a sua Geogratia foi, finalmenle, encontrada no prindpio do secujc XV gra­ cas aos pesquisadores humanlstas; a sua traducllo para latim, aeontecimen­ to considerAvel, sltua-se entre 1406 e 1410. 0 bispo de Cambrai, Pierre d'Ailly· (1350-1420), que compusera uma lmago mundt antes do reapa­ recimento da Geograiia ptolomaica, levou esta cescoberta em linha de conta nos seus Cosmographie tractatus duo. Pierre d'Ailly esrcndia a Asia ainda mae para teste que Ptclomeu e encurtava a extensao oceanica que separava a Espanha do Extremo Oriente. Crist6vao Colombo, que tinha na sua biblioteca urn exemplar da Imago mundi, abundantemente anotado per si, nao hesitou em reduzir a 5600 krn a distancia entre as Canarias e a China. Nao havia acordo entre os Gregos acerca do numero e extensao das zonas habitadas. Para Arist6teles, existia apenas uma oikoumene. embora ela se estendesse para longe a lesle e a sui do Mediterrfl.neo. Ma:s Crates deMallos.e.mais tarde, Pcmponius Mela e Mecrobio, herdeiros da cencla helenica, garantiram que os antfpodas eram habitados. Alherto Magno compartilhou esta opinHio e afinnou, all!m disso - coisa que 09 Portugueses viriam a verificar -, que a pr6pria :zona equatorial, geral. mente considerada inabitaYel por demasiado quente, tambl!m albergava seres humanos. Roger Bacon, que Pierre D'AiJly copiou rrequentemente palavra POr paIavra, abundou no mesmo sentido e postulon ainda a em­ [email protected] de uma terra habitalla, uma especie de prolongamento da China, a bern pequena distancia de Espanha. Hii, pois, uma. estreita rela~ao entre a [email protected] piolomaica, as especula~5es escolAsticas e a descoberta da Ame­ rica.

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gues. Foi a Leao X· que 0 Italiano Pietro Martire, criadcr da expresssc «Novo Mundo», dedicou as sues Decades de orbe /lOl'O, publicadas a par­ tir de 1511, que silo ainda hcje uma rome fundamental para 0 conheci­ mento dos principies da penetraeao europeia na America. 0 Dome de S. Francisco Xavier· simbcliza redo 0 interesse que a Igreia romana dedicou no seculo XVI as regi5es longfnquas recentemente dominadas pdos Buropeus.

Mas as grandes viagens mariLimas so puderam realizar-se mediante o concurso de muitas outras causas e circunstAncias que vieram reforcar



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o estado de espiritc criado pela atraccao do longfnquc, pela miragem das lendas e pe10 recrudescimenlo do interesse pela geografia grega. Mais adiante vcltaremca a falar de certos progressos tecnicos que, todavia, e necessaria mencionar desde ji: a associacao da agulha magnetica com a carta de marear; 0 aperfenoamenw do calculo da latitude; a eonseucac (cerca de 1420) da caravela, que podia navegar contra ventos contrarios; a descoberta __especialmente pelcs Porlugueses - dos auseos e doe ven­ tos que permitem coatarnar a Africa: cis outros tantos proleg6meno3 das c:xpedil;oes de Colombo e do Gama. Ora tais progressos deram-se na altura em que a Europa sofria de uma crescente necessidade de ouro, prata, especiarias, perfume~ e drogas. A guerra era cada vez mais dis­ pendiosa per causa dos mercenaries e da artilharia- E, por oulro lado, a civiliz.al;ao ocidental era cade vez mais Iuxuosa. Sofria, porem, de uma carencta cronica de metais precio30s, e dai 0 deseic de alcanl;ar esses palses Iabulcsos chamados Orir, Eldorado e Catai. A necessidade de especianas s explica-se iacilmente. A a!.irnental;3.0 dessa epoca era muuc monetona. Para lhe dar alguma variedade, 0 cozinheiro s6 dispunha da arte dos mo!hos. As drogas e perfumes eram muito usadcs nas cenmcntas religiosas, na Iarmacopeia. na luta de cada dia contra os maus cheiros e as epidemias. portanto, a Europa pedia ao Oriente nao so a pimenta mas tambelll 0 crave de girofie, a canela, a ncz moscada, a caorora, 0 incense, etc., rude produtos existenles, principalmente, na India, no Ceilio, nas ilhas da Sonda e nas Molucas. Havia muito tempo que chegavam ao Ocidente pelo Mar Vermelho e pelo Egipto (ou pela Siria). Em Alexandria e em Tripolis, barcos venezianos, e tambem de Franl;B, da Catalunha, da Ragusa e de Ancona carregavam as preciosas mercadorias. No rjm do seculo XV, os Portugueses pensaram que seria mail> vantajoSQ evitar tais intermediArios e ir pessoalmente aos locais de prodUl;3.o. De resto, contornando a Africa, escapariam as ameal;aS turcas, que enxameavam nas vias comerciais do prollimo Oriente. Mas a expansao europeia nao teve unicamente motivos materiiuS. Os Portugueses procuravam derrotar 0 mundo mUl;ulmano com 0 auxllio da Eti6pia, ja identificada como 0 teino do Preste low, da mesma maneira como S. Lws e Inocencio IY procuraram a alianl;a e a conversao do Grande ca. Nao roi por aeasO que Isabel deu a Colombo 0 tilulo de almif'd.nle e 0 nomeou vice-rei das terras que descobrisse (17 de Abril de 1492) menos de quatro meses depois da conquista de Gl1lnada (2 de Janeiro). Os Espanh6is, de facto, tinharn a impressao de polIer continuar alem-mar a rerorlquisla, jil. condufda nil Europa. Rom a, pur seu lado, acompanhou de muito perlO os grandes empreendimentos ultramarinos Aos Europeus. Em 1493 veio a publi.:o urn extracto do diArio da primeirar viagem de Colombo. 0 papa, ne IIle&mO ano, foi chamado a estabeleee. urn proiecto de limite entre os nevos imperios coloniais espanhol e portu­

*

Vma vez dcbrado per Bartolomeu Dias, em 1487, 0 Cabo da Boa Esperanca, 0 caminho maritime para a india e para 0 Extreme Oriente estava aberto aos Portugueses, A viagem des quatro navies de Vasco da Gama a Calecut data de 1497-1498. Em Marco de 1500 saiu de Lisboa para a india, sob 0 comando de Cabral e, urna frota, composta ]1 de treze barcos; em 1501, 0 rei de Portugal, Manuel, 0 venturcsc, inaugurou a pratica das viagens martnmas anuais ao Oriente. Os Pcrtuguesea des­ cobriram Madagascar em 1501, construfram 0 seu primeiro forte na india, em Cochim, em 1503, lnstataram-ee comercial e militarmente na costa oriental da Afri.:a -em Sofala, Qu!loa, Mombace e Mocambique entre 1505 e 1507. Ocuparam Goa em 1510, fazcndo dela a capital do c-.

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estava a comecar. Pois, de facto, e muito antes da Peste Negra, uma verdadeira ertse de tome se abateu em 1315-1317 sobre a Inglaterra, a Franca Setentrional, a Plandres, a Alemanha e a Dinamarca. Parece 'ter srdo a partir de entao que a conjuntura se modificou em grande parte da Europa. Os anos de Iome parecern lee side mais numerosos no resto do secure XIV c no seculo XV do que no seculo XIII. Em IngJaterra, apenaa na primeira metade do seculo XIV, conta-se otto «colheitas muito mliJ;lI em comparacac com as quatro de todo 0 seculo XU!. Em Orvieto, a Peste Negra atingiu em 1348 uma populacac la enfraquecida per ires anos de chuvas e de tome. Ainda em Italia, e no Sui da Prance, houve em 1374-1375 urna grande fome. As carencias imperamm em 1409, 1416-1417, 1437.1439, 1455-1458, 1477-1483 e 1487-1493 na Flandres, no Artois, no Hainaut e na regiiio de Cambresis. Assim, a conjuntura econcunca dos anos 1320-1450, que a prime ira vista poderia parecer caracterizade pela baixa da prcaucao de metais precioscs, foi tambem, igualmente, senao rcesmo mais, deterrmnada por uma profunda quebra demografica. E razoavel admitir que, durante 0 seculo XIV, a populaeao europeia diminuiu urn terce. Nao e, pois, de espantar que, apesar de subidas hrutais mas breves, per ocasiao das femes, os precos dos cereals tcnham mostradc persistente rendencta para baixar. Pois nso havia menos bocas a aumeruar, e, portanto, uma pre­ cura menor? Dal, por exemplc na Alemanha. uma importanle e.mi,­ gra~lio rural para as cidades; daJ, na lnglaterra, a acelera~lio do movi­ mento das enclosures ('), aproveitando-se os grandes proprietarios da fra­ quem econ6mica e fisica dos camponeses para dar aos cameiros, ..devo­ radores de homenSll, as terras retiradas ao cultivo de cereals.

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Ora esle penoda, que conheceu tanw infelicidades e se parece com um fragmento do Apocalipse, viu nascer e Uorescer 0 humanismo, dess· brochar e espalhar-se a arte do Renasdmento. A Peste Negra gerou q Deeameron. Em 1428, Masacdo, 0 primeiro grande pintor do Renas-­ cimenlo italiano, ja tinba morrido. Brunelleschi, arquitecto genial. con­ cluiria em 1434 a cupula de Sanl.a Maria del Fiore. A encantadota ca' d'Oro de Veneza data da primeira metade do stcula XV. Dir-se-A que e uma regi1i.o privilegiada e que a ItAlili escapou a. depressoo mais que qualquer oulro pais da EurOpa - afirma~1i.o que, de facto. e geralmente aeeite. Mas a retabulo do Cordeiro Mf:rrko. a maravilha de Gand, foi pintado pelos Van Eyck enlre 1413 e 1432. E 0 secu10 XV e a. idade de Duro da pintura namenga. Quem admirar na Hofburg de Viena 09 sumptuosos paramentos sacerdolais utilizados no seculo XV. na corte

(') Em inph no original. Terrenos cercados. (/'l. tlD T.)

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de Borgonha, para as cenmcnias da ordem do Tosao de Ouro interrogil-se como tanta nqueza pode coexistir com tanta miserta. Em Prance, foi num periodo bern sombrio - entre 1380 e 1420- que foram feita!! essas iluminuras deslumbrantes que se chamam Livre de fa Chane. de Gaston Phebus, Tres belles heurrs de Notre-Dame, Tr'3 riches heures du due de Berry. 'jeremos de conduir, com C. Cipolla e E. Kominsky, que nenhuma depressao economica afectou verdadeiramente a epoce do Renascimento? Ou, bern pelo conlr.trio, com R. Lopez, que ..0 dinheiro dirige-se para a arte quando se estrcitam as saldas eccncmicassj Bste mesmo auror asse­ vera que os uranos rtafianos de Trecemo e de Quattrocento construtram igrejas e palacios para reabsorver as massas de desempregados. Claro que seria enado ligar aprfonsucamente 0 desenvclvimento econ6m.ico ao ncresctrcemo artistico. Mas e precise, principalmente, evitar fechar 0 oomplexa destine da humanidade nas categorias excessivamente rfgidas da contraccao e da expansac economicas, Em penodos de recessao, a analise identifica sectores e rnomentos privilegiados. Podem aparecer 10­ calmente sinais de prosperidade que eorrijam, pelo menos parcialmente, a accao dos factures depressives. 0 historiador, mesmo quando detecta grandee tendencias gerais, deve, pois, ter em con ta, principalmenle »esse perfodo. as orfgfnalidades regionais. Assun. a industria thtil do Brabante conheceu. nos primeiros decenios do seculo XV, urn aumento de acti· vidade e exportou substancialmenle para 0 centro da Europa. Assim tarnbl:m a planfcie do P6, melhor drenada, parece ter sido mais riea depois de 1350 que anletiormente. Quanta a Veneza, nada prova que tcnha passado. nos geculos XIV e XV, por um longo periodo de reces­ sao. Em Floren~a, se e verdade que a industria de paoos loi duramenle atingida depois da Peste Negra, a indWitria da seda, pelo contrario, conhe­ ceu urn bel0 incremento. Continua a ser exacto que as exportalYOes de Iii inglesa baixaram depois de 1350. Mas a industria thtil desenvolveu-se alem-Mancha e a Inglaterra exportou em 1480 62500 panos, tendo ex­ portado apenas 27700 em 1400. Mais ainda: Londres· loi atingida no seculo XV por onze pestes, mas os numeros provam que 56 uma delas teve incid~ncias na saida de panos pelo seu porto. Quanto ao recuo dos cereais numa boa parte da Europa, e verdade que provocou 0 aumento das pa_~lagens; mas tambl:m provocou maior cultivo de plantas industriais: Iinho, cAnhamo, lupulo, plantas oleaginosas, pastel e garan~a. E certo que a industria rural sentiu nessa ocasiiio progressos not6rios nos Palses Baixos. no Oeste da Franca e no Sui da Alemanha: dai 0 desenvolvi­ mento dos panos de linho e de cAnhamo nas ,dUllS primeiras de5SlLS regi6e!! e dos fustoes na lerceira. Enfim, e principalmente, 0 rlIpido despovoa­ m~nto acarretou, de urn modo gerat, urn importante aumenlo dos salarios, PQIS a mao-de-ohra escasseava. Muitos hisloriildores pensam, por isso, que o rendimento individual medio aumentou em grande parte da Europa dePQis de meados do secu10 XIV. A depressio econ6mica teria tido

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; da fonte dos Inocentes (1549) t!m a plenitude carnal, a finurn e 0 a_vontade das obms grega:>. Os seus trajes molbados fazern lembrar os da Acr6pole. Na mesma

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epoca, Philibert de L'Orme ", trabalhando no palacio de Anet, ergue 0 ramose portico, urn cos pnmeiros exemplos Irancescs das Ires ordens anti­ gas em scbreposieao. deturo de pouco tempo este exemplo sera seguido no palacio de Assezat de Toulouse (l555-l560). Philibert de L'Orme e tarn­ bern autor do tumulo de Francisco I (1552) em Saint-Denis, monumenlo uo qual se disse, com justeza, que era mais greco-romano que italiano. De facto, tern a forma de urn arco de triunfo antigo. As Iinhas da arqui­ tecrura dominam nele, rigorosamente, a composicac e 0 artista aplieou estritamente 0 sistema modular des Antigos. 0 apogeu deere elassicismo arquitectonico do seculo XVI frances e alcancado com a facbada do novo Lcuvre v; nela trabalharam Pierre Lescot e Jean Goujon ". Eo urn verdadeiro manifesto: todos os pormenores sao antigos, mas ainda mais o e 0 esptrito, isto e, a opr;ao pela simetria, a rejeicao das excresceneias, a sabia graduacjlo, desdc a s6bria base ate a ordem atica, interrompida pelo grande rrontao encurvado, os efcitos de relevo e de c1aro-escuro, 0 rigoroso calcuro das croporcses. Esta-se ja longe da fantasia iralianizante dc Fontainebleau. Como a Anuguidade foi melhor conhecida a partir do seeulo XVI, o curse da hist6ria cultural e artfstica da Europa modificou-se. A sere­ nidade do Apolo do Belvedere influenciou Rafael e todcs os que 0 imi­ taram: e a hipcrtrofia muscular c 0 movirnento dramancc do Loocoonte foram uma revetaeao para Miguel Angelo, cuja obra se explica, a partir de 1506, em parte, com essa descoberta. A pmtura eseult6rica de urn Macrten Van Heemskerck, que, com certo exagero, foi ja cogncminadc de «Miguel Angelo do Norte», e muitas outras obras cheias de violencia, atormentadas, do perfodc barroco, derivam, de certo modo, do Laocoorue. e. tam bern a arte helcnfstica que, provavelmente, se rem de Iigar a «Iinha serpentinas e 0 alongamento de formes que caractenzam a estetiea manectsra de Parmesao, de Correggto ", de Cellini, da eseota de Fon­ taincbleau • e do Greco. As consideravels dimens5es des rurnas da Roma imperial impressionaram Bramante, Rafael, Miguel Angelo e, mats tarde, Domenico Fontana, arquitecto de Sisto V: dal 0 estilo monumental, quase colossal, do Renascimento romano e, depois, da arte barroca euro­ peia em geral, por oposio;ao a discricao, mais anca, do Renasei­ mente ftorentino. Tambem a poesia e a musica foram marcadas pelo novo favor concedldo a civilizacao greco-romana. Os poetas do seculo XVI, espectalmente em Franca, procuraram subrneter os seus versos, mesmo aqueles que escreviam em lingua vulgar, a «medida a anliga». Esie ritmo rcpercutiu-se tambem na musica, pais Ronsard queria que as suas odes fos­ sem cantadas, como as de Anacreonte ou de Pindaro. A 6pera italiana, que encontrou a sua f6rmula com Monleverdi·, no infcio do seculo XVII, nasceu das pesquisas conjugadas de humanistas, musicos e poetas, dese· josos dc ressuscitar 0 teatro antigo por meio da mUsica. 0 canto «n::pn::­ sentativoll. islo e, 0 canto dramatico, evocava, para des, a voz acompa­ nhada a lira da antiga Grecia.

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*

A adrniracac pe1a Antiguidade teve os seus exageros, tngenuidadea e iniusti~as. uoccecio. ao reneaar aos quarerna ancs a obra de [uven­ passar a escrever apenas em laLim, e este exemplo foi tude, seguido per muitos hurnamstas italianos e transetpincs - de Leonardo trOU Bruni a Brasrno. Uma ob~er"acno cuidada demons que hi poemas inteitos de poliziano farmadas pot cita¢les latwas. Na Prance do se­ culo XVI ji V. L. SauLnier pode identificar mais de setecentos poetes laLinos. E e conhecloc 0 inquielante aviso de Ronsard no inicio da

re~O\veu

Franciade:

as Pranceses que meUS versos lerem Se niio forem Gregm nem RomMOS, Em vel deste livro teriio Um pesado [arda entre moos... (')

Nao s6 tor am represenladas em Ferrara, Bordeus e Oxford pecas de Plauto e de Terencio como na !nglaterra isabe1ina bouve grande entusiasmo pelas tragedies de Seneca; a sua influencia no teatro " inglfs anterior a Shakespeare Ioi consider3.vel. Esses tragedias nao rinham side concebides para 0 palco: a eccao e nula e a Hnguagem e uemasiadc enf:Hica, mas tanlo 0 publico como os autores do seculo XV! eram sensl­ 'leis ~ grandiloquencia do discurw, a alrocidade dos assuntos. Apreciavam a parte que nessas tragedias cabia aos crimes monstruOSos e as vinganlJU implacaveis. A exaltacao da Antiguidade e 0 correspondente desprezo petas realizac a eta posteriores tornatam, por vezes, um aspecto que DOS lks oes espanta hoje. Montaigne escrevia em 1581 que «as construc desta Roma bastarda, que nessa altura iam sendo acrescentadas aquelas rufnas antigas, embora tivesseIJl com que suscitar a admirac ao dos nosses pre-­ sentes seculos, mais faziam lembrar os ninhos que pardais e gmthas vilo em FranCa pendurando nas ab6badas e paredes das igreias acabadas de demolir pelos hugueno teSll. oes. N1io nos deixemos, porem, enganar por tais afirroac A Europa do Renascimento, tomada em conjunto, nlio abdicou perante a Antigui.­ dade. Tradic vigorosas se op~ram ao seu completo triunfo. a famOSO oes Esque!eto de Ligier Richier, de Bar-Ie-Duc (1547). que renoVD. 0 tema. o medieval do dransido~, e, com diferenca de apenas dais anos, do mesm tempo que a fonte dos Inocenles. Em plena seculo XVII continuava-IC em Franca e na BeJgica a cobrir igrejas com ogivas cnuadas. Apesat petas da estetica de Vitruvio, os Alemaes obstinaram-se na

predil~ilo

(') No Oliginal: «Les Frani;ois qui mes .,en Iiront I S'i.Is ne &Opt et Gred RomailU, I Au lieu de ce livre ils n'auropt I Qu'un peMnt falx entre II:s 1I1aiDs..

verncais. Al, como na Flandres, a familiar silhueta des casas alta" sofreu poucas transformacOes e foi facil colocar no sitio da cimalha em esca­ dinha urn Jroatao barroco com votutas. E que, na realidade, a Anti­ guidade - mesmo em Italia - 56 ern conhecida superficialmente. Leo­ nardo da Vinci e Miguel Angelo DAo eablem Iatim. Shakespeare, que leta multo mas sem plano, Itispircu-se, em muaas das suas pecas sotee a Antiguidade, em Plurarco, mas sem tenter reconstituir nas tragedias que compos os hAbit.os e costumes des Antigos. A cor local nilo lhe inte­ ressava. Quando, em lUlio Cesar, os mirones comecam per aclamar Brutus, 0 assasslno, para depois, manobrados por Antonius, rebentar em sctucos perante 0 cadaver do tirano assassinadc, nao e tanto a plebe rornana que esra a set evocada como a multidio versatil de todos os tempos. A insuficiencia da culture historica do Renescimento foi causa de eITO'i. Ficino foi menos plat6nico que: necotatonrco e nao viu tudo aquila que separava do pensemento do discfpulo de Socrates 0 de Plotino, de Prcclo e de Jamblico: ora, entre aquele e estes, havia mais de sets seculos. Ficino tambem iulgava que os Livros Hermeticos ", que dera a conhecer a Europa e taDto 8xito obtiverarn, encerravam sob forma esote­ tenca a preciosa sabedcria da antiga religiiio egfpcia. Oro, na reaudace, os Livros Hermelicos datam oa era crista. Nao e de admirar que sejam uma mistuca de ccncepczes neoplatcnicas, judaicas e egfpcias. Pico de Mirandola'" cometeu 0 menno erro a respeito do IV Livro de Esdrw. que em 'lao pediu A Igreja que integrasse na Bfblia. Tomou por obra do stculo V iWterior a Cristo urn livro manifestamente poslerior A I;on­ quisla de Jerusalem por Tito. a Renasclmenlo enganou-se, tarnbern, acerca de Diontsio, 0 Areopagita, visto que se atribuiu ao companheiro de Siio Paulo obms marcadas pelo neoplatortismo cuja primeira menr;ao conhe­ cida - em Constantinopla - data de 522. Em resumo, os humanistas (optimistas» bilsearam numa croDologia defeituosa urna das leses-mestras do Renascimento: aqueJa que afjrroava haver um fundo de verdade reli­ giOSa comum a todos 08 povos e que Caldeus, Persas. Gregos, Egipcios e Judew antigos tiDham possuldo os elementos essenciais da Revelacao. as homens dos steulos XV e XVI considcroram, portanto, a Antiguidade como urn todo. Nao deram suficiente atencao ao facto de eta ter durado mais de mil anos. E do mesmo modo ignoraram quase completamenle a arte da q,oca de .Pericles e a evolu~o das ordens. Para des, a escul­ tura antiga era a do perfodo helenfstico. Erros dificilmente evilavejsl Mas, por vezes, 0 Renascimento tratou a Antiguidade com excessiva ligeireza. Bromante, cognominado em Roma de llruinante~, niio leve escn1pulos. na reconstruo;ao da Igreja de S. Pedro, em deilar abaixo as 96 colunas corfntias da anuga basilica. Paulo 111., num breve de 1540, revogou todas as licencas para escavaCoes concedidas a particulares - mas para dar 0 seu rnonop61io a05 arquitectos e emprei­ teiI'Qs que trabalhavam em S. Pedro. Em 1562, «todas as placas de p6rfiro e OUlras ... , que havia na Igreja de Santo Adriano (na antiga CUria impe­

(N. do T.)

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, au nas meotcas das fachadas que nessas teras regras da natureza que dizem respeito A ccmodidade, aos uses e ao proveito des moradores». Assim, pete meres DOS grandes artistas do Renascimento, a imita~ da Antiguidade nunca foi servil. Ao vcltar de Roma, 'ttmoreuo » escreveu na parede da oficina: *0 desenho de Miguel Angelo, a cor de Tictanc.s n a cpcca caracrenza-se tanto pela exaitante ccnccrrenca das artes como pela imitacac da Antiguidade: Alberti dava a preemilJencia a arquitectura; Leonardo, ' d~ ilusao penpectiva. fez esfor~ c:spantosos. Leonardo, perem. inleressou-se mais especialmenle pela perspectiva a!rea, que pro­ cura reslituir as distllncias prill. grada9ao dos efe~tos luminosos - dessa luz que «anima 0 vazio do espaco, (. .. e) trabalba 0 objectoJ (A. Chaste!). Inventou 0 stumafO. 0 famo$O daeo-escuro, por rueio do ql13l as figums emersem de uma sombra vaporosa. Seguros do seu lalento e dos sellS processos, como e que os artisw do Renascimento nao ha.viaOl de fa:rer obra original? A8sim, Bramante, inspirando-se embora no Teatro de Marcelo e no SeptizotLium boje desa­ parecido, inoveu profundawente ao cealizar a altemAncia ritmada de pai­ [leis de largura desigl.lal, ao quebrar a Olonotonia das fachadas com a saliencia dos corpes avancados, ao acenluar os estil6batas, que sepamm os andares e aumentam a clareza arquiteet6n.ica. B tambem os programas nao eram ja os da Antiguidade. Agora havia que construiJ: igrejas, lan~ c1austros. decorar habita~Oes que oAo eram OOllcebidas como as doa Antigos. Em contrapartida, 1100 se fa.zia lerma5- Bramante teve de reali­ zar obra original Quando foi encan-egado por JUlio II de Jigar 0 Pall\cio do Vaticano' ao Belvedere por dois corredores paralelos com 300 metrOi de comprimento. Os Gregos e os Ramanos nao n05 legaram nenhuma obra q\le!'.e: compare com 0 Juiw Final de Miguel Angc:lo, que tern 17 metrm por 13, au com as 72 telas pintadas por Tmloretto p.ara a Scuola di San Rocco de Veneza. E nao redigiram nenhum liveo que se pareca com

as Ensaios de Montaiine. Tomemos cutro eJl'empJo: .humllnisrno e 50nClO sao praticamente inseparaveis. Ora 0 soneto, posto em vega por Petrarca e depois introdurido, no x-culo XVI, poe Mamt. em Franca, par Gar­ cilase de la Vega em Espanha, por Wyatt em Ingla1erra, nao e antigo, c de origem Haliana 01.1 tarvez provencal, Poltanto, temcs, apesar da COos­ lame referencia ace modelos antigos, uma cuHuta nova e uma arte nova no quacro de uma civilizacao profundamente original.

*

No final deste estucc, definamos em linhas gerais as varias reahza­ ~Oe:> do Renescuneneo no plano art!stico. Num primeiro tempo vru-se, em ltalia como aquem-Alpes, os anistas aceitar largamente as tradjr;5es tccats eneuaaro admiravam as cbras srecc-romenas. bizantinas e rornanaa aqui, actrcas ali, marilimas e ex6ticas em Pcrtugaf esses tradiC6es Iocels cram per elcs combinadas com elementos decorativos tetirados, princi_ rermeme, do vocabuU.rio antigo. Essa arte comp6sita teve muito eecantc e saber. Depois disso velo a mornento do purlsmc, que se pretenda pla­ tonico. 0 s artisms buscavam a estrurura metemauce da beleza. Essa estelica sobria, serena, harmoniosa, desabrochou naa obras de Leonardo, Rafael, Bramllnte, Philibert de L'Orme, Pierre Lescot, etc. MHs a estriea disciplina e a beleza maJlllorea nao podiam satjsfaz.er joleiramente uma tpoca inqujeta Que tantos Juizos Finais pintou. Miguel Angelo optou pelo movimeoto e pelo sobre-humano. Foi 0 inu1trapagsavel paeta do desmesurado. Ao fm·Jo, loi um des criadores da aete barroca, que tinha afej~ao ao gr:mdioso - dal 0 triunfalismo romano _, as vasCali compo_ sicoes, b aq:c.es heroicas, As atitudc:s dramaticas, ao usa da! diagooais.

Rafael e Miguel Angelo tivcidW, ambos, numerosos imJladores _ e a

alguns deles nao fa/tou taleato. 0 edeetismo dos irmiios Carracci".

que juntaram As li¢es de Rafael as de Miguc:l Angelo, deu ao lecto do

Palacio Famese de Roma uma compo,k.!io simuJtaneamente s6lida e

variada. Mas boje descobre_se que 0 seculo XVI eurQpeu fOl laI'Rameate

maneirista, POt «maneiristau devemos, principalmente, cnlender as arti!_

las r que quiseram escapar por uma «maneiraJ muito pessoal, por UlD estilo

p 6pejo de cada urn -assim JlCnsaV-d Vasaci_, ao dOminio dos gigantes da aete. Com as mandristas triunram um anticlassicismo e Ulna estetica Que se afastam resolutammte da natUte:ra c: do Ilatuzal. Dat a qualifica_ cao de «amaneirndaJ durante muito tempo aposta a esta aete QUe pro­ Cllrava a originafidade a todo 0 custo e que tanto b;ilo teve nas cortes requintadas e preciosas de Manlua, de Fontainoebleau e de Prasa. Os ma~ neirislas· Quisc:ram causar e~nto com 0 sobrecarregado da decoracao - scorno ll1lio Romano no Palazzo del Te, em Mantua _, com a escolhil do agsuntos, audaciosamente sensuais com Spmngler e resolutameote e.~tlllnfIos cum Antoine Caron. Usavam cores acidas e gostavam de fundos negros. Seguindo Parmigiano, lliongaram as formas de urn mOdo iIlespe­

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rado e mosrrararn urn gosto pronundado pelas cesprororcces - recorde­ mas 0 CriJIO na Cruz de Cellini, no Escorial, uma Anunci~do de Brcn­ zmo, as Iiguras caracteristicas do Greco·. Nos flOSSOS dias ha urna ten­ dencia, ow desLilulda de fundamenta, para 'o'er no Maneirismo urna das cuneosees essenciais do seculo XVI no periodo que precedeu a vitcria do Barraco. No plano de. psicologia zctecnva, 0 Maneirismo aparece como testemunho de uma epuca que em todos as dominics se atastava des ensinamentos Iradieionais e buscava a scu caminho em muuas drreccoes. o Maneirismo exprimiu a sede de -enovacac de urn seculo que nao encon­ rrara ainda 0 equilibria e se mostra, na analise, tao rico e tao diverso que DaO se consegue nxa-io de modo satisfal6rio. E per isso Que, tratando-se de uma epoca Iiia Iecunda, todas as da~siricar;oes sao rormas e artificiais. Tambetn e preciso dar lugar espe­ cial a pintura veneziana. Por voila de 1500, veneza era ainda uma cidade gotica. 0 Renascimenta so la brilhou verdadeiramenle com 0 palacio Vendrarnino, que e de 1509. Do mesmo modo a pmtura veneziana, depcis da gera~ao dos precursores, des quais 0 mais notave! e Giovanni Bellini, levanta voo com Ticiano, que domina toda a primeira metade do se­ culo XVI e chega, no fim da carreira, a uma tecnica cease impressionista. Mas a pintura veneziana brilha depots, com novo esplendor, na obra de Tintoretto e de veronese •. A arte europeia deve Imensememe a veneza. Rubens, pcussin, Vehizqucz, Watteau e De1aeroix, para citar apenas alguns nomes, consideraram Ticiano como 0 meslre por excelencia, aquele que soube dar A pintura a oleo a sua verdadeira dimensao e a sua prestigiosa voca~ao. Os pintores venezianos preferiram a cor a linba; deram a pintura maior nexibilidade e maior intensidade luminosa. Mas, por volta de 1600, viveu em ItAlia um artista isolado que faria eseola: Caca­ vaggio •. Desdenhava da Antiguidade, reagiu contra todas as convem;oes, esforc;ou-se por uma pinlura ilnaturab e por vezes brutalmente realista. Ao s!umalO de Leonardo optls os violenlos contrastes entre a sombra e a luz. Os «iluministas» de Fran~a e dos Paises Baixos imitaram a sua. mane ira. Assim, neste principio do seculo XVII, a pinlura e, mais geralmente, todas as artes chegam na Europa a plena maturidade e a perfeita faciIi­ dade tecnica. Os artistas podem fazer tudo 0 que quiserem. E devem isso rnais a ItAlia que A Antiguidade. Na epoca eJJl que uma Europa dinamica procurava os meios da sua renova~ao, a ItAlia trouxe a possi­ bilidade de urn rejuvenescimento muito mais radical que aque1e que poderia ser dado pela arte g6tica - apesar das reservas de seiva e de vigor que ela ainda po~ula. 0 esplendor da riquem italiana contribuiu para 0 lriunfo da estetico. now. Foram artistas vindos da peninsula que' por toda a parte espalharam 0 ne..... look (') art1stico. A primeira fachada

renascennsta de Fran...a - a do Palacio de Gaillon - foi obra de uma oficina de escuuores Iranco-italiancs. E e conhecida a importancia que, a partir dos anos uinta do seculc XVI, teve a «escctae fundada em Fon­ ratnebleau per RO.%l) e pelc Primarrcic, que aclimataram 0 Maneirismo em Franca. Em Ingfaterra. as formulas da arse nova foram mtroduzidas por urn florentine, Tcmgiano, auror do Iumulo de Henrique Vll em Westminster. Nos Paiscs Baixos, se Bruegel, 0 velbc ", desenhador e paisaglsra sem par. se inspircu pouco em modelos italianos e nao quis representar nus. e, assim, por uma promopio da leologia, cujos fundamentos rudimemares, pelo menus, ti!lham doravante de ser conhecidos das massas. Antes da Reforma, 0 clero insi~ia principalmente oa moral, mas, aD que parece, com potJ(:U hito. A partir do secuJo XVI os renuvadores da Crislandade utilizaram a tactica in...ersa, tipicamente lulerana: rcstauraram a teologia, da qual dcvia cmanar a moral. Lutero e Calvino, Bucet, refonnador de Estrasburgo. e Bullinger, ,;;uceSSQr de Zwingli em Zurique, redigirarn catecismos. Pia IV, pur loeU lado. mandou preparar a pUblica"ao do Catecismo Romano, sIntese mais Que outrora it alen~ao dos responsa...eis pela Igreja. No interior desla. os leigos passaram a ucupar - e dentm ern POueo exigiam-no - urn lugar cada vel mais importante. o ronsldernvel ()apel enta~ desempenhado pelas confrarj,as e revelador neste a..~peclo. 0 seu desen"'olvimeoto, que se acentuou nos seculos XIV e XV, tOInOU foms de fenomeno europeu. Ora, nessas confrarias, c1~rigos e leigos estavam as.'lociados: padres presidiam a vida - e aos banqUele5­ da pia associapiio~ deixavarn assim de ser .holllens de casta it parle.,

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Esea mesrna obsel'1la~iio e valida quanta aos pequenos grupos de edifi­ cal;do que, com a nome de «Amigm de Deus», flcresceram na Reniinia no secure XIV. Clerigos e leigos, estrcitamente unidos, tremavam-se a1 na pr fV' Floren,~ ..­ .

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'.... N~ tD. Faucher). Ao con­ trario, nos paisrs de campo aberto, nao so os contratos rram - rxccp· tuando a Flandres - de curta dUfrlo;:ao. de modo qur os rendeiros nao tin ham interesse em aperfeio;oar a tecnica de cuJti.. . o. mas tam hem 0 sistema era demasiado apertado. Os carnponeses qne praticasscm 0 mesmo cultivo tin ham de ~emrar com as mesmos cereais em cada ano e tinham de deixar as lrrras de pousio .10 mesmo tempo. Finalmente. a paslagem salta impedia-os de cercar as terras, r contra isto tentou rragir 0 rei de Inglaterra. Mas, ainda mais grave que eslas obriga
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