Cultivando a Santidade - Joel Beeke.pdf

March 6, 2019 | Author: Andre Muzzi | Category: Justification (Theology), Saint, Faith, Purgatory, Sin
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J. C. Ryle e Joel Beeke EDITORA

OS PURIT PURITANOS ANOS

Cultiv ando a Santidade Santidade  Au  A u t o r es : J. C. Ryle e Joel Beeke Primeiro Primeiro Edição Edição - Junh o de 20 2000

É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação, sem autorização por escrito dos editores, exceto citações em resenhas. Editor Respons Respons ável: ável: Manoel Sales Canuto Revisão: Emir e Alaíde Bermeguy Tradução: Manoel Sales Canuto e Eurico Correia Projeto Gráfico: Heraldo F. de Almeida Impressão e Distribuição: Facioli Gráfica e Editora Ltda.

Fone/Fax: 11 -6957-5111 Projeto Os Puritanos

Órgão de Divulgação da Fé Reformada Recife:

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Pr

e f á c io

Os puritanos foram chamados de os teólogos da santificação. E não foi sem razão que assim fossem chamados. Eles viam, como Calvino, que o propósito de Deus para o crente, durante toda a vida, era a santificação (I Ts 4.3; I Pe 1.15). O grande teólogo puritano e chamado de “Príncipe dos Puritanos”, John Owen, disse: “A san tificaç ão é um a obr a ime dia ta do Espírito Santo de Deus nas almas dos crentes, purificando e expurgando de sua natureza a poluição e a impureza do peca do , renovando neles a imagem de Deus, e, por meio disto, capacitando-os a prestarem obe diên cia a Deus, obra essa ba sea d a em um princípio espiritual e habitual da graça,... Ou, mais abreviadamente, é a renovação da natureza humana pelo Espírito Santo, segundo a imagem de Deus, por meio de Jesus Cristo. Segue-se, pois, que a nossa santida de, que é o fruto e o efeito d essa o bra...no que con cern e a renovada...imagem de Deus operada em nós, consiste em uma santa ob ediên cia a Deus, p ó rm eio de Jesus Cristo, de a cord o com os termos do pa cto da gra ça ”.

Devemos nos lembrar que o Espírito Santo age em nós com aquilo que a Palavra primeiramente requer de nós, e o nosso crescimento em santidade está de conformidade com esta Palavra, sendo nosso crescimento progressivo e por toda vida. Quando falamos de santidade, não podemos esquecer que é um dom de Deus, mas é também um dever exigido por Deus ao homem. Por isso, aquele que quiser ser santo deve ter a devida consideração pela Lei do Senhor, sempre sendo encorajado em saber que existem promessas do Senhor de que forças virão dEle para guardarmos essa Lei, por meio de Jesus Cristo. Nós necessitamos de orar, pedindo ajuda para o combate da fé e para o exercício espiritual. Para obtermos santidade, precisamos usar os meios de graça de forma ativa, permanente,

orando, vigiando, lendo a Palavra e ouvindo-a, meditando, sempre lembrando que o poder vem de Deus e não de nós mesmos, caso contrário fracassaremos. Por isso John Owen disse: "A verdadeiro ajuda, a assistência e operação do Espírito de Deus, é  nec essáría...para a produção de c ada ato santo...”.

A santificação tem um aspecto duplo. A vivificação que é o lado positivo, e a mortificação que é o lado negativo. A santificação é o crescimento e o amadurecimento do novo homem, e a mortificação   é o enfraquecimento e o golpe mortal do velho homem. Devemos ser santos, porque sem santidade, na terra nunca estaremos preparados para gozar do céu. O céu é um lugar santo.  J.C. Ryle pergunta: "Imagine, só por uns instantes, que sem santidade te fosse permitido entrar no céu. O que farias? Que  p razeresp od eria dar-te o céu? Que com pan hia de santos buscaria s e a o l a d o d e q u e m s e n ta r ia s ? S e u s p r a z e r e s n ã o s ã o teu s  p razeres...seu caráter n ão é teu caráter. Se n ão tens sid o santo na terra, po d eria s se r feliz no céu?”.

A Igreja Católica só faz santos aqueles que morreram, mas as Escrituras exigem santidade dos vivos. “Que ninguém se engane", nos diz Owen, “a san tificação é um requisito nec essário e indispensável de todos aqueles que desejam submeter-se ã  conduta de Cristo para a salvação. Os que vão ao céu são  precisam en te aqu eles que têm sid o santificados sobre a terra. Esta C abeça viva nã o adm ite m embros mortos”.

Neste livro, dois servos de Deus, um do passado e o outro contemporâneo, J.C. Ryle e Joel Beeke, conclamam os crentes a que lutem, busquem e cultivem a santidade sem a qual ninguém verá a Deus. A igreja de hoje está envolvida com o mundo, paganizada, quando Deus nos chama à “separação”: “Não ameis o mundo!”.

Que Deus use este livro para despertar os cristãos a uma vida dependente de Deus, uma vida comprometida com Cristo, e guiada pelo Espírito Santo - uma vida santa, separada do mundo para Cristo. O Editor 

A Sa

n t if ic a ç ã o

 J. C. Ryle

 João 17:17; I Ts.4:3 A Santificação é um tema que muitas pessoas aborrecem em alto grau; algumas o evitam com desdém, pois o que menos lhes agradaria era ser “santos” ou “santificados”. No entanto, o tema não merece ser considerado desse modo. A santificação não é um inimi go nosso, mas um amigo. É um tema de suma importância para nossas almas. Segun do a Bíblia, a menos que sejamos santos não podemos ser salvos. Claramente nos indicam as Escrituras que há três coisas que são absolutamente necessárias à salvação: a justificação, a regeneração e a santificação. Estas três devem coincidir em cada filho de Deus; cada um deles tem nascido de novo, tem sido justificado e santifica do. Se em uma pessoa falta alguma destas coisas, com fundamento podemos dizer que não é verdadeiramente cristã aos olhos de Deus, e se morrer em tais condições não irá ao céu, nem será glorificado no último dia. A consideração deste tema é muito apropriada e oportuna nos nossos dias. Ultimamente tem surgido doutrinas muito estra nhas sobre santificação. Alguns parecem confundi-la com a justifi cação; outros a desmerecem reduzindo-a a insignificância sob um pretendido zelo pela graça soberana, e praticamente a esquecem; outros estão tão cheios de temor de fazer das “obras” parte da justifi cação, que não há lugar algum para as “obras” em sua confissão reli giosa; outros tem feito uma norma equivocada da santificação e por ela vão de igreja em igreja, mas fracassam em seus intentos de vivêlas na prática. Podemos nos beneficiar muito em meio a esta confu são, por uma análise abalizada e bíblica desta grande doutrina da fé cristã. J. C. Ryle

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I

A SANTIFICAÇÃO

O que quer dizer a Bíblia quando fala de uma pessoa san tificada? Para responder a esta pergunta diremos que santificação é aquele obra espiritual interna que o Senhor Jesus opera através do Espírito Santo naquele que tem sido chamado para ser um ver dadeiro crente. O Senhor Jesus não só lava-o de seus pecados com Seu sangue, mas também o separa  de seu amor natural ao pecado e ao mundo, e põe um novo princípio em seu coração, que o faz apto para o desenvolvimento de uma vida piedosa. Para efetuar esta obra o Espírito Santo se serve, geralmente, da Pâlavra de Deus, e algumas vezes usa de aflições e das visitações providenciais “sem a Palavra” (I Pedro 3:1). A pessoa que experimenta esta ação de Cristo através do Seu Espírito, é uma pessoa “santificada”. Aquele que pensa que Cristo viveu, morreu e ressuscitou para obter somente a justificação e o perdão dos pecados do seu povo, tem muito que aprender; e está desonrando a nosso bendito Senhor, pois relega sua obra salvadora a um plano secundário. O Senhor Jesus tem tomado sobre Si todas as necessidades do seu povo; não só os tem livrado, com Sua morte, da culpa de seus pecados, mas que também, ao por em seus corações o Espírito Santo, os tem livrado do domínio do pecado. Não só  os justifica, mas também os santifica. Ele não só é sua “justiça”, mas também sua “santificação” (I Co.1:30). Consideremos o que a Bíblia diz: “E a fa v o r de les eu m e santifico a mim mesmo , pa ra que eles também sejam santificados na verdade”    (Jo.17:19); "...Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou po r ela pa ra que a san tificasse...” (Ef.5:25-26); “...o qual a si m esmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade, e purificar pa ra si mesm o um pov o exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt.2:14); "...carregando ele mesm o em seu corpo, so  bre o mad eiro, os nossos pecad os, pa ra que nós, mortos aos p e c a  dos, vivamos pa ra a ju stiça ” (I Pe.2:14); “...agora, po rém , vos re  conciliou no corpo da sua carne, m edian te a sua morte, para ap re

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 A S an t i f i c aç ão

sentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis...”

(Cl.1:22). O ensino destes versículos é bem claro: Cristo tomou sobre si, além da justificação, a santificação do seu povo. Ambas as coisas já estavam previstas e ordenadas naquele pacto perpé tuo de que Cristo é o Mediador. E em certo lugar da Escritura nos fala de Cristo como “o qu e sa n tifica”, e de Seu povo como “os que são santificados”  (Hebreus 2:11).

O tema que temos adiante é de uma importância tão vasta e profunda, que requer delimitações próprias, defesa, clareza e exatidão. Toda doutrina que é necessária para a salvação nunca é demasiadamente desenvolvida em sua amplitude nem pode ser suficientemente destacada. Para tirar a confusão doutrinária, que infelizmente tanto abunda entre os cristãos, e para deixar bem firmadas as verdades bíblicas sobre o tema que nos ocupa, darei a seguir uma série de proposições tiradas da Escritura, que são muito úteis para uma exata definição da natureza da santificação. 1. A sant i fi cação éo r esul t a d o d e um a uni ão v i t al com Cri st o.

Esta união se estabelece através da fé. “Quem perm an ece em m im, e eu, nele, e sse d á mu ito fru to...” (Jo.l5:5). A videira que não dá fruto não tem um ramos vivos. Ante os olhos de Deus, uma união com Cristo meramente formal e sem fruto, não tem valor algum. A fé que não revela uma influência santificadora no caráter do crente, não é melhor do que a fé dos demônios; é uma fé morta, não é um dom de Deus, não é   a fé dos eleitos. Onde não há vida santificada, não há fé real em Cristo. A verdadeira fé ope ra pelo amor, e é movida por um profundo sentimento de gratidão pela redenção. A verdadeira fé constrange o crente a viver para o Senhor e o faz sentir que tudo que possa fazer por Aquele que morreu por seus pecados não é suficiente. Aquele que muito foi perdoado, muito ama. O que tem sido limpo com Seu sangue, anda em luz. Qualquer que tem uma esperança viva e real em Cristo se purifica, como Ele também é limpo (Tg.2:17-20; Tt.lrl; G1.5:6; I Jo.l:7; 3:3). J. C. Ryle

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2. A san t i fi cação éo resu l t a do e co n seqüên ci a i n sep a r áv el da  r egen er a ção .

O que tem nascido de novo e tem sido feito uma nova criatu ra, tem recebido uma nova natureza e um novo princípio de vida. A pessoa que pensa ter sido regenerada e que, no entanto, vive uma vida mundana e de pecado, a si mesmo se engana; as Escrituras des cartam tal conceito de regeneração. Claramente nos diz João que o que tem nascido de Deus não vive pecando, ama a seu irmão, se guarda a si mesmo e vence o mundo (I Jo.2:29; 3:9-15; 5:4-18). Em outras palavras, se não há santificação, não há regeneração; se não se vive uma vida santa não há novo nascimento. Talvez para muitas mentes estas palavras sejam duras, porém sejam duras ou não, o certo é que constitui a simples verdade da Bíblia. Se nos diz a Bíblia que o que tem nascido de Deus “não vive na prática do peca do ; pois o que per m an ece n ele é a divina semente; ora, esse nã o po de viver   pecando, p orque é nascid o de D eu s” (I Jo.3:9).

3. A san t i f i cação const i t ui a úni ca ev i d ên ci a cer t a d e qu e o Espí-  ri t o Sant o mora no crent e.

A presença do Espírito Santo no crente é essencial para a salvação. “E se Alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é  dele” (Rm.8:9). O Espírito nunca está dormindo ou inativo na alma: sempre dá a conhecer sua presença pelos frutos que produz no cora ção, caráter e vida do crente. Nos diz Paulo: "O fru to do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelida de, man sidão, domínio próprio" (G1.5:22-23). Onde se encontram es

tas coisas, ali está o Espírito Santo; porém, onde não se vê estas coisas, é sinal de seguro de morte espiritual diante de Deus.

O vento é comparado ao Espírito, e como sucede com aque le, não podemos ver com os olhos da carne (naturais). Porém, da mesma maneira que conhecemos que há vento por sobre as ondas, as árvores e espalha a fumaça, assim podemos descobrir a presença do Espírito numa pessoa pelos efeitos que produz em sua vida e 12

 A S an t if ic aç ão

conduta. Não há sentido dizer que temos o Espírito, se não andamos também n’Ele (G1.5:25). podemos estar bem certos de que aqueles que não vivem de modo santo, não têm o Espírito santo. A santificação é o selo que o Espírito Santo imprime nos crentes. “Pois todos os qu e são guiados pe lo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm.8:14). 4. A sant i f i cação const i t ui a úni ca ev i d ên ci a cer t a da el ei ção d e  Deus.

Os nomes e número dos eleitos é um segredo que Deus, na Sua sabedoria não tem revelado ao homem. Não nos tem sido dado neste mundo o folhear o livro da vida para ver se nossos nomes se encontram nele. Porém há uma coisa plenamente clara no que a eleição consiste: os eleitos se conhecem e se distinguem por suas vidas santas. Expressamente as Escrituras nos dizem que eles são eleitos em “santificação do Espírito”  (I Pe.l:2). “...Deus vos esco lheu desde o princípio para salvação, pela santificação do Espíri to..." (II. Ts.2:13);“ “...também os predestinou p ar a serem conformes ã imagem de Seu Filho” (Rm.8:29); “...nos escolheu ne le antes d a fun  dação do mundo, para   sermos santos...” (Ef.l:4). Quando Paulo, vendo a “operosidad e d a vossa f é ” e a “abn ega ção do vosso amor” e a “firm eza da vossa espe ra n ça ” dos crentes de Tessalônica pode concluir: “...reconhecendo, irmãos, am ado s de Deus, a vossa eleiç ão ...”  (I Ts.1:3-4).

Se alguém se gloria de ser um eleito de Deus e, habitual mente e sabidamente, vive em pecado, na realidade se engana a si mesmo, e sua atitude vem a ser uma perversa injúria a Deus. Natu ralmente, é difícil conhecer o que uma pessoa é na realidade, pois muitos dos que apresentam aparência de religiosidade, no fundo não são mais que empedernidos hipócritas. De todo modo pode mos estar certos de que, se não há evidência de santificação, não há eleição para a salvação; como ensina nosso catecismo, o Espíri to Santo “santifica a todo o povo eleito de Deus”. J. C. Ryle

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5. A san t i f i cação éal go q u e sem p r e se d esej a ver. “...cada árvore é conh ecida p elo seu próprio fruto” (Lc.6:44).

Tão genuína pode ser a humildade do crente verdadeiramente santi ficado que pode em si mesmo não ver mais que enfermidade e defei to; é igual a Moisés quando desceu do monte e não pode dar-se conta de que seu rosto resplandecia. Como os justos no dia do juízo final, o crente verdadeiramente santificado crerá que não há nada nele que o faça merecedor dos elogios de seu Mestre: “Senhor, quando fo i que te vimos com fom e e te demo s de comer?’’ (Mt.25:37). Se vê ou não vê, a verdade é que os outros sempre verão nele um tom, um sabor, um caráter e um hábito de vida completamente distinto dos demais homens. O mero supor que uma pessoa pode ser “santa” sem uma vida e obras que o demonstrem seria um absurdo, um dispara te. Uma luz pode ser muito débil, porém em uma habitação escura se verá. A vida de uma pessoa pode ser muito exígua, porém ainda assim se verá o débil bater do seu pulso. O mesmo sucede com uma pessoa santificada: sua santificação será algo que se verá e se fará sentir, mesmo que algumas vezes a mesma não se faça notada. Um “santo” em que só se pode ver mundanismo e pecado, é uma espécie de “mostro” que não se conhece na Bíblia. 6. A Sant i f i cação éal go p el o qu e o cr ent e érespo nsáv el .

Aqui não me entenda mal. Defendo firmemente que todo ho mem é responsável diante de Deus; no dia do juízo os que se perdem não terão desculpa alguma; todo homem tem poder para “perder sua própria alma” (Mt.l6:26). Porém defendo também que os crentes são responsáveis - e de uma maneira eminente e peculiar - de viver uma vida santa; esta obrigação pesa sobre eles. Os crentes não são como as demais pessoas - mortas espiritualmente - mas que estão vivas para Deus, e têm luz, conhecimento e um novo princípio neles. Se não vivem vidas santas, de quem é a culpa? A quem podem culpar senão a eles mesmos? Deus lhes tem dado graça e lhes tem dado uma nova natureza e um novo coração; não têm pois, desculpas para não viver para o Seu louvor. Este é um ponto que se esquece com muita fre 14

 A San t if i c aç ão

qüência. A pessoa que professa ser cristã, porém adota uma atitude passiva e se contenta com um grau de santificação muito pobre - se é que chega a ter isso - e friamente se desculpa com aquilo de que “não pode fazer nada”, é digna de compaixão, pois ignora as Escrituras. Estejamos em guarda contra esta noção errônea. Os preceitos que a Palavra de Deus dirige e impõe aos crentes, se dirigem a estes como seres responsáveis e que têm de prestar contas. Se o Salvador dos pecadores nos tem dado uma graça renovadora, e nos tem chamado por Seu Espírito, podemos estar certos que é porque Ele espera que nos façamos uso desta graça e não nos ponhamos a dormir. Muitos crentes “entristecem o Espírito Santo” por esquecerem-se disto e vi vem vidas inúteis e desprovidas de consolo. 7. A sant i fi cação a dm i t e gra us e se desenv ol v e pr ogr essi v am ent e. Uma pessoa pode subir um e outro degrau na escada da santificação, e ser mais santificada em um período de sua vida que em outro. Não pode ser mais perdoada e mais justificada que quando creu, mesmo que possa estar mais consciente destas realidades. Porém pode gozar de mais santificação, porquanto cada uma das graças do Espíri to em seu novo caráter e natureza, são susceptíveis de crescimento, desenvolvimento e profundidade. Evidentemente este é o significado das palavras do Senhor Jesus quando orou pelos discípulo: “Santifi-    (Jo.17:17); e também do apóstolo Paulo pelos caos na v er da de...”  Tessalonicenses: “O mesmo D eus da paz v os sant i fi que em t udo..."  (I Ts.5:23). Em ambos os casos a expressão implica na possibilidade de crescimento no processo de santificação. Porém, não encontramos na Bíblia uma expressão como: “justificai-vos” com referência aos cren tes, porquanto estes não podem ser mais justificados do que na reali dade já foram. As escrituras não nos falam de uma “imputação de santificação”, como muitos crêem; esta doutrina é fonte de equívocos e conduz a conseqüências errôneas. Além disso, é uma doutrina con trária a experiência dos cristãos mais eminentes. Estes, à medida que progridem na vida espiritual e na proporção em que andam mais inti mamente com Deus, mais vêem, mais conhecem, mais sentem (II. Pe.3:18; I Ts.4:l). J. C. Ryle

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8. A sant i fi cação d ep en d e, em gr a n d e p a r t e, do uso dos m ei os  espirituais.

Pela palavra “meios” me refiro à leitura da Bíblia, à oração privada, à freqüência regular dos cultos de adoração, ao ouvir às pregações da Palavra de Deus e à participação regular da Ceia do Senhor. Devo dizer, como bem se compreenderá, que todos aqueles que de uma maneira descuidada e rotineira fazem uso destes meios, não farão muito progresso na vida de santificação. Por outro lado, não se tem podido encontrar evidência de que nenhum santo emi nente jamais descuidou destes meios; é que estes meios são os ca nais que Deus tem designado para que o Espírito Santo supra ao crente com reservas frescas de graça para aperfeiçoar a obra que um dia iniciou na alma. Por mais que me tenham por legalista neste aspecto me mantenho firme ao dizer: “sem esforço não há proveito”. Antes esperaria boa colheita em um agricultor que semeou seus cam pos porém nunca os cuidou, que ver frutos de santificação em um crente que tem se descuidado da leitura da Bíblia, da oração e do Dia do Senhor. Nosso Deus opera através dos meios de graça. 9. A sant i fi cação p o d e segu i r um curso a scen d en t e em m ei o a  gra nd es confli t os e bat al has i nt eri ores.

Ao usar as palavras conflitos e batalhas, me refiro a conten da que tem lugar no coração do crente entre a velha e a nova nature za, entre a carne e o espírito (G1.5:17). Uma percepção profunda des ta contenda, e a conseqüente aflição e consternação que se derivam da mesma, não é prova de que um crente não cresça na santificação. Não! Antes, pelo contrário, são sintomas salutares de uma boa con dição espiritual. Estes conflitos provam que não estamos mortos, mas vivos. O cristão verdadeiro, não só tem paz  de consciência, mas que também tem guerra   no seu interior; tanto é conhecido por sua paz como também por seus conflitos espirituais. Ao dizer e afirmar isto não me esqueço que estou contradizendo os pontos de vista de alguns cristãos que defendem uma “perfeição sem pecado”. Porém não posso evitá-lo. Creio que o que digo está bem confirmado pelo 16

 A S an t if i c aç ão

que diz Paulo no capítulo sétimo de sua Epístola aos Romanos. Peço aos meus leitores que estudem atentamente este capítulo; e que se dêem conta de que não descreve a experiência de um homem não convertido, ou de um cristão vacilante e todavia jovem na fé, mas que faz referência a experiência de um velho santo de Deus que vi via em santa comunhão com Deus. Só uma pessoa assim podia di zer: “ Porque no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus” (Rm.7:22). Creio, além disso, que o que ele diz é confirmado pela expe riência dos mais eminentes servos de Cristo de todos os tempos. Uma prova disso encontramos em seus diários, em suas autobiogra fias e em suas vidas. Mas se não tivermos este contínuo conflito interno, não pensemos que a obra de santificação não tem lugar em nossas vidas. A libertação completa do pecado a experimentaremos sem dúvida no céu, porém nunca a gozaremos enquanto estivermos neste mundo. O coração do melhor cristão ainda que esteja em mo mentos de alta santificação, é terreno onde acampam dois bandos rivais; algo como “a reunião de dois acampamentos” (Cantares 6:13). Recordemos os artigos doze e quinze de nossa Confissão (Anglicana): “A infecção da natureza permanece ainda nos que tem sido regene rados”. “Embora temos nascido de novo e sido batizados em Cristo, todavia ofendemos em muitas coisas; e se dizemos que não temos pecado, nos enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” Dizia aquele puritano, santo homem de Deus: “A guerra do diabo é melhor que a paz do diabo”. 10. A san t i fi cação, em bo r a não j ust i f i qu e a ho m em , agr ad a a  Deus.

As ações mais santas do crente mais santo que jamais havia vivido, estão mais ou menos cheias de defeito e imperfeições. Quan do não são más em seus motivos o são na sua execução; e por si, diante de Deus, não são mais que “pecados esplêndidos” que mere J. C. Ryle

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cem sua ira e sua condenação. E seria absurdo supor que tais ações podem passar sem censura pelo severo juízo de Deus, e obter méri tos para o céu. “Por obras da lei nenhuma carne se justificará”. “Concluímos ser o hom em justificado p ela fé sem as obras da l e i”

(Rm.3:20-28). A única justiça se acha no nosso Representante e Substituto, o Senhor Jesus. Sua obra, e não a nossa, é a que nos da certificado de acesso ao céu. Por esta verdade deveríamos estar dis postos a morrer.

No entanto, e apesar do que foi dito, a Bíblia ensina que as ações santas de um crente santificado, mesmo imperfeitas, são agra dáveis aos olhos de Deus “po rq u e com tais sac rifício s Deus se compraz” (Hb.13:16). “Filhos, em tudo obe d ec ei a vossos pa is; p ois  fazê-lo égrato dia nte do Senhor” (Cl.3:20). “...e faz em os diante dele o que lhe é agradável” (I Jo.3:22). Não nos esqueçamos nunca desta doutrina tão consoladora. Da mesma forma que o pai se compade ce dos esforços do seu pequeno filho ao colher uma margarida, ou em sua façanha de andar só de uma extremidade a outra da casa, assim se compadece nosso Pai nas ações tão pobres de seus filhos crentes. Deus olha o motivo, o princípio, a intenção de suas ações, e não a quantidade ou qualidade das mesmas. Considera os crentes como membros de seu próprio Filho querido, e por amor ao mesmo se compraz nas ações do seu povo. 11. A san t i fi cação n os ser á ab sol ut a m ent e n ecessár i a no gr a n -  d e di a do j uízo com o t est em un ho d e nosso ca r át er cri st ão.  A  menos que nossa fé tenha tido efeitos santificadores em

nossa vida, de nada servirá naquele dia o que digamos que cremos em Cristo. Uma vez compareçamos diante do grande trono branco, e os livros sejam abertos teremos de apresentar evidências. Sem a evidên cia de uma fé real e genuína em Cristo, nossa ressurreição será para condenação; e a única evidência que satisfará ao Juiz será a santificação. Que ninguém se engane sobre este ponto. Se há algo certo sobre o futuro, é a realidade de um dia de juízo; e se há algo certo sobre este  juízo, é que as “obras” e os “feitos” do homem serão examinados 18

 A San t if ic aç ão

(Jo.5:29; 2 Co.5:10; Ap.20:13). 12. A san t i fi cação éabsol ut am ent e necessár i a como pr epa r ação  p a r a o cé u.

A maioria dos homens ao morrer pensam ir para o céu; porém, poucos param para considerar se em verdade gozariam indo ao céu. O céu é, essencialmente um lugar santo; seus habitantes são santos e suas ocupações são santas. E claro e evidente que para ser feliz no céu deve mos passar por um processo educativo aqui na terra que nos capacite e prepare para entrar. A noção de um purgatório depois da morte, que de pecadores serão feitos santos, é algo que não encontramos na Bíblia; é uma invenção do homem. Para ser santo na glória, devemos ser santos na terra. Esta crença tão comum, segundo a qual o que uma pessoa necessita na hora da morte é somente a absolvição e o perdão dos pecados (pelo sacerdote católico), é na verdade uma crença vã e ilusó ria. Tanta necessidade temos da obra do Espírito Santo como da de Cristo; tanto necessitamos da justificação como de santificação. E mui to freqüente ouvir dizer a pessoas que jazem no leito de morte: “Eu só desejo que o Senhor me perdoe meus pecados, e me dê descanso eter no”. Porém, quem diz isto se esquece de que para poder gozar do des canso celestial precisa de um coração preparado para gozá-lo. Que faria uma pessoa não santificada no céu, supondo que pudesse entrar? Fora de seu ambiente, uma pessoa não pode ser feliz. Quando a águia fora feliz na gaiola, o cordeiro na água, a coruja ante o brilhante sol do meio dia e o peixe sobre a terra seca, então e só então, poderíamos supor que a pessoa não santificada seria feliz no céu. Apresento estas doze proposições sobre a santificação com a firme persuasão de que são verdadeiras, e peço a todos os leitores que meditem seriamente. Todas, e cada uma delas poderia ser desenvolvida mais amplamente e talvez algumas poderiam ser debatidas, porém sin ceramente duvido de que alguma delas pudesse ser descartada e elimi nada como errada. Com respeito a todas elas peço um estudo justo e imparcial. Creio, com toda consciência, que estas proposições poderão nos ajudar a conseguir noções mais claras sobre a santificação. J. C. Ryle

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II.

AS EVIDÊNCIAS VISÍVEIS DA SANTIFICAÇÃO.

Quais os sinais visíveis da obra de santificação? Esta parte do tema é ampla e difícil. A m p l a   porque exigiria fazer mos menção de toda uma série de detalhes e considerações que temo, vão além do horizonte deste escrito; é di fíci l , porque não poderemos desenvolvê-la sem ferir a susceptibilidade e cren ças de algumas pessoas. Porém, seja qual for o risco, a verdade tem de ser dita; e especialmente em nosso tempo, a verdade sobre a doutrina da santificação tem de fazer-se ouvida. A v er d a d ei r a san t i fi cação não con sist e em um m er o f a l a r  sob r e r el i gi ão .

Não nos esqueçamos disso. Há um grande número de pessoas que tem ouvido tantas vezes a pregação do Evangelho, que tem contraído uma familiaridade pouco santa com suas palavras e frases, e inclusive falam com tanta freqüência sobre as doutrinas do Evangelho que nos levam a crer que são cris tãos. As vezes até resulta nauseante, e extremamente desagra dável, ouvir como pessoas se expressam com um linguajar frio e petulante sobre “a conversão, o Salvador, o Evangelho, a paz espiritual, a graça, etc.”, enquanto de forma notória servem ao pecado ou vivem para o mundo. Não podemos duvidar de que este falar é abominável aos ouvidos de Deus, e não melhor do que o blasfemar, o maldizer e o tomar o nome de Deus em vão. Não é só com a língua que devemos servir a Cristo. Deus não quer que os crentes sejam tubos vazios, metal que ressoa, ou címbalo que retine; devemos ser santificados, “n ão ... d e p a l a -   (I Jo.3:18). vr as, nem de l íngu a , m as de fat o e de v er d a d e”  A v er d a d ei r a sant i fi cação n ão consi st e em sent i m ent os r el i -  gi osos pa ssagei r os.

Umas palavras de advertência são necessárias. Os cul tos missionários e de avivamento cativam a atenção das pesso20

 A S an t i f i c aç ão

as e dão lugar a um grande sensacionalismo. Igrejas que até agora estavam mais ou menos adormecidas, parece que des pertam como resultado destas reuniões, e damos graças a Deus que sejam assim. Porém, junto com os benefícios, estas reuni ões e correntes avivacionistas encerram grandes perigos. Não duvidemos que onde se semeia a boa semente, satanás semeia também o joio. São muitos que aparentemente tem sido alcan çados pela pregação do evangelho, e cujos sentimentos têm sido despertados, porém seus corações não foram mudados. O que na realidade acontece não é mais que um emocionalismo vul gar que se produz com o contágio do derramar de lágrimas e as emoções dos outros. As feridas espirituais que se produzem são leves, e a paz que se professa não tem raízes nem profundi dade. Igualmente ao coração rochoso, estas pessoas “recebem a Palavra com alegria” (Mt. 13:20), porém depois de pouco tem po duvidam dela e voltam ao mundo e chegam a ser mais duros e piores que antes. São como a aboboreira de Jonas: brotam em menos de uma noite, para secar-se também em menos de uma noite. Não nos esqueçamos destas coisas. Vamos com muito cuidado, não curemos levianamente as feridas espirituais di zendo: “Paz, p a z, qu ando n ão háp a z ”. Esforcemo-nos para con vencer aos que mostram interesse pelas coisas do Evangelho a que não se contentem com nada que não seja obra sólida, pro funda e santificadora do Espírito Santo. Os resultados de uma falsa excitação religiosa são terríveis para a alma. Quando num calor de uma reunião de avivamento satanás tem sido posto fora do coração só por uns momentos ou por um tempo curto, não tarda em voltar novamente à sua casa e o estado posterior da pessoa é muito pior que o primeiro. E mil vezes melhor ini ciar devagar, e continuar firmemente na Palavra, que iniciar com toda velocidade, sem medir o custo, para logo, como a mulher de Ló, olhar para traz e voltar ao mundo. Quão perigo so é para a alma tomar os sentimentos e emoções experimenta dos em certas reuniões como evidência segura de um novo nas cimento e de uma obra santificadora. Não conheço perigo mai or para a alma. J. C. Ryle

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A v er d a d ei r a s a n t i f i c a ção n ão c o n s i s t e em u m m er o   f or m al i sm o e dev oção ext er na .

Quão terrível é esta ilusão! E por infelicidade, quão fre qüente é. Milhares e milhares de pessoas imaginam que a ver dadeira santidade consiste na quantidade e abundância do ele mento externo da religião; em uma assistência rigorosa aos ser viços da igreja, à participação da Ceia do Senhor, à observância e participação das festas religiosas (igreja anglicana), a partici pação no culto litúrgico elaborado, a imposição de atos de aus teridade e a abnegação nas pequenas coisas, na maneira de ves tir, etc... Possivelmente muitas pessoas fazem estas coisas por motivos de consciência e realmente crêem que com elas benefi ciam suas almas. Porém na maioria dos casos esta religiosidade externa não é mais que um substituto para a santidade. A san t i fi cação não consi st e em um aba nd o no do m un do e das  o b r i ga ções soci ai s.

No correr dos séculos muitos têm caído nesta armadilha na tentativa de buscar a santificação. Centenas de ermitãos se tem enterrado em algum deserto, e milhares de homens e mu lheres se têm fechado entre as paredes de monastérios e con ventos, movidos pela vã idéia de que desta maneira escapariam do pecado e conseguiriam a santidade. Se esqueceram de que nem as cadeias, nem as paredes podem manter o diabo fora e que onde quer vamos levamos em nosso coração a raiz do mal. O caminho da santificação não consiste em sermos monges ou nos fazermos membros de casas de misericórdia. A verdadeira santidade não isola o crente das dificuldades e das tentações, mas faz com que este as enfrente e supere. A graça de Cristo no crente não é como uma planta de inverno que só pode desenvol ver-se sob abrigo e proteção, mas é algo forte e vigoroso que pode florescer em meio a qualquer relação social e meio de vida. E essencial à santificação que nós mesmos desempenhemos nos sas obrigações onde Deus nos tem colocado, como sal no meio 22

 A S an t i f i c aç ão

da corrupção e luz no meio das trevas. Não é o homem que se esconde em uma cova, mas o homem que glorifica a Deus como servo, como pai ou filho, na família ou na rua, no trabalho ou no comércio, que responde ao tipo bíblico do homem santificado. Nosso mestre disse em Sua última oração: “N ã o p eç o q ue os tires do inundo; e, sim, qu e os gu ard es do m a l” (Jo. 17:15). A sant i fi cação não con si st e em p r a t i ca r d e v ez em qu an do as  boas obra s.

A santificação é um novo princípio celestial no crente que faz com que este manifeste as evidências de um chamado santo, tanto nas coisas pequenas como nas grandes em sua con duta diária. Este princípio tem sido implantado no coração se deseja sentir em todo o ser e conduta do crente. Não é como uma bomba que só tira água quando se aspira até fora, mas como uma fonte contínua cuja vazão flui espontaneamente e natural mente. O rei Herodes quando ouvia João Batista “ficav a p erp le xo, escutando-o de boa mente”, porém seu coração não era reto diante de Deus (Mc.6:20). Assim acontece com muitas pessoas que parecem ter ataques espasmódicos de “bondade” como re sultado de alguma enfermidade, provação, morte na família, ca lamidades ou em meio a uma relativa tranqüilidade de consci ência. No entanto, tais pessoas não são convertidas, e nada sa bem do que é santificação. O verdadeiro santo é como Ezequias foi, de todo coração; como o salmista disse: "Por m eio do s teus  preceitos consigo entendim ento; p o r isso detesto to do cam in ho de  fa ls id a d e ” (S1.119:104).

U ma san t i fi cação gen u ín a se ev i d en ci a r á n a o b ed i ên ci a n a -  t ur al ãL ei d e D eus.

Não só na obediência, mas no esforço contínuo para segui-la como regra de vida. Que grande erro cometem aqueles que supõem que pelo fato de os dez mandamentos não justifica rem a alma, não é importante observá-los. O mesmo Espírito J. C. Ryle

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Santo que tem dado ao crente convicção de pecado através da Lei e o tem levado a Cristo para justificação, é quem o guiará no uso espiritual da Lei como modelo de vida em seus desejos de santificação. O Senhor Jesus nunca rejeitou os dez mandamen tos a um plano de insignificância, mas, pelo contrário, em Seu primeiro discurso público - o Sermão do Monte - desenvolveuos e manifestou o caráter revelador de suas exigências. O após tolo Paulo também não considerou a Lei insignificante: “...a lei é boa, se alguém d ela se utiliza de m od o leg ítim o...” “Porque, no tocante ao hom em interior, tenho praz er na le i de D eus” (I Tm .1:8;

Rm.7:22). Se alguém pretende ser um santo e olha com despre zo para os dez mandamentos e não se importa em mentir, o ser hipócrita, fraudar, insultar e levantar falso testemunho, embriagar-se, quebrar o sétimo mandamento, etc., na realidade se en gana terrivelmente; e no dia do juízo lhe será impossível provar que foi um “santo”. A v er d a d ei r a sa nt i f i cação se m a n i f est a r á na esfo r ço cont í-  n u o p a r a f a z er a v o n t a d e d e C r i s t o e vi v er àl u z d e Seu s p r e -   cei t os pr át i cas.

Estes preceitos são encontrados espalhados nas pá ginas dos Evangelhos, porém, especialmente no Sermão do Monte. Se alguém imagina que Jesus o pronunciou sem o propósito de promover a santidade do crente se equivoca lamentavelmente. E quão triste é ouvir de certas pessoas falar do ministério de Jesus sobre a terra dizendo que o única coisa que o Mestre fez foi ensinar doutrina e que o ensino das obrigações práticas Ele delegou a outros. Um conhecimento superficial dos evangelhos bastará para con vencer estas pessoas de quão errada é esta noção. Nos ensi nos de Cristo se destaca de uma maneira proeminente o que seus discípulos devem ser e fazer; e uma pessoa verdadei ramente santa nunca se esquecerá disto, pois serve a um Senhor que disse: “V ós s o i s m e u s a m i g os , se f a z e i s o q u e e u vos m a n d o ”  (Jo.15:14). 24

 A San t if i c aç ão

A v er d a d ei r a san t i f i cação se m o st r ar á no esfo r ço cont ínu o  pa r a al cançar o nív el espi ri t ual que Paulo est a bel ece p a r a as  igrejas.

Este nível ou norma espiritual, podemos encontrar nos últimos capítulos de quase todas suas epístolas. E uma idéia generalizada a de que Paulo só escreveu sobre matéria doutri nária e controversa como: justificação, eleição, predestinação, profecia, etc. Tal idéia é em extremo errônea, e é mais uma evidência de ignorância das pessoas dos nossos dias. Os escri tos do apóstolo Paulo estão cheios de ensinos práticos sobre as obrigações cristãs na vida diária, e sobre nossos hábitos cotidi anos, temperamento e conduta entre os irmãos crentes. Estas exortações foram escritas por inspiração de Deus como guia perpétuo dos crentes. Aquele que é omisso destas instruções, talvez passe como membro de uma igreja, porém certamente não é o que a Escritura chama uma pessoa “santificada”. A v er d a d ei r a sa n t i f i cação se ev i d en ci a r á n a a t en ção esp e-  ci a l às gra ça s at i v as qu e o Sen h o r Jesus d e um a m a n ei r a t ão  b o ni t a ex em p l i f i co u , p a r t i cu l a r m en t e a g r a ça d a ca r i d a d e. “Novo m andam ent o vos dou: que vos am ei s uns aos outros;  assi m como eu vos am ei , que t am bé m vos am ei s uns aos out ros. N i s-  to con hecer ão t odos qu e soi s m eus di scípul os, se t i verdes am or uns    (Jo.l3:34-35). O homem santificado tratará de fazer o aos out ros” 

bem no mundo, diminuir a dor e aumentar a felicidade em torno de si. Sua meta será a de ser como Cristo, cheio de mansidão e de amor para com todos; e isto não só de palavras mas de fato, negando-se a si mesmo. Aquele que professa ser cristão, porém está centrado em si mesmo com egoísmo assumindo um ar de possuir grandes conhe cimentos, e sem preocupar-se com seu próximo se ele está se afun dando ou não, se vai ao céu ou ao inferno e como tal vai à igreja com seu melhor traje e ser considerado um bom membro, tal pessoa, digo, não sabe nada do que é a santificação. Pode considerar-se um santo na terra, mas certamente não será um santo no céu. Cristo não é o J. C. Ryle

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Salvador daquele que não imita Seu exemplo. A graça da conversão e da fé salvadora tem de produzir, necessariamente, certa semelhan ça com a imagem de Jesus (Cl.3:10). A v er da d ei r a sant i fi cação se ev i d en enci ci a r á t a m b é m n a a t enção  h ab i t u al às gr gr aças pa ssi ssi v as.

Ao referir-me às graças passivas me refiro àquelas graças que se mostram mui especialmente na submissão à vontade de Deus e na paciência e condescendência aos outros. Poucas pessoas fazem idéia do muito que se fala no Novo Testamento sobre esta graça e o impor tante papel que parecem desempenhar. Este é especialmente o tema que Pedro nos desenvolve e apresenta em suas epístolas. “Portanto  p a r a isto is to m e s m o f o s t e s c h a m a d o s , po p o i s q u e tam ta m b ém Cristo Cri sto sofr so freu eu em vosso vosso lug lugar ar,, deixando-vos exemp lo p ar a seguirdes seguirdes os seus passo s, o qual nã o cometeu peca do, nem dolo algu algum m se achou em sua boca,  po  p o i s ele, el e, q u a n d o ultr ul traj ajad ado, o, n ã o r e v id a v a com co m ultra ul traje, je, q u a n d o m a l  tratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente...” (I Pe.2:21-23). Estas graças passivas se encontram en

tre os frutos do Espírito que Paulo nos menciona em sua Epístola aos Gálatas. São mencionadas nove graças e delas, três - longanimidade, benignidade, mansidão - são graças passivas (Gl.5:22-23). As graças passivas são mais difíceis de obter que as ativas, porém a influência delas sobre o mundo é maior. A Bíblia nos fala muito destas graças passivas e em vão fazemos menção se em nós não há este desejo de possuir longanimidade, benignidade e mansidão. Aqueles que con tinuamente explodem com um temperamento agressivo e que dão mostras de possuir possuir uma língua língua muito incisiva, incisi va, sendo sempre do con co n tra, rancorosos, vingativos, maliciosos - e dos quais o mundo infeliz mente está cheio - os tais, digo, nada sabem sobre o que é santificação. Estes são os sinais visíveis de uma pessoa santificada. Não pretendo dizer que se verão de uma maneira uniforme em todos os crentes, nem que brilharão com todo seu fulgor nos crentes mais experimentados. Porém que se constituem os sinais bíblicos da santificação, e que aqueles que não sa 26

 A S a n t i f i c a ç ã o

bem nada dos tais, bem podem duvidar de terem, na realida de alguma graça. A verdadeira santificação é algo que se pode ver, e as anotações que temos procurado esboçar, são, mais ou menos aquelas de uma pessoa santificada. III - Distinção entre a santificação santifica ção e a justificação. justificaç ão. No que concordam e no que diferem? Esta distinção é im portantíssima, mesmo que à primeira vista não pareça. Em geral as pessoas mostram certa predisposição em considerar só o superficial da fé, e a relegar as distinções teológicas como “meras palavras” que não têm nenhum valor. Eu exorto àqueles que se preocupam com suas almas a que se esforcem por obter noções claras sobre a santificação e a justificação. Lembremo-nos de que mesmo que a  justific  jus tificaç ação ão e a santific san tificaçã açãoo sejam coisas distintas, no entanto em certos pontos são concordantes e em outros diferem. Vejamos: A - Pontos concordantes: •Ambas procedem e têm origem na livre graça de Deus. •Ambas são parte do grande plano de salvação que Cristo, no pacto eterno, tomou sobre si em favor de seu povo. Cristo é a fonte de vida de onde flui o perdão e a santidade. A raiz de ambas está em Cristo. •Am •Ambas bas se encontram encon tram na n a mesma mesma pessoa. Os que são justi ju stific fica a dos são também santificados, e aqueles que têm sido santifi cados, têm sido também justificados. Deus as têm unido e não podem separar-se. •Ambas acontecem ao mesmo tempo. No momento em que uma pessoa é justificada, começa a ser também a ser santifica da, mesmo que a princípio não se perceba. •Ambas são necessárias para a salvação. Jamais ninguém en trará no céu sem um coração regenerado e sem o perdão de seus pecados, sem o sangue de Cristo e sem a graça do Espíri to, sem a disposição apropriada para gozar da glória e sem credencial para a mesma. J. C. Ryle

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B. - Pontos em que diferem: •Pela justificação, a justiça de outro - de Jesus Cristo - é imputa da, posta na conta do pecador. Pela santificação o pecador con vertido experimenta em seu interior uma obra que o vai fazendo  justo  jus to.. Em outras palavra pala vras, s, pela pel a just ju stif ific icaa ção çã o somos considerados  ju  j u s to s   (declarados), enquanto que pela santificação somos feitos  ju s tos to s .

• A justiça da justificação não é própria, mas que é a justiça eter na e perfeita de nosso maravilhoso Mediador Cristo Jesus, a qual nos é imputada e a fazemos nossa pela fé. A justiça da santificação é a nossa própria,  inerente e infundida em nós pelo Espírito San to, porém mesclada com fraquezas e imperfeições. • Na justificaçã justific açãoo não há luga lugarr para para nossas nossas obras. Porém Porém na santificação a importância de nossas próprias obras é imensa e por isso Deus nos ordena a lutar, orar, velar, nos esforçar, afadigar e trabalhar. •A justificação é uma obra acabada e completa; no momento em que uma pessoa crê, é justificada, perfeitamente justificada. A santificação é uma obra relativamente imperfeita; será perfeita quando entrarmos no céu. • A justificação justifica ção não admite crescimento crescim ento nem é susceptível de au mento. O crente goza da mesma justificação no momento que vai a Cristo pela fé, que daquela que gozará por toda eternidade. A santificação é, eminentemente, uma obra progressiva, e admite um crescimento contínuo enquanto o crente viva. • A justificação faz faz referência a  p e s s o a   do crente, a sua posição diante de Deus e a absolvição de sua culpa. A santificação faz referência a natureza  do crente, e a renovação moral do coração. •A justificação nos dá direito de acesso ao céu, e confiança para entrar. A santificação nos prepara para o céu, e nos faz prever seus prazeres. •A justificação é um ato de Deus com referência  ao crente, e não é dicernível para os outros. A santificação é uma obra de Deus dentro   do crente que não pode deixar de manifestar-se aos olhos dos outros. 28

 A S a n t i f i c a ç ã o

Estas distinções são postas para atenta consideração dos leito res. Estou convencido de que grande parte das dúvidas, confusão e inclusive sofrimento de algumas pessoas muito sinceras, se deve ao fato de se confundir e não distinguir a santificação da justificação. Nunca se poderá se enfatizar demais o que se trata de duas coisas distintas, ao que na realidade não pode separar-se, e o que participa de uma por necessidade há de participar da outra. Porém nunca, nun ca, deve confundir-se, duvidar-se, a distinção que existe entre ambas. Só nos resta finalizar o tema com uma palavras de aplicação. A natureza e sinais visíveis da santificação foram apresentadas para consideração do leitor, e a pergunta que agora surge em nossas men tes é esta: Que conclusões práticas podemos tirar do exposto? 1. Devemos dar-nos conta do estado tão perigoso em que se encon tram algumas pessoas que se dizem cristãs. “...a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”

(Hb.12:14). Quanta religião há, pois, que não serve para nada! Quão grande é o número de pessoas que vão à igreja, e que no entanto an dam por caminhos que levam à destruição! Esta reflexão é terrível! Ho, se os pregadores e os mestres abrirem os seus olhos e se derem conta da condição das almas ao seu redor! Ho, se as almas pudessem ser persuadidas a “fugir da ira vindoura”! Se as almas não santificadas pudessem ir ao céu, então a Bíblia não seria verdadeira. Porém a Bí blia é verdade e não pode mentir! Sem a santidade ninguém verá o Senhor. 2. Asseguremo-nos de nossa própria condição.

E não descansemos até que vejamos em nós outros os frutos da santificação. Quais são nossos gostos, nossas preferências, nossas escolhas, nossas inclinações? Esta é a grande pergunta. Pouco valor tem o que podemos desejar e esperar na hora da morte; agora é quan do devemos analisar nossos desejos. Que somos agora? Que fazemos? Se vê em nós os frutos da santificação? Se não for assim a culpa é nossa. J. C. Ryle

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Se desejamos verdadeiramente a santificação, o curso a se guir é claro e sensível: devemos começar com Cristo. Devemos ir a Ele tal como somos, como pecadores. Devemos apresentar-lhe nossa extrema necessidade; devemos abandonar nossas almas a Ele pela fé, para assim poder obter a paz e a reconciliação com Deus. Deve mos por-nos em Suas mãos, tal como o fazemos com o bom médico, e suplicar sua graça e misericórdia. Não esperemos levar nada em nossas mãos. O primeiro passo para a santificação e o mesmo para a  justificação, é ir pela fé a Cristo. 3. Se desejamos crescer em santidade, devemos buscar continua mente a Cristo.

Devemos ir a Ele tal como fomos no princípio da nossa vida espiritual. Ele é a cabeça da qual cada membro recebe alimento (Ef.4:16). Devemos viver diariamente a vida de fé no Filho de Deus e, prover-nos diariamente de Sua plenitude para nossas necessida des de graça e fortaleza. Aqui se encerra o grande segredo de uma vida de santificação ascendente. Os crentes que não fazem progres so algum na santificação e parecem haver estancado, sem dúvida é porque se descuidam da comunhão com Jesus, e em conseqüência entristecem ao Espírito Santo. Aquele que na noite antes da crucifi cação orou ao pai com aquelas palavras de “santifica-os na verdade”, está infinitamente disposto a socorrer a todo crente que pela fé o busque por ajuda. 4. Não esperemos demasiadas coisas de nossos próprios corações.

Mesmo nos melhores momentos, encontraremos em nós motivos suficientes para uma profunda humilhação e descobriremos que em todo momento somos devedores da graça e da misericórdia. A medida que aumente nossa visão espiritual mais nos daremos conta de nossa imperfeição. Éramos pecadores quando iniciamos, e pecadores nos veremos à medida que sigamos adiante. Sim, pecadores regenerados, perdoados e justificados, porém pecadores até o último momento de nossas vidas. A perfeição absoluta de nossas almas 30

 A San t i f i c aç ão

todavia há de vir, e a expectação da mesma haverá de ser uma grande razão para desejarmos mais e mais o céu. 5. Em último lugar, nunca nos envergonharemos de dar demasiada importância ao tema da santificação. E de nossos desejos de conseguir uma elevada santidade. Mesmo que uns se contentem com uns resultados pobres e miserá veis, e outros não se envergonhem de viver vidas que não são santas, nós devemos nos manter nas antigas veredas e seguir adiante em busca de uma santidade iminente. Temos aqui a maneira de sermos realmente felizes. Por mais que digam certas pessoas, devemos convencer-nos de que santidade é felicidade; e a pessoa que vive mais feliz nesta terra é a pessoa mais santificada.  Sem dúvida há cristãos verdadei ros que, como resultado de uma saúde débil, ou de provações na família, ou alguma outra causa secreta, não parecem gozar de muito consolo, e com suspiros prosseguem seu peregrinar ao céu; porém estes casos não são muito freqüentes. Em geral podemos dizer que os crentes santificados são as pessoas mais felizes da terra. Gozam de consolos sólidos que o mundo não pode dar. “Os seus caminhos são cam inhos deliciosos...” (Pv.3:17); ‘‘G ran de pa z têm os que am am a tua lei...” (S1.119:165J; “Porque o meu jugo é suav e e o meu fard o é  leve” (Mt.ll:30); “Para os perversos, todavia, nã o há paz, diz o Se nhor” (Is.48:22).

J. C. Ryle

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C u l t iv a n d o a S a n t id a d e

 Joel Beeke

“A m elhor m aneira de nos prepararm os pa ra o am an ha é buscarmos o reino de Deus e a sua justiça no dia de h o je” (John Blanchard). “Quando Deus dec lara um hom em justo, Ele im ediatam ente c om eça a santificá-lo” (A. W. Tozer). “A santidade n ão é m ais p ela fé sem esforço do que é pe lo esforço sem a f é ” (James I. Packer) “Irmãos, nós po de m os ser muito mais santos do que somos. Alcance mos primeiro aquela santidade acerca da qual não há disputa”.

(Charles H. Spurgeon).

O fazendeiro piedoso que ara o seu campo, sabe com certeza que, em última análise, ele depende completamente de forças que estão fora de si para obter uma boa colheita. Ele sabe que não pode fazer a semente germinar, a chuva cair e o sol brilhar. No entanto, ele prossegue com diligência em sua tarefa, olhando para Deus em bus ca de benção e sabendo que se Ele não fertilizar e cultivar a semente que foi semeada, sua colheita será, no mínimo, pobre. De forma semelhante, a vida cristã deve ser como um jardim cultivado, de modo a produzir os frutos de uma vida santa para Deus. “A teologia”, escreveu William Ames nas palavras iniciais de seu clássico “The manow of theology” (O âmago da Teologia), “é a dou trina ou o ensino concernente à vida para Deus”.1O próprio Deus exorta seus filhos: “Sede santos porqu e Eu sou S an to” (I Pe. 1.16).2 Paulo instrui aos Tessalonicenses:“Porquanto Deus nã o nos cham ou para a impureza, e, sim, em san tificaçã o” (I Tessalonicenses 4.7). O autor de Hebreus escreve: “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qu al ninguém verá o Senhor” (Hb. 12.14). O cren Joel Beeke

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te que não cultivar de forma diligente a santidade, não está nem seguro, de maneira genuína, de sua salvação e tampouco estará obe decendo ao chamado de Pedro para buscá-la (II Pe. 1.10). Procurei aqui focalizar a chamada bíblica para que o cristão cultive a santida de operada pelo Espírito Santo, por meio do uso diligente dos meios que Deus providenciou para assisti-lo. A Chamada Para Cultivar a Santidade

“Santidade” é uma palavra que se relaciona com o adjetivo “santo” e o verbo “santificar”, que significa “tornar-se santo”.3 Em ambos os casos, “santo” significa separado e posto de lado para Deus. Para o cristão, ser posto à parte significa, negativamente, ser separa do do pecado e, positivamente, ser consagrado (isto é, dedicado) a Deus e semelhante a Cristo. Não existe disparidade entre o Velho Testamento e o Novo Testamento em termos dos conceitos acerca da santidade, embora haja uma mudança na ênfase naquilo que a santi dade envolve. O Velho Testamento destaca a santidade moral e ritu al; o Novo Testamento destaca a santidade interior e transformadora (Lv.l0:10-ll; 19:2; Hb.l0:10;I Ts.5:23).4 As Escrituras apresentam a essência da santidade primaria mente em relação à Deus. A ênfase do domínio sagrado nas Escritu ras, é o próprio Deus. A santidade de Deus é a própria essência do Seu ser (Is. 57.15);5é o pano de fundo a partir do qual todas as coisas acerca dEle são declaradas na Bíblia. Sua justiça é a Sua santa sabe doria: Seu poder é o Seu santo poder; Sua graça é a Sua santa graça. Nenhum outro atributo de Deus é celebrado diante do trono dos céus como é a Sua santidade: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos” (Is. 6.3). A palavra “Santo” antecede o nome de Deus mais do que qualquer outro atributo.6Somente Isaías chama Deus de “San to” sessenta e seis vezes. Escreveu John Howe acerca da santidade de Deus: “pode ser dito que trata-se de um atributo transcedental, que, de certa forma, passa através de todos os demais e lança brilho sobre eles. É um atributo dos atributos... e, dessa forma, é o próprio brilho e glória de Suas demais perfeições”.7Deus manifesta algo de 34

Cultivando a Santidade

Sua majestosa santidade em Suas obras (Sl. 145.17), em Sua lei (Sl. 19.8,9) e, especialmente, na cruz de Cristo (Mt. 27.46). A santidade é Sua coroa permanente, Sua glória, Sua beleza. É, segundo Jonathan Edwards, “mais do que um simples atributo de Deus - é a soma de todos os Seus atributos, o esplendor de tudo o que Deus é”.8 A santidade de Deus denota duas verdades críticas acerca de Si mesmo: Primeiro, a “separação” de Deus de toda Sua criação e de tudo aquilo que é impuro ou mau. A santidade de Deus testifica da Sua pureza, Sua perfeição moral, Sua separação de tudo o que é externo a Ele, Sua completa ausência de pecado (Jó 34.10; Is.5.16; 40.18; Hab.l.l3).9 Em segundo   lugar, uma vez que Deus é santo e isolado de todo o pecado, não pode ser aproximado pelos pecadores sem san to sacrifício (Lv.l7.11; Hb. 9.22). Ele não pode ser o Santo e perma necer indiferente ao pecado (Jr. 44.4). Ele precisa punir o pecado (Ex. 34.6,7). Uma vez que todos os homens são pecadores devido à trágica queda de Adão e às nossas transgressões diárias, Deus ja mais pode ser apaziguado por nossos próprios esforços. Nós, cria turas, criados à imagem de nosso santo Criador, voluntariamente escolhemos através de nosso representante no pacto, Adão, tornarnos ímpios e inaceitáveis na presença de nosso Criador. O sangue expiatório precisa ser derramado para que o perdão do pecado seja concedido (Hb. 9.22). Somente um mediador capaz, o mediador Deus-homem, Cristo Jesus, por meio de Sua obediência perfeita e expiatória, pode cumprir as exigências da santidade de Deus, em favor dos pecadores (I Tm. 2.5). Louvado seja Deus. Cristo concor dou em realizar essa expiação, iniciada por seu Pai e a realizou com Sua plena aprovação (Sl. 40.7,8; Mc. 15.37-39). “Aquele que não conheceu pecad o, ele o fez p eca do po r nós, pa ra que nele fôss e mos feitos justiça de D eus”  (II Co. 5.21). De acordo com a fórmula

Reformada Holandesa para a Ceia do Senhor: “A ira de Deus contra o pecado é tão grande, que, ao invés de permanecer sem punição, Ele puniu o pecado em Seu amado Filho Jesus Cristo com a morte vergonhosa e amarga da cruz”.10 Joel Beeke

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Pela graça livre, Deus regenera pecadores e os conduz à fé em Cristo somente, como base de Sua justiça e Salvação. Aqueles dentre nós que pertencemos aos abençoados crentes somos também participantes da santidade de Cristo por meio da disciplina divina (Hb. I2.l0). Como discípulos de Cristo, Deus nos chama para sermos mais santos do que jamais seremos, em nós mesmos, nesta vida (I Jo. 1.10).” Em gratidão por Sua grande salvação é que Ele nos chama a nos separarmos do pecado e consagrar-nos e assemelhar-nos a Ele. Esses conceitos - separação do pecado, consagração a Deus e confor midade a Cristo - fazem da santidade algo abrangente. Tudo, diz-nos Paulo em I Timóteo 4:4-5, deve ser santificado, isto é, perfeito, santo. Em primeiro  lugar, a santidade pessoal exige a plenitude pes soal. Deus nunca chamou-nos a dar-lhe uma parte de nossos cora ções. A chamada para santidade é uma chamada para o nosso cora ção inteiro: “dáme, fi l ho m eu, o t eu cor ação”   (Pv. 23.26). Em segundo  lugar, a santidade do coração deve ser cultivada em todas as esferas da vida: em secreto com Deus, na confidencialidade de nossos lares, na competitividade de nossa ocu pação, nas alegrias de nossas amizades sociais, em relação a nossos vizinhos não evengelizados e entre os desempregados e famintos do mundo, bem como também no culto do domingo. Horatius Bonar escreve: “Santidade... abrange todas as partes de nossas pessoas, pre enche nosso ser, difunde-se sobre nossa vida, influencia tudo o que somos, fazemos, pensamos, falamos, planejamos, quer grande ou pequeno, externo ou interno, negativo ou positi vo; nosso amor, ódio, tristeza, alegria, lazer, negócios, ami zades, relacionamentos; nosso silêncio, palavras, leitura, es crita, idas e vindas - todo o nosso ser em todos os movimen tos do espírito, alma e corpo”.12 A chamada para a santidade é uma tarefa diária. É uma cha mada radial e absoluta, envolvendo o coração de nossa prática e fé 36

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religiosa. João Calvino expressa isto da seguinte forma: “Porque eles loram chamados para a santidade, a vida inteira de todos os cristãos dever ser um exercício de piedade”.13Em poucas palavras, a chama da para a santidade é um compromisso para toda a vida de viver “para Deus” (II Co.3:4), para ser separado para o senhorio de Jesus Cristo. Assim sendo, a santidade é uma coisa interior que deve pre encher todo o nosso coração e algo exterior que deve cobrir toda nossa vida. “O m esm o Deus da p a z vos santifique em tudo; e o vosso espirito, alm a e corpo, sejam conservado s íntegros e irrepreensíveis na vinda de vosso Senh or Jesus Cristo”  (I Ts. 5.23), “A santidade”,

conforme afirmou Thomas Boston, “ é uma constelação de graças”.14 Em gratidão a Deus, um crente cultiva os feitos da santidade, tais como: amor, gozo, paz, paciência, bondade, amabilidade, fidelida de, auto-controle, mansidão (Gl. 5.22,23).15 Essa chamada para a santidade não objetiva merecer a acei tação diante de Deus. O Novo Testamento declara que todo crente é santificado, como um princípio, através do sacrifício de Cristo: “nes sa von tade é que temos sido santificados, m edia nte a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas”  (Hb. 10.10). Cristo é a nossa

Santificação (I Co. 1.30); portanto, a igreja como a noiva de Cristo, é santificada (Ef. 5.25,26). A situação do crente diante de Deus é de santidade em Cristo, devido à Sua perfeita obediência, a qual satis fez plenamente a justiça de Deus por todos os pecados. No entanto, a situação do crente não significa que ele tenha alcançado uma condição de completa santificação (I Co.1:2). Muitas tentativas têm sido feitas para expressar o relacionamento entre a condição e a situação do crente perante Deus; uma das mais destaca das entre elas é a frase bem conhecida de Lutero “ao mesmo justo e pecador”. Isso quer dizer que o crente é tanto justo na presença de Deus, por causa de Cristo, como também permanece um pecador, quando avaliado de acordo com seus próprios méritos. Muito embo ra a condição do crente exerça um impacto sobre a sua situação desJoel Beeke

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de o início da experiência cristã (a qual coincide com a regenera ção), ele jamais estará em uma condição de santidade perfeita nesta vida. Paulo ora para que os Tessalonicenses sejam inteiramente san tificados como sendo algo ainda por acontecer (I Ts. 5.23). A Santificação recebida é algo iniciado, embora ainda não aperfeiçoa do. Isso explica a ênfase do Novo Testamento sobre a santidade como algo a ser cultivado e buscado. A linguagem do Novo Testa mento enfatiza a santificação crucial, progressiva. O Cristão deve lutar pela santificação (Hb. 12.14). O crescimento na santidade deve seguir e de fato segue-se à regeneração (Ef. 1.4; Fl. 3.12). Dessa forma, para você verdadeiro crente, a santidade é algo que você possui em Cristo, diante de Deus e algo que deve cultivar no poder de Cristo. Sua condição de santidade foi-lhe conferida; sua situação atual de santidade deve ser buscada. Você é feito santo em sua posição diante de Deus e por meio de Cristo você é chamado para refletir essa posição sendo santo em sua vida diária. Seu con texto de santidade é justificação através de Cristo e seu caminho de santidade é ser crucificado e ressuscitado com Ele, o que envolve a contínua “mortificação do velho homem e a vivificação do novo” (Catecismo de Heidelberg, Pergunta 88). Você é chamado para viver aquilo que já é em princípio, pela graça. O CULTIVO DA SANTIDADE De forma concreta, portanto, o que você deve cultivar? Três coisas. 11 Imitação do caráter de Teová. “Sede Sant os, por qu e eu sou    (I Pe. 1.16). A Santidade do próprio Deus deveria ser o nosso santo”  maior estímulo para cultivar a santidade de vida. Procure ser como seu Pai celestial em justiça, santidade e integridade. No Espírito, es force-se para pensar os pensamento de Deus, através dEle, por meio de Sua Palavra, sendo uma só mente com Ele, vivendo e agindo da 38

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forma que o próprio Deus gostaria que você fizesse.17 Conforme a conclusão de Stephen Chamock: “Essa é a principal forma de honrar a Deus. Não glorificamos tanto a Deus por meio de expressões elevadas de admiração, frases eloqüentes, cultos pomposos, quanto quando aspiramos viver para Ele com espíritos imaculados, vivendo para Ele e vivendo como Ele”.18 2) Conformidade à imagem de Cristo. Esse é o tema favorito de Paulo, do qual somente um exemplo deve ser suficiente: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo  Jesus, pois ele, subsistindo em form a de Deus n ão julgou com o usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assu mindo a forma de servo, tom ando-se em sem elhan ça de hom ens; e, recon hecido em figura hum ana, a si mesmo se humilhou, tornandose obed iente até à morte, e morte de cru z” (Filipenses 2:5-8).

Cristo foi humilde, voluntariamente abdicou de Seus direi tos de modo a obedecer a Deus e servir aos pecadores. Se vocês qui serem serem Santos, Paulo está dizendo, pensem da mesma forma. Não objetivem conformidade a Cristo como uma condição de salvação, mas sim como um fruto da salvação recebida pela fé. Devemos olhar para Cristo para sermos santos, pois Ele é a fonte e o caminho da Santidade. Não busquem outro caminho. Sigam o con selho de Agostinho que argumentou dizendo ser melhor mancar no caminho do que correr fora dele.19 Façam como Calvino ensinou: Coloquem Cristo diante de vocês como o espelho da santificação e busquem graça para sermos espelhos de Sua imagem.20 Perguntem em cada situação enfrentada: “O que Cristo pensaria, diria, faria?”. Então confiem nEle para santidade. Ele não os desapontará (Tg.l:2-7). Existe espaço para crescimento infindável na Santidade por que Jesus é o poço interminável da salvação. Você jamais irá demais até Ele por santidade, pois Ele é a santidade por excelência. Ele vi Joel Beeke

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veu a santidade; Ele mereceu a santidade, Ele envia Seu Espírito para aplicá-la. “Porém, Cristo é tudo e em todos” (Colocensses 3.11] — Santidade inclusive. Conforme Lutero declarou de forma profun da: “Nós em Cristo = justificação; Cristo em nós = santificação”.21 3) Submissão à mente do Espírito Santo. Em Romanos 8:6 Paulo divide as pessoas em duas categorias - aqueles que se permi tem controlar por suas naturezas pecaminosas (isto é, mentes car nais que seguem seus desejos carnais) e aqueles que seguem o Es pírito (isto é, que se preocupam com as “coisas do Espírito”, Rm.8.5). O Espírito Santo foi enviado para conduzir a mente do cren te à submissão à Sua mente (I Co.2). Ele foi dado para tornar santos os pecadores; os mais santos inclinam-se progressivamente, como servos humildes sob o Seu controle. Supliquemos por graça para sermos servos dispostos mais plena e consistentemente. Como o Espírito opera esta virtude santa da submissão à Sua mente, tornando-nos, dessa forma, santos? (1) Ele nos revela nossa necessidade de santidade, através da convicção de pecado,  justiça e juízo (Jo. 16:8). (2) Ele implanta desejo de santidade. Sua obra salvadora nunca conduz ao desespero mas sempre à santificação em Cristo. (3) Ele concede semelhança a Cristo na san tidade. Ele atua sobre a nossa natureza como um todo, moldandonos conforme a imagem de Cristo. (4) Ele fornece poder para viver uma vida santa através de Sua habitação e influência sobre nossas almas. Se vivermos pelo Espírito, não satisfaremos os desejos de nossa natureza pecaminosa (Gálatas 5:16). Viver pelo Espírito sig nifica viver em obediência e dependência dAquele Espírito. (5) Por meio de instrução humilde nas Escrituras e o exercício da oração, o Espírito nos ensina Sua mente e estabelece uma conscientização contínua de que a santidade continua sendo essencial como algo digno de Deus e do Seu reino (I Ts. 2.12; Ef. 4.1) e apropriado para o serviço (I Co. 9.24,25; Fl. 3.13). “E nã o vos em briagueis com vinho, no qu al h á dissolução,

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  (Ef. 5.18). Thomas Watson declara: mas enchei-vos do Espírito”  “O Espírito imprime a característica de Sua própria santidade sobre o coração, assim como o selo imprime sua semelhança sobre a cera. O Espírito de Deus em um homem enche-o de perfume com santidade e faz de seu coração um mapa do céu”.22 COMO CULTIVAR A SANTIDADE Que os crentes são chamados para santidade é indisputavelmente claro. Mas a pergunta crucial persiste: Como ele cultiva a santidade? Abaixo seguem sete orientações para ajudarnos. 1) Conheça e ame as Escrituras. Este é o caminho mais im portante de Deus para a santidade e o crescimento espiritual - o Es pírito como Professor abençoando a leitura e o exame da Palavra de Deus. Jesus orou: “Santifica-os na verdade. A Tua Palavra é a verda de"  (Jo. 17.17). E Pedro admoestou: “Desejai o genuíno leite espiritu al, para que por ele vos seja dad o crescimento par a salvação"  (I Pe. 2 . 2 ).

Se você não quiser permanecer ignorante espiritualmente e empobrecido, leia a Bíblia toda pelo menos uma vez ao ano. Mais importante ainda, memorize as Escrituras (Sl. 119.11), examine-as (Jo. 5.39) e medite sobre elas (Sl. 1.2), ame-as e viva por elas (Sl. 119; 19.10). Compare Escritura com Escritura; tome tempo para estudálas. Provérbios 2.1-5, colocam diante de nós vários princípios envol vidos com o estudo individual sério da Bíblia: ensino (recebendo as palavras de Deus), obediência  (guardando os mandamentos de Deus), disciplina  (clamando por conhecimento) e perseverança  (examinan do em busca do tesouro secreto).23 Não espere crescer em santidade se você gasta pouco tempo sozinho com Deus e não leva Sua Palavra a sério. Uma vez que possuímos um coração enfermo com a tendên cia de se afastar da santidade, deixe que as Escrituras o ensine como Joel Beeke

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viver uma vida santa em um mundo ímpio.

Desenvolva uma fórmula bíblica para viver piedosamente. Aqui está uma possibilidade extraída de I Coríntios. Quando estiver hesitante em relação ao que fazer, pergunte a si mesmo: • Será que isto glorifica a Deus? (I Co. 10.31) •Será que isto é consistente com o senhorio de Cristo? (I Co. 7.23) • Será que é consistente com os exemplos bíblicos? (I Co. 11 . 1)

•Será que é legítimo e benéfico para mim? - espiritual, men tal e fisicamente? (I Co. 6.9-12) • Será que ajuda outros positivamente e não os fere desne cessariamente? (I Co. 10.33; 8.13) • Será que me coloca sob algum poder escravizador? (I Co. 6 . 12 ).

Permita que as Escrituras sejam sua bússola para guiá-lo no cultivo da santidade, nas decisões da vida e em fazer frente às afli ções pessoais. 2) IJse os sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor de forma diligente como meios de graça para fortalecer sua fé em Cris to. Os sacramentos de Deus complementam Sua Palavra. Eles nos levam para longe de nós mesmos. Cada sinal - água, pão, vinho - nos levam a crer em Cristo e Seu sacrifício sobre a cruz. Os sacramentos são meios visíveis através dos quais Ele, de forma invisível, mantem comunhão conosco e nós com Ele. Eles são incentivos à semelhança com Cristo e portanto à santidade. A graça recebida através dos sacramentos não é diferente daquela recebida através da Palavra. Ambas comunicam o mesmo Cristo. Conforme disse Robert Bruce: “embora não tenhamos um Cris to melhor nos sacramentos do que na Palavra, algumas vezes temos a Cristo melhor”.24 42

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Corra para Cristo freqüentemente através da Palavra e dos sacramentos. A fé em Cristo é fator motivador poderoso para a santi dade; já que a fé e o amor pelo pecado não se misturam. No entanto, tenha cuidado, para não buscar a sua santidade nas experiências com Cristo e sim no próprio Cristo. Assim William Gurnall adverte: “Quando tu confiaste em Cristo dentro d e ti, ao invés de Cristo  fora de ti, tu colo caste Cristo contra Cristo. A noiva fa z bem em estimar o retrato de seu marido, m as seria ridículo se ela am assa sse o retrato m ais do que  o próprio marido, muito mais se ela buscasse a o retrato antes que a ele pa ra satisfazer os desejos dela. Porém, tu ages desta forma quando tens mais afeição ò im agem de Cristo dentro da tua alm a do que àqu ele que a pintou a li ’’.25

3) Considerem-se como morto para o domínio do pecado vivo para Deus em Cristo (Rm. 6.11). “Perceber isso”, escreve o Dr. Martyn Lloyd-Jones, “tira de nós aquela velha sensação de desespero que todos nós conhecemos e sentimos por causa do terrível poder do  pecado... Posso diz er a mim m esm o que não somen te não estou mais sob o domínio do pe ca do m as sim sob o domínio de um outro po de r que n ada po de frustrar ’’.26

Isso não quer dizer que, porque o pecado não domina mais sobre nós como crentes, temos autorização para esquecermos o nos so dever de fugir do pecado. Bridges acertadamente nos admoesta: “confundir o potencial para resistir ao pecado (o qual Deus supriu) com a responsabilidade em resistir (que é nossa) é preparar o cami nho para o desastre em nossa busca de santidade”.27 O Breve Cate cismo de Westminster equilibra o dom de Deus e a nossa responsa bilidade quando afirma que a “santificação é a obra da graça livre de Deus, através da qual somos renovados em nosso homem interior de acordo com a imagem de Deus e somos progressivamente capacita dos a morrer para o pecado e vivermos para a justiça” (Pergunta 35). Joel Beeke

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Procure cultivar um ódio crescente pelo pecado como tal, pois esse é o tipo de ódio contra o pecado que Deus possui. Reco nheça que Deus é digno de obediência não somente como um juiz, mas especialmente como um Pai amoroso. Diga como José num mo mento de tentação: “como, pois cometeria eu tamanha maldade, e  pecaria contra Deus?” (Gn. 39.9). Confie que Cristo é poderoso para mantê-lo vivo pelo Seu Espírito. Você vive através da união com Cristo. Viva para a Sua  justiça. A justiça dEle é maior do que a sua injustiça. Sua capacida de de salvar é maior do que a sua pecaminosidade. O Seu Espírito habita dentro de você. “Filhinhos, f ó s sois de Deus, e tend es vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aqu ele que está no m un do” (I Jo. 4.4). Não se desespere; você é forte

nEle, vivo e vitorioso nEle. Satanás pode vencer várias batalhas, mas a vitória é sua (I Co. 15.57; Rm. 8.37). Em Cristo, o otimismo da graça divina domina sobre o pessimismo da natureza humana. 4) Ore e trabalhe na dependência de Deus para santidade. Ninguém pode produzir algo puro a partir que é impuro a não ser Deus (Jó 14.4). Portanto, ore como Davi: “cria em mim, ó Deus, um coração puro ” (Sl. 51.10). Enquanto você ora, trabalhe. John Owen escreveu: “Deus opera em nós e conosco, não contra nós ou sem nós; de forma que a ajuda dEle é um encorajamento para facilitar o traba lho e não uma oportunidade para negligenciarmos o trabalho em si mesmo”.28 O Catecismo de Heidelberg (Pergunta 116) destaca que ora ção e trabalho andam juntos. Eles são como dois remos, os quais, quando utilizados em conjunto, manterão o barco movendo-se para frente. Se você usar somente um remo - se você ora sem trabalhar ou trabalha sem orar - estará remando em círculos. Santidade e oração têm muito em comum. Ambas ocupam uma posição central na fé e vida cristãs; elas são obrigatórias, não opcionais. Ambas se originam e estão centralizadas em Deus. Ambas 44

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são ativadas, muitas vezes simultaneamente, pelo Espírito de Deus. Nenhuma delas pode sobreviver sem a outra. Aprende-se sobre ambas através da experiência e de batalhas espirituais.29 Nenhuma delas é perfeita nesta vida, mas precisam ser cultivadas através de toda a vida. E mais fácil escrever sobre ambas do que exercitá-las. Aqueles que mais oram frequentemente sentem que não oram o su ficiente; os mais santos consideram-se impuros. Santidade e trabalho encontram-se também intimamente re lacionadas, especialmente o trabalho de perseverança e diligência na disciplina pessoal. Disciplina leva tempo e esforço. Paulo exortou Timóteo: “Exerci t a t epessoal m ent e na pi eda de"  (I Tm. 4.7). A santi dade não é alcançada instantaneamente.30 A santidade nos chama para uma vida disciplinada; ela não pode existir a partir daquilo que Dietrich Bonhoeffer chamou de graça barata - isto é, a graça que perdoa sem exigir arrependimento e obediência. Santidade é uma graça custosa - a graça que custou a Deus o sangue de Seu Filho, custou ao Filho Sua própria vida e custa ao crente a mortificação diária no exercício da santidade, de tal forma que Paulo morria dia riamente (I Co.l5:31).31A santidade graciosa nos chama para com promisso, diligência, prática e arrependimento contínuos.32 Se você, “ algumas vezes, devido à fraqueza, cai em pecado, não deve deses perar-se da misericórdia de Deus, nem continuar em pecado, já que possuímos um pacto eterno de graça com Deus” (Rito de Batismo). Resolva, como Jonathan Edwards: “jamais abandonar, nem esmore cer por pouco que seja, minha luta contra minhas corrupções, ape sar de todos os insucessos que possam ocorrer”.33 Essas duas coisas, lutar contra o pecado e o insucesso, pare cem contraditórias, mas não são. Fracassar e tornar-se um fracasso são duas coisas diferentes. O crente reconhece que pode fracassar frequentemente. Lutero disse que o homem justo sente-se mais ve zes “um perdedor de que um vitorioso” na luta contra o pecado, “pois o Senhor permite que ele seja testado e atacado até o seu limi te, da mesma forma que o ouro é testado na fornalha”.34 Esta é, tam bém, uma importante parte do discipulado. Porém, o homem piedo Joel Beeke

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so perseverará mesmo através de seus fracassos. O fracasso não faz com que ele desista; faz com que ele se arrependa mais ardorosa mente e a esforçar-se no poder do Espírito. “Porque sete vezes c air á o  justo, e se levantará; m as os p erversos são derru bados p ela calam i d a d e ” (Pv. 24.16).

 Jamais nos esqueçamos que o Deus que amamos, ama a san tidade. Daí a intensidade de Sua disciplina paterna (Hb. 12.5,6,10)! Talvez William Gurnall tenha afirmado isso da melhor maneira: “Deus não esfregaria com tanta força se não fosse para eliminar a sujeira que está arraigada em nossas naturezas. Deus ama a pureza de tal forma que Ele preferiria ver um buraco do que uma mancha nas roupas de seus filhos”.35 51 Fuia do mundanismo. Devemos nos rebelar contra as pri meiras aparências da soberba da vida, as concupiscências da carne e dos olhos e de todas as formas de mundanismo pecaminoso à medi da em que batem à porta de nossos corações e mentes. Se abrimos a porta e permitimos que entrem e passeiem por nossas vidas, tornamonos suas presas. “Resolveu Daniel firmem ente não contaminar-se com as fina s iguarias do rei, nem com o vinho que ele b ebia ; então pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se”  (Dn.

1.8). As coisas que lemos, nossas diversões e recreações, a música que ouvimos e as conversas que temos, afetam nossas mentes e de veriam ser consideradas no contexto de Filipenses 4.8: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que  justo, tudo o que é pu ro, tudo o que é amável, tudo o que de boa fa m a, se alguma virtude h á e se algum louvor existe, seja isso o qu e ocu pe o vosso pen sam ento” (Fl. 4.8). Nós devemos viver acima do mundo e

não ser do mundo muito embora ainda estejamos no mundo (Rm. 12 . 1- 2 ).

6) Busque comunhão na iereia: associe-se com mentores de santidade (Ef. 4.12-13; I Co. 11.1).38 A igreja deve ser uma comuni dade de cuidado mútuo e oração (I Co. 12.7; At. 2.42). Tenha comu nhão e ore com outros cristãos cuja conduta piedosa você admira 46

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(Cl. 3.16). “Quem an da com os sáb ios será Sáb io" (Pv. 13.20). Asso ciação promove assimilação. Uma vida cristã vivida em isolamento de outros crentes será defeituosa; em geral, esse cristão permanece rá espiritualmente imaturo. Tal comunhão não deve, todavia, exclui a leitura de livros piedosos de épocas passadas os quais promovem a santidade. Lutero disse que alguns de seus melhores amigos estavam mortos. Por exem plo, ele perguntou se alguém poderia ter vida espiritual e não sentis se simpatia com Davi quando ele derramava o seu coração nos Sal mos. Leia os clássicos que falam veementemente contra o pecado. Deixe que Thomas Waltson seja seu mentor em the  M irchief o f Sin (O Engano do Pecado); John Owen em Temptation and Sin (Tentação e Pecado); Jeremiah Burroughs em The Evil ofEvils  (O mal dos Ma les); Ralfh Verning em The Plagne ofPlagnes  (A peste das Pestes).37 Mas leia também Holiness (Santidade) de J. C. Ryle; Personal Declension a nd Revival ofReligion in the Soul de Octaniuns Winslow e Keeping the Heart (Conservando o Coração)38 de John Flavel. Per mita que esses homens piedosos de épocas passadas sejam seus amigos e mentores espirituais. 7) Viva o compromisso total com Deus no “Tempo presen te”. Não caia na armadilha da síndrome do “mais uma vez”. Obedi ência adiada é desobediência. A santidade de amanhã é a impureza de hoje. A fé de amanhã é a incredulidade de hoje. Deseje não pecar de forma alguma (I Jo. 2.1), suplicando pelo poder divino para levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo (II Co. 10.5), pois as Escrituras indicam que a nossa vida de pensamento determina o nosso caráter: “Porque, com o imagina em sua alm a, assim ele é ” (Pv. 23.7a). ( l a p a r t e d o a r t i g o “C u l t i v a t i n g H o l i n ess” R ef o r m a t i o n a n d   Rev i v al , pgs. 8194) 

ESTÍMULOS AO CULTIVO DA SANTIDADE O cultivo da santidade é algo obrigatório. Thomas Watson denominou-o de “trabalho exaustivo”. Felizmente Deus nos oferece, Joel Beeke

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em Sua Palavra, vários motivos para fazê-lo. Para nos encorajar na busca da santidade, precisamos conservar nossos olhos focalizados nas seguintes verdades bíblicas: ) Deus chamou você para a santidade para o seu bem e  para Su a glória, “porquanto Deus não nos chamou para a impureza, e, sim, para a santificação.”(1 Ts..4.7). O que quer que Deus nos convoque a fazer, é necessário. A Sua chamada, em si mesma, assim como os benefícios que experimentamos de uma vida santa, confor me descrito abaixo, deveriam induzir-nos a buscar e praticar a san tidade. 1

A santidade nos beneficia aumentando nosso bem-estar es piritual. Deus nos assegura que “nenhum bem sone ga aos qu e an  dam retamente”  (Salmo 84.11). “O que a saúde representa para o coração, a santidade representa para a alma”, observou John Flavel.39 Nos poucos comentários de Richard Baxter sobre a santidade, os próprios títulos dos capítulos são iluminadores: A santidade é o Único Caminho para a Segurança; A Santidade é o Caminho mais Benéfi co; A Santidade é o Caminho mais Honrado e A santidade é o Cami nho mais Agradável.40 O mais importante é que a santidade glorifica o Deus que você ama. Conforme a afirmação de Thomas Brooks: “A santidade faz o máximo pela honra de Deus”.41 2) A santidade fa z com que você se a ssem elh e a Deus  e preser va a sua integridade. De acordo com a observação de Thomas Watson: “Devemos nos esforçar para sermos semelhantes a Deus em santida de. É um nítido espelho no qual podemos ver uma face; é um santo coração no qual podemos ver algo de Deus”.42 Neste ponto, Cristo ser ve como um padrão de santidade para nós - um padrão de humildade santa (Fil.2.:5-13), de santa compaixão (Mc.1.41), de santo perdão (Col.3..13) de santo desprendimento (Rom.15.3), de santa indignação contra o pecado (Mt.23) e de santa oração (Heb.5.7). A santidade cul tivada que se assemelha a Deus e está baseada em Cristo, nos salva de 48

C u l t i v a n d o a S an t i d a d e

muita hipocrisia, de recorrer a um Cristianismo “só de domingo”. Dános vitalidade, propósito, significado e direção ao nosso viver diário. 3)

A santidade fornece evidências de sua justificação e eleição, e prom ove a segurança. A santificação é o fruto inevitável da justifica ção (1 Cor.6.11). Os dois podem ser diferenciados, mas nunca separa dos; o próprio Deus os juntou. A justificação está organicamente uni da à santificação; o novo nascimento desemboca inevitavelmente na nova vida. Os justificados andarão “na estrada de santidade do Rei”.43 Em e através de Cristo, a Justificação concede ao filho de Deus o direi to ao céu e a ousadia para entrar; a Santificação concede-lhe a capacitação para o céu e a preparação necessária para desfrutá-lo. A santificação e a apropriação pessoal dos frutos da Justificação. B.B. Warfield disse: “Santificação não é nada mais do que a execução do decreto justificador. Uma falha nesse ponto significaria que a pessoa absolvida não estaria sendo libertada”.44 Como conseqüência temos o decreto justificador de Cristo “Nem eu tam pouco te condeno", é   ime diatamente acompanhado de uma chamada para santidade “Não p e ques mais “. (Jo.8.11). A eleição também não pode ser separada da santidade: “por  isso que Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela san tificação do Espírito e/é na verdade”{2 Ts.2.13). A Santificação é a

marca das ovelhas eleitas de Cristo. Essa é a razão pela qual a eleição é sempre uma doutrina consoladora para o crente, pois é o fundamen to seguro que explica a graça de Deus operando em seu interior. Não admira que nossos antepassados Reformados consideravam-na como um dos maiores consolos do crente.45

Calvino insistia que a eleição não deveria desencorajar a nin guém, pois o crente recebe consolo através dela e o incrédulo não é chamado para considerá-la; ele é convocado ao arrependimento. Qual quer um que se sinta desencorajado por causa dela ou confia nela sem viver uma vida santa, está sendo vítima de um uso errado e satânico, dessa preciosa e estimulante doutrina. “As cou sas encobertas perten  cem ao Senhor, nosso Deus, porém as revela das nos pertencem, a nós Joel Beeke

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e a nossos filhos, pa ra sempre, pa ra que cumpram os todas as palav ras desta le i” (Dt.29:29). De acordo com a afirmação de Ryle “Não nos foi dado estudar neste mundo as páginas deste livro santo para verificar se nossos nomes nele se encontram. Mas se existe algo claramente estabelecido acerca desta doutrina é o seguinte: homens e mulheres eleitos podem ser conhecidos e diferenciados através-de suas vidas santas”.46 A santidade é o lado visível da salvação deles. “E pe los seus  frutos os conhecereis” (Mt.7.16). Consequentemente, a santidade estimula a segurança (1  Jo.2.3;3.19). “Todos podem estar seguros, em si mesmos, de sua fé por meio dos frutos dela” (Catecismo de Heidelberg, pergunta n2 86). Os Reformadores concordam que a maioria das formas e variedades e graus de segurança experimentados pelos verdadeiros crentes especialmente a segurança diária - são alcançadas gradualmente no caminho da santificação através de um cultivo cuidadoso da Palavra de Deus, dos meios de graça e da obediência correspondente.47 Um ódio crescente ao pecado através da mortificação, e de um amor cres cente em obediência a Deus através da vivificação, ambos acompa nham o progresso da fé, à medida em que ela progride na segurança. Uma santidade centralizada em Cristo e operada pelo Espírito é a melhor e mais confiável segurança da adoção divina (Rm. 8.1-16). O caminho para a perda da sensação diária de segurança é abando nar a busca constante da santidade. Alguns cristãos vivem de forma muito descuidada. Eles tratam o pecado de forma superficial ou ne gligenciam as devoções diárias e o estudo da Palavra de Deus. Ou tros vivem de forma muito preguiçosa. Eles não cultivam a santida de, antes assumem a postura de que nada pode ser feito para estimu lar a santificação, como se esta fosse algo fora de nós, com exceção de raras ocasiões, quando algo muito especial “acontece” dentro de nós. Viver de forma descuidada ou preguiçosa é pedir que vivamos diariamente em trevas espirituais, ausência de fruto e incapacidade. Como um crente, somente a santidade pode purificá-lo. 4) Por outro lado, “para os impuros e descrentes, nada é puro” (Tito 1.15). A santidade não pode ser exercitada naqueles nos quais o co

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Cultivando a Santidade

ração ainda não tenha sido fundamentalmente transformado através da regeneração divina. Através do novo nascimento, Satanás é de posto, a lei de Deus é escrita sobre o coração do crente, Cristo é coroado como Senhor e Rei, e o crente passa a desejar obedecer a Deus e viver de forma santa por causa de Cristo”. Cristo em nós (Christus in nobis)  é um complemento essencial de Cristo para nós (Chrístuspro nob is).48 O Espírito de Deus não somente ensina o cren te sobre o que Cristo fez, mas forma real a santidade e a obra de Cristo em sua vida pessoal. Através de Cristo, Deus santifica Seu Filho e torna suas orações e ações de graça aceitáveis. De acordo com afirmação de Thomas Watson: “Um coração santo é o altar que santifica a oferta; se não para satisfação, porém para aceitação”.49 5)  A santid ade é essen cial em seu efetivo serviço para Deus. Paulo associa a santificação com a utilidade: “Assim, pois, se alguém a si m esm o se purificar destes erros, será utensílio pa ra honra, santi  ficado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra”.

(2 Timóteo 2.21). A santidade é usada por Deus para ajudar na pre gação do evangelho, para edificar a imagem e o crédito da fé cristã que é desonrado pelo descuido dos cristãos e hipócritas que freqüentemente são os melhores aliados de Satanás.50 Nossas vidas estão sempre fazendo o bem ou mal; elas são cartas abertas que to dos podem ler (2 Co.3.2). O viver santo prega a realidade. Ele influ encia e impressiona mais do que qualquer outra coisa, nenhum ar gumento a ele compara. Ele mostra a beleza da religião; da credibilidade ao testemunho e ao evangelismo. (Fil.2.15).51 “A Santi dade”, escreve Hugh Morgan, “é a forma mais eficaz de influenciar os descrentes e de criar dentro deles um desejo de ouvir a pregação do evangelho” (Mt.5.16; 1 Pe.3.1,2).52 A santidade manifesta-se na humildade e reverência a Deus. São esses aqueles para os quais Deus olha e usa (Is.66.2). Também Andrew Murray comenta: “A grande prova de que a santidade que professamos buscar ou ter alcançado é verdade e vida, será o fato de ela produzir um aumento de humildade. Na criatura, humildade é a coisa Joel Beeke

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necessária para permitir que a santidade de Deus habite nela e brilhe por meio dela. Em Jesus, o Santo de Deus que nos santifica, a humildade divina foi o segredo da Sua vida, morte e exaltação; a prova infalível da nossa santidade que nos marca será a humildade perante Deus e os homens. Humildade é a flor e a beleza da santidade”.53 6)A san t i da de pr epara vocês pa r a  o céu.(Ap.21.27). “Segui a  paz com todos, e a sant i fi cação, sem a qual ni ngué m veráo Senhor ”  (Hb.12.14).  De acordo com o que escreveu John Owen:

“Não existe ilusão com a qual o homem é assaltado, mais tola, tampouco tão perniciosa como esta: que as pessoas não purificadas, não santificadas, não formadas santas em suas vidas, deveriam depois ser transportadas para aquele estado de bem-aventurança que consiste no gozo de Deus. Essas pessoas não podem desfrutar a Deus, nem Ele seria uma recompensa para eles. A santidade é realmente aperfeiçoada no céu; mas o seu princípio é confinado, invariavelmente a este mundo. Deus não conduz ninguém ao céu que Ele não santifique sobre a terra. Esta cabeça viva não admitirá membros mortos”.54 OBSTÁCULOS AO CULTIVO DA SANTIDADE O cultivo da santidade irá deparar-se inevitavelmente com numerosos obstáculos. Há muitos que atrapalham a santidade. Estes são cinco dos problemas mais comuns contra os quais devemos nos prevenir: 1)

Nossa at i t ude em rel ação ao pecad o e àvi da t end e a ser  ma i s cent ral i zada em nós m esmo s do qu e em D eus.  Freqüentemente

estamos mais preocupados com a vitória sobre ele, do que com o fato de que os nossos pecados desagradam a Deus. A vitória e as conseqüências positivas tornam-se, então, erradamente, subprodutos da obediência e da santidade. O cultivo da santidade necessita que 52

C u l t i v a n d o a S an t i d a d e

odiemos ao pecado da mesma forma que Deus o odeia. A santidade não consiste somente em amar a Deus e ao nosso semelhante; envol ve ódio também. O ódio ao pecado é a essência da santidade. Aque les que amam a Deus odeiam o pecado (Pv.8.36). Precisamos culti var uma atitude que considera o pecado como sendo sempre pree minentemente contrário a Deus (Sl.51.4).55 Perspectivas distorcidas e inferiores sobre o pecado produ zirão perspectivas inferiores e distorcidas sobre a santidade. “Pers pectivas erradas sobre a santidade podem, geralmente, ser identificadas como conseqüência de perspectivas erradas sobre a corrupção humana”. (J.C.Ryle) “Se um homem não percebe a natu reza perigosa das enfermidades de sua alma, você pode imaginar que ele vai se contentar com remédios falsos ou imperfeitos”.56 O cultivo da santidade exige uma rejeição do orgulho da vida e das concupiscências da carne, tanto quanto a oração: “Dá-me Senhor um olho puro para o Teu nome glorificar” (Psalter 236, stanza 2). Falhamos quando não vivemos conscientemente com nossas priori dades centralizadas na Palavra de Deus, Sua vontade e Sua glória. Nas palavras do teólogo escocês, John Brown, “a santidade não con siste em especulação místicas, fervores entusiásticos ou austeridades não ordenadas (não exigidas); ela consiste em pensar como Deus pensa e em querer aquilo que Deus quer”.57 2)

Nosso progresso é impedido, quando achamos que “viver   p ela f é ”(G1.2.20) im plica que nenhum esforço para ser santo nos é  ordenado. Algumas vezes somos até levados a considerar o esforço

humano como pecaminoso ou “carnal”. O Bispo Ryle nos fornece um corretivo em relação a isso: “Será que é sábio proclamar de forma crua e sem qualificativos, como fazem muitos, que a santidade das pessoas convertidas é somente pela fé e de forma alguma envolve esforço pessoal? Será que isto está de acordo com o equilíbrio da Palavra de Deus? Eu duvido. Que a fé em Cristo é a base de toda santidade nenhum cristão bem instruído  jamais pensará em negar. Mas certamente as Escrituras nos ensinam que na busca da santidade, o verdadeiro cristão necessita de esforço Joel Beeke

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e luta pessoais, tanto quanto de fé”.58 Nós somos responsáveis pela santidade. De quem mais é a falta senão de nós mesmos, quando não somos santos? Conforme aconselha Ralph Erskine, precisamos adotar a postura de “lutar ou fugir” em relação às tentações pecaminosas. Algumas vezes tudo o que precisamos fazer é atentar para a clara advertência de Pedro: “Am ados, exorto-vos com o pereg rinos e fora steiro s qu e sois, a vos absterdes das paixõ es carn ais que faz em guerra contra a alma" 1 Pe.

2.11. “Abester”- algumas vezes é simples assim.

Se vocês se despojarem do velho homem e vestirem-se do novo (Ef.4.22-32), vivam de acordo com isso (Cl. 3.9,10). “Considerai os membros de seus corpos terrenos como mortos” e busquem aque las coisas que são do alto (Cl.3.1-5), não como uma forma de legalismo, mas como uma repercussão da benção divina (Cl.2.9-23). Façam um pacto com seus olhos, pés e mãos para que abandonem a iniquidade (Jó 31.1). Olhem para o outro lado, olhem para o lado oposto. Dei xem de lado a ira incontrolada, a amargura e a maledicência. Façam com que o pecado morra (Rm.8.13) por meio do Sangue de Cristo. “Ponha a fé para trabalhar baseada em Cristo, como instrumento de morte para o seu pecado”, escreveu Owen e “você viverá para ver a morte de sua concupiscência aos seus pés”.60 3)

Por outro lado, frac assa m os m iseravelmente quan do nos orgulhamos de nossa santidade e pen sam os que nossos esforços p o  dem, d e alguma form a, produzir santida de sem a fé.   Do começo ao

fim, a santidade é obra de Deus e de Sua graça gratuita (Confissão de Fé de Westminster, capítulo 13). Como observou Richard Sibbes: “Pela graça somos o que somos na justificação e fazemos o que faze mos na santificação”.61 A santidade não é parte de nossa obra, é par te de Deus. Santidade produzida pelo nosso coração não é santidade segundo o coração de Deus. Todo o desenvolvimento da vida cristã, de nossa parte, é o fruto de Deus atuando em nós e através de nós:

“Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é  quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua

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C u l t i v a n d o a Sa n t i d ad e

boa vont ade” (Fl.2.12,13). “Aqueles que foram regenerados possuem

uma natureza espiritual dentro deles que os prepara para uma santa atividade, de outra forma não havia diferença entre eles e os não regenerados”, escreveu A.W.Pink.52 No entanto, a auto-santificação, estritamente falando, não existe.53 “Não praticamos boas obras para, por meio delas, obtermos mérito (pois o que é que podemos merecer ?), pelo contrário, somos devedores a Deus pelas boas obras, e não Ele a nós”(Confissão de Fé Belga, artigo 24). Conforme explicou Calvino, “a santidade não é um mérito através do qual podemos atingir comunhão com Deus, mas um dom de Cristo que nos capacita a aproximar-nos dEle e segui-lo”.64 John Murray explica isso da se guinte forma:

“A obra de Deus em nós não fica suspensa porque nós agimos, nem a nossa ação fica suspensa porque Deus opera. Tampouco é uma relação estritamente de cooperação, como se Deus fizesse a Sua parte e nós também agimos. Mas a relação é: Deus opera, por isso nós agimos”.65 “E toda virtude que é nossa, E toda conquista alcançada, E todo pensamento de santidade, Todos são somente dEle”. Keneth Prior adverte: “Existe um perigo sutil de falar da santificação como sendo proveniente essencialmente de nosso esforço ou iniciativa. Podemos inconscientemente fazer isso mesmo, enquanto reconhecemos nossa necessidade de poder do Espírito Santo, fazendo com que a atuação desse poder seja dependente de nossa entrega e consagração”.66 Nossa dependência de Deus em relação à santidade deveria humilhar-nos. Santidade e humildade são inseparáveis.67 Algo que elas têm em comum é que uma não reconhece o que a outra está Joel Beeke

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fazendo. Os mais santos lamentam sua impureza; os mais humildes lamentam seu orgulho. Aqueles de nós que são chamados para se rem professores e exemplos de santidade devem tomar cuidado com o orgulho insidioso e sutil que prepara o seu caminho por meio de uma suposta santidade. A santidade é grandemente prejudicada por um sem núme ro de concepções erradas de santidade em sua relação com a hu mildade. Por exemplo: (1) No momento em que pensamos, falamos ou agimos como se nossa santidade fosse, de alguma forma, suficiente para nós, sem estarmos revestidos da humildade de Cristo, já nos encontramos envolvidos pelo orgulho espiritual. (2] Quando começamos a ser complacentes com nossa santidade, podemos nos assegurar de que estamos longe tanto da santidade como da humildade. (3] Quando falta auto-humilhação, falta também a santidade. (4) Quando a autohumilhação não nos faz fugir para Cristo e buscar Sua santidade como refúgio, a santidade está ausente. (5) Sem uma vida depen dente de Cristo, não teremos santidade. 4)

 Adotar perspectivas erradas e anti-bíblicas a cerca da san tidade po de prejudicar grandemente nossa santidade. A necessida

de de experimentar a “segunda benção, uma busca ansiosa pelo nosso próprio dom do Espírito, ou exercer vários dons carismáticos, tais como falar em línguas ou cura pela fé e a aceitação de Jesus como Salvador e não como Senhor - estes são apenas algumas das muitas interpretações errôneas das Escrituras, que podem subver ter uma compreensão adequada da santidade bíblica em nossa vi das.

Acerca do primeiro erro acima mencionado, H.A. Ironside comenta: “Longe de ser uma segunda benção” subsequente à  justificação, a santidade é uma obra à parte da qual ninguém será salvo”68. Colocando de outra forma: não é simplesmente a segunda benção que o crente necessita, mas ele precisa de uma segunda, 56

Cultivando a Santidade

tanto quanto de uma terceira, quarta, quinta benção contínua do Espírito Santo de forma a poder progredir na santidade, de maneira que Cristo possa aumentar e ele diminuir (Jo.3.30). A respeito do segundo erro mencionado acima, John Stott comenta, de forma sábia, que “quando Paulo escreveu aos Coríntios que não lhes faltava nenhum dom espiritual (1 Co.1.7), ele deixa claro que a evidência da plenitude do Espírito não é o exercício de seus dons (dos quais eles já estavam repletos), mas a colheita do Seu fruto (do qual pouco possuíam)69. Em relação ao terceiro erro de separar o Salvador de Seu senhorio, o Catecismo de Heidelberg fornece um conectivo resumido na pergunta n° 30: “Uma das duas alternativas seguintes deve ser verdadeira: ou Jesus não é um Sal vador completo, ou aqueles que O recebem, em fé verdadeira, de vem encontrar todas as coisas necessárias à salvação nEle”. ) Temos a tendência de fugir da ba talha espiritual diária. Ninguém gosta de guerra. Freqüentemente o crente está cego para os seus verdadeiros inimigos - o sutil satanás, o mundo tentador e especialmente a realidade de sua poluição interior, sobre a qual Paulo fala de forma pungente em Romanos 7.14-25. Ser Santo en tre os santos exige graça; ser santo entre os impuros exige mais graça. Conservar a santidade pessoal em um mundo perverso com um coração que pende a apostatar, requer de nós uma luta contí nua. 6

Ela envolverá conflito, guerra Santa, luta contra satanás, uma batalha entre a carne e o espírito (Gl. 5.17). Um crente possui não somente paz de consciência, mas também há uma guerra dentro dele (Rm.7.24-8.1). Samuel Rutherford afirma: “a guerra do diabo é me lhor do que a paz do diabo”.70 Portanto, quando ignoramos as solu ções da santidade de Cristo (Hb. 7.25-28) e da armadura cristã supri da por Seu Espírito (Ef. 6.10-20), fazemos isso por nossa conta e risco. A verdadeira santidade deve ser buscada tendo como pano de fundo uma conscientização aguda do pecado interior que continua vivo em nossos corações e engana o nosso entendimento. Joel Beeke

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O GOZO DA SANTIDADE CULTIVADO Uma vida santa deveria ser repleta de gozo no Senhor, e não de amargura (Ne. 8.10). A idéia de que a santidade necessita de uma disposição melancólica é uma trágica distorção da Escritura. Por ou tro lado, as Escrituras afirmam que aqueles que cultivam a santida de experimentam alegria. Jesus disse: “Se guardardes os meus man damentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu te nho guardado os mandamentos de meu Pai, e no Seu amor permane ço. Tenho vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo” (Jo.15.10-11). Aqueles que são obedien tes - que procuram fazer da santidade um modo de vida - experi mentarão o gozo que flui da comunhão com Deus: um gozo perma nente, antecipado e supremo. 1) O gozo suprem o: comun hão com D eus.   Não existe maior gozo do que ter comunhão com Deus. “Na tua presença há plenitude de alegria”. (Sl.16.11). O verdadeiro gozo é proveniente de Deus à medida em que somos capacitados a andar em comunhão com Ele. Quando nos afastamos de Deus por causa do pecado, precisamos retornar por meio de uma oração penitente a Ele, como fez Davi: “Restitui-me a alegria da tua salvação”(S1.51.12). As palavras que  Jesus proferiu para o ladrão sobre a cruz representam a principal alegria de cada filho de Deus: “Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no paraíso”(Lc.23.43). 2) O gozo per m anent e, cont ínuo: segur an ça const ant e.  A ver dadeira santidade obedece a Deus e a obediência sempre confia em Deus. Ela crê: “que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”(Rm.8.28) - mesmo quando isso não pode ser percebido. Assim como os leais operários de tapetes persas, os quais entregam cegamente todos os tipos de cores ao supervisor que desenvolve o padrão, os santos mais íntimos de Deus são aqueles que entregam a Ele até as cores mais negras que Ele lhes pede, sabendo que o seu padrão será perfeito, apesar de toda a confusão de cores. Você expe 58

Cultivando a Santidade

rimenta esta confiança infantil, profunda, crendo nas palavras de  Jesus: “O que eu fa ç o n ão o sab es agora, com preendê-lo-ás depois" (Jo.13.7)? Isso é o gozo constante, estabilizador que está acima do entendimento. A santidade colhe um alegre contentamento: “grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento” (1 Tm. 6.6). 3) O gozo antecipado: recompensa graciosa e eterna.   Jesus estava motivado a enfrentar Seus sofrimentos através da antecipação do gozo de Sua recompensa (Hb.12.1-2). Os crentes podem também esperar ansiosamente pela entrada no gozo de seu Senhor, à medida em que buscam a santidade durante seus vidas, no poder de Cristo. Pela graça, eles podem, alegremente, antecipar sua recompensa eter na: “Muito bem , serv o bom e fiel ...en tr e no gozo do Teu Sen/ior”(Mt.25.21). De acordo com a observação de John Whitlock: “Eis aqui o caminho e a finalidade da vida do cristão - seu caminho é a santidade; seu fim, a felicidade”.71 A santidade é sua própria recompensa, pois a glória eterna é a santidade aperfeiçoada. ‘As almas dos crentes são aperfeiçoadas na santidade no momento da morte”(Breve Catecismo de Westminster, pergunta 37). Seus corpos serão também feitos imortais e compatí veis, perfeitos em santidade, completos na glorificação (1 Co. 15.49,53). Finalmente, o crente será aquilo que ele desejou ser desde a regeneração - perfeitamente santo no Deus triúno. Ele entrará na glória eterna de Jesus Cristo como um filho de Deus e co-herdeiro com Ele (Filipenses 3.20-21; Rm.8.17). Ele será finalmente seme lhante a Cristo, santo e sem mácula ou ruga (Ef.5.25-27), magnificando e exaltando eternamente as bondades insondáveis da graça soberana de Deus. Na verdade, conforme afirmou Calvino: “o pensamento da grande nobreza que Deus nos infundiu deve estimular nosso desejo por santidade”.72 APLICAÇÃO FINAL Eu li certa vez sobre um missionário que possuía em seu  jardim um arbusto que tinha algumas folhas venenosas. Naquela época ele possuía um filho que gostava de colocar em sua boca tudo Joel Beeke

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o que estivesse ao seu alcance. Naturalmente o missionário arran cou aquele arbusto e o lançou fora. As suas raízes eram, porém, muito profundas. Logo o arbusto cresceu novamente. Várias vezes ele teve de arrancá-lo. Não havia outra solução senão inspecionar o chão to dos os dias e arrancar o arbusto toda vez que ele aparecesse. O peca do residente em nós é como aquele arbusto. Precisa constantemente ser arrancado. Nossos corações pTecisam de mortificação constante.  John Owen nos adverte: “Precisamos exercer a mortificação diariamente e em todos os aspectos. O pecado não morrerá, a menos que se enfraqueça constantemente. Poupe-o e ele curará suas feridas e recuperará suas forças. Precisamos vigiar continuamente contra as ações deste princípio de pecado: em nossas obrigações, em nosso chamado, nas conversas, nas dificuldades, na solidão, nas alegrias e em tudo o mais que fazemos. Se formos negligentes em alguma ocasião, sofreremos por causa disso, qualquer negligência é perigosa”.73 Continue esforçando-se, crente verdadeiro, em arrancar o pecado e no cultivo da santidade. Continue a combater o bom com bate da fé, sob o melhor dos generais - Jesus Cristo; com o melhor dos advogados interiores - o Espírito Santo; por meio da melhor das certezas - as promessas de Deus; para o melhor dos resultados - a glória eterna. Você está convencido de que o cultivo da santidade vale o preço de dizer “não” ao pecado e “sim” para Deus? Você conhece a alegria de andar nos caminhos de Deus? A alegria de experimentar o  jugo suave e o fardo leve de Jesus? O gozo de não pertencer a si mesmo e sim ao seu “Fiel Salvador Jesus Cristo”, o qual torna você “sinceramente desejoso e pronto para viver para Ele” ? (Catecismo de Heidelberg, pergunta Na 1). Você é santo? Thomas Brooks nos fornece dezesseis observações sobre “como saber se possuímos ver dadeira santidade”. A lista inclui o seguinte: o crente santo “admira 60

Cultivando a Santidade

a santidade de Deus; possui santidade que se espalha sobre a cabeça e o coração, lábios e vida, dentro e fora; estende-se para níveis mais elevados de santidade; odeia e detesta toda a impiedade e maldade; entristece-se por causa de sua própria maldade e impureza”.74 Trata-se de uma lista bastante audaciosa, porém bíblica. Sem dúvi da, todos nós estamos bastante longe de alcançá-la, mas a pergunta permanece: estamos esforçando-nos para obter essas marcas de san tidade? Talvez você possa responder: “quem é apto pa ra essas c oisas ?” (2 Co.2:16) A pronta resposta de Páulo é: “n ão que po r nós m esmos sejamo s cap aze s de pen sar alguma coisa, com o se partisse de nós,  p elo contrário, a nossa suficiência vem de Deus"  (2 Co.3:5). “Você

quer ser santo?... Você deve então começar com Cristo... você quer continuar sendo santo?... Então permaneça em Cristo”.75 ‘A santidade não é o caminho para Cristo; Cristo é o caminho para a santidade”.76 Fora de Cristo não há santidade. Então qualquer lista de características de santidade vai nos conduzir ao inferno. Em última análise, naturalmente, a santidade não é uma lista; é mais do que isso — é uma vida, uma vida em Jesus Cristo. A santidade nos crentes prova que eles estão unidos a Cristo, pois a obediência santificada é impossível sem Ele. Mas em Cristo, o chamado à santidade está dentro do contexto da graça somente (sola gratia ) e da fé somente (solafide ).77 “Se observares, Senhor, iniqüidades, quem, Senhor, subsistirá? Contigo, porém, está o perd ão, pa ra que te temam ” (Sal 130:3-4).

Calvino escreveu: “Uma vez que Cristo não pode ser conhe cido à parte da santificação do Espírito, segue-se que a fé não pode, de forma alguma, separar-se de uma disposição piedosa”.78 Cristo, o Espírito, a Palavra de Deus, santidade, graça e fé são inseparáveis. Ore da seguinte forma: “Senhor, concede-me que eu cultive a santi dade hoje — não a partir de mérito, mas sim de gratidão, pela Tua graça através da fé em Cristo Jesus. Santifica-me pelo sangue de Cristo, o Espírito de Cristo e a Palavra de Deus.” Ore como Robert Murray M’Cheyne: “Senhor, faz-me tão santo quanto um pecador perdoado pode ser”.79 Joel Beeke

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Bibliografia

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13 - Citado na obra de Donald G. Boesch, Fundamento s da Teologia Evan gélica (Essentials of Evangelical Theo lo gy -  Nova York: Harper & Row, 1979), 2:31. 14 - Citado na obra de John Blanchard, Tesouros Reunidos (Gath ered Gol d -W e lw yn , Inglaterra: Evangelical Press, 1984), 144. 15 - Cf. George Bethune, O Fruto do Espírito ( The Fruit of the Sp ir it -  1839; Swengel, Pennsylvania: Reiner, 1972); W. E. Sangster, O Puro de Cora ção: Um Estudo sobre a Santidade Cristã (The Pure in Heart: A Study of  Christian Sanctity-  Londres: Epworth Press, 1954); John W. Sanderson, O Fruto do Espírito {The Fruit of the Sp ir it -  Grand Rapids: Zondervan, 1972); Jerry Bridges, A Prática da San tid ade: Vocação d e Todo Crente {The Prac ti ce o f Holiness: Ev ery Chritian's Calling -   Nashville: Broadman Press, 1985).

16 - Cf o Catecism o d e Heidelberg, pergunta 1 (o estado do crente) e per gunta 14 (a condição do crente). 17 - A. W. Pink,  A Doutr ina da Santificaç ão { The Doctrine o f San tif ication Swengel, Pennsylvania: Bible Truth Depot, 1955), 25. 18 - Stephen Charnock,  A Existência e os Atr ibuto s de Deus,  453. 19 - Aurelius Agostinho, Contra Duas Cartas dos Pelagiano s  ( A gai nst Two Letters o f the Pelagians ), 3.5.14, na Escritos Selecionados dos Pais Nicenos e Pós-Nicenos {A Select Library of the Nicene and Post-Nicene Fathers,

série primeira, ed. Phillip Schaff (reimpr. Grand Rapids: Eerdmans, 1982), 5:404. 20 - João Calvino, A s Insti tu tas da Religião Cristã, ed John T. Me Neill, trad. Ford Lewis Battles (Institutes of the Christian Religion -   Philadelphia: Westminter Press, 1960), 3.14, 400 ; cf. Thomas Goodwin, >4s Obras de Thomas Good win { The Woks of Thom as Goodwin,  D. D., ed. John C. Miller (Edimburgo: James Nichol, 1864), 6:220. 21 - Citado na obra de John Blanchard, Mais Tesouros Reunidos {More Gathered Gold -   Welwyn, Inglaterra: Evangelical Press, 1986), 147. 22 - Thomas Watson,  A Es sên cia da Di vindad e {A Body o f D iv in i ty -  1856; reimpr. Grand Rapids: Sovereign Grace Publishers, 1970) 173.

23 - Bridges, A Prática da Santidade, 52. 24 - Robert Bruce, O Mistério da Ceia do Senhor   trad, e ed. por Thomas F. Torrence (The Mistery of the Lord’s Supper -   Richmond: John Knox Press, 1958), 82. 25 - Citado pelo autor em Santidade (Hol iness: Go d ’s C all to Santification - Edimbugo, Escócia: Banner of Truth Trust, 1994), 18-19. 26 - D. Martyn Lloyd-Jones, Exposição no capítulo 6 de Rom anos: O Novo Homem (Rom ans: An Exposition of Chapter 6 : The New Man -  Edimbur go: Banner of Truth Trust; 1972), 144. 27 - Jerry Bridges, Em Busca da Santidade, 60. 28 - John Owen, Obras (Works)  6:20. 29 - James I. Packer, Redescobrin do a Santid ade (Redisco vering Holiness - A n n Arbor: Servant, 1992), 15. 30 - Cf. Jay Adams, Piedade Através do Discipulado (Godlin ess Through Discip leship -   Grand Rapids: Baker, 1973), 3. 31 - Dietrich Bonhoeffer, O Preço do Discipulado (The Cost o f Discipleship, trad, para o inglês por R.H. Fuller - Londres: SCM Press, 1959). 32 - Bridges,  A Pr át ica da Santidad e,   41-56. 33 - Para encontrar as setenta resoluções tomadas por Jonathan Edwards aos dezenove anos de idade, ver Obras the Jonathan Edwards ( The Works o f Jonathan Edwards -   1834; Edimburgo: Banner of Truth Trust, 1974), 1:xx-xii. 34 - Lutero: Pregações em Romanos (Lectures on Romans,  traduzido e editado em inglês por William Pauck - Philadelphia: Westminster Press, 1961), 140. 35 - Citado na obra de I.D.E. Thomas, O Tesouro de Citações Puritanas (The Golden Treasure of Puritan Quotations - Chicago: Moody Press, 1975), 140.

36 - Ver Confissão de Fé Belga, artigo 28. 37 - Thomas Watson,  A Arti manha do Pecado ( The Misch ief o f Sin - 1671; Pittsburgh, Pennsylvania: Soli Deo Gloria, 1994); John Owen, ‘Tentação e Pecad o”, Obras d eJ oh n Owen, vol. 6 ( ‘Temp tation an d Sin", in The Works of  John Owen, vol. 6 -   1851; reimpr. Londres: Banner of Truth Trust, 1967); Jeremiah Burroughs, O Pior de Todos os Males / O M ai dos Males; ou A Extrema Pecaminosidade do Pecado (The Evil of Evils; ou The Exceeding Sinfulness o f Sin -  1654; Pittsburgh: Soli Deo Gloria, 1992); Ralph Venning,  A Pr ag a das Pr ag as (The Plag ue o f P l a g u e s - 1669; reimpr. Londres: Banner

of Truth Trust, 1965. 38 - J. C. Ryle, Santidade  (Holiness: Its Nature, Hindrances, Dificulties, and Roots -  reimpr. Greensboro, Carolina do Norte: Homiletic Press, 1956 - Pu blicado em português pela editora Fiel); Octavius Winslow, Decadência e Reavivamento e Religião na Alma (Personal Declension and Revival and Religion in the Soul -   1841; reimpr. Londres: Banner of Truth Trust, 1968),

5:417-507. 39 - John Blanchard, Tesouros Reunidos,  144. 40 - “Comparação Entre o Hom em Carnal e o Espiritual, o u A Ab soluta Ne cessidade e Excelência da Santidade",   encontrado na Seleção das Obras Práticas de Richard Baxter (‘The Spiritual and Carnal Man Compared and Constrasted; or The Absolute Necessi ty and Excellency o f Holiness ”, The Selected Practical Works o f Richard B ax te r- Glasgow, Escócia: Black & Son,

1840), 115-291. 41 - John Blanchard, Mais Tesouros Reunidos,   149. 42 - Thomas Watson,  A Es sência da Divindade, 172 43 - John Owen, Obras, 11:25 em diante; Joel R. Beeke, Jeová Pastoreando Suas Ovelhas (Jehovah Shepherding His S h e e p - Grand Rapids: Eerdmans, 1982), 186-188. 44 - B. B. Warfield, Perfeccionismo (Perfectionism  - Pittsburgh, Nova Jersey: Presbyterian and Reformed, 1958), 100. 45 - Cf. Walter Marshall, O Mistério da Santific ação ( The Gosp el Mystery of 

Santification - reimpr. Grand Rapids: Zondervan, 1954), 220-221.

46 - Ryle, Santidade, 27. 47 - Joel R. Beeke,  A Certeza da Sal v aç ão : Calvin o, Puritan ism o Inglês e a Segunda Reforma Holandesa (As su rance o f Faith: Calvin, Enlgish Puritanism an d the Dutch Secon d Reformation - Nova York: Peter Lang,

1991), 160 em diante; cf. Confissão de Fé de Westminter, capítulo 18, e Cânones de Dort, para uma apreciação sobre a interligação entre a san tidade e a certeza da salvação. 48 - Cf. Bonar, O Caminho de Deus para a Santidade,   capítulo 2. 49 - Thomas Watson,  A Ess ên cia da Divindad e,   167. 50 - Ryle, Santidade, 62. 51 - Leonard J. Coppes , Será Que Cinco Pontos São Suficientes? Os Dez Pontos do Calvinismo (Are Five Points Enough? Ten Points of  Calvinism - Manassas, Virginia: Reformation Educa tional Foundation,

1980), 94-96. 52 - Hugh Morgan,  A San tid ad e de Deu s e do Seu Po vo ( The Holiness of God an d His People -   Bridgend, Pais de Gales: Evangelical Press of Wales, 1979), 9. 53 - Andrew Murray, Humildade: A Beleza da Santidade ( Humility: The Beauty o f Holiness -   Old Tappan, Nova Jersey: Revell), 40. 54 - I.D.E. Thomas, O Tesouro de Citações Puritanas,   141. 55 - William S. Plummer, Salmos ( Psalms - 1867; reimpr. Edimburgo, Escócia: Banner of Truth Trust, 1978), 1:106. 56 - Ryle, Santidade,   1-2. 57 - John Brown, D iscursos E xpo sitivos em 1 Pedro ( Exp ository Discourses on 1 Peter - 1848; reimp. Edimburgo: Banner of Truth Trust, 1978), 1:106.

58 - Ryle, Santidade,   viii. 59 - Sinclair Ferguson, “A Posiç ão Refor m ada”, em A Espir itualidade Cristã: Cinco Posições sobre a Santificação (“The Reformed View”, em Christian Spirituality: Fiv e Views o f Santification, ed. Donald L. Alexander - Downers

Grove, Illinois: Intervarsity Press, 1988), 64. 60 - Owen, Obras, 6:79. 61 - John Blanchard, Mais Tesouros Reunidos,  152. 62-Ibid., 149. 63 - Peter Toon, Justificação e Santificação  (Justifi cation and Santifi cation Westchester, Illinois: Crossway, 1983), 40. 64 - John Blanchard, Mais Tesouros Reunidos,   148. 65 - John Murray, R e d e n ç ã o C o n s u m a d a e A p l i c a d a ( Redemption  Accomplished an d A pplied -   Grand Rapids: Eerdmans, 1955), 184-185; Edi tora Cultura Cristã -1993 66 - Kenneth Prior, O Caminho da Santidade: Um Estudo Sobre o Cresci mento Cristão (The Way of Holiness: A Study in Christian Growth -  Downers Grove, Illinois: Intervarsity Press, 1982), 42. 67 - Cf. G. C. Berkouwer, Fé e Santificação,  trad, por John Vriend (Grand Rapids: Eerdmans, 1952), capítulo 6. 68 - H. A. Ironside, Santidad e: a Falsa e a Verdadeira (Holiness: The False and The True -   Glasgow, Escócia: Pickering and Inglis, 1935), 57. 69 - John Stott, O Batis mo e a Plenit ude do Espírito Santo , 2a.edição (The Baptism and the Fullness of the Holy Spirit - Downers Grove,Illinois: Intervarsity Press, 1975), 50; Edições Vida Nova - 1993 70 - Samuel Rutherford,  A Provaç ão e o Triunfo da Fé ( The Trial and Triumph o f Faith -   Edimburgo, Escócia: William Collins, 1845), 403. 71 - I.D.E. Thomas, O Tesouro de Citações Puritanas,   140.

72 - John Blanchard, Mais Tesouros Reunido s,  153. 73 - Owen, Obras,  3:310. 74 - “A Coroa e a Glória do Cristianismo: ou Santidade: O Único Caminho para a Felicid ade” (‘Th e Crown and Glory of Christianity: o r Holiness, The Only Way to Happin ess’) em Obras de Thomas Brooks ( The Works of Thomas Brooks -  1864; reimpr. Edimburgo: Banner of Truth Trust, 1980), 4:103-150.

Eu sumarizei as observações de Brooks. O seu tratado sobre santidade (446 páginas) é um clássico inestimável, mas tem sido misteriosamente negligen ciado nos atuais estudos sobre o assunto. 75 - Ryle, Santidade, 71-72. 76 - John Blanchard, Tesouros Reunidos,  146. 77 - Cf. G. C. Berkouwer, Fé e Santificação, capítulo 2. 78 - Institutas, 3.2.8. 79 - John Blanchard, Tesouros Reunidos,  146.

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