Conto Medo de Espelhos

November 23, 2018 | Author: Eliane Garcia | Category: Vampires, Short Stories, Nature
Share Embed Donate


Short Description

Download Conto Medo de Espelhos...

Description

Era uma vez um sapo e um escorpião que estavam parados à margem de um rio. - Você me carrega nas costas para eu poder atravessar o rio? – perguntou o escorpião ao sapo. - De jeito nenhum. Você é a mais traiçoeira das criaturas. Se eu te ajudar, você me mata em vez de agradecer. - Mas se eu te picar com meu veneno- respondeu o escorpião com uma voz terna e doce – morro também. Me dê uma carona. Prometo ser bom, meu amigo sapo. O sapo concordou. Durante a travessia do rio, porém, o sapo sentiu a picada mortal do escorpião. - Por que você fez isso, escorpião? Agora nós dois morreremos afogados! – disse o sapo. E o escorpião simplesmente respondeu: - Porque esta é a minha natureza, meu amigo sapo. E não posso mudá-la. Essa pequena fábula, de origem remota, sempre foi para mim a história mais assustadora do mundo. Quais são as coisas que me amedrontam? A mentira e a traição. Evani, minha grande amiga sempre me diz que quem trai e mente, faz isso a vida toda. E eu sempre discordo dizendo que as pessoas podem mudar. Ela insiste: “ Helo, um vampiro sempre será um vampiro” E eu contesto?” Dá para desvampirizar”. Quem será que tem razão? Leia o conto e, se você descobrir a resposta, um dia venha me contar.

Medo de espelhos Isabela calçou as botas pretas, vestiu seu moletom preto, longo, sobre as calças também pretas, olhou-se no espelho e ficou satisfeita: seria difícil vê-la quando se embrenhasse na mata naquela noite sem luar. Prendeu os cabelos lisos, pretos, num rabo de cavalo e depois os cobriu com um gorro preto. “Pronto, virei ninja”, pensou. Apanhou a lanterna, velas, ovos, o alazão já selado pra ela. O garoto a cumprimentou no escuro da noite: - Que bom que você está dando risada. Está voltando a ser que nem antes. - Joaquim, todos desapareceram desapareceram na mata? Ela perguntou, ajeitando-se na sela. sela. - A gente tem que andar depressa. Se não conseguirmos prender o Rodrigo antes do amanhecer, toda aquela turistada vira vampiro que nem ele. Galopando ao lado do amigo na rua principal da pequena cidade vazia, encravada no coração de uma montanha de Minas Gerais, Isabela lembrou-se da primeira vez que ouvira falar da tal da mata dos vampiros. Era inverno em São Paulo e seus pais tinham decidido dar uma festa. O dia todo fora marcado por coisinhas que davam errado, como geladeira quebrada, o cachorro fazendo xixi no tapete novo(...)  A casa foi ficando f icando lotada. No sofá em frente ao piano, sentaram-se os amigos de sempre. Mas com eles apareceu um grupo de desconhecidos, uma gente estranha que Isabela nunca vira antes. Eles riam muito. Cochichavam entre si. Havia uma moça que sentou no meio do sofá. Era como se ela fingisse o tempo todo. O rosto de traços até bonitos ficava feio. Ricardo, melhor amigo de seu pai, sentou-se ao lado dela. Foi então que Isabela percebeu. O ar ficou cheio de cores. Como se aquelas pessoas estivessem atrás de uma vidraça transparente e ela estivesse sozinha do lado de fora desse muro quase invisível. A moça riu. Esticou as mãos com se fizesse um gesto normal. E começou a puxar uma luz bonita, suave, perolada que estava em volta do corpo de Ricardo. Ele foi ficando pálido, opaco, como se estivesse perdendo vida. Era horrível de ver. - Você já ouviu falar da mata de vampiros? Isabela sentiu um frio na espinha e virou-se para ver quem lhe fazia essa pergunta. O medo cedeu lugar ao fascínio. Era o garoto mais lindo que ela já vira. Ele sorriu, olhando fundo para ela, e sentou-se na beirada da cadeira. - Fica em Minas Gerais. É uma mata-esconderijo. Um refúgio de vampiros. Quem passa toda uma noite sem luar  perdido nela, é transformado em vampiro também. - Rodrigo, para de falar essas coisas. Você não sabe que dá azar? – disse a moça do sofá, como se estivesse lhe dando um aviso. Depois da festa, lembrou-se Isabela, Rodrigo passara a freqüentar sua casa diariamente. Ninguém reclamava da constância de sua presença. Era como se ele hipnotizasse a família inteira. Isabela nunca tinha se divertido tanto. Jamais tinha encontrado alguém como ele. Dar uma volta na rua, tomar um sorvete, ir ao cinema, tudo isso lhe dava uma sensação de felicidade tão intensa como ela nunca havia experimentado.  Até que ele lhe contou toda a verdade. - Você sabe que esse negócio de vampirismo é pra valer, não é mesmo, Isabela? – ele lhe disse um dia. - Que bobagem, Rodrigo. Você está brincando comigo. - Eu não estou falando de vampirismo de sangue. Mas de vampirismo de energia, de imaginação, de sonhos, coisas assim. - Continuo achando bobagem – ela disse rindo, enquanto trocava o CD. Depois dessa conversa, Rodrigo simplesmente sumiu. Sem mais nem menos. No primeiro dia Isabela até conseguiu levar a vida normalmente. Mas no segundo, no terceiro, a falta de Rodrigo começou a doer. Concentrar-se? Impossível. Comer? De jeito nenhum! Rir ? Nem pensar! E os sonhos? Tinham desaparecido. Era noite em claro seguida de outra noite em claro. De repente, ele voltou. Do mesmo jeito, sem explicação. - Isabela, eu sei que você sentiu minha falta. - É porque eu gosto muito de você, Rodrigo, só isso. É normal. - Não, minha amiga. Não é normal. Eu não sou s ou seu namorado. Você não está apaixonada por mim. - Não? – ela perguntou. – Pensei que estivesse. - Não. É que eu sou um vampiro. - Para com isso, cara.

- Sou mesmo. E você precisa me ajudar. Eu tenho que mudar. Não agüento mais viver assim. Preciso voltar a ser  humano. Me ajude, Isabela, me ajude por favor. - Ajudo sim. Mas como? – perguntou a garota. - Vou te ensinar os princípios básicos do vampirismo – ele lhe explicou. – Você precisa se proteger de mim. Eu perco o controle, às vezes. Se isso acontecer, não sei se consigo deixar você escapar. Preste atenção e ouça bem: vampiros não sugam sangue. Não são sobrenaturais, nem imortais, muito menos especiais. Mas tem poderes. Controlam a mente e por isso podem ser letais. Duas horas da manhã. Isabela novamente acordou das recordações e prestou atenção no perigo que corria. Joaquim e ela haviam alcançado o alto da colinha. Agora podiam ver o lago e a pequena mata logo atrás. - A gente tem que entrar na mata. Mas antes vamos tomar as providencias – disse Joaquim. E pediu : - Me dê os ovos, Isabela. Isabela lhe entregou a caixa e Joaquim começou a quebrá-los, um por um, contra as pedras que cercavam o lago. Ovos são símbolos de vida. Vampiros os odeiam por isso. Ovos são mais poderosos que alho. Rodrigo não seria capaz de transpor aquele circulo. Depois que eles o jogassem lá dentro, ele ficaria aprisionado. - Deixe que eu espalho o mel – disse Isabela. Quando abriu a tampa do vidro e sentiu o doce aroma do mel, Isabela lembrou-se da traição. - Isabela, eu preciso dos seus sonhos para poder viver. Fique ao meu lado. Durma um pouco. Não se preocupe. Vou usá-los, mas depois eu os devolvo a você – disse Rodrigo, em pleno sábado de verão. Isabela obedeceu. A cabeça encostada no ombro do vampiro teve sonhos maravilhosos. Rodrigo começou a aparecer nas imagens encantadoras. Ela o recebeu de braços abertos. De repente, o choque do despertar. - Muito obrigada, querida. Agora seus sonhos me pertencem para sempre.  Ao lado de Rodrigo, a moça da festa. - É isso aí, garota. Temos sonhos para os próximos quatro anos. Você tem muita imaginação. O período que se seguiu foi de um sofrimento absurdo. O corpo se retorcia de dor. Febre, cansaço, a tristeza mais profunda. Chamaram vários médicos, mas ninguém sabia que doença era aquela. Seus pais resolveram leva-la para a montanha. Era seu lugar preferido. Foi então que Joaquim veio visitá-la. Velho amigo, filho do dono da tropa de cavalos de aluguel. - Isabela – ele lhe disse – eu sei direitinho o que você tem. Aqui, a gente diz que é mordida de vampiro. - Mas eu não fui mordida – ela protestou. - Me dê o seu braço – disse o garoto. Isabela estendeu o braço e, pela primeira vez, reparou numa estranha cicatriz bem abaixo dos pulsos. - O que é isso? – ela perguntou. - Não faz mal, não. Vou lhe dar o remédio. O gosto é esquisito. Mas vai dar certo. O tratamento era estranho. Ovos crus misturados com mel. Todos os dias ao entardecer. De inicio, não houve melhora alguma. Até que Isabela tem um pesadelo horrível. Despertou chorando, assustada. Mas já era um começo. De volta a mata, Isabela guardou o vidro vazio de mel. Retirou um espelho da mochila. Escondeu-o debaixo de um arbusto. Respirou fundo. - Fique aqui, Joaquim – ela disse ao amigo – cuide bem de tudo. - Quero ir com você, Isabela. Os dois estão juntos. É perigo na certa. - Cuide do circulo. Preciso enfrentar tudo isso sozinha. Pode deixar. Isabela apagou a lanterna. Caminhando nas pontas dos pés, atravessou a mata. Viu jovens, velhos e até crianças, adormecidos. Aproximou-se do lago. Sentados à margem das águas, Rodrigo e a vampira assistiam aos sonhos humanos que se refletiam nas águas. Embora a cena fosse fascinante, o tédio de ambos era óbvio. Na verdade, detestavam-se. Rodrigo levantou-se e afastou-se em direção ás arvores. Isabela preparou-se para surpreendê-lo. Quando ele passou ao seu lado, ela se revelou. - Como vai meu vampiro preferido? – perguntou rindo. - Você? – ele disse – O que você está fazendo aqui? - Eu sobrevivi. - Mas é impossível! – ele disse. Ela saiu correndo e rindo entre as árvores. - Você está bravo comigo? - Não sei. – Ele a seguia ainda atordoado. - É que você sente alivio também. Você gosta um pouco de mim, eu sei. Isabela havia crescido naquelas matas. Correu pelos atalhos. O vampiro em seu encalço. Chegou ao laguinho. Joaquim os aguardava. Quando Rodrigo passou por ele, o peão prendeu-lhe os braços e o atirou no meio do circulo. O vampiro gritava. - Apanhe o espelho – disse Isabela.  A garota entrou para o circulo. - Olhe aqui! Veja bem como é a sua cara! De inicio, não havia imagem, nada. - Pare com isso dói demais! – Dizia o vampiro. – Eu não existo! - Existe sim! Olhe outra vez, - ela ordenou.

- Não tem nada, não tem nada, - ele dizia, os olhos secos, a voz fina. - Olhe então para mim. Eu estou aqui ao seu lado. Também estou perto de você, no reflexo. Pode fazer o que eu estou pedindo. Na hora que Isabela se fitou no espelho, porém o susto foi horrível! Porque no lugar de seu rosto jovem, Isabela viu uma mistura de sua própria imagem com a da garota que sempre o acompanhava: o mesmo sorriso falso, os traços bonitos sobrepondo-se aos seus. O resultado era um hibrido assustador. - Foi por isso que você fugiu? Esta é a cara que vê em mim? – ela lhe perguntou. Ele continuou calado. Isabela desatou a falar. - Agora entendo. Tudinho. Você morre de medo. Você é cego. Aliás, pior que cego. Você vê mal. Vê tudo misturado. O vampiro continuava olhando para o espelho. O reflexo vazio, os olhos fundos, a boca semiaberta. E quando Isabela afastou os olhos do espelho e reparou naquele rosto inerte sentiu um carinho inesperado, inexplicável, até mesmo tolo de tão sem sentido. Ela o abraçou rapidamente. O vampiro continuou imóvel, os ombros duros, o rosto seco. Até que ela gritou: - Veja! No espelho surgia uma massa uniforme, escura e, por trás dela, uma nova imagem. Era o rosto do vampiro que nascia no espelho. Mas agora havia pequenas rugas, imperfeições, dor, tristeza, alegria, todas as emoções. - Viu só? Você é gente também! Agora, feche os olhos e durma. Você vai sonhar. Sozinho - ela disse, satisfeita. Rodrigo foi tomado por um sono intenso, Isabela acomodou a cabeça dele na relva. Deu um beijo rápido em seus cabelos. Saiu do círculo. Montou a cavalo ao lado de Joaquim. Naquele momento, ela tinha certeza de que tudo ia dar certo. - Será que a gente quebrou o feitiço, de verdade?- perguntou Joaquim, desconfiado. - Claro que sim – respondeu Isabela, confiante. – Eu sei que no fundo ele é humano de verdade. - Não sei não, não sei não – murmurou Joaquim. Isabela saiu galopando. Depois diminuindo a velocidade, perguntou ao amigo: - Você se lembra daquela historia antiga do sapo e do escorpião? - A minha preferida? - Só você mesmo pra gostar de um troço daqueles. Agora eu inventei outro jeito de contar. É assim: era uma vez um sapo e um escorpião, que estavam parados à margem de um rio. O escorpião pediu carona ao sapo. - Até aí, é igual a minha ... – disse Joaquim. Isabela prosseguiu: - O sapo desconfiou. “ Mas se eu te der uma carona, você me mata. Eu sei que você é egoísta, traidor,falso e mentiroso.” - Tá, ta – apressou Joaquim – e, daí? - “Juro que não vou te picar!” promete o escorpião. O sapo lhe deu uma carona. Mas quando chegaram no meio do rio, o sapo sentiu o escorpião se mexendo em suas costas... “ Escorpião, pode abaixar o rabinho e guardar o seu veneno. Você não sabe que, se você me picar, morreremos os dois?” - “Mas esta é a minha natureza” – completou Joaquim. - Essa é a parte que eu mudei. Ouça bem. O sapo diz assim: “Escuta aqui, ô seu escorpiãozinho de nada, você sabia que eu também tenho veneno?”. “Tão mortal quanto o meu?”, perguntou o escorpião. “ Você pica, mata e pronto. Já eu solto um veneno que te deixa cego e cheio de coceiras. Você nunca mais vai saber onde picar. Agora salta já das minhas costas. Olha aí um tronco de árvores. Agarre-se nele que eu vou afundar”, disse o sapo. Então o sapo mergulhou no lago e o atravessou por debaixo da água. Na maior facilidade. Como o escorpião não sabe nadar, ficou gritando feito um bobo: “Socorro! Me tirem daqui”, enquanto o tronco deslizava rio abaixo. Quando o sapo chegou à margem, acenou para o escorpião e disse: “Agora, duas leis da vida: número 1, traição não vale a pena: número 2, ser legal não é ser bobo!”. - Ta certo, ta certo, Isabela, gostei – disse Joaquim. O rosto cansado e feliz, roupas imundas, Isabela arrancou o gorro preto. O dia nascia. Ela sorriu. Mas Joaquim balançou a cabeça. - Não sei não – ele repetia. - O que é isso, Joaquim? - Vocês de São Paulo, acham que tudo é fácil. - E você? - Eu sou mineiro. Eu conheço a vida. Eu sei das montanhas. Pra mim o negócio é diferente. - Você está querendo dizer o quê. - Que o feitiço pode voltar. Que ele vira vampiro outra vez. - Você está louco! No fundo, o Rodrigo é bom, eu tenho certeza - disse Isabela. - Será? – perguntou Joaquim e, saiu disparado pelo meio da floresta. Isabela também saiu a todo o galope, rindo, louca para ficar ao lado do amigo, mas por mais que ela tentasse alcança-lo, só conseguia ouvir  sua voz, ecoando entre os pinheiros, repetindo sempre a mesma cantiga: - Não sei não, não sei não... Heloisa Prieto, Livro: O livro dos Medos.

View more...

Comments

Copyright ©2017 KUPDF Inc.
SUPPORT KUPDF