Autobiografia Intelectual Karl Popper PDF

March 16, 2017 | Author: Robson Rodrigues Carvalho | Category: N/A
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jPopper é / reconhecidamente, um dos maiores nomes da Filosofia da Ciência em nossos dias. Nesta sua fas­ cinante -A U TO BIO G R AFIA IN TELEC TU A L , dá-nos ele um estudo pessoal de suas 'próprias idéias e do ambiente histórico onde elas se desenvolveram. Assim é que, com sinceridade e. humor, fala~nos de Carnap, Einstein, ■Russell, Witígensteín e outros contemporâneos seus, ao mesmo tempo em que fórmula apreciações críticas do Círculo de Viena, do Positivismo Lógico, âõ desenvol­ vimento do nazismo e do marxismo, dos problemas do judaísmo e do anti-semitismo, enfim, de muito do que é intelectualmente importante na Cultura do nosso século. Tudo isso faz, deste livro, uma excelente intro­ dução não só ao pensamento popperiano como a alguns dos principais dilemas culturais, políticos e científicos da atualidade.

EDITORA CULTRIX

AUTOBIOGRAFIA INTELECTUAL Karl Popper Popper é o maior vulto da Filosofia da Ciência de hoje, assim como um dos maiores nomes da Filosofia Liberal, Esta autobiografia focaliza o desenvolvimento das suas idéias. A obra é na realidade um estudo pessoal da evo­ lução das idéias popperíanas e do ambiente intelectual onde se desenvolveram. Nesse am­ biente desfilam vultos como Carnap, Einstein, Gõdel, Polanyi, Russelí, Schrodinger, Tarski, Wittgenstein, Woodger e outros de igual emi­ nência, suas idéias e suas relações com Popper. Na análise da “ecologia” das idéias de Popper figuram brilhantes histórias e apreciações d o , Círculo de Viena, do Positivismo Lógico, do' desenvolvimento do nazismo e do marxismo, dos problemas do judaísmo e do anti-semitismo, en­ fim, de muito do que é intelectualmente impor­ tante na Cultura do nosso século. As informa­ ções pessoais são apresentadas de forma humana, sincera e com muito humor. O livro de Popper é precioso. É um documentário do maior inte­ resse não só sobre a Filosofia neste século mas, o que é raro, uma história da evolução das idéias de um grande filósofo escrita por ele mesmo. A obra, além de ser uma excelente introdução ao pensamento popperiano e ao seu desenvolvimento, tem o inestimável valor de ' mostrar como esse desenvolvimento ocorreu, quais os. fatores que contribuíram para a sua evolução e qual o ambiente em que se pro­ cessou. É, assim, ura relato precioso e raro para a História, & Sociologia e a Psicologia no desenvolvimento das idéias. Esses fatos tornam a A utobiografia In ­ telectual de Popper não só indispensável para todos os estudiosos da Filosofia, especialmente da Filosofia da Ciência, mas também do maior valor para todos aqueles que têm interesse pela história social e cultural do nosso século e pela compreensão da evolução e da “ecologia” das idéias. A. B rito da C un h a (da Universidade de São Paulo)

AUTOBIOGRAFIA INTELECTUAL

K arl

(Rainiurid)

PO PPER '

Nasceu em Viena, 1902 Professor emérito, Universidade de Londres PhJD. (Viená-):; D. L it. (L o n d re s ); possui títulos honoríficos que lhe foram concedidos pelas Universidades de Chicago, Denver, W arwiijk, Ghristchurch (N ova Z elân dia), Salford. . F ello w . da “Royal Society” e da “British Acaderay” .Membro correspoiidéntè do "Institu t de F ran ce” ; méirtbro da “ International Acadèiny íò r the Philosophy of Science” ; membro estrangeiro ho­ norário dá “American Academy of Arts and Sciences” ; membro honorário da: “Royal Society of New Zéaland” ; fellow honorário da “Ldridcm School of Econom ics and Political Science” ; membro honorário do “H arvard C hapter” de Phi B eta Kappa. Recebeu ò título de S ir em 1965. Prêmio “GÍdade de V iena” , em 1 9 6 5 ; prêmio “ Sonning” , da U niver­ sidade de Gopenhague, 1973. Publicações (apenas livros, que já foram traduzidos para 19 idiomas) : Lp.gifi der Forsckung ÍChe Õ pen Society and its Enem ies T h e Powerty of H istoricism Th,e L ogic of Scientific Discovery Cofijectures and R efutai tons. Objective K now ledge “Autobiografia e Réplicas aos Meus T h e Philosophy of K arl Popper

Gríticos”

-—

U nended Qúest, A n Intellectual 'A utobiography .

incluídas

em

M ■

FICHA CATALOGRÁFICA (P rep arad a

P 866a 2 . ed*

pelo Centro de Catalogação-na-Fcm tes C âm ara Brasileira do Livro, S P )

Popper, K acl Raimund, 1902Autobiografia intelectual [p o r] K arl P o p p er; tra­ dução de Leônidas Hegenberg e O ctanny Silveira d a M ota. 2 . e d . _ — , São Paulo, C ultríx,. 1 9 8 6 .

Bibliografia. 3.

1. C icncia — Filosofia 2 . Filosofia inglesa Popper, K arl Raimund, 1902I . T ítu lo . ■

'jj-

C D D -S 2 1 .2 «192 -501

77 -0 3 3 6

índices para catálogo sistemático: 1.

C iência :

2.

Filosofia inglesa

Filosofia.

301

3. 4.

Filósofos ingleses.: Autobiografia G rã -B re ta n h a : Filosofia 192

192 9 2 1 .2

KARL

POPPER

AUTOBIOGRAFIA INTELECTUAL Tradução de L

e o n id a s

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e OcTANNY SlLVJEERA DA MoTTA

ED ITO RA G U L T R IX SÃO

PAULO

Título do original:

TJNENDED QUEST A jm I n t e l l e g t u a l

A u -t o b io g r a p h y

Copyright © 1974 by the Library of Living Philosophers Inc. Copyright ©

1976 by K arl R . Popper



Edição

Ano

2- 3- 4- 5- 6- 7- 8*9

86- 87- 88- 89- 90- 9 ! - 92^93

Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela EDITORA GULTRDC LTDA. Rua D r. M ário Vicente, 374, 0 4 2 7 0 São Paulo, SP, fone 63-3141, que se reserva a propriedade literária, desta tradução.

ímpresto nas ofitinas gráficas da Editora Pensamento.

S U M Á R I O

A gradecim entos 01; Onisciência e falibilismo 02. Lem branças d a infância 03. Prim eiras influencias 04. A Prim eira Grande Guerra 05. U m antigo problema filosófico: o infinito 06. M inha prim eira falha filosófica. O problema do essenciàiismo 07. L onga digressão a respeito do essenciàiismo: aquilo que ainda m e separa d a maioria dos pensadores contemporâneos 08. U m ano im portante: marxismo, ciência e pseudociência 09. Primeiros estudos 10. Segunda digressão: pensamento dogmático e critico ; aprender sem auxílio da indução

11 *

Música

1j 13

14 16 19 21 23 24 37 45 50

60

12.

Especulações em torno do surgimento da música polifônica: psico. logia, da descoberta ou lógica da descoberta? 13. Dois tipos de música 14. Idéias progressistas em A rte, especialmente em M úsica 15. Ültim os anos de Universidade 16. T eo ria do conhecimento: Logik d er Forschung 1 7 . - Q uem m atou o positivismo lógico? 18. Realismo e teoria quântica 19. O bjetividade e Física 20. V erd ad e; probabilidade; corroboração

62 67 75 79 86 95 98 104 106

21. 22.-

A guerra próxim a: o problema judeu E m ig ração : Inglaterra e Nova Zelândia

113 116

23. 24.

Primeiros trabalhos na Nova Zelândia “A Sociedade Aberta” e “A Indigência do' Historicismo”

1 19 122 128

25.

O utros trabalhos realizados na Noya Zelândia-

26.

Inglaterra: na “ London School of Economics and Political Science” 129

27. 28. 29. 30.

Primeiros trabalhos na Inglaterra Prim eira visita aos E .U .A . Encontro com Eiiistein Problemas e teorias Debates com Schrodinger

134 136 140 144

3 1 O b j e t i v i d a d e e crítica 32. 3 3. 3 4.

Indução; dedução; verdade objetiva Programas de pesquisa metafísica Combatendo o subjetivismo em Física: a M ecânica Quântica /•propensão

35.

Boltzinann e a direção do tempo

•3 6 .

A teoria subjetivista ‘ d a entropia

;37. i38. 39. 40.

O darwinismo como program a metafísico de pesquisa Mundo 3, ou o T erceiro. M undo O problema corpo-m ente e o M undo 3 A posição dos valores num mundo dè fatos

>-t. Notas Principais publicações e abreviações dos títulos Bibliografia selecionada índice Remissivo

AGRA D E G I M E N T O S

Esta autobiografia foi preparada a fim de ser incluída nos dois volumes da obra The PhilosopHy of Karl P o p p e r editada por Paul Arthur Schilpp, que apareceu com os números 14/1 e 14/11 na coleção "The Library of Living Philosophers” (La Salle, Illinois: The Open Court Publíshing Gompany, 1974). Gomo em todos os volumes desta série, a autobiografia se deve à iniciativa do Professor Schilpp, fundador da coleção. Sou muito grato a ele por tudo quanto fez e pela sua infinita paciência em aguardar, a autobiografia de 1963 a 1969. ' Muito peiihoradamente agradeço a Ernst Gombrich, Bryan Magee, Arne Petersen, Jeremy Sheamur, Sra. Pamela Watts e, aci­ ma de tudo, a David Miller e a minha esposa pelo trabalho paciente que. realizaram, lendo e melhorando o manuscrito. Vários problemas surgiriam durante a fase de produção da edi­ ção original. Somente depois de prontas e revistas as provas tipo­ gráficas é que se deliberou reunir todas as notas, colocando-as ao final — fato que não é destituído de importância, pois ò manuscrito havia sido preparado segundo orientação previamente assentada pela qual se deixariam as notas ao pé das páginas correspondentes. . Foi imenso o trabalho de organização dos volumes da série “The Library of Living Philosophers” ' executado pelo Professor Eugene Freeman, pela Sra. Ann Freeman e seus coadjuvantes: aqui regis­ tro meus agradecimentos pela atenção que me dispensaram e pelo cuidado com que levaram a bom termo suas atividades. O texto da presente edição foi revisto. Introduziram-se alguns breves adendos e uma curta passagem saiu do corpo da obra para integrar-se à nota 20. K. R. P. Penn, Buçkinghamshire Maio, 1975 11

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O que exclu ir e . o que incluir ? Esse é o p r o b l e m á . H ügh

L o ftin G j D o c t o T

D o o lit t íe Js Z o o .

1 . Qnisciêucia e falibilismo Aos vinte anos, fiz-me aprendiz de um velho mestre marceneiro de Viena, cujo nome era Adalbert Põsch, e com ele trabalhei de 1922 a 1924, em tempos não muito distanciados da Primeira Guerra Mundial. Ele se parecia muito com Georges Glemenceau, mas era homem cordato e bondoso. Depois de haver-lhe ganho a confiança, aconteceu, muitas vezes, que, sozinhos na oficina, ele me tornasse beneficiário de sua inexaurível riqueza de conhecimentos. Certa ocasião, disse-me que, por vários anos, se dedicara a trabalhar em diversos modelos de máquina de movimento perpétuo, acrescentando cismadoramente: “Dizem que não é possível construí-la, mas, depois de construída, dirão coisa diferente!” (“Da sag’n s5 dass m a’ so was net mach’n kann; aber wann amai eina ein’s g5machthat, dann wer’n s’ schon anders red-n!” ). Tinha ele como hábito favorito fazer-me tuna pergunta a respeito de História e respondê-la ele próprio, quando ocorria eu não saber a resposta (embora eu, seu aprendiz, fosse alüno da Universidade — fato que muito o orgu­ lhava). “Você sabe”, perguntava-me, “quem inventou as botas de cano alto? Não sabe? Foi Wailenstein, duque de Friedlarid, du­ rante a Guerra dos Trinta Anos”. Depois de uma ou duas perguntas ainda mais difíceis, por ele formuladas e por ele triunfante­ mente respondidas, meu mestre dizia com modesto orgulho: “Vocé pode me perguntar o que quiser. Eu sei tu d o ” (“Da kõnnen S5 mi frag,n was Sie wolI’n: ich weiss alies”) Creio que, ya respeito de teoria do conhecimento, aprendi mais com meu querido e onisciente mestre Adalbert Pòsch do que com qualquer outro .de meus professores. Ninguém, como ele, contribuiu tanto para que eu me tornasse discípulo de Sócrates. Foi ele, com efeito, quem me ensinou não apenas o quão pouco eu sabia, mas ■também que a sabedoria a que eu pudesse aspirar talvez consistisse u

. ápénás; em dar-me eu conta mais amplamente do infinito de minha ignórância. Essas e outras reflexões, que se colocavam no campo da Epistemologia, ocupavam-me o espirito enquanto eu trabalhava com uma. escrivaninha. Recebemos, por aquela époça> uma grande en, comenda de trinta escrivanilihas de mogno, com muitas gavetas. Receio que a qualidade de algumas daquelas escrivaninhas, espe­ cialmente no tocante ao envemizamento, haja deixado muito a de­ sejar, em razão de minhas preocupações com a Bpístemología. Isso mostrou a meu mestre, e a mim também, que eu era demasiado ignorante e demasiado falível para semelhante espécie de trabalho. Assim, decidi que, ao completar o aprendizado^ em outubro de 1924, eu deveria procurar algo mais fácil de fazer do que escrivaninhas de mogno. Durante um ano, dediquei-me ao trabalho social com crian­ ças abandonadas, trabalho que já executara a n te s e havia conside­ rado muito árduo. Mais tarde, após cinco anos devotados princi­ palmente a estudar e escrever, casei-me e entreguei-me, com satis-r fação, ao mister de professor. Isso foi em 1930. Naquela ocasião, eu não tinha outras ambições profissionais que nao a de ensinar, embora viesse a sentir-irie um tanto cansado de. tal função, após ver publicada a minha Logik der Forsehung, em fins de 1934. Foi, portanto/com satisfação que, em 1937, tive opor' tunidade de abandonar o ensino e tornar-me um filósofo profissional. Eu havia quase atingido os trinta é cinco anos e julguei que, final­ mente, resolvera o problema de trabalhar numa escrivaninha e, ape­ sar; disso,; preocupar-me com Episteinologia. 2 . Lembranças da infância Conquanto a maioria de nós conheça a data e lugar de nasci­ mento; mo imeu caso, 28 de julho. de 1902, em Himmelhof, no distríto=.db Obet -St; Veit, em Viena — , poucos sabem como e quan­ do iniciáram;ssua? ;vida. intelectual; No que respeita a meu desenvolvimento : filosóficoy .lembro~me- de alguns de. seus. primeiros está­ gios. E não faáv duvida* de que éle éoineçou depois de principiado meu desenvolvimento emocional e moral. : Em criança, tenho‘ a impressão de ter sido algo severo e até mesmo presumido, : embora: essa : atitude; ise-- temperasse com o sentimento de .que eu. não ,tinha. o' direito ,de. jjilg&r pessoa alguma salvo eu próprio. Dentre as. minhas Jembranças mais recuadas, estão senr timentos .de admiração pelos mais; velhos* ;çpmo por meu primo .Eric Schiff, a quem eu, admirava por ser um: ano maí§ velho, por sua

aparência bem euidâda e, especialmente, pela süa beleza —- dons que sempre considerei importantes e inatingíveis. Hoje, ouve-se dizer com freqüência que: as crianças são' cruéis por natureza, Não creio, Eu era. quandò criança, o que os norte-americanos denominariam “molenga” e a compaixão é: uma das mais fortes emoções dè que. tenhó recordação; ^ÍPoi o componente principal de j^ha-^pifeièirá/amor, octírrida quaiido eu tinha quatro ou- cinco anos. Fui leyádo a uní jardim de infância, onde havia uma linda ijiefiàha ide dpis!;aüõs^ cega.. ’ ’Meu* coração se dilacerou, tanto pela feelèzàvrdo sorrisQvjielfr quanto ‘ pela tragédia de sua cegueira. -Efal ainoriàJamàis "a 'estjueci, a^esár de tê-la encontrado apenas uma véz é tãò^oménte por uma -hoía oü duas. Não voltei- ao! jardiln dè irifâiiGia ; íálvi^z: ;minha ‘mãe: Jivessc notado o quanto ali jae períurbeil " - •: ;- í A visão ' da pobreza abjeta, em- "Viena, foi1. uih^dòkr píiiicipais. problemas a me comoverem quando eu era1 ainda. 'Criança; >— e. a comoção era tanta que estava sempre no fundo- dè -irietis pensa­ mentos, Poucas, dentre, as pessoas que vivem atu alm en te numâ :;das democracias ocidentais, sabem o que significava a pobreza no começo deste século: homens, mulheres e crianças vítimas da fome, dò frio e da desesperaria. Nós, crianças, éramos, porém, inütèis. Não podíamos' fazer mais que pedir alguns centavos para dár a um pobre. So muitos anos depois vim a saber que meu pai se esforçara longamente para pôr paradeiro a tal situação, embora jamais hou­ vesse falado acerca dessas atividades. Ele trabalhava em duas co­ missões que buscavam oferecer abrigo para os sem-lar: uma loja máçônica, de que durante longo tempo ele foi Mestre, administrava u m a casa para órfãos, enquanto a outra comissão (não-maçônica) erigira e mantinha uma grande instituição para adultos e famílias desabrigadas. (Um dos internados nessa instituição — o Asyl für Obdachlose foi Adolf Hitler, quando de sua primeira passagem por Viena.) O trabalho de meu pai recebeu inesperado reconhecimento ao dar-lhe o velho Imperador o título de Cavalheiro da Ordem de Francisco José (Rièter des Franz Josef Ordens), o que deve ter cons­ tituído não apenas uma surpresa, mas um problema. Com efeito, embora, à semelhança da maioria dos austríacos, respeitasse: o Impe­ rador, meu pai era um liberal radical, da escola de John Stuart Milí e de modo algum apoiava o governo. Na condição de maçom, pertencia a uma sociedade que, na ocasião, foi declarada ilegal pelo governo austríaco, embora o goV

^firno^íhungajio! d& Francisco José não fizesse o mesmo. Os maçons freqüentemente se reuniam do lado de lá da fronteira húngara, em P.ressburg:. (hoje Bratislava, na Checoslováquia). O Império Austro“Hungarp, apesar de ser monarquia constitucional, não era gover­ nado por seus dois Parlamentos: não. tinham estes o poder de depor os.: dois: Primeiros-Ministros ou os dois Gabinetes, e nem mesmo o poder de emitir um voto de. censura.. O Parlamento Austríaco era, ao. que parece, ainda mais impotente do que o Parlamento inglês ao. tempo dè. William e Mary, se é que esta comparação tem algum cabimento. Travaram-se lutas pelo poder e havia severa censura política; por exemplo, uma brilhante . sátira política, Anno 1903, que .meu pai escrevera com.; o pseudônimo de Siegmund Karl Pflug, foi apreendida pela polícia, . quando de sua publicação em 1904, e até 1918 permaneceu no Index de livros proibidos. Nãò obstante tudo isso, naqueles dias anteriores a 1919 rei­ nava, na Europa, a oeste da Rússia czarísta, uma atmosfera, de libe­ ralismo, atmosfera: que também dominava a Áustria e que foi destruída, para. sempre, ao que. hoje ;parece, pela Primeira Guerra Mundial. A Universidade de Viena, com seus muitos professores de grande eminência, gozava de elevado grau de liberdade é auto­ nomia. O mesmo era verdade com relação aos teatros, importantes na vida dê Viena — quase tao importantes quanto a música. O Imperador se mantinha .à distância de todos os partidos políticos e não se identificava com nenhum dos governos. Seguia, quase ao pé . da letra, o conselho dado por Sdren Kierkegaard a Cristiano V III,. da Dinamarca 3 . Primeiras influências Fui criado em ambiente indiscutivelmente livresco. Meu p ai,, o Dr; Simon Siegmund- Carl Popper, era, como seus dois irmãos, doutor em leis'- pela Universidade de Viena. Tinha uma grande biblioteca e haviá em casa livros por toda parte — com exceção da sala de jantar; onde> estava um majestoso^ Bõsendotfer de concertos e muitos volumes de. Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert e Brahms. Meu pai, que '-.tinha a mesma idade de Sigmund Freud ~ cujas obras possuía e. lera quando da publicação — trabalhava como advogado. Acerca de minha- mãe, Jenny Popper, nêe Schiff, falarei quando vier a ocupar-me de. música. Meu pai era um orador con­ sumado. Ouvi-o no tribunal^ apenas -uma vez, em 1924 ou 1925, sendo eu. o réu. O caso estava, em minha opinião, bem definido2. Por. isso mesmo, não lhe pedi que me. defendesse e senti-me emba16

raçado quando ele insistiu. E a completa simplicidade, clareza e sinceridade de seu discurso me impressionaram muito. Meu pai trabalhava ativamente na profissão. Havia sido amigo e .sócio do último burgomestre liberal de Viena,, o Dr. Gari Grübl, a quein sucedera a testa de um- escritorio de advocacia. Esse escritório se integrava ao . grande apartamento onde vivíamos, no coração de Viena, em frente à porta principal da catedral (Stephanskirche). Papai trabalhava no escritório por longas horas, mas, em verdade, era antes homem de estudos que advogado- Historiador (parte - con­ siderável de sua biblioteca dizia' réspeitq à H is tó ria )tin h a par­ ticular interesse pelo período helenístáco e. pelos séculòs X V III e X I X . Fez poesia e verteu para o alemão versos gregos e latinos. (Raramente falava de tais assuntos. Fòi por acaso que^ certo dia, descobri algumas ágeis traduções de versos de Horácío. Seus dons característicos eram a delicadeza de trato e o forte senso de humor.) Mostrava grande inclinação péla Füosofia. A ele pertenceram obras que ainda possuo, de Platão, Bacon, Descartes, Spinoza, Locke, Kant, Schópenhauer e Eduard Von Hartmann; obras escolhidas de J. S. Mill (em versão alemã, editada por Theodor Gomperz (a cujos Pensadores Gregos devotava grande admiração) ; a maior parte dos livros de Kierkegaard, Nietzsche e Eucken,. e os trabalhos de Ernst Mach, a Crítica de Linguagem, de Fritz Mauthner e Geschlecht und Charakter, de Otto Weininger (obrais que parecem ter exercido alguma influência sobre Wittgenstein)3; e traduções da maior parte dos livros de Darwin. (Em seu escritório, havia os retratos de Darwin e de Schópenhauer!) Ali estavam também os autores consa­ grados da literatura alemã, francesa, inglesa, russa e escandinava. Uma das grandes preocupações de meu pai eram, entretanto, os problemas sociais. Não apenas possuía as principais obras de Marx e Engels, de Lassalle, Karl KLautsky e Eduard Bernstein, mas ainda as dos críticos dç M arx: Bõhm-Bawerk, Gari Menger, Anton Menger, P. A. Kropotkin e Josef. Popper-Lynkeus (ao que parece, dis­ tante parente meu, pois nascera em Kolin, cidadezinha de origem de meu avô paterno). A biblioteca incluía um setor dedicado ao pacifismo, com livros de Bertha von Suttner, Friedrich Wilhêlm Fõrster e Norman Angell. Assim, os livros fizeram parte de minha vida muito antes que eu pudesse lê-los. O primeiro livro a causar-me impressão forte e duradoura foi lido, por minha mãe, para minhas duas irmãs e para mifflj pouco antes de eu aprender a, ler. (Fui eu o último dos três filhos.) Era um livro para crianças, da.grande escritora sueca Selma Lagerlõf, em bela, versão alemã ( Wunderbare Reise des Kleinen

N ils:-;-.lio Igersson mii den Wildgãnsen^ dC versão inglesa se intitula The 'Wònderful Adventures of Nils.) Durante muito e muito tempo, relij.èsse: livro pelo menos uma vez .por ano; e, posteriormente, li (prpyavelmente mais de uma vez) tudo quanto Selma Lagerlõf, escreveu. Não aprecio sèu primeiro jomance, Gosta Berling, embora ele tenha, indubitavelmente^ muitas qualidades. Todos os outros livros, dessa escritora continuam a ser. para mim, todavia, obras-primas. •• .Aprender a ler e, em menor grau, a escrever são, naturalmente, os^acontécimentos mais significativos. no.. desenvolvimento intelectual de ;úma pessoa. Nada há comparável, pois . poucas são as pessoas (Heien Keller é a grande exceção) capazes de recordar, o què para ela?;. significou aprender a falar. Serèi sempre grato a minha pro­ fessora,. Emma Goldberger, que jne ensinou a ler, escrever e. contar, Issò , é, creio eu, o que há de. essencial para ensinar a uma criança; e, para aprendê~lo} algumas crianças nem sequer precisam ser ensi­ nadas. Tudo o mais é atmosfera e aprendizado através ,de leitura e reflexão. Sem contar meus pais, minha professora e Selma Lagerlõf,. a maior •influência exercida sobre os primeiros estágios de meu de­ senvolvimento intelectual foi, julgo eu, a de um amigo de toda a vida, Arthur Arndt, parente de Ernst Moritz von Arndt, um dos famosos, patriarcas do nacionalismo alemão no período das guerras napoleônicas V Arthur Arndt era antinacionalista ardoroso. Embora de; ascendência alemã, nascera em Moscou, onde passou a juven­ tude. Era mais velho do que eu cerca de vinte anos — ele estava próximo; dos trinta quando o conheei em 1912. Havia estudado engenharia .na. Universidade de Riga e fora um dos líderes estu­ dantis durante a ^malograda revolução russa de 1905. Era socialista e., ao mesmo tempo, feroz adveísárip dos bolcheviques, alguns de eujos- chefes conhecia pessoalmente desde 1905. Descrevia-os como jesuítas-: do í socialismo, istO' é, capazes? de- sacrificar pessoas inocentes, mesma qüe da; -mesma, orientação, pois os: grandes fins justificavam todos os-ineios. >Arndt não era marxista convicto, embora considerasse? ;que, -atét aquelas íéppca, fora Ivíarxi o; mais importante teórico do socialismo. Ele encontrou em mim álguétn assaz disposto a ouvir íalar, das. idéias socialistasnada, acreditava, eu, podia ser màis.importante do,. .que- pôr .fim à. pobreza. Arndt também se interessava .profundamente (muito mais do que meu pai) pelo movimento qiie os: .discípulos de Ernst Mach e Wilhelm Ostwald haviam; iniciado,, aima sociedade cujos membros denominavam a si próprios^ “rnonistas’.5- ( e q u e tinha ligação com

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a célebre revista norte-americana The Monist, de que Maçíl era colaborador). Os monistas. sentiam-se atraídos pela Ciência, pela Epistemologia e pelo que hoje chamaríamos Filosofia da Ciência. .Entre os. monistas .de.: Viena, o 'ímeío-socialistaí, Popper-Lynkeus teve considerável número de seguidores, inclusive, Otto jNeurath. A primeira obra, que li acerca do socialismo- (provavelmente sob influência de meu amigo, Arndt;: meu pai. relutava em influen­ ciar-me) foi Looking; Backwurd, de Edward Bellamy. -Creio que/ a li quando tinha mais, ou menosdozeianos, e^oílivro ;muito me irnpressionou. Arndt levava-me a passeios^promo.vidos pelos monistas nos bosques de Viena,. e, nessas ocasiões-, expunha e discutia-marxismo e darwinismo. A maior parte do ;que ele: .dizia.ficava* ;sem dúvida, , além de meu alcance; Mas era interessante e estimulante. Uma dessas excursões domingueiras dos marxistas realizou-se no dia 28 de junho de 1914. Ao cair da noite, quando: nos aproxi­ mávamos dos subúrbios de Viena, soubemos, que o arquiduque Ferdinando, herdeiro presuntivo da Áustria, havia sido assassinado em Sarajevò. Cerca de uma semana dçpois, minha mãe saiu comigo e minhas duas ■irmãs para gozar férias de verão em Alt-Aussee, aldeia não muito distante de Salzburgo. Ali, rio meu décimo segundo aniversário, recebi carta de mêu pai em que ele dizia sentir não poder juntar-se a nós, como pretendera, "porque, infelizmente, há guerra” (“denn es ist leider Krieg” ). Como a carta chegou no dia em que houve a declaração de guerra entre a Áustria-Hungria e a Sérviaj parece que meu pai dava-se conta do que estava por vir. 1 ' ^ 4 . A Prim eira Grande Guerra Tinha eu portanto doze anos quando começou a Primeira Grande Guerra; e os anos de conflito e suas conseqüências foram, sob todos os aspectos, decisivos no que respeita a meu desenvolvi­ mento intelectual. Tornaram-me um crítico das opiniões correntes, especialmente das opiniões políticas., Claro está que, por aquela época, poucas pessoas sabiam o que a guerra significava. Corria por todò o país um ensurdecedor brado de patriotismo, peío qual até. mesmo alguns membros do nosso grupo, anteriormente alheio às provocações de guerra, foram envolvidos. Meu pai vivia triste e deprimido. Arndt, contudo, entrevia algo desejável. Esperava ocorresse uma revolução democrática na Rússia. .Posteriormente, recordei com freqüência, aqueles dias. Antes da guerra, muitos. integrantes, de nosso grupo haviam examinado teorias políticas de cunho decididamente pacifista que, pelo menos, 19

faziam fortes restrições ao sistema existente, e tinham dirigido críti­ cas à aliança entre a Áustria e a Alemanha e à política expansionista da Áustria, nos Bálcãs, especialmente na Sérvia. Desconcerta­ va-me o fato de que pudessem eles transformar-se subitamente em defensores dessa mesma política. Hoje entendo melhor tais coisas. Não havia apenas a pressão da opinião pública; havia também o problema das realidades divi­ didas. E havia ainda o medo — o meda das medidas violentas que, na guerra, as autoridades têm de tomar contra os dissidentes, pois não há como traçar nítida linha divisória entre dissensao e traição. Na época, contudo, seriti grande perplexidade. Nada sabia, natural­ mente, do que tinha ocorrido com os partidos socialistas da Alema­ nha e da França; nadá sabia do modo por que o internacionalismo defendido por eles se hâvia desintegrado. (Maravilhosa descrição desses acontecimentos pode ser lida nos últimos volumes de Os Thibault^, de Roger Martin du Gard.) Durante algumas semanas, sób influência da propaganda de guerra feita em minha escola, deixei-me contaminar pela atmosfera geral. ’ No outono de 1914, escrevi um ridículo poema, “Celebração da Paz”, onde admitia que os austríacos e alémães haviam resistido vitoriosamente ao ataque (acreditava, então, que "nós” tivéssemos sido'atacados) e descrevia e louvava a restauração da paz. Conquanto não se tratasse de um poema de caráter muito belicoso, logo me envergonhei cóm a suposição de que; “nós” houvéssemos sido ataca­ dos. Percebi que a agressão austríaca à Sérvia e a agressão alemã à Bélgica eram coisas terríveis e que um poderoso sistema de pro­ paganda estava tentando persuadir-me de que tais agressões tinha justificativa. No inverno de 1915-16, convenci-me — sem dúvida sob influência da propaganda socialista de pré-guerra — de que era má a causa da Áustria e da Alemanha, de que merecíamos perder a guerra (e de que, portanto, a perderíamos, como eu ingenuamente argumentava). Certo dia, penso que em 1916, abordei meu pai com o fito de mostrar-lhe uma justificação razoavelmente bem preparada dessa posição, mas ele foi menos receptivo do que eu esperava. Tinha mais dúvidas do que eu acerca dos erros e acertos da guerra e de seu resultado. Á um e outro respeito, cabia-lhe razão e, obviamente, eu vira as coisas de maneira demasiadamente simplificada. Não obstante, ele considerou com grande seriedade meus pontps de vista e, depois de longo debate, mostrou-se inclinado a concordar com eles. O mesmo ocorreu com meu amigo Arndt. Depois disso, pou­ cas dúvidas me restaram. 20

A essa altura, todos os meus primos com idade suficiente com­ batiam como oficiais do exercito austríaco, o mesmo acontecendo coro muitos de meus amigos. IVtinha mae continuava a levar-nos para férias de verão nos Alpes e, em 1916, estivemos novamente em Salzkàmmergut —- dessa vez em Isclil, onde -alugamos uma pequena casa que se .erguia sobre um talude de madeira. Conosco esteve a irma de Freud, Rosa Graf, amiga de meus pais. Seu filho Hermann, só cinco anòs mais velho do que eu,, veio visitar-nos, uniformizado, em sua última licença, antes de partir para a frente de batalha. Pouco depois, chegava a notícia de sua morte. O pesar da mãe — e' da irmã, a sobrinha favorita de Freud1 — foi enorme. Fez-me compreender o significado das longas e aterradoras listas de pessoas mortas feridas e desaparecidas. Logo depois, ressurgiram as questões políticas.' A :velha Áustria havia sido um Estado multilingual: nela se reuniam checos, eslovacos, poloneses, eslavos do sul (iugoslavos) e gente de . fala italiana. Começaram a surgir boatos de estarem os checos, eslavos e italianos desertando do exército austríaco. A desagregação começava. Um amigo de nossa família, que vinha atuando como auditor militar, falou-nos a respeito do movimento panreslavo, que, em razão de suas funçoês, estava compelido a estudar, e falou-nos de Masaryk, um filósofo saído das universidades de Viena e Praga que se tornara líder dos checos. Soubemos de um exército checo formado na Rússia e integrado por prisioneiros de guerra austríacos, de língua checa. E soubemos de sentenças de morte pronunciadas em casos de trai­ ção e do ambiente de terror em que as autoridades austríacas en­ volviam as pessoas suspeitas de deslealdade. 5 . Um antigo problema lilosófico: o infinito De há muito acredito haja problemas filosóficos genuínos que não são meros quebra-cabeças nascidos do mau emprego da lingua­ gem. Alguns desses problemas são infantilmente óbvios. Ocorreu que eu tropeçasse num deles quando era ainda criança, prova­ velmente áos oito anps de idade. H a v ia m -m e falado âcerca do sistema solar e do infinito do espaço (do. espaço newtoniano, é claro) e eu me senti perplexo: não podia imaginar nem que o . espaço fosse finito (que existiria, então, pára além deíe?), nem que fosse infinito. Meu pai aconse­ lhou-me a consultar um de seus irmãos, hábil, disse-me ele, para explicar' esse tipo de coisas. Esse tio começou por indagar se eu tinha n

alguma dificuldade em imaginar uma seqüência de números que aumentasse continuamente. Disse-lhe que não. Ele me pediu então que imaginasse uma pilha de tijolos à qual se acrescentasse mais um tijolo, e mais outro, e assim por diante, interminavelmente; essa pilha jamais chegaria a ocupar todo o espaço do Universo. Con­ cordei, de maneira algo relutante, que se tratava de . uma resposta conveniente, embora ela não me satisfizesse por completo. Claro está que eu nao tinha como formular as dúvidas que ainda me assaltavam: tratava-se da diferença, entre infinito real e infinito potencial, e da impossibilidade de reduzir o infinito real ao poten­ cial. O problema faz parte (a porção espacial) da primeira anti­ nomia de Kant e é (especialmente se lhe acrescentarmos a porção temporal) um problema filosófico difícil e ainda não resolvido6 — sobretudo depois que mais ou menos foram abandonadas as espe­ ranças que Einstein teve de solucioná-lo. pela demonstração de que o Universo é um espaço riemaniano fechado, de raio finito. Não me ocorreu, naturalmente, que minha perplexidade dizia respeito a um problema em aberto; muito ;aó; contrário, imaginei que se tratasse de questão que um adultò inteligente — mèu tio, por exem­ plo — deveria entender, ao passo que eu era ainda muito ignorante, ou talvez muito jovem ou muito estúpido, pára compreendê-lo intei­ ramente. Lembro-me de numerosos problemas .semelhantes — pro­ blemas genuínos e nao quebra-cabeças — enfrentados mais tarde, quando eu tinha doze ou treze anos: ò problema da origem da vida, por exemplo, deixado em ; aberto pela teoria darwiniana, e o de saber se a vida é simplesmente um processo químico (optei pela teoria de que os organismos são chamas) . Esses, creio eu, são problemas quase inevitáveis para quem, criança ou adulto, tenha tido contato com Darwin. O fato de o trabalho experimental estar relacionado com eles nao os torna pro­ blemas não-filosóficos. E de modo algum devemos decidir, do alto de nossa suficiência, qué os problemas, filosóficos não existem ou que são insolúveis (embora talvez sejam dissolúveis). Minha atitude perante esses problemas permaneceu invariável durante muito tempo. Sempre imaginei que as questões que me preocupavam tivessem sido há muito resolvidas; jamais imaginei que qualquer delas ; pudesse ser nova. Eu não duvidava de. que pessoas como o grande Wilhelm Ostwald, editor da revista Das monistische Jahrhundert (i. e. “O Século do Monismo” ) ; conhecessem todas as respostas. As dificuldades, julgava eu, deviam-se, totalmente, à mi­ nha compreensão limitada.

6 . Minha primeira falha filosoficá: o problema do essencialàsmo Lembro-me perfeitamente da primeira discussão da primeira questão filosófica que se. tòrnou decisiva para o meu desenvolvi­ mento intelectual. A questão surgiu devido à minha. rejeição da atitude de atribuir importância a palavras, e seu significado (ou seu. .“ verâàâeiro. ■significado” ). Eu deviá ter quinze anos, aproximadamente. Meu pai- havia sugerido que eu lesse alguns volumes- dà autobiografia de Strindberg. Não me recordo quais foram as passagens que m e-levaram . a,. con­ versando com meu pai, criticar o que eu/Considerava uma. atitude obscurantista de Strindberg: sua tentativa de extrair algo impor­ tante do “verdadeiro” significado de alguns vocábulos. Tenho lem­ brança, porém, de que me senti perturbadò em verdade; choca­ do — ao perceber que meti pai, enquanto eu formulava minhas objeçÕes, não se dava conta de minhas posições. Q ponto me parecia óbvio é, de fato, cada vez mais óbvio, na medida em que o expunha no correr da^ discussão. Quando interrompemos o diálogo, tarde da noite, compreendi que minhas idéias não tinham provocado muito impacto; havia de fato entre nós um abismo, que concernia a uma questão importante. Lembro-me ‘ de que depois dessa discussão pro­ curei - convencer-me a mim mesmo da. necessidade de. ter sempre presente o princípio de jamais discutir a respeito de palavras e seus significados, porque as discussões desse gênero, além de especiosas, são destituídas de importância. Lembro-me ainda de haver, ima­ ginado que esse princípio simples devia ser bem conhecido e ampla­ mente aceito: suspeitei que meu pai e Strindberg tinham-se esque­ cido de acompanhar os tempos. Verifiquei, anos depois, que fora injusto com ambos; a erença na importância das palavras e de seus significados, particularmente das definições, era quase universal. A atitude que mais tarde deno­ minei “essencialismo” está ainda hoje muito disseminada e a frus­ tração sentida nos anos de escola tem voltado a perseguir-me com freqüência recentemente. A sensação de que eu havia , falhado repetiu-se, pela primeira vez, quando tentei ler alguns, livros de Filosofia da biblioteca de meu pai. Descobri que a atitude de Strindberg e de meu pai. era, em verdade, muito generalizada. Isso gerou dificuldades para mim e certa aversão à Filosofia. Meu pai havia-me sugerido que eu lesser obras de Spinoza (uma cura, talvez), Infelizmente, não li .as. Cartas, mas a Ética e os Princípios Segundo Descartes, obras , que' estão cheias de definições que me pareceram arbitrárias, inúteis ,e 23.

*• ^ viciosasv (quando. chegavam a dizer alguma coisa). Disso, resultou uiria, ojeriza permanente pelas teorizações a propósito de Deus. (Á geologia, segundo penso ainda hoje, resulta da falta de fé.) Tam­ bém. percebi que a semelhança entre os procedimentos geométricos ,(a? Geometria riie Üavia fascinado, nos tempos de escola) e o more geometrico spinoziano era superficial. Kant era diferente. Embora eu achasse a Crítica muito difícil, pude notar que não abordava problemas ilusórios. Após tentar ler (com .encantamento, mas, se­ gundo imagino, sem clara compreensão do assunto) o “Prefácio” dâ segunda edição da Crítica (edição. : e z ideais; impossível alcançá-los, de modo,;:que;,ígles sef/íomamvp^iSP5^??1^11^6 enganadores, quando aceitos, sem; críticaj -na concÜção ^de guias. Perseguir. precisão ê o mesmo que perseguir certezas e, ambos, os; tobjetivos deverá ser .abandonados. ■ Não estou sugerindo, é, clarp, -que lo aumento ,de. precisão nao possa, tornar-se assazrdesejáyel. numa previsão ou na. formulação de^.ç^tas^íMoçÕesÇ.r. - e s t o u sugerindo resume-se nisto:, é sempre And&ejaueUéf&zer: jesforços.. no, sentido de. aumentar, a pr.eçisãpj a bem.âela^ r—: particularmente a: precisão lingüística ■ — porque. isso leva, d-e. .':}iabito.j._..a. uma. diminuição da clareza, a uma perda de tempo e deílenergia..com. .aspectos secundários (que muitas vezes são., inúteis, pois^e^yeem^supexadospelo real avanço da m atéria). Nunca se. deve procurar rnaipr, precisão do que a exigida: pela situação. Creio poder, formular minha posição da seguinte maneira. Cada aumento de clareza tem, por si: mesmo, u m valor intelectual; o au­

mento de precisão ou de exatidão, entretanto„ j(h) ] * e edições posteriores, volume. II.) Ò-Hiiétodo: ad hoc de tratar os problemas de clareza e precisão, abordando-os de acordo còm as necessidades, pode ser denominado 'tt^iiali}ê^ipára dístingui*lo do método de análise, da nOção de que Tàf^àn^íâév dá linguagem, como tal, está em condições de resolver problémâs%:u- .de criar o arsenal de que possamos precisar no futuro. A ‘dialiàe -nãò resolve problemas. Não pode resolvê-los, assim como a definirão •oví a- explifcáçao ou a,, linguagem também não podem. Os probleíriâs são- resolvidos com/ o auxílio, de novas idéias. Todavia, èxigtem, muitas vezes, novas distinções — que serão elaboradas ad hoCj diante ' dos objetivos imediatamente em vista. =Esta longa digressão25 afastou-me da linha principal de minha -narrativa, à qual agora retorno. ' iíL -- • %v ano; Im portante: marxismo, ciência e pseudociência •i\hJrâ- -Uà ^i óiímos^Uimos *e: terríveis; anos da guerra, provavelmente em

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estabelecimentosv de^ensinò sécundário\da Áustria (chamados " Gim-^asiUtn^*},.!e^^*,ihoTmBile dictu* — Healgymnasium" ) ' era espantosa a •pejcdade-: dempo,. embora, os professores tivessem bom preparo e tenXASs^lii^-poÉ^ todas as vias, fazer das escolas as melhores do mundo. Não;te,ér;aí novidade para raim que o.,- ensino podia ser extremamente •aborrecido — horas e horas de tortura irremediável. (Os mestres írnuntóaram-nie; nunca mais me aborreci. Nas escolas, descobriam •quândo os alunos pensavam em coisas diversas das que eram dis­ cutidas, de modo que era preciso estar atento. Mais tarde, porém, se uma palestra se mostrasse monótona, podià-se ignorá-lae voltar a atenção para os próprios pensamentos.) Apenas em uma das maté­ rias tínhamos um professor interessante e realmente inspirador. A matéria: Matemática; o professor: Phillip Freud. (Nao sei se era parente de Sigmund Freud.) Depois de dois meses de ausência, motivada pela enfermidade, constatei, todavia, que minha turma não; havia feito progressos de monta, nem mesmo em Matemática. Isso me abriu os olhos: comecei a pensar seriamente em deixar a escola. A derrocada do Império Austríaco e as conseqüências da Pri­ meira Guerra — a fome, as greves salariais em Viena, a inflação galopante — já foram descritas com : minúcias; Elas destruíram o mundo em que eu havia crescido. -Teve início a fase da guerra civil, que culminou com a invasão dá Áüstria pelas tropas de Hitler e deu margem à Segunda Guerra Mundial. Eu estava com 16 anos quan­ do a guerra terminou, e a revolução incitou-me a preparar minha própria revolução. Decidi, era fins de 1918, que deixaria a escola e passaria a estudar por conta própria. Matriculei-me na Universidade de Viena. Sem fazer o vestibular (“Matura” ) , foi admitido como ouvinte; após o vestibular, que fiz em 1922, tornei-me estudante regular da Universidade. Não havia bolsas de estudo, mas o paga­ mento da matrícula era apenas nominal. E qualquer estudante podia acompanhar, os cursos que desejasse. O período era de agitação, embora os levantes nao fossem ap nas políticos.' Eu ouvi o silvar das balas quando, por ocasião da Declaração da República Austríaca, òs soldados puseram-se a atirar nos; membros do Governo Provisório, reunidos na escadaria do ediflício. do Parlamento. (Esta experiência levou-me a escrever um artigo 'acerca.;da liberdade.) Havia pouco de comer. Quanto a roupas, a :máioria de nós só tinha recursos para adquirir velhos uniformes, adaptando-os para o uso civil. Raros eram os que, entre nós, cogi^ta^am, de,, uma carreira. Aliás, quase não existiam carreiras (exceto, ;possiyelmente, numa organização bancária; mas a atividade comer-

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|muito semelhantes. Aléin disso, os oradores discutiam Os comunistas alegavam ter ^•^^j|^^^^Uis>~|ntéa|pè^;|>àd£ià'tas pondo fim à guerra na Rússia diziam eles, era seu alvo maior. Naquela Íuí &V‘ãm ‘ apenas em fãvor da paz como ainda, pelo :de propaganda, contra qualquer violência “desDilrante vâlgum tempo, sobretudo em função do que “havia. dito,', suspeitei •dos comunistas. Na primaÇvíf’ra^'dã^l^l®,. .porém, converti-mé, juntamente com outros amigos, 4 ^ ^ ^ : ^ l á , :^px'bjga^andà que faziam. Durante uns dois ou três méâes^consldèrêi-tne comunista. ü l c n "■T^-Z'. h ■.■■} ■-■'-■ , _ . . A 'deálusão. O incidente que me incitou a ^ ^ ^ ^ .q ^ m u n i s m o e logo me afastou por completo do marxismo |^£;^m |dbs,.v.mais...iniportarrtes de minha vida. Alguns comunistas íiãviam sido detidos e se achavam na central de polícia de. Viena, íifôti^ádbs por comunistas, alguns rapazes socialistas, desarmados, faziam Hiihâ. ^mariifestação de protesto, a fim de ajudar os presos a fíififl 'Afaü ' tirõteio principiou. Vários jovens trabalhadores comu­ nistas ísòcialistás" fòrani mortos. Fiquei horrorizado e chocado com á "brulcLÜâà^ da polícia? e preocupado com minha participação: pelo : meiiòs èm_ ^princípio, na^ condição de marxista, parte da responsabili. >did|^^WítnÍLHâ.sT^ ^tèona. onarxista pede que a luta de classes se l :|^t^Si£i|[d.%ffal£íiih;^e^sffiéleí’ar; a?-jmp]antaçã° ,d°. socialismo. A tese ":^P^Í|ü^êíJâ;3èf^É|cá^|iO^\.ia, reVòlução- possa reclamar algumas . número maior do que as de - s£~f" — r .-da- chamado socialismp^çiefttíflço’ ^ tBèrguí}tei^fa - ^ 11% mesmo^se, esses. rcálçulos poderiam

^.ser^s^tfeiiiadps ^éientiídeiat£íeaté’’. A experiência e, era especial, essa y iindag.açao^. provocaram no meu íntimo uma permanente reviravolta depsentimentos. - , í;i« ^ ^ ô m Unismo é. um credo que promete a concretização de um müiiclòí-ímelhor. Diz basear-se em . conhecimento: conhecimento das ; ^lêis^íido;^desenvolvimento histórico. Eu ansiava por um mundo me* --Menos: violento e mais justo, mas tinha dúvidas quanto aò fsàher‘ — o que eu imaginava ser conhecimento podia não passar de dlusão; Eu tinha lido, é claro, algumas obras de Marx e de Engels. Té^las-ia entendido, porém? Examinara-as com olhos críticos, como •sé ?deve fazer antes de aceitar um credo que justifica seus meios tendo eiii conta um fim algo distante? Preocupei-me com o fato de não "só ter aceito, sem maior exame* uma teoria complexa, como também de haver, efetivamente notado alguns dos pontos que estão errados na teoria e na prática do comu­ nismo. Eu reprimira, todavia, essas considerações —■ em parte para ser fiel aos amigos; em parte para ser fiel à “ca u sa ” ; em parte por­ que há uma espécie de mecanismo a nos envolver com força cres­ cente: uma vez feita determinada concessão, que sacrifique a cons­ ciência intelectual, mesmo a propósito de algum aspecto de somenos relevância, não é fácil retroceder; procura-se então justificar a falha em nome da fundamental grandeza da causa, que ' parece sobre­ pujar os .pequenos compromissos de ordem moral ou intelectual. A cadá pequeno sacrifício moral ou intelectual desse gênero, afunda­ mos mais. e mais. Estam os prontos^ - nesse caso, p a ra fazer novos ihyestimentos, a fim de não perder os investimentos morais e inte­ lectuais já feitos em favor da causa. A situação se assemelha à de quem está preparado para empregar suas economias em busca, de lucros não muito honestos. ' Percebi de que maneira o mecanismo atuava em mim e. issò' me espantou. Percebi ainda de que mòdo atuava nos outros, parti­ cularmente nos meus amigos comunistas. A experiência capacitou-me a entender mais tarde muitas coisas que, de outra forma, eu não teria entendido. Eu aceitara um credo perigoso; aceitara-o sem crítica, dogma­ ticamente. A reação principiou por-, tornar-me cético; depois, ainda qucvússo acontecesse num período curto, passei a combater todos os tipos de. racionalismo. (Essa é, segundo vim a notar posteriormente, uma reação típica dos que ficam desapontados com o marxismo.) ’ v;Aos 17 anos, tornei-me um antimarxista. Compreendi que o jiisrxisnio tinha cunho dogmático e que era incrível a sua arrogância,

V .^ r .U * W l^ W A lJ,V m\ • V > W i X A V '' V M ' Ú V V J I U A ^ U V A A A V V ^ i .M W U » 7 Iw lU lU 1 1 A L U iV lü k U d ^ U ilU

f i s i c a m e n t e id êntico aos m ovim entos au to ritário s que «reoçjapr o n om e d e fascism o. .É claro que deb ati Sí0 ^ M ^ ti| o f c 6 m ; jp eti^ /t^ leg as. M as foi só dezesseis anos m ais ta rd e , emlé©Bo,'yque coffiécèi, -a. escrev er a c e rc a do m arxism o, co m a in ten p u b licai; è^ ítrab alh o s. E m co n sêq ü ên cia, dois livros, a p a re llJell^S^n^e- Jj9%$ilpi À $ 4 3 : The Poverty of. Historicism e The Open

^Wo0BiB^:£jvemies.

__ d©s?;-*rnetis amigos e colegas marxistas, que davam por ^ ^ g | S Í É ^ iíd iç ã o -d e ^ u tu r o s líderes da classe trabalhadora. Eles rp» sabia perfeitamente.) qualificações intelectuais que^ podiam afirmar era conhecerem, alguma ÍÍ|||l|í|i#fcnrâ' 'marxista — que, aliás, não conheciam a fundo -espírito crítico. A propósito da vida de um p ^ ^ U M ã^ ísfb ía1 ainda menos do que eu. (Feio menos, eu ^ál^jfflí^Éieãfesi durante a guerra, numa fábrica.) Reagi ^|^ontra:séssa-“presunção. Seritia que estava diante de uns ^e^qi^^ièêáíê havia dado (nem sempre mereci dam ente) ifllpipfàIÍ$j£e, por -.conseguinte, decidi que me tornaria Al

Operário ' Decidi também que nao procuraria tornar-me influente em ^partidos-políticos, r . • • . ,1' r rFiz, de^fato' vaiiás teritativas no ^sentido de transformar-me em operário. ívliiiha segunda tentativa ^falhou porque eu não possuía cójnpleíção física adequada, capaz de me permitir trabalhar dias seguidos, com uma picareta, no asfalto das estradas. Minha última tentativa foi de tornar-me entalhado r. Isso não requeria condições físicas especiais, mas certas especulações teóricas interferiram no meu trabalho. vt??vEste. é, provavelmente, o melhor ponto para falar de minha adrfiiração pelos operários de Viena e pelo movimento em que se empenhavam — liderado pelo partido social-democrático — , con­ quanto eu encarasse o historicismo de cunho marxista defendido pelos líderes social-democratas como algo inteiramente errôneo 27. Os líde­ res tinham o poder de inspirar, nos trabalhadores, uma fé inabalável na missão a cumprir, que seria (nada menos!) que a salvação da humanidade. Embora o movimento Vsocial-democrata fosse èm gran­ de parte ateu (ainda que um pequeno e admirável grupo se des­ crevesse como socialista religioso), o que movia seus integrantes só pode ser descrito em termos de ardejite fé religiosa e humanitária. O movimento era de trabalhadores ■que tentavam educar-se para cumprir a “missão histórica” a eles■destinada; que procuravam eman­ cipar-se a fim de. liberar a humanidade; que desejavam,, acima de tudo, acabar com a' guerra. Os poucos momentos de lazer eram utili­ zados pelos operários, velhos e jovens, para freqüentar cursos de extensão ou para acompanhar as aulas das “Universidadès Populares” (Volkshochsclíulen) . Os trabalhadores preocupavam-se com sua pró­ pria educação e com a educação de seus filhos, tentando melhorar as condições de vida, sobretudo as de moradia. O programa era admi­ rável. Em suas vidas, embora houvesse aqui e ali um toque de pedantismo, os; operários trocavam o álcool pelo alpinismo, o swing pela música erudita, os romances policiais por leituras mais sérias. Aswatividades eram pacíficas, mas executadas numa atmosfera po­ luída .pelo fascismo e pela guerra civil latente e. envenenada; e outrossirai, infelizmente, por confusas e repetidas ameaças, pois os líderes trabalhistas insinuavam que seria preciso abandonar os métodos democráticos e fazer uso da. violência — u m legado da ambígua pòsiçao de Marx e Engels. Esse grande movimento e sua trágica destruição pelo fascismo impressionou vividaínente alguns observa­ dores .ingleses e norte-americanos (por exemplo, G. E. R. Gedye 28)> ■'íf-Continuei socialista por vários anos, mesmo após rejeitar o marxismo; E se existisse um socialismo capaz de combinar-se com

jV /’ daá^differêtrcasfiirále^istem ^entre^o Ipensamento^ dogmático e^o-pen^ "r - f- 3Sâ.m,eritop;cpitiBbíC£.-***•’* , ■ v.;. y .-xfqfitis t S t * £ s , * i > : - ' J- - ^ e . e íã( ^>r -Meuíj> ericontros^icom ^a, ‘-psicologia individual” 'de Alfréd Adlér j|...^ :: ^^j|^^in^|L.Apsj[ç4ttjÍi}^e:A^e»4J^^d^^p.i^ija^.^emelhantes!. ao meu encontro | embora tudo ocor‘ tJ" ’' " " " ' p||iíi£Üj$^ i(em 1919) 29. ^oi .tjuè1Ísé?£páSsou‘ ;naquèle ano, não deixo de surpre!pode acontecer, em tão pequeno prazo, f Hntelfeç.tual dè uma pessoa. Com efeito, foi nessa ® fiâê^mâ^^piSc^i^jqxiéí'ent&é* em contato com as idéias de Einstein, que X^^tojaia^âiiÍj! sT" - " ■ =Vi] ■. ’ ,^ i^Èffl.ilâifeía •dominante em meu próprio pensar — a -Y^'Y Jlông^V^r^b^E?áÈnaís importante influência, talvez. Em maio de 1919, '^fV^tf^^e^^eâi^eS^inglfeSas'. puderam pôr à prova, com grande êxito, as ’^-ipÉieyísõès> dé: fEitisteih relativas a eclipses. Com essas provas, surgiu I ;, ;. J' ^/siibitameiíte: innã^ -nova teoria da gravitação e. uma nova cosmologia, m i^ - t y.àaoàGbmò” sünples' possibilidade, mas como real aperfeiçoamento das Y;: Jideias- de? «NeAV-tonj Como melhor aproximação da verdade. '^j^^^^ià fetèin^íez, -uma preleção era Viena a que compareci. Lem^ed^^ . \Mas: não cul­ tivava tal pretensão/ Se> ••phej^^*.àT:péiK^^ meu sonho era fundar uma escola .em;;que;ps^jpvens; !pudess.ei^ jestudar sem aborrecer-se; em que fossem; estimulados va. áorinular}^ a discuti-los* uma escola, eni -quç Jiinguem -precisafiaj .dar .atenção a discussões indesejáveis ém torno dè qüestõèff Üesiniei;essàrites,' uma escola em que não fosse preciso estudar com ò üriiçi>' objetivo de passar nos exames. Fui aprovado no exame vestibular (" Matura” ) em 1922, um ano depois daquele em que seria aprovado se não tivesse abandonado a escola. Todavia, a experiência ganha valeu o ano “perdido”. Tor­ nei-me, então,. estudante regular e matriculado da Universidade. Dois anos mais tarde, consegui aprovação num segundo “Matura”; numa Faculdade de Educação, que me habilitou a ensinar em escolas primárias. Prestei o exame enquanto procurava aprender o oficio de entalhador. Posteriormente, qualifiquei-me. para ensinar . Matemá­ tica, Física e Química em escolas secundárias. Entretanto, como não havia vagas para professores, tornei-me, após concluir o aprendizado do ofício de entalhador, assistente social (Horterzieher), atuando junto a crianças desamparadas. Durante essa fase, desenvolvi màis minuciosamente meus pen­ samentos acerca da demarcação entre teorias científicas (como as de Einstein) e teorias pseudo científicas (como as de Marx, Freud e Adler). Tornou-se claro, para mim, que a cientificidade de um enunciado ou de uma teoria estava em sua capacidade de eliminar ou de excluir a ocorrência de alguns acontecimentos possíveis — de proibir ou impedir a ocorrência desses eventos: quanto mais uma teoria proíbe, mais eía diz .. Embora aí já estivesse, em embrião, a idéia do “conteúdo infor­ mativo” de uma teoria, com a qual se acha intimamente associada, não levei a investigação adiante; então. Preocupava-me, porém, enor­ memente o problema do pensamento dogmático e sua. relaçao para 47

com o £ ejisarjiento crítico. O que importava, a meu ver, era a idéia, de que ;p: pensamento dogmático, por mim dado como pré-científico, era um estágio necessário para atingir-Se o pensamento crítico^ A crítica tem de ter, previamente, algo que criticar e isso, supunha, eu, devia ser o resultado de um pensamento dogmático. Direi, agora, mais alguma coisa acerca do problema da demar­ cação e da solução que lhe dei. (1) Tal como imaginei na primeira vez que,foi objeto de minha atenção, o problema da demarcação nao era o traçar fronteiras entre a Ciência e a Metafísica,.mas separar Ciência e pseudociência. Na­ quela época, a Metafísica nao me interessava. Foi somente mais tarde que estendi meu “ critério de demarcação” à Metafísica. (2) Em 1919, minha concepção principal cra a seguinte; se alguém formulasse uma teoria científica, deveria dar resposta, exatamente como Einstein havia feito, a esta questão; “Sob que condi­ ções eu admitiria que minha, teoria era insustentável?” Em Outras •'palavras, que fatos concebíveis' eu- aceitaria. como refutações ou faiseamehtos de minha teoria? (3) Surpree;ndera-me o fátò de que os marxistas (que se consi­ deravam cientistks sociais) e os estudiosos da Psicanálise' (de todas as correntes) estivessem em condições de interpretar quaisquer acon­ tecimentos concebíveis comprovações -de suas teorias. Esse fato, associado ao meu critério-de demarcação, levou-me a pensar que apenas as refutações intentadas, mas não bem sucedidas qua refuta­ ções, é que podiam ser vistas como “verificações”. (4) Ainda mantenho a posição indicada em (2). Mais tarde, porém, ao prçcurar introduzir, ainda em caráter de tentativa, a no­ ção de falseabilidade (ou testabilídade, ou refútabilidade) de uma teoria, entendendo-a como critério de demarcação, verifiquei que qualquer teoria pode ser “imunizada” (este excelente vocábulo se^ deve a Rans Albert35) contra a crítica. Permitida a imunização,, qualquer teoria torna-se não-falseávél. Segue-se que pelo menos algumas formas de imunização precisam ser excluídas. De outra parte, compreendi ainda que nèm todas as imuniza­ ções devem ser eliminadas, nem mesmo todas as que introduzam hi­ póteses auxiliares ad hoc. Exemplificando; o movimento de Netuno poderia ter sido visto como falseamento da teoria de Newton. Sem embargo, introduziu-se a hipótese ad hoc de um planeta exterior, imunizando-se assim a teoria. A idéia foi feliz: a hipótese auxiliar .era passível de. prova ..(ainda que est^ fosse difícil) e resistiu pos­ teriormente, com êxito cabal, às provâs a que foi submetida.

2** rlss©,- mòstra nãò apenas que certos dogma tísmo produz,. frutos, ,mèsmboém -Ciência;, mas>.ainda, que st, falseabilidade;.\ou.■testabilidade rnaokjíóde.» ;ser -vista, logicamente faliandò, reóino . .critêrit»; muito preciso. Tratet dessa: questão, de...májieira^mLnudosav no.rLo^ik^de^F.orschung. Introduzi' graus de testabilidade' te; : estes&se •frevelaram intimamente a^sóciados a;.:(graus -de) conteúdo.^^^urpreeà>dc^£exn^ite%:jf.érteis.^V;o aumento: rde conteúdo transformou-se.: mmi c^it^õi>:^.^aU;safc>.er?v:se valia a ; pena -aceitar ou nao, tentativamente^. Áumá^vdadaiihijaQtese ^uxiliar. ’ Embora-o assunto esteja; claramente'- Vèíxposto^no sLogik -der Forjfrhung, publicado em 1934|r'm üitá¥:^ disseniiniáram. GÓncernentes às? -iiiriàasv^oíicel^DiÊ^.'' íde^ que eu havia introduzido, o falseamento como critério de significado, e não como critério, de demarcação. Em segundò; .lugar^:-. a ;vde>: que eu n ão percebera que a imunização é sempre possível^ riíeghgerifeiàndo, pois, o fato de as teorias nao' poderem ser descritas conto-*‘f alseáveis”, já que todas podem ser salvas do falseamento. Em outras palavras* meus próprios resultados foram vistos^ segundo essas análises^ como razões pãra nao acolher o enfoque por mim proposto37. (5) Como.uma espécie de sumário, é útil mostrar, através de . exemplos, de que maneira vários tipos de sistemas teoréticos se relacionam com à testabilidade (ou com o falseamento) e os processos de imunização. . (a) H á teorias metafísicas, de caráter puramente existencial (amplamente discutidas em Conjectures and Refutations38). (b) Há teorias como as da Psicanálise, de Freud, Adler e Jung, ou, ctigamos, semelhantes às doutrinas (suficientemente vagas) da Astrologia39. (c) Há teorias que poderiam ser chamadas “destituídas de sofisticação”, como a de que “Todos os cisnes são brancos” ou a geocêntrica “Todos os corpos celestes, excetuados os planetas, movem-se em órbitas circulares”. As leis de Kepler (embora altamènte sofis­ ticadas, sob muitos aspectos) caberiam na presente categoria. Essas teorias são falseáveis, conquanto os falseamentos sejam, está claro, contornáveis: a imunização é sempre possível. Contudo, a evasiva seria, de hábito, desonesta: consistiria, digamos, em negar que um cisne negro fosse um cisne ou em negar que um corpo celeste nao-kepleriano fosse um corpo celeste. (d) O caso do marxismo é interessante. Sublinhei, em meu Open Society40, que a teoria marxista pode ser vista como teoria refutada pelos acontecimentos que tiveram lugar durante a Revolu­ ção Russa, De acordo com Marx, as mudanças revolucionárias {êm

início ná base, por asisim dizer: em primeiro lugar, alterám-se os meios de produção; em seguida, a s ,,condições sociais de produção; depois, o poder político; por fim, as crenças ideológicas, que são as últimas a se alterarem. Na Revolução/ Russa, entretanto, o poder político jfoi o primeiro a transformar-se; em seguida, a ideologia ( di­ tadura mais eletrificação) produziu, alterações nas condições sociais e nos meios de produção, partindo do topo. A reinterpretação da teoria marxista da revolução permite contornar esse falseamento, imunizando-se a teoria contra novos ataques; ela se transforma na teoria marxista vulgar . (ou sócio-analitica), de acordo com a qual os “motivos econômicos” e á luta dé classes impregnavam a vida social. (e.) Existem, ainda, as teorias mais abstratas, como as de Newton ou de Einstein relativas à gravitação. São falseáveis — digamos porque perturbações previstas não são encontradas ou porque é ne­ gativo um teste feito com radar, em substituição a observações diretas de eclipses. Essas teorias, diante do que pareceria, prima facie, um falseamento, também podem ser salvaguardadas, não só com certas imunizações desinteressantes mas, aindá$ por meio da introdução de hipóteses auxiliares passíveis, de prová (como no caso de tipo Urano-Netuno), que tornam o conteúdo empírico do sistema constituído pela teoria original e pelas hipóteses auxiliares, um conteúdo maior que o conteúdo da teoria original. Pode-se considerar isso como um aumento de conteúdo informativo — como Um caso de aurrtento de conhecimento. Existem também, é claro, hipóteses auxiliares que nao passam de manobras imunizadoras evasivas. Estas diminuem o conteúdo da teoria. Tudo isto sugere uma regra metodológica: não efetuar manobras que conduzam ao decréscimo de conteúdo (ou seja, para adotar a terminologia proposta por Imre Lakatos41, não aceitar “alterações degeneradoras do problema” ). 10. Segunda digressão: pensamento dogmático e crítico; aprender sem auxílio da indtição Kònrad Lorenz é o aútor dé uma bela teoria no campo da Psicologia Animal, por ele denominada imprinting (“imprintação” ) . Diz ela que os filhotes de animais possuem um mecanismo inato para chegar a conclusões inabaláveis. Assim, por exemplo, o ganso recém-nascido considera “mãe” o primeiro objeto móvel que per­ cebei' Q mecanismo ajusta-se bem a circunstâncias normais, apesar dei. ser um pouco perigoso para o animalzinho. (E pode ser peri­ goso para o pai adotivo, como Lorenz também assinala.) Todavia,

e um; mecanismo que da, bons resultados -em condições normais,' >e que também dá bons resultados em certas circunstâncias não; intek ramente normais. São importantes os seguintes pontos acerca da “impríntação” de Lorenz: (1) Trata-se de um processo — mas nao o único — de apren­ dizagem por meio de observação. (2) O problema resolvido pelo estímulo da observação ,é um problema inato; isto é, o gánsinho está geneticamente condicionado a procurar a mãe: espera vê-la. (3) A teoria ou expectativa que resolve o problema também é, até certo ponto, geneticamente condicionada: tem alcance maior que o da simples observação efetiva^ que se limita (por assim dizer) a deflagrar a adoção de. unia teoria que está, em grande parte, pré-formada no organismo. (4) O processo de aprendizado é não-repetitivo, embora requeira cèr.to intervalo de tempo (um prazo curto 42) e exija alguma ativida­ de normal, ou “esforço5^ por parte do organismo; pode envolver, portanto, uma situação que não se afasta em demasia da situação encontrada usualmente. Direi, de tais processos de aprendizado não-repetitivos, que são “nao-indutivos”, encarando a repetição como traço característico da “indução”. (A teoria do aprendizado não-repetitivo pode ser descrita como seletiva ou darwiniana, ao passo que a teoria do áprendizado repetitiyo ou indutivo é uma teoria de aprendizado pela instrução, e é lamarckiana.) A questão, natural­ mente, é de terminologia, simplesmente: se alguém insistir em con­ siderar a impríntação como processo indutivo, eu terei apenas de alterar os termos escolhidos. (5) A observação atua como 6 girar de uma. chave na; fecha­ dura. O papel da observação é importante, mas o resultado alta­ mente complexo está quase todo pré-formado. (6 )

A im p rín tação é u m processo irreversível de ap ren d izad o :

n ão está sujeito a co rreções ou revisões.

Está claro que eu nada sabia, em 1922, acerca das teorias de Konrad Lorenz (embora o tivesse conhecido^ menino, em Altenberg, onde. tínhamos vários amigos comuns) . Usarei aqui a teoria ■da impríntação como mero veículo para a exposição de ininhas con­ jecturas que são similares, mas no entanto diferentes dela. Minhas conjecturas não diziam respeito a animais irracionais (embora eu tivesse sofrido influência de G. Lloyd Morgan e, ainda mais acen-

tuadameíite, de II. S. Jennings.43) , mas aos seres humanos, particularmehte às crianças. Eram as seguintes. Os processos dê aprendizado, na maioria das vezes (ou sempre, talyez)^ consistem na formação de teorias, ou seja, na formação de expectativas. A formação de umà teoria ou de uma conjectura atra­ vessa, invariavelmente, uma fase “dogmática” e., amiúde, uma fase “crítica”. A fase dogmática partilha com a imprintação os fraços típicos (2) a (4) e, muitas vezes, os traços (1) e ( 5 ) normalmente, porém, não possuí o traço (6 ). A fase crítica, por sua vez, corres^ ponde a abandonar a teoria dogmática, em virtude de expectatiyas não-concretizadas (ou refutações), paràíàcolher novos idogmas. Notei qüe certos dogmas se enraizavam de taí maneira que ás refutações não os abalavam. É claro que, neste caso — e somente neste caso — , a formação dogmática de teorias se apróxiina bastante da imprintação, cujo traço típico é o (ô )44.- Entretanto, eu estava inclinado a enca­ rar (6) como uma espécie de aberração neurótica (ainda que as neuroses não me interessassem particularmente, pois. meu objetivo era a psicologia da invenção). Essa atitude para còm o item (6) mostra que aquilo que eu tinha em. mente nao era exatamente a imprintação, embora se assemelhasse a esta. Eu via esse método de formação de teorias como um método de aprendizagem através de tentativas .e erros. Entretanto, ao con­ siderar “tentativa” a formação de um dogma teorético, eu não a encarava como uma tentativa aleatória. É de intèi;esse examinar, o problema da aleatoriedade (ou não-aleatoriedade) das tentativas — no procedimento de tentativas e erros. Tomemos um exemplo simples de Aritmética: a divisão de um número por outro, no caso em que tais números não figurem nas tabuadas que conhecemos de cor. A divisão é feita por tentativa e erro, mas isso não quer dizer que as tentativas sejam aleatórias, pois conhecemos a tabuada e sabemos, por exemplo, os resultados das multiplicações45 dos números de 1 a 10 por 7 ou por 8, Está claro que um computador poderia ser programado para dividir por via de um método de seleção aleatória' de um dígito -qualquer, dé 0 a 9, como tentativa e, havendo erro, passar para outro dígito aleatoriamen te escolhido (após iexcluir I o dígito qüe levou a erro) V Esse procedimènto, entretanto, seria obviamente menos adequado que um procedimento mais sistemático: na pior das hipóteses, teríamos de fazer com que o computador verificasse'o tipo de erro cometido na primeira tentativa; se o errosed jéyia à escolha de um dígito muito grande ou dé um dígito muito* pequeno, com o que se redu­ ziria a gama de escolhas para a segunda tentativa. 52

A idéia de aleatoriedade é, em tese,, a p licáv eis esseí -exemplo^ de vez que há; uma seleção a fazer em cada pàSso--dé -uma^lònga divisão, a partir de um conjunto bem delimitado de possibilidades (os ^dígitos). Contudo, na maioria dos exemplos de. aprendizado; biologico, pelo. método de tentativa e erro, o número de p o s sív e is alternativas, ou sèja, o conjunto de reações possíveis (movimentos de qualquer grau de complexidade), não é dado por antecipação; e como não conhecemos os elementos desse conjunto, não é possível atribuir-lhes probabilidades, o que séria indispensável para, . com alguma clareza, falar-se em aleatoriedade. Precisámos rejeitar, pois, a idéia de que o" método da tentativa e do erro opera, em geral ou normalmente, através de tentativas aleatórias; ainda que possamos, com certa habilidade, elaborar con­ dições altamente artificiais (como a dos labirintos de ratos) a que se aplique a. noção de aleatoriedade- . Ô fato de que a nóção seja aplicávelj porém, nao basta para estabelecer que as tentativas ;sejam de fató aleatórias; nosso computador pode perfeitamente adotar, com vantagens, um método mais. sistemáticopara a seleção dos dígi­ tos ; e um rato no labirinto pode igualmente agir com base em prin­ cípios não-aleatórios. De outro lado, em qualquer caso onde o método de tentativa e erro seja usado para resolver problemas como o da adaptação (a um labirinto, por exemplo), as tentativas não são, via de regra, determinadas, ou completamente determinadas, pelo próprio pro­ blema. Elas também nao podem, a nao ser acidentalmente, antecipar uma solução (desconhecida) do problema. Na terminologia de D. T. Campbell, podemos dizer que as tentativas devem ser “cegas” (e eu creio preferível dizer que devem ser “ cegas em relação à so­ lução do problema” 46). Não é a tentativa, mas o método crítico, ou. seja, o método da eliminação do erro após a tentativa — o que corresponde ao; dogma — que nos dirá qüão satisfatória foi a supo­ sição; que nos dirá, em outras palavras, se a suposição foi suficientejnente apropriada para resolver o problema em pauta e se pode ser provisoriamente aceita. Ainda assim, as tentativas nao são de todo cegas, relativamente ao que o problema reclama: o problema determina, muitas vezes, o âmbito em que as tentativas sao escolhidas (como no caso dos dígitos) :; Esse ponto é muito bem descrito por David Katz: “Um animal^£% ' minto separa as coisas do ambiente em duas classes, as; comestíveis e as não-comestíveis, Um animal em vôo distingue vias; de: íug&^e? locais de abrigo.” 47 Além disso, o problema pode; alterár^e^erns;

certa, medida,, face às tentativas bem sucedidas; pode, por exemplo, diminuir de âmbito. Mas há. casos diferentes, sobretudo no que tange aos seres humanos; casos «em que tudo depende da habilidade de. romper limites fixados por supostas fronteiras. Esses casos mos­ tram que a seleção do âmbito pode ser, ela própria uma tentativa (uma conjectura inconsciente) e que o pensamento crítico pode consistir nao apenas na rejeição de um a. determinada tentativa ou conjectura, mas, ainda, na rejeição do que pode ser descrito como con­ jectura mais profunda — a suposição do âmbito de. -“todas as tenta­ tivas possíveis”. Isso é o que acontece, creio eu, em muitos casos de pensamento “criativo”. O que caracteriza o pensamento criativo, a par da intensidade do interesse pèlo problema, parece-me ser, freqüentemente, a capaci­ dade de romper os limites do â m b i t o o u de alterar o âmbito — a partir do qual'pessoas menos criativas selecionam suas alternati­ vas. Essa capacidade, que constitui obviamente uma capacidade de critica, poderia ser descrita em termos •de imaginação crítica. Muitas vezes, ela é resultante de um conflito'4de culturas, ou seja, de um conflito de idéias ou de esquemas de' referência em que as idéias se localizam. Conflitos desse gênero ajudam-nos. a eliminar limitações que nos pesam sobre a imaginação. As observações feitas nao podem satisfazer, porém, aos que buscam formular uma. teoria psicológica do. pensamento criativo ou uma teoria: da investigação científica. Com efeito, o que buscam é uma teoria do pensamento bem-sucedido.. De minha parte, acho que. nao se pode formular; uma teoria do pensamento bem sucedido e que ela nao eqüivale à teoria do / pensamento criativo. O êxito depende de muitos fatores — entre os, quais a sorte. Depende, por exemplo^ de encontrar um problema promissor. Depende de não se repetir ó que alguém já tenha feito. Depende da hábil divisão do tempo, a. fim de- que se possa manter em dia os conhecimentos e, simultaneamente, burilar as próprias idéias* No meu entender, porém, é essencial, para o pensamento “cria­ tivo” ou “inventivo”, uma combinação de vários elementos: inte­ resse profundo por um problema (e, portanto, vontade de tentar uma e outra vez) com pensamento altamente crítico; aptidão para considerar até mesmo aqueles pressupostos que determinam, para os menos criativos, os limites dentro dos quais as alternativas (conjec­ turas) devem ser escolhidas; e liberdade de imaginação, que permita identificar fontes insuspeitas de erros: possíveis preconceitos que reclamem exame crítico.

(Minha opinião é a de que.^uase todos os estudos acerca da psicologia do. pensamento criativo são, estéreis— ou antes, ,mais lógi­ cos do que psicológicos. Isso porque o pensamento crítico, oü a eli­ minação do erro, é mais fácil de caracterizar- em^ermos; lógicos do que em termos psicológicos.) ... •••..'•*:•. . ... XJma tentativa ou um novo " dogma’’ óu utna nova> “expec­ tativa ç fruto, pois, em grande parte, d&Jríiecessidad^s^ina.ta.s, que originam problemas específicos, Mas também: é, iruto^dasmecessídade inata de criar expectativas (èm certas áreas determinadas que3 ,por seu turno, se associam a outras necessidades) como pode ser tam­ bém, em parte, resultado de expectativas anteriores frustradas. /'Não nego, é claro, que possa haver certa habilidade pessoal* náfformação de dogmas' ou na seleção de tentativas, mas penso que a habüidade e a imaginação desempenham pápel mais relevante no processo critico de eliminação de erro. Quase todas as grandes teorias, que se colocam entrè as supremas conquistas do espírito humano, são resultantes de dogmas anteriores somados à crítica. - • O que se tornou claro para mim, no que concerne à formação de dogmas, foi, em primeiro lugar, que as crianças (e especialmeriiè as. de tenra idade) ..necessitavam urgentemente de regularidadès iéco? nhecíveis à sua volta; havia uma necessidade inata nao só de ali­ mento e de amor cómo de invariantes estruturais discerníveis do ambiente (entre as quais estariam as “coisas” ), de uma rotina assente, , de expectativas fixas. Esse tipo de dogínatismo infantil foi observado por Jane Austen: “Henry e John continuavam pedindo, a cada dia, que Se repetisse a estória de Harriet e os ciganos; e corrigiam tenazmente [Emma]. . . se ela modificasse qualquer pormenor da narrativa original.” 48 Notei que havia, particularmente entre crianças de mais idade, certa alegria quando as variações se manifestavam, mas tais variações deviam situar-se dentro de uma gama limitada de expec­ tativas. Os jogos, por exemplo, tinham esse caráter; e as regras (os invariantes) do. jogo não podiam amiúde ser aprendidas pela mera observação 49. O ponto que eu sustentava era o de que a forma dogmática devia-se a uma necessidade inata de encontrar regularidades e ã mecanismos inatos de descoberta, mecanismos que nos levam a buscar as regularidades. Uma de minhas teses era a de que, ao falar um pouco livremente de "hereditariedade e ambiente”, cornamos. .0 riscO de subestimar o imenso papel da hereditariedade —- que, entre outras -coisas, determina grandemente quais os aspectos do ambiente: objetivo (o nicho ecológico) que fazem ou nao fazem, partèi ijdò ambiente subjetivo, ou biologicamente significativo, de um; àniiiiàí; M

aí - íDistingui três tipos principais: de processos de aprendizado, deles o fundamental:

sen d o

0 ;::primeiro

(1) Aprendizado nó sentido de descoberta,: formação (dogmá­ tica) de teorias ou expectativas,, ou comportamento regular, con­ trolado pela eliminação (crítica) de erros. . (2) Aprendizado pela imitação. Pode-se mostrar que esse apren­ dizado é um caso especial de (1 ). (3) Aprendizado por “repetição” ou “prática”, tal como ocor­ re quando se aprende a tocar um instrumento ou a dirigir um carro. Minha tese, aqui, é a de qüe {a) não^háj “repetição” genuína50, mas, em vez disso, (b ) alterações devidas à eliminação, dos erros (após fa formação de teorias), e (c) um processo qué ajuda a tornar auto­ máticas certas ações ou reações, permitihdo assim, que se mantenham em nível meramente fisiológico e sejàm realizadas sem requerer atenção. .' A importância dé disposições o u . necessidades inatas para des­ cobrir regularidades e. regras, pode ser avaliada num processo bas­ tante estuaado: o aprendizado, He. uma língua pela criança. Tem-se, aqui, naturalmente,. um tipo; de aprendizado por imitação; o que mais surpreende nesse aprendizado preòoce é o fato de que se trata de processo, de tentativa e eliminação de erro pela crítica, em que. tal eliminação crítica desempenha papel de grande relevância. O poder de necessidades e disposições inatas/ nesse desenvolvimento, pode ser mais bem observado nas crianças que, em virtude da surdez, não participam naturalmente das situações, de fala que ocorrem em seus ambientes. Os casos, mais convincentes são, talvez, os de crianças surdas e cegas (como Laura Bridgman ou Heien Keller) de que só ouvi falar mais tarde.. Reconhecidamente, mesmo nestes casos, há contatos sociais — como o de Héleh K.ellèr com sua professora -— e também a imitação está presente. Mas a imitação de Heien Keller, soletrando o que sua professora lhe soletrava na mão, difere muito da imitação das crianças comuns, que repetem sons ouvidos durante largos intervalos de tempo, sons cuja função comunicativa pode ser compreendida e assinalada até por um cão. As grandes diferenças entre as línguas humanas atestam que deve haver, um importante elemento ambièntal no aprendizado da linguagem. Acresce que o aprendizado* de uma linguagem, por parte da criança, é quase todo elé ; um exemplo ~de. aprendizado por imi­ tação. Contudo, a reflexão acerca dos ^'aspectos biológicos da lingua­ gem mostra que os fatores genéticos devem ser muito mais relevantes 56

do que os ambientais. Concordo, pois, com.; a afirmativa de. Joseph Ghurch;^ “Embora parte da mudança que .ocorre na infância, possa ser explicada em termos.- ..de maturaçaò -física,. sabeínos' -.que:- esta se associa circularmente, em . processo de: realinienta.ção,-à experiência —- aquilo que o organismofaz, isente^ei^a^que peagei.r ^Não^ se negli­ gencia com isso o papel da maturação^ iinsiste^se íapenas em- que não e possível vê-la como simples: florescimento de? HGaraçtfcrísticas biológicas predestinadas.” 51 Discordo^. porém, de: Churçh, quándo sustento que o processo de maturação, de tbàs.e genética, é, muito mais complexo e tem muito miaior influência ido-:que;. .os sinais; ^defla­ gradores e a experiênciá- de recebê-los, embora um ^íimmóÁde ,tais sinais e experiências seja sem dúvida necessário para estimular o “florescimento”. Segundo imagino, o fato de Helen. Keíler com­ preender que a palavra “água” soletrada, tinha Como significado aquilo que sentia com a mão e que já conhecia tão.bem^..-tem;..certa similaridade com a “impríntação” ; mas há, a par disso, várias .dife­ renças. A similaridade está numa inerradicável impressão ^causada nela e na forma pela qual uma única experiência libera disposições e necessidades enclausuradas. Uma diferença óbvia foi a gama .ex­ traordinária de variações que a experiência abriu a Helen Keller e que a levou, com o tempo, a dominar a linguagem. À luz dessas reflexões, duvido da exatidão dos comentários de Church: “O . bebê nao caminha porque seus ‘mecanismos de loco­ moção’ hajam atingido um determinado estágio de desenvolvimento, mas porque conseguiu uma espécie de orientação espacial em que andar se tòrna um modo possível de . ação.” 52 Parece-me que Helen Keller não possuía orientação nò espaço lingüístico (ou, se cKpossuía, devia ser extremamente pobre) antes de descobrir que o toque dos dedos de sua instrutora denotava a água e de saltar, daí, à conclu­ são de que certos toques teriam significado denotativo ou referencial. O que ali devia'haver era uma espécie de prontidão, uma disposi­ ção, uma necessidade de. interpretar sinais; e uma necessidade de uma aptidão, pára aprender a usar tais sinais pela imitação, através do método de tentativa e erro (isto é, pelas tentativas nao-aleatórias e pela eliminação crítica de erros no soletrar). Parece que há disposições inatas, muito variadas e complexas, que atuam conjuntamente neste campo: a disposição para o amor, para a simpatia, para a imitação de movimentos, para o controle e correção dos movimentos imitados; a disposição para usá-los e para, com sua ajuda, comunicar-se; a disposição para empregar a. lin­ guagem como veículo através do qual são recebidas ordens, adinfres1taçÕes, avisos; a disposição para interpretar enuriciadoís descritivos m

é>-formulá-los. No caso de Heien Keller (em oposição ao que acon­ tece _no Cáso de crianças nojmais), a maior parte de suas informações acerca da realidade chegou-lhe através da linguagem.. Em decor­ rência disso, ela não teve condições,' durante algum tempo, de dis­ tinguir claramente a imaginação (mesmo sua própria imaginação) dó que poderíamos chamar “ouvir -'dizer” e experiência: os três elementos vinham-lhe no mesmo código simbólico53. O exemplo do aprendizado da linguagem revelou-me que meu esquemá de uma seqüência natural, em que uma fase dogmática vem seguida de uma fase. crítica, era ■um esquema demasiado sim­ ples. Como ocorre no caso do aprendizado1 da linguagem, esuste claramente uma disposição inata para efetuar correções (isto é, uma disposição que favorece a flexibilidade, a crítica e a eliminação dos erros), que se vai enfraquecendo com o passar do tempo. A criança aprende que o feminino de “ladrão” é “ladrona” ; se, em seguida usa “barona” para o feminino de “barão”, èstá operando^-com base numa disposição orientada no sentido de encontrar regularidades. A criança logo corrigirá seu. erro, provavelmente pela influência da crítica dos adultos. Mas parece haver uma fase, no aprendizado da linguagem, em que as estruturas lingüísticas se: tornam rígidas ■ — possivelmente em virtude da “automatização” a que aludimos, acima, no item 3 ( í ) . • Escolhi o aprendizado; da linguagem apenas como um exemplo em que se percebe de que maneira a imitação é ura caso especial do método de tentativa e eliminação de erro Também é um exem­ plo do entrelaçamento de fases. de formação dogmática de teorias, formação de expectativas ou formação de regularidades de compor„tamento, de um lado, e de fases de crítica, de outro lado. Embora seja excessivamente simplista a idéia de que existe uma fase dogmática a que se segue uma fase crítica, nao deixa de ser verdadeiro que não pode haver fase crítica sem uma fase dogmática anterior, fase em que algo se forma —— uma expectativa, uma regu­ laridade comportamental — de maneira que .a eliminação do erro possa começar a atuar sobre ela. Essa concepção levou-me à rejeitar a teoria psicológica do apren­ dizado pela indução, teoria que o próprio Hume perfilhou, mesmo depois de haver abandonado a indução, com base em considerações estritamente lógicas, (Nao è preciso repetir aqui o que já disse, em Conjectures and. Refutations, acerca das idéias de Hume sobre o hábito.55) A concepção levou-me, ainda, a; notar que não existe nada a que se possa chamar observação destituída de preconceitos. Qualquer observação é uma atividade com um objetivo (encontrar

ou. verificar alguma, regularidade que- foi pelo menos vagamente vislumbrada) ; trata-se de uma atividade norteada pelos problemas e pelo contexto das expectativas, ,(q “horizonte:. ,das ..expectativas53, como eu o chamaria mais tarde).. 3$ã.Oí há* -experiência .passiva ■ não há recebimento passivo de idéias previamente concatenadas,, A expe­ riência é resultado de uma exploração atiya executada;^pelor orga­ nismo, da busca de regularidades ou.. ÍatQiie5f4^V3uriap polir fonia. Podè haver mais de uma voz, mas há uma única: melodia.

,í^i;.í.,.^.íip< erfeitaraente concebível que a origem do canto em contra-ponto se corcunda co m . erros cometidos pela congregação. Quando p canto- em. paralelo levasse a voz a uma nota mais alta do que a que poderia sustentar, a voz caía para a nota cantada abaixo, movendo-se assim contra punctum e nao em paralelo, cum puncto. Isso pode ter ocorrido no canto organum ou no fauxbourdon. De qualquer modo, assim se explicaria a primeira regra básica do con­ traponto simples de nota para nota; a de que o resultado do contramovimento deva ser apenas uma oitava ou quinta ou terça ou sexta (sempre contadas a partir do baixo) / Embora, entretanto, possa ter sido essa a origem do contraponto, sua invenção deve ter-se devido ao músico que pela primeira vez se ideu conta de que áli havia a possibilidade dè uma segunda melodia* mais ou menos independente, a ser cantada conjuntamente com a melodia original ou fundamental, o cantus ftrmus, sem perturbá-la ou interferir com . ela mais dò que o organum ou o fauxbourdon. E isso nos leva à segunda-regra básica do contraponto: importa evitar oitavas e quintas paralelas, porque destruiriàm ò pretendido efeito de uma segunda melodia independente, Com efeito, elas levariam a um não-desejado (embora temporário) efeito organum e, assim,; ao desaparecimento da segunda melodia como tal, pois a segunda voz reforçaria apenas (como no canto organum) o cantus f i r m u s T erças'a sextas’ para­ lelas (como no fauxbourdon) são permitidas, contanto que pronta­ mente precedidas ou seguidas por um contramovimento real (com respeito a algumas das partes). Assim, a idéia básica é a que sç exporá a seguir. A melodia fundamental ou dada, o cantus firmus, põe limitações a qualquer segunda melodia (ou contraponto), mas, á despeito dessas limita­ ções, o contraponto deve aparecer como uma melodia independente, livremente. inventada, melodiosa por si mesma e, sem embargo, quase miraculosamente conjugada ao cantus firmus, embora, diver­ samente do organum e do fauxbourdon, de maneira alguma depen­ dente dele. Uma vez apreendida essa idéia básica, compreende-se a polifonia. Nao alongarei o assunto. Passarei, em vez. disso, a expor a conjectura histórica por mim formulada nesse particular — con­ jectura que, embora possa ser falsa, foi de grande significação para ,todo o meu posterior desdobramento^ de idéias. E consistiu no seguinte. Considerada a herança dos gregos e ó .desenvolvimento (e con­ sagração) dos modos da Igreja, na época de Ambrósio e Gregório o Grande, não haveria necessidade de invenção da polifonia, nem 64

estímulo para tanto, se os músicos sacros tivessem gozado da mesma liberdade que tinham, digamos, os criadores da canção folclórica. Minha conjectura era a de que foi a canonização das melodias litúrgicas e as restrições dogmáticas que sobre elas pesavám que produzi­ ram o cantus firmus ^ em oposição ao. qual o contraponto encontrou meio de desenvolver-se. Foi o cantus firmus estabelecido que pro­ piciou a estrutura, a ordem e a regularidade que. tornaram possível a liberdade inventiva sem caos. Na música de algumas regiões não-européias, verificamos que as melodias estabelecidas dão nascimento a variações, melódicas — o que me parece um processo análogo ao referido. Sem embargo/ a combinação de uma tradição de melodias cantadas em paralélo com a segurança de um cantus firmus, que não se altera nem mesmo com d contramovimento, abriu para nós, de acordo com a conjectura mencionada, toda uma nova ordenação do mundo, um novo cosmos. Uma vez exploradas até certo ponto as possibilidades- desse cos­ mos —- através de tentativas audaciosas e da eliminação de erros — , as melodias autênticas originais, aceitas pela Igreja, podiam ser aban­ donadas. Melodias novas , podiam ser inventadas para substituir o cantuç firmus original; umas se tornariam tradicionais por algum tempo,: enquanto outras só podiam ser usadas numa única composi­ ção músicaí-----por exemplo, como tema de uma fuga. Nos termos dessa talvez insustentável conjectura histórica foi, assim, a canonização das melodias gregorianas, um ato de dogmatxsmo, que proporcionou o quadro necessário ou, melhor, o vigamento necessário para construirmos um mundo novo. Também formulei a conjectura nos termos seguintes: o dogma fornece-nos o. sistema de coordenadas necessário para explorar esse mundo novo, desconhe­ cido e possivelmente álgo caótico e, ao mesmo tempo, fornece-nos o necessário para criar ordem onde a ordem falte. Assim, a criação musícái e a científica parecem. ter isto em comum: o recurso ao dogmá ou ao mitò, como trilha construída pelo homem, ao longo dá qual nos. dirigimos para o desconhecido], explorando o mundo e, a um tempoj criando regularidades ou regras; e: investigando regularidades existentes. Uma vez que -teríhamos encontrado ou erigido alguns marcos, -passamos a ensaiarrnovas formas de ordenar o mundo, novas coordenadas, novos modos5 de exploração e criação, novas maneiras de construir um mundo novo, de que a Antiguidade nao suspeitou, a rião: ser ao esboçar o mito da música das esferas. Com efeito, uma grande composição musical (assim como uma grande teoria científica) é um cosmos que se impõe a um caos —

com tensões e . harmonias inexauríveis áté mesmo para seu próprio criador. Isso foi dito por Kepler59, com maravilhosa penetração, em passagem dedicada à música dos céus i .. Assim, os movimentos celestes n ã é f!passam de uma espécie de con- certo perene, racional, embora nãõ sonoro ou audível. Os corpos celestes se movem em meio à tensão de dissonâncias, •que são como síncopés ou suspensões, com suas resoluções (através, das quais os homens imitám as correspondentes dissonâncias da natureza) que atin­ gem fechos seguros e predetenninádos, cada um deles encerrando seis termos, como um acorde formado- de seis vozes. E por meio dessas marcas apartam e articulam a imensidade do tempo. Assim, não há maravilha maior ou mais sublime do que as regras do canto conjunto em harmonia, regras desconhecidas ,dos antigos mas, afinal, descober­ tas pelo homem, m acaco de seü C riad or; de sorte que, através da engenhosa sinfonia de muitas vozes, pudesse ele evocar, na breve por­ ção de uma hora, a visão da total perpetuídade do mundo no tem po; e que, no m a is . grato sentido da beatitude alcançada através da M u-, sica, eco de Deus, ele deve quase atingir a alegria que Deus, o Criador, encontra em Suas Próprias obras.

São essas algumas, das idéias que me distraíam e perturbavam o, trabalho qüe eu executava naquelas escrivaninhas, durante meus tempos de aprendiz de marceneiro60. Era a época em que eu lía a primeira Crítica de Kant repetidas vezes. Desde, logo concluí, que sua idéia central era a de que as teorias científicas constituem um produto humano que tentamos impor ao mundo: “Nosso intelecto nao deriva suas leis da Natureza, mas impõe suas leis à Natureza”. Combinando isso com minhas idéias, cheguei ao que passo a relatar. Nossas teorias, a começar-dos mitos primitivos e até chegar às teorias da Ciência, são indiscutivelmente um produto humano, como disse Kant. Tentamos impô-las; .ao mundo e sempre p od emos aderir a elas dogmaticamente, se assim o . desejarmos, ainda que sejam falsas (como o são, ao que. parece, a maioria dos mitos religiosos, mas também a teoria de Newton,. que era a que Kant tinha em mente)61. Embora tenhamos a. princípio de apegar-nos a nossas teorias — sem teorias não podemos^nem mesmo começary pois não há outra coisa capaz de guiar.-nos. cabe, com o tempo, adotarmos uma atitude mais crítica em relação a, elas. Podemos tentar substi­ tuí-las por algo, melhor, se tivermos aprendido, com o auxílio delas, em que ponto deixam de nos ser úteis. È surgirá assim a fase científica ou crítica da reflexão^ necessariamente precedida por uma fase não-crítica. Kant, julgava eu, acertara aò afirmar ser impossível que o co­ nhecimento fosse, por assim dizer, uma cópia ou impressão da reali-

dade. E acertara ao afirmar que oiícofíhecitaentGi -è ^0tieiicamente ou psicologicamente "a priori”, ’ nhecimento pudesse ser válido “a priôíilf^-r^òssàsH^âàshsãôkin^ehJ ções nossas; mas podem não passar de xonjectuíâs^^ál^ndadâs,. conjecturas audaciosas, hipóteses. A pàrtir, :d d asxií# i^ õ s^ ^ :;iíiüM §f' não o mundo real, mas nossas próprias X€des^«aâ5\qüiãijí|-p^c.ü^dósí'’ colher o mundo real, •< Se assim era, o que eu originalmente considfeíáWC çòiiio: a^sico^'; logia da descoberta assentava sua base na Lógica:: por^motivpsMogif cos, não havia outro caminho capaz de levar ao desçÕfíhéGidoí ? ‘í"' 13 . Dois tipos de música

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.Meu interesse por música, levou-me ao que eu então supusílsérf. uma descoberta intelectual de menor importância (isso ocorreu-- erru 1920, antes de eu dar atenção à psicologia da descoberta, fato a: quealudi na. seção precedente, e na seção 10). Posteriormente, essa descoberta muito influenciou meu pensamento filosófico e, em últimá análise, mé levou à distinção que estabeleci entre mundo 2 e mundo 3, distinção que desempenha importante papel na filosofia desenr volvida nà minha idade madura. De começo, as coisas assumiram a forma de uma interpretação da diferença entre a música de Bach e a de Beethoven, ou da maneira de eles abordarem a música. Ainda penso haver algo de aproveitável na idéia que me ocorreu, embora, segundo refleti depois, minha interpretação particular exa­ gerasse demasiado a difeíença entre ambos. Contudo, a origem dessa descoberta intelectual está de tal forma ligada a esses dois grandes compositores, que a relatarei nos termos em que, na ocasião, me ocorrèu. Não pretendo sugerir, entretanto, que minhas observações façam justiça a eles ou a outros compositores, ou que acrescentem algo de, novo às muitas coisas, boas e más, que vêm sendo escritas a respeito da música: minhas observações têm caráter essencialmente autobiográfico. * :s A descoberta foi, para mim, um grande choque. Eu admirava, tanto? JBach quanto Beetlioven — não apenas a música de.. um e outíojvinas; as personalidades de ambos que, julgava eu, tornavam-se rVisívèis -através da música por eles ^composta. (Não se dá o mesmo feüm^l&bzart: há alguma coisa de inatingível, atrás de sua fasci3iâ^ã@0^ í(|)i choque se deu quando me ocorreu que eram diferéntéS: 'âs^elà^es de- Bach e Beethoven com as respectivas obras e -que* tímbbra^íòssei admissível tomar Bach por modelo, era inadmissível adotar ásrriesma atitude em relação a Beethoven. •

Beethoven, a meu ver, fizera da música, um instrumento de auto-expressão. Para ele, em seu desespero, talvez tenha sido essa a única maneira de continuar vivo. (Creio que tal idéia é sugerida em seu Heiligenstddter Testament, de 6 de outubro de 1802.). Não há obra mais comovente do que o Fidelio ; não há expressão mais comovente da fé de um homem, de suas esperanças, de seus sonhos e de sua heróica luta contra o desespero. Todavia, a pureza de coração, a capacidade dramática, os singulares dons criadores de Beethoven permitiram-lhe trabalhar de' maneira que, achava eu, não era acessível a outros, pareciarine que nao poderia haver perigo maior para a música do que tentar transformar a maneira de ser de Beethoven num ideal, ou padrão, ou modelo. Foi com o propósito de estabelecer uma distinção entre as ati­ tudes de Bach e dè. Beethoven para; com as suas composições que introduzi — para meu uso?-apenas —- os termos “objetivo” e “subje­ tiva”. Talvez esses termos: nao tenham sido bem escolhidos (o que nao importa muito) e, num contexto como este, talvez pouco signi­ fiquem para um filósofo; .entretanto, causou-me satisfação, muitos anos mais tarde, saber que Albert -Schweitzeros tinha usado, em 1905* na abertura, do seu grande livro: sobre Bach ^ Para mim, o contraste entre uma abordagem õu atitude objetiva e uma abordagem ou atitude subjetiva, especialmente em, relação à própria obra, tornou-se de importância decisiva. E, dentro em breve, começou a influenciar concepções minhas no campo da Epistemologia. (Considere-se, por exemplo, os títulos de alguns de meus artigos mais recentes^ “Epis­ temologia sem um Sujeito Cognoscente”, “A Propósito da Teoria da Mente Objetiva”, “A Mecânica Quântica sem 'o Observador’.” ) 64 Tentarei agora explicar o que tenho tido em mente ao falar (até hoje, apenas de mim para comigo e, talvez, para uns poucos amigos) acerca ;de música ou arte “objetiva” e “subjetiva” . Para explicar melhor , algumas de minhas primeiras idéias, recorrerei a formulações de que dificilmente teria " sido capaz naquela época. Talvez eu devesse começar criticando uma teoria de arte que é amplamente aceita: a teoria de que a arte é uma auto-expressão da personalidade do artista ou, quiçá, uma expressão de suas emoções. (Croce e Collingwood são dois dos muitos: defensores dessa teoria. Meu ponto de vista antiessencialista implica em que as indagações do tipo que é?, tal como a indagação “Qué é arte?’5, jamais cor­ respondem a problemas genuínos.)65 . A crítica principal que dirijo a essa teoria é simples :r a teoria expressionista da arte. é vazia. Com efeito, tudo o que um. homem ou animal faz é (entre outras coisas)

expressão de um estado intimo, de.. emoçoes-.e de uma. personalidade. Essa é uma verdade -trivial, váMda .para^ iodas, as espécies de lingua­ gens- humanas e animais. .' . Aplica-se à. maneira como caminha um homem ou um leão, à maneira como o homem tosse ou a s s o a o nariz, à maneira como o homem ou o leaò ;olha ou ignora alguém. Vale para a maneira como o pássaro constrói ovninho, a aranha tece a . teia ou o homem ergue uma. casa. í^n/outxas palavras, não e . um traço característico da Arte. Por essa.: razãoyf.-à^J,|eoriàs ^pres^ionistas ou emotivas da linguagem são banais, f.não-esclareoédorás -e. ; •:inúteis 65ü. ■ í í " ,FH 3' 'VJ i .-. • •• pretaçôes passíveis .para. a:, noção de,'.probabilidade, ressaltando que somente uma teoria. de' freqüências (como a. proposta por .von M i­ ses) seria, aceitável nás:; Ciêncjas ,.Físicaá. ( Posteriormente, essa ma­ neira de ver fo i; alterada, tendo, eu introduzido a interpretação em termos de , propensÕes;,penso que von Mises "teria . concordado com a alteração, ;pois os enunciados de propensão também sao submetidos a prova por meio ,de freqüências). Mas, afora várias objeçoes de menor relevo, minha principal objeção contra todas as teorias freqüenciais conhecidas que operavam. com seqüências infinitas, era de cunho técnico e pode ser formulada como segue. Escolha-se qualquer seqüência finita, constituída por zeros e unidades. (oú só por zeros o.u;só por unidades), de comprimento arbitrário. Seja n o comprimento dessa, seqüência, podendo n ser da ordem de milhares de milhões. Gontinue-se a seqüência a partir do termo de ordem n 1 , acrescentárido-lhe uma seqüência infiriità aleatória (um “ coletivo” ). N a seqüência assim formada, só impor­ tam as. propriedades de alguma parte final ( que se inicia.com o termo m, sendo m > n -|- 1 ) pqís uma seqüência satisfaz ps requisitos im­ postos por von Mises se e somente sé qualquer parte final da seqüência atender a tais requisitos. Isso significa, porém, que qualquer seqüênr cia empírica é simplesmente irrelevante, para julgar qualquer se­ qüência infinita, de que; a seqüência empírica é segmento inicial. Tive ocasião de discutir esse problema ( c muitos outros) com von Mises,. Helly e Hans Hahn. Todos eles, naturalmente, concor­ daram comigo; Vón Mises, porém, não., se preocupou muito cóm

a questão. Sua concepção (que é bem conhecida) era a de que as seqüências que satisfaziam seus requisitos — os “ coletivos” , como ele as denominava — constituíam um conceito matemático ideal, coinó o de esfera- Qualquer “ esfera” empírica não passaria de uma grosseira aproximação da esfera ideal. Eu estava inclinado a aceitar a idéia da relação entre uma esfera matematica ideal e unia ■esfera. .empírica como uma espécie' de modelo para a relação vigente entre uma seqüência matemática aleatória (um “ coletivo” ) e, uma seqüência empírica infinita. Mas acentuei que, em. sentido; plausível, nao .se poderia •dizer, de uma seqüência f i n i t a que fosse uma aproximação grosseira de um cole­ tivo, no modo dé entender de von Mises. Procurei, pois, construir alguma coisa ideal, mas menos abstrata: . uma seqüência aleatória infinita, ideal, com a propriedade de aleatoriedade a manifestar-se desde o início> de modo que qualquer segmento inicial finito, de comprimento n, fosse idealmente tão aleatório, quanto possível. Eu havia esboçado a construção, dessa seqüência em Logik der Forschung150, mas sem perceber claramente, então, que essa cons­ trução em verdade resolvià: (a) o problema de tomar possível a com­ paração entre uma seqüência infinita ideal e uma seqüência finita empírica; (b ) o problema da construção de uma seqüência mate­ mática, passível de ser usada no .lugar da definição (não-construtiva) de aleatoriedade, devida a von Mises; e ( eon tóeram chamados, tinham vindo; diretamente de güètds vir,tüaisB^er. contra eles se erguia o ressentimento dos judeus que ;'sèr&^iamseste^ em Viena, dos assimilacíonistas, dos muitos jü.deus ortG,dó^òs e mesmo ' dos sionistas, que se envergonhavam daqueles que encarávam conipSv: seus parentes pobres. ' Do ponto d e .vista legal, a situação melhorou,h,GÓ^ do Império Austríaco, ao fim da Primeira Gi^erra'^?í i l ^ ^ ^ t m a s j .. : como qualquer pessoa dotada de algum senso poderia.:tgr;;predito,:- a | situação se deteriorou socialmente: muitos judeus,,, sentindo;|:qué^ã:j^p liberdade e a igualdade total se haviam tornado reaisy;-dçdiè^am-se, de maneira compreensível, mas não sábia, à política e ._ao jornalismo.A maioria deles tinha boas intenções, mas o ingresso de .judeus .em:. partidos de esquerda contribuiu para a derrocada desses partidos; Parecia óbvio que, diante do latente anti-semitismo popular,-.:>Eficonlro •'co m E in stein V. • Em 1949, recebi convite para proferir as Conferências William James, em Harvard. Esta foi a razão da minha primeira visita aos Estados Unidos da América e muito influiu sobre minha vida. Quan­ do recebi a inesperada carta-convite do Professor Donald Williams, imaginei que houvesse engano, imaginei que me tivessem tomado por Joseph Popper-Lynkeus. Eu desenvolvia, na ocasião, três trabalhos: uma série de artigos sobre dedução natural, várias axiomatizações1 da probabilidade e a metodologia da Ciência Social, O único assunto que me pareceu adequado para uma série de seis ou oito conferências foi o último e, assim, dei às exposições, o título de “ O Estudo da Natureza e da Sociedade” . Embarcamos em fevereiro de 1950. Dos . membros do Departa­ mento de Filosofia de Harvard, eu só conhecia Quine. Agora, pas- . sava a conhecer C. I. Lewis,. Donald Williams , e Morton White. E voltei a encontrar, pela primeira vez depois de 1936, velhos amigos; o matemático Paul Boschan, Herbert Feigl, Phillip Frank (que me apresentou ao grande físico Percy Bridgman, de quem logo me tornei amigo), Julius Kraft, Richard Von Mises, Franz Urbach, Abraham Wàld e Victor Weisskopf. Conheci também Gottfried von Haberler que, segundo soube depois. por Hayek, foi, aparentemente, o primeiro economista á se interessar por minha teoria do método; e conheci também George Sarton e I. Bernard Cohen, historiadores da Ciência e James Bryant . Conant, reitor de Harvard. Gostei dos Estados Unidos da América desde logo, talvez por­ que tinha algum preconceito contra,- eles. Havia ali, em 1950, um sentimento de liberdade, de indepçjadência pessoal, que não existia na Europa e que, pareceu-me, era álnda inais forte do qúe na Nova Zelândia, o país mais livre que pudé conhecer, Eram os dias iniciais do macartismo — do hoje parcialmente esquecido cruzado anticomu­ nista, Senador Joseph McCarthy mas, a julgar pela atmosfera geral, supus que o movimento, que se alimentava do medo, terminaria por destruir-se a si próprio. Voltando à Inglaterra, tive, com Bertrand Russell, uma discussão acerca do assunto. Reconheço que as coisas se desenvolveram de maneira muito diferente. “ Isso não acontecerá aqui” é sempre errado: uma dita-? dura pode instalar-se em qualquer i lugar.

O maior e mais duradouro impacto recebido, durante a visita foi o causado por Einstein. Convidado a . ir . a Princeton, li, num seminário, uma artigo intitulado “ Indeterminismp na^Fisica Quân­ tica e na Física Glassica’ , esboço de trabalho muito inais longo 2°°. Nos debates, Einstein disse umas poucas palavras de concordância e Bohr estendeu-se; em considerações (em verdade,^^té^jfícáírnos só os dois na sala), afirmando, com'recurso, ao i ^ o s o * ^ ^ im e ft íò ; dás duas fendas, que a situação que se apresentayá„vHp. ,jcampo da" Física Quântica era completamente nova e ' com a ’ da Física classica. O fato de Einstein e HòhtViíéreni^ coiiipairecido a minha palestra foi, a meu ver, ò rriaior, cumprimento 'que já recébi. '''' ’’ ; '.‘v. Eu conhecera Einstein antes dessa palestra,, ,atravésKr derrPàul Oppenheim, em cuja- casa estávamos hospedados. E, .conquantòvieu relutasse muito em tomar o tempo de Einstein, ele fez-mé.. procurá-lo de novo. Ao todo, encontramo-nos três vezes. O principal/;tópico :de nossa conversa foi o indeterminismo. Tentei persuadi-lo,ú&^abando^ nar o seu determinismo, que q levava a conceber o mundoVcoiho um universo compacto, parmenídico, de quatro dimensões, onde a mu-; dànça não passava de uma ilusão humana, ou quase isso. (Ele . concordou 'com que essa havia sido sua visão e, em meio à conversa, chamei-o de “ Parmênides” .) Sustentei que se os homens e outros orgáhisraos podem ter a experiência da mudança e da genuína süCessão no tempo, então isso era real e não poderia ser invalidada :0 ; : por uma teoria do sucessivo acesso a nossa consciência de porções dé ;tèmpo que, em certo sentido, coexistem, pois esse tipo de “ acesso ^ ^ ^X^orisc^ nc^a” teria precisamente o mesmo caráter daquela sucessão de-jmudanças, qüe a teoria procura rejeitar. Invoquei também alguns ^;-U;;.; aicgUmentos biológicos óbvios:, a evolução da vida e a maneira de os íSC^i/otgânismos se comportarem, especialmente no caso dos animais sul^^^fâdtícres, nao podem ser verdadeiramente compreendidos com base qualquer teoria que irilerprete o tempo como se este fosse algo ^^~S§ífíelhante a uma outra coordenada (anisotrópica) do espaço. Afi^ í v n á & d e ■contas, nãò temos experiência, de. coordenadas espaciais. E b isso; porque elas simplesmente nao existem: devemos acautelar-nos ^ ^ í jGpiçbraífa. hipòstasiá-lasj elas são construções quase inteiramente arbillplj: tr^áFi^s?^.: Por.- que teríamos, então, a experiência da coordenada, de. ''1^'tèitípo -— sem dúvida, a apropriada para o nosso sistema inercialt=—r. p|i^ãp^j 5enas tcomo aigo real, mas também como algo absoluto, ou^seja>. ^independente de tudo quanto podemos fazer,^excetò^; ‘l^o^^iGafí- nosso. .estado de movimento) ?

v A realidade do tempo e da mudança parecia-me o cerne do rea­ lismo. (Continuo a ver as coisas desse modo, e assim elas têm sido vistas por alguns idealistas que se opõem ao realismo, como Schrõdinger e Gõdel.) Quando visitei Einstein, o volume Einstein, editado por Schilpp e integrado em The Library of Living Philosophers, acabava de ser publicado; o volume continha uma passagem, hoje famosa, de Gõdel, que utilizava, contra a realidade do 'tempo e da mudança, argu­ mentos colhidos nas duas teorias da>urelatividade elaboradas por EinsteinZ01. Einstein aparecia no livio como alguém decididamente favorável ao realismo. E ele discordava, sem dúvida, do idealismo de Gõdel; ele sugeria, em sua réplica, que poderiam ser “ rejeitadas, por motivos de ordem física” , as soluções godelianas das equações cosmo lógicas. Procurei ainda apresentar ao Einstein-Parmênides, tão vigorosa­ mente quanto possível, minha convicção de que se deveria tomar clara posição contra qualquer concepção idealista do tempo. Bus­ quei também mostrar que, embora a concepção idealista fosse com­ patível tanto com o determinismo quanto com o indetermínismo, importava tomar .posição a favor de um universo "aberto” — uni­ verso em que o futuro de maneira alguma estivesse contido no pre­ sente ou no passado, conquanto estes lhe imponham severas restri­ ções. Argumentei que não devemos ser governados por nossas teorias, até o ponto de facilmente abandonar o senso comum. Einstein não queria abandonar o realismo (e a favor deste os argumentos mais fortes são Ds que se fundam no senso comum), mas penso que estava, como eu também estava, pronto a admitir que poderíamos, um dia, ver-nos forçados a repudiá-lo, se argumentos poderosos (do tipo dos de Gõdel, digamos) se erguessem contra ele. Argumentei por issó que, no concernente ao tempo, e também ao índeterminismo (ou seja, ao caráter incompleto da Física), a situação era exatamente semelhante à situação relativa ao realismo. Recorrendo à maneira que tinha Einstein de expressar-se em termos teológicos, eu disse: se Deus tivesse querido colocar todas as coisas no mundo desde o começo, Eie teria criado um universo sem mudança, sem organismos nem evolução, sem o homem e sem a experiência que o homem tem da mudança. Aparentemente, entretanto, Ele achou que um uni­ verso vivo, com acontecimentos inesperados até para Ele próprio; seria mais interessante que um universo morto. Procurei também deixar claro a Einstein que tal posição não. implicaria em perturbar a atitude crítica por ele tomada diante da% afirmativa, feita por Bohr, de que a Mecânica Quântica era com-

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pleta; pelo contrário, tratava-se de uma -posição para -.a quai sempre é possível levar mais adiante os nossos projbIemas e que, - de modò geral, cabia esperar que a Ciência.^seç. revelasse incompleta; . (neste ou naquele sentido). Com efeito, sempre podemos continuaríVcórn.? ós nossos por^quês. A despeito de acreditar na verdade ditava que ela proporcionasse uma explicação1 última .'te,- pí&EÍsáSsoí tentou apresentar uma explicação teológica. iHa^íaçâo^ííàiüdistânciai Leibniz não acreditava que o impulso meeâmGO|d(íaçãoíáíadistânCiá‘‘' -zero) fosse a última palavra a dizer e buscava^umartexpHcàiçã^ièiii termos de forças de repulsão, explicação que,;^osteriç>^én|;é,fívèifc> a ser dada pela teoria elétrica da matéria. Uma ^explicação^ é algo sempre incompleto203: sempre podemos suscitar um outro O fato de a influência de Mach sobre os físicos, da noVa. geração ;;.:ter-íSe tornado tão significativa é uma dessas freqüentes .iránias sdà História. Em verdade, ele se opunha veementemente >ao ;atomismo. --- 1

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èiflà ^teoria “ corpuscular’’ da matéria, que, como Berkeley245, consi­ derava metafísica. Ó impacto filosófico do positivismo de Mach foi difundido em grande parte pelo jovem Einstein. Este, ' entretanto, acabou por afastar-se do positivismo de Mach, em parte porque ficou chocado áo compreender o alcance de certas conseqüências desse positivismo. Tais conseqüências, a nova geração de físicos brilhantes, entre os quais se contam Bohr, Paull e Heisenberg, não só descobriu como defendeu com entusiasmo — e esses físicos tornaram-se subjetivistas. Mas a retirada de Einstein foi demiàsiado tardia: a Física tornou-se um esteio da filosofia subjetivista, cpndiçao que até hoje conserva.

^ V'

Na base desses desenvolvimentos, porém, havia dois graves pro­ blemas, associados à Mecânica Quântica e à teoria do tempo, bem como um terceiro problema, de menor gra.vidade no mèu entender, que é a teoria subjetivista da entropia.. Com o advento da Mecânica Quântica, muitos jovens físicos se convenceram de que ela (ao contrário do que se dá com a M e­ cânica Estatística) não era uma teoria de conjuntos, mas de par­ tículas fundamentais isoladas. (Depois de alguma hesitação, eu também aceitei semelhante concepção.) De outro lado, esses físicos se convenceram de: que a Mecânica Quântica, tal como se dá com a Mecânica Estatística, era uma teoria probabilística. Gomo teoria mecânica de partículas fundamentais, possuía um aspecto objeüvo; como. teoria probabilística, pensavam èles, possuía igualmente um aspecto subjetivo. Trata-se, pois, de um tipo completamente novo de teoria fundamental, combinando aspectos objetivos e subjetivos. A í estaria o seu caráter revolucionário. As concepções de Einstein foram um pouco diferentes. Pará ele, as teorias probabilísticas, tal como a Mecânica Estatística, eram extremamente interessantes, importantes e belas. (Nos primeiros tempos, ’ Einstein contribuíra decisivamente para o desenvolvimento de teorias desse gênero.) Contudo, elas não eram nem teorias obje­ tivas, nem teorias físicas fundamentais; eram, antes, teorias subjetivistas a que tínhamos de recorrer em virtude do caráter fragmentário de nossos conhecimentos. Segue-se que a Mecânica Quântica, que pese a sua excelência, não é. uma teoria fundamental, mas uma teoria incompleta (porque seu carátei: estatístico atesta que ela opera com conhecimento incompleto) ; segue-se ainda que a teoria objetiva e completa que devemos elaborar não teria cunho probabilístico, mas determinista.

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A linha superior é o eixo do tempo; a inferior indica urriá fhituação de. entropia. As setas apontam para regiões em que a vidà pode manifestar-se e onde o tempo é experienciado como se tivèsse a direção ali marcada. ' •' Boltzmann sugeriu — e Schrodinger também — que â direção voltstda para o . “ futüro” poderia ser fixada por definição, .que se repreende do trecho seguinte, retirado da ségxirídá: réplica 'á, Zermelo 260: ‘ ■ ' •' . Podemos fazer duas escolhas na. figura,; Qu -adiiutimòsírque^o "universo está, presentemente, num estado altame.nte ixap^royável j ,^ou, -supomos que os “aBonsV. (enquanto perdure, este; ^estadòu.jinj)rõYáyel); e„;,a^dis-.^ tância que mèdeia. a Siriüs ^ão diminütpi^^se^còmparadòs“ -com a idade ê o taíríanhó dé'rtbdó o üííiVêrsò. ■ v“1^ü^"?rai^ferao:7:!':dèsse-';::-gênero].-' que, glòbalmentéi coüsidêradb, está^éih mortoj encontraremos aqui . e .ali , regiÕes . relatiyamente v pequenas,;. e ás dimensões de nossa galáxia (e que podem ser . chamados “íiiundos” ), que se desviam significátivamentè dò equilíbrio térmico^ ão longci de períodos relativamente breves desses “aeons” de teittpò. Nesses mun­ dos, as probabilidades de seus estados [isto é, a entropia] crescerão/ tantas vezes quantas decrescerem. No universo, como um. todo, as duas direções do tempo serão indistinguíveis, exatamente como . não ., há “para'cima” ou :“para baixo?’ no espaço. Entretanto, num detér^ minado ponto da superfície terrestre, podemos chamar “para- -baixo”,! a direção .rumo ao centro da Terra; da mesma forma, um. organismo vivo que se encontre num dos mundos em determinado- períodor^dei tempo pode definir a “direção” do tempo, entendendo-o como-ruma passagem do estado menos provável para o estado mais provávelSl(o'> primeiro receberá o nome de “passado” ; o outro será o “futuro” ). 'Em virtude dessa definição (s ic )t o organismo imaginará que -íua-‘ própria pequena região, isolada do resto do universo, sempre -se encontra, “inicialmente”, num estado improvável. Párbce-me que .esta -maneiras; de ver é a única pela qual se compreende a 'legitimidade â a ”seguftda*,; lei e a morte térmica de cada mundo- individual, sem^nécessidade-ídefo apelo a uma mudança unidirecional, do , universo,,,,como ^umiyjtpdo, cl è ' um estado inicial definido, para um estado final. , ^

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Creio-que a idéia, de. Boltzmann é surpreendente, em sua ousadia e belezáí^Más também creio que é insustentável, pelo menos sob o enfoque i realista. A variação unidirecional aparece, aí, como ilusória. Isso toraa; ilusória a catástrofe de Hiroshima. Torna ilusório o nosso mundo; :poiiseqüentemeiite, passam. a ser ilusórias todas as nossas tentativas de saber mais acerca do mundo. A posição é autodestrutiva (como .se. dá com as muitas formas do idealismo). A hipó­ tese idealista ad hocy de Bpltzmann, cònflita com a sua Filosofia realista, contraria a sua posição antiidèíalista, defendida quase apai­ xonadamente, assim como o seu ardente desejo de saber. Acresce que a hipótese ad hoc de Boltzmann também d.estrói, em considerável medida, a própria teoria, física que çle desejava saívar. Com efeito, falha completamente a sua ousada tentativa de deduzir a lei do aumento da entropia (dSjdt ^ ) a partir de pressupostos, mecânicos e ! estatísticos — seu teorema-H. Fàlha em relação ao séu tempo objetivo (isto é, ao tempo sem direção), uma vei que, para este, a entropia decresce tantas vezes quantas au­ menta;261. E tainbém falha em relação ao seu tempo subjetivo (isto é, ao tempò dotado de uma seta direcional), tuna vez que, neste segundo caso, é uma definição ou uma ilusão que faz crescer a entrópia^e 'não:ihá, ,(e;.fném poderia;..ser,:exigid^). uma prova cinética, dinâmica, .eslatísticà;Ou mecânica capãz de estabelecer tal fato. Assim, é •?dtótmída^aH^^ ã téoria cinética da entropia — que Boltzmann..tentou..defender contra os ataques de Zermelo. Foi inútil o.-sacrifício da^sua .filosofia realista em benefício do teorema-H. .. ! Imagino qüe Boltzmann, com o passar do tempo, compreendeu tudo.issó e ai está a causa de sUa depressão e do seu suicídio, que cometeu em 1906.

0

Embora eu admire a beleza e a ousadia intelectual da hipótese idealista ad hoc de Boltzmann, vê-se que ela não foi “ ousada” , quando vista do prisma da metodologia que advogo; nada acrescen­ tou aos nossos conhecimentos, não era de conteúdo crescente. Ao contrário, destruía qualquer conteúdo. (Está claro que a teoria do equilíbrio e das flutuações não foi afetada; ver, a propósito a nota 256!) Essa é a razão pela qual não senti, remorsos (embora sentisse muita pena de Boltzmann) ao compreender que meu exemplo de processo, físico não-entrópico, dotado de seta de tempo262, destruía a-í-hipótese idealista ad hoc de Boltzmann. Admito que destruía alguma coisa; de notável — um a.rgumento em favor do idealismo, que parecia pertencer à Física pura: Mas eu não me inclinava, ao con-

trário do que acontecia com Schrõdinger,.. ao uso da Mecânica Quântica em apoio do subjetiyisã^^„;Jiqu!^:.;satis^f;o poder..=atacar-Ihe uma das mais antigas fortalezas na Física263. E creio que o próprio Boltzmann teria aprovado..^sas;:idéias? ,(^ b o m .tal>^Z| não lhe aprovasse os resultados). ^ >vv.:r.-r’-x r A história das relações "!éHtrèl^BôlÊüraãnn-.>é:v ílàS mais estranhas da História da Ciência ,• é nelá ^sè :réveíá : :o ;póder histórico de que se revestem^os^modisáios J:BA#i?m©dâsi!èãp^ ■:pórém> tolas e cegas, particularmente _.as ^filo s ó fíè ^ ^ xòr-:•• a idéia de que a História^ser£ ;ftossò^ u ^ À luz da História ou3 quem ■'jj[ãt)e^à^orô^ -‘ • Boltzmann foi derrotádòj. Tse^n ^; >todos: ,-os .ipadr^ês iisüâis4 de Vj^lga-mento, ainda que todos lhe. recbhheçááòd?;os ,! efeito, ele .jamais chegou a elucidar o 'staiús' d&cs.eü1# P & e ^ chegou a explicar o aumento de entropia.... (Em ^yezj disso^cHou . novo problema — ou melhor, diria eu3 um novor; pseudópiébléma: . a seta do tempo decorre do aumento de entropia?) -i;BôítiqÉià^;SA.ajB'fv. bém foi derrotado como filósofo. Na última parte dé :súa yVida, o positivismo de Mach e a “ energética” de Ostwald, ambos ,dccaráter antiatomista, tornaram-se tão influentes que Boltzmann sehtiü-sé .jdesaçorçoado (como se percebe em suas Lições Sobre a Teoria dos Gases). À pressão foi tanta que ele perdeu a fé em suas idéias e riá realidade dos átomos. Ele sugeriu que a hipótese corpuscular po­ deria não passar de artifício, heurístico (e não uma hipótese acerca da réalidade física); a essa sugestão, Mach retrucou, afirmando que se tratava d e ,“ lance nao muito nobre neste debate” {eiri niâhi ganz rítterlicher polemischer Zu g) 354. Até o presente, o realismo e o . objetivismo de Boltzmann nao foram vingados nem por ele próprio nem pelá História. (Tanto pior para a História.) Conquanto o ' atomismo de Boltzmann ganhasse sua primeira grande vitória com á ajuda de süa idéia da flutuação estatística (refiro-me ao artigo de Einstein, de 1905, a respeito .de movimento browniano), a filosofia de Mach — a filosofia do maiòí opositor do atomismo — foi, na verdade, a que se tornou credo . aceito do jovem Einstein e, através dele, pelos fundadores da.,Meca? nica Quântica. Ninguém negou * é claro, a grandeza de Boltzmann como físico e, em especial,. como um dos. fundadores da Mecânica Estatística. Mas seja qual for a maneira como voltemf,a renascer suas idéias, elas parecem estar ligadas ou com a teoria subjeiivista : da direção do tempo (Schrõdinger, Reichenbaòh,ri,(3^ünbaum),ijvrou. .. com uma interpretação subjetivista da Estatística e„ ,do tteoremar H .

•(Bor&^&yiiés). deusa -da História —: yenerada como nosso ,juiz — còntiiiüâíSa^jiíòs pregar ,suas peças. • Kèlatei o episódio, aqui, porque ele ilumina a teoria idealista dê que a direção do tempo é uma ilusão subjetiva e porque a luta contra essa. teoria me tem ocupado bastante nos últimos anos. 36V.A teoria sübjetivista da entropia Por teoria: subjetivista da entropia26^ entendo aqui não a teoria de Boltzmann, ria qual a direção dò tempo é subjetiva é a entropia, objetiva.. Entendo, antes, uma teoria devida a Leo Szilard 266, se­ gundo a qual a. entropia de um sistema cresce sempre que decresce nossa informação a respeito dele — e vice-versa. De acordo com a teoria - de Szilard, todo ganho de informação ou conhecimento há dè ser interpretado como jreduçao de entropia; nos termos da segunda leij o ganho deve ser compensado por; ,um crescimento pelo menos igual de entropia 29\ Reconheço que existe algo intuitivamente satisfatório nessa tese ém particular, naturalmente, para: um subjetivista. : Indubitavel­ mente/ a:•iriformaçao ‘ :(òu.:‘‘conteúdo-:•informativo’ ’ ) pode ser -medida pélaíiinprbbàbilidadej.^cómò assinalei em 1934 em Logik der Forschühg268, A ehtíopiàf de -oütra parte, pode ser igualada à probabi­ lidade/. doJ estado dó- sistema em causa. Assim, parecem válidas as seguintes equações: ...informação ===== negentropia entropia ===== falta de informação =

ausência de conhecimento

Essas equações, entretanto, devem sér usadas com a maior cau­ tela: tudo .quanto se demonstrou foi que entropia e falta de infor­ mação podem ser medidas por probabilidades ou interpretadas como probabilidades. Não se demonstrou que sejam probabilidades dòs mesmos atributos do mesmo sistema. Consideremos um dos iriais simples casóS de aumento de entro­ pia: a expansão de um gás que impulsiona um pistão. Admitamos que haja um pistão nâ metade de um. cilindro (ver fig. 2). Admi­ tamos que o cilindro seja conservado á uma temperatura elevada constante por meio de uma fonte de calor, de sorte que qualquer perda-:térmica seja imediatamente compensada. Se, na porção esquer­ da, Houver um gás que desloque 0 pistão para a direita e, dessa forma, -nos habilite a. obter,, trabalho (levantamento de um peso) vèremos que isso custará um aumento da entropia do gás.

Suponhamos, de mna única molécula* M ,^ ^ ss a ^ ú p ò s i£ ;^ meus oponentes. S^U^dc-iOu,: Ik sível adotá-la *??, s^á^;>poE.étní^discutida^crit‘ÍGamèrite^&^ ;; Podemos então: dizer- qüe:■.■
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