Ativação Energética - Flavio Mamede

September 21, 2017 | Author: Flavio Mamede | Category: Asana, Breathing, Chakra, Yoga, Self-Improvement
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Uni-Yôga

Ativação energética O pránáyáma fora da sala de prática Monografia apresentada como parte da prova de avaliação de novos instrutores junto à Federação Estadual de Yôga de São Paulo

Aluno: Flavio Mamede Instrutor: Daniel De Nardi

São Paulo Janeiro/2010

INTRODUÇÃO Esta monografia é um dos pré-requisitos à formação de instrutores do Método DeROSE. Juntamente com outros meios de avaliação, a banca examinadora exige que o candidato disserte sobre um tema ligado ao Yôga. Mais adiante, este documento ganhará mais peso, tornando-se um livro que disseminará esta cultura. A escolha do tema Pránáyáma – a ativação da bioenergia, se deu pela grande importância do ato respiratório não só durante a prática de Yôga, mas também na rotina dos praticantes. Um dos fatores que determina a evolução de cada um, é a capacidade de levar para fora da sala de prática as técnicas aprendidas em aula, ou, em outras palavras, tornar-se um praticante ativo 24 horas por dia, um verdadeiro yôgin. Este trabalho se propõe a apontar como as técnicas respiratórias do Yôga1 podem ser aplicadas pelo praticante no seu dia a dia, e como são intensificadas as suas vivências na medida em que suas práticas se tornam mais fortes e constantes. Na prática de Yôga, os pránáyámas contribuem para: 1. ampliar a capacidade pulmonar do praticante, 2. aprimorar a capacidade cardiovascular, 3. reduzir o nível de stress, 4. auxiliar no controle emocional 5. proporcionar maior estabilidade das ondas mentais Vemos então que a respiração influencia o corpo, aumentando a saúde e também atua nos campos emocional e mental. Essa descoberta, de que o ato respiratório pode ser manipulado a fim de alterar nossa percepção, consiste numa das ferramentas mais fortes dentro da ampla variedade de técnicas do Yôga Antigo. A ela foi dado o nome de pránáyáma, que pode ser traduzido como expansão da bioenergia2.

O YÔGA O Yôga é uma filosofia de vida que visa ao auto conhecimento. Surgida na Índia há mais de 5.000 anos, tem como meta conduzir o praticante a um estado de hiperconsciência, de megalucidez, chamado samádhi3. Dizer isso, pura e simplesmente, não explica com precisão o que é esta filosofia ancestral, pois há muito assunto sobre o tema. Por se tratar de uma filosofia prática, o Yôga compreende ação, atitude, e não especulação. Quem se dedica a esta filosofia compromete-se em exercitar constantemente a auto observação, com a finalidade de conhecer-se melhor, para, através de uma série de técnicas milenares, aprimorar-se e tornar-se uma pessoa mais evoluída. Engana-se quem pensa que o Yôga é um mero relaxamento, que acalma, reduz o stress e combate enfermidades, ou que até mesmo sirva para emagrecer. Seria um roubo à cultura buscar no Yôga apenas os benefícios, que são inexpressivos se comparados à meta de um Yôga legítimo. Um yôgin experiente sabe que a pratica não acalma e sim energiza, e que o propósito não é curar doenças nem perder peso, mas travar contato mais íntimo consigo mesmo. 1

pránáyámas Definição extraída do livro Tratado de Yôga. DeRose, 2007 3 Yôga é qualquer metodologia estritamente prática que conduza ao samádhi. DeRose. Tratado de Yôga. O samádhi é um estado de consciência elevada, de megalucidez, e segundo DeRose, impossível de descrever com palavras. 2

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Há uma gama imensa de técnicas que contribuem para o aprimoramento do praticante. Para atingir a meta do Yôga, o samádhi, além de executá-las no sádhana, é preciso viver esta filosofia, extravasando os limites da sala de aula, fundindo a prática à rotina do yôgin. Como características do estilo de vida do praticante, podemos citar, dentre outras coisas, a alimentação e o cuidado com suas emoções, que são fundamentais para que o praticante evolua em seu sádhana. Por isso, recomenda-se um padrão alimentar sem carnes, drogas e álcool. Mas isto não deve gerar nenhum tipo de conflito interno. O sádhaka4 deve adotar este estilo de vida de forma espontânea. Sem nenhum tipo de cobrança externa, a sua liberdade deve ser sempre preservada, pois segundo o Mestre DeROSE, intoxicar-se com emoções negativas consiste num malefício ainda pior que a ingestão de alimentos indevidos. É importante entender como as técnicas do Yôga atuam sobre o praticante a fim de conduzi-lo ao samádhi. Cada uma das diferentes linhas filosóficas possui sua própria metodologia. O grande diferencial do Método DeROSE, é a importância dada aos níveis de evolução pelos quais o praticante deve passar até atingir o estado de hiperconsciência. O SwáSthya Yôga5 dá uma atenção especial ao fato do praticante não ter condições iniciais de atingir o samádhi. Para tornar a evolução mais fácil desenvolveu-se uma metodologia de trabalho que divide-se em seis etapas, agrupadas em três fases: o Método DeROSE de Yôga avançado. Por ser um assunto muito amplo, trataremos de abordar apenas a fase inicial, que compreende as etapas 1 e 2 do Método. 6 SAMÁDHI

HIPERCONSCIÊNCIA, AUTOCONHECIMENTO

FASE FINAL

5 KUNDALINÍ

DESPERTAMENTO DO PODER INTERNO

4 MAITHUNA

TÉCNICAS DE CANALIZAÇÃO DA ENERGIA SEXUAL

FASE MEDIAL

3 BHÚTA SHUDDHI

FASE DE PURIFICAÇÃO INTENSIVA

2 ASHTÁNGA SÁDHANA

REFORÇO DA ESTRUTURA BIOLÓGICA

FASE INICIAL

1 PRÉ-YÔGA TÉCNICA BIOLÓGICAS DE PREPARAÇÃO

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Sádhaka – praticante O SwáSthya é o nome dado à sistematização do Yôga Antigo, que foi codificado pelo Mestre DeRose na década de 1960.

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1ª ETAPA – PRÉ-YÔGA O Pré-Yôga consiste num preparatório para a prática do SwáSthya Yôga. Além de trabalhar as técnicas corporais, preparando o corpo para a prática, um dos principais aspectos desenvolvidos nesta etapa é a reeducação respiratória, fator determinante para conduzir o praticante à evolução. Logo que se inicia no Pré-Yôga, o aluno trava contato com técnicas orgânicas que irão prepará-lo para a segunda etapa do Método, a prática do ashtánga sádhana6. No que tange à respiração, o iniciante se reeduca, e é bem verdade afirmar que se redescobre, pois aprende que suas potencialidades estão todas reprimidas, por condicionamentos indevidos acumulados ao longo da vida.

2ª ETAPA – ASHTÁNGA SÁDHANA Depois de algum tempo no Pré-Yôga, o aspirante passa ao grau de sádhaka, vivenciando o ashtánga sádhana, que consiste numa prática completa, composta por oito feixes de técnicas, a saber: mudrá, pújá, mantra, pránáyáma, kriyá, ásana, yôganidrá e samyama. A intenção de adotar esta ordenação das técnicas – que só foi obtida depois de anos de dedicação, estudo e experiências – foi a de proporcionar as melhores condições para a meditação. No caso da prática de SwáSthya Yôga, pode-se dizer que a ordem dos fatores altera o produto, ou seja, cambiando-se a ordem de cada anga, obtêm-se resultados distintos. Mas como em toda receita, é preciso conhecer bem os ingredientes e as suas proporções para obter um bom resultado. MUDRÁ Os dois primeiros angas, mudrá e pújá, visam à identificação do praticante com as raízes do Yôga Antigo. Através do mudrá, o praticante se conecta aos arquétipos ancestrais desta cultura. Consiste numa refinada linguagem gestual, associada a uma forte técnica de mentalização, que usando as mãos, gera efeitos reflexológicos, simbólicos e magnéticos. Ao adotar gestos que vem sendo utilizados por mestres desde a antiguidade, estabelecese uma conexão entre o sádhaka e os arquétipos desta filosofia. O praticante mais experiente, ao posicionar suas mãos em um mudrá, imediatamente aprimora o seu estado de consciência, sutilizando-o e iniciando um processo de interiorização característico da prática de Yôga. PÚJÁ O pújá é a parte mais importante do sádhana, pois através da sua prática é possível sintonizar as freqüências dos praticantes, harmonizando-as com a do Mestre, reforçando o elo de ligação entre o yôgin e os arquétipos da sua linhagem. Trata-se de uma tradição bastante forte e difundida na Índia, mas pouco conhecida no ocidente. Consiste numa oferenda feita de quem recebe para aquele que está lhe transmitindo o conhecimento. É uma forma de agradecimento prévio pelo que irá receber. Não se deve pedir nada no pújá, e sim oferecer, sincera e espontaneamente. Quando é feito de forma 6

ashtánga sádhana – principal característica do Método DeROSE. É a prática completa composta por oito partes – ashtánga, do sânscrito, significa oito partes.

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verdadeira, o praticante percebe a diferença. É neste momento que forma-se um forte vínculo entre os praticantes, o que configura uma das principais características do SwáSthya. O termo Yôga possui muitas traduções, mas uma delas define-o como união. O pújá é uma forma de exercitá-la, sedimentando cada vez mais os laços do grupo. Seu objetivo é gerar a identificação do discípulo com o seu Mestre, que é o seu elo mais próximo da cultura milenar do Yôga. A execução é feita em quatro partes: emanando energias ao local da prática, ao ministrante, ao Mestre do ministrante, e a Shiva, o primeiro yôgin. Desta forma, o praticante se aproxima gradativamente das origens dessa filosofia. MANTRA A terceira etapa consiste na vocalização de mantras, sons e ultra-sons que nesta modalidade de prática tem como finalidade a desobstrução dos canais energéticos, por onde flui o prána, bioenergia que a tudo dá vida. Os mantras vibram internamente e estimulam as nádis7 para torná-las mais limpas e livres para o trânsito energético. Essa etapa da prática divide-se em duas modalidades de mantras: os kirtans, de caráter extroversor, e o japa, de caráter introversor. Os kirtans são vocalizados com os olhos abertos, com nível de voz moderado. O ritmo é marcado com palmas, que reproduzem o prônam mudrá à frente do peito. Serve para descontrair e equalizar a freqüência energética dos praticantes. O japa8 consiste na repetição de um som monossilábico ou bíja mantra. O melhor, e por isso o mais utilizado, é o bíja Ôm. A sua vocalização é feita com os olhos fechados para aumentar a concentração, gerando um estado de maior estabilidade mental, fundamental para expandir a consciência através da prática. Tanto os kirtans quanto o japa atuam na limpeza das vias energéticas, e ao final de cada vocalização é possível perceber as reverberações internas geradas pelo ultra-som. PRÁNÁYÁMA Após limpar as nádis através dos mantras, a próxima etapa do sádhana é o pránáyáma, a expansão da bioenergia através de exercícios respiratórios. Segundo o Mestre DeROSE, no seu livro O Tratado de Yôga, “prána significa bioenergia; ayáma, expansão, largura, intensidade, elevação. Pránáyáma designa técnicas (...) que conduzem à intensificação ou expansão do prána no organismo.”9 Estas técnicas possuem uma ampla gama de variações, cada uma com uma finalidade específica, podendo ter diferentes atuações de estímulo. No caso de técnicas de hiperoxigenação, o objetivo é ampliar a captação de prána, aumentando a capacidade de raciocínio lógico. Há também técnicas que visam à redução dos ritmos internos, através do aumento no tempo de cada fase da respiração, ampliando principalmente a fase de expiração. No geral, as técnicas respiratórias proporcionam ao praticante a ampliação do seu estado de consciência. Através de um ritmo respiratório imposto de forma consciente, e de outros fatores que caracterizam os pránáyámas, como as mentalizações e os bandhas, (que serão descritos mais adiante no texto), é possível obter muito mais energia da respiração, se compararmos a um ciclo respiratório comum. 7

Nádi – nome dado ao canal por onde circula a bioenergia, o prána. Japa – do sânscrito, significa repetição 9 DeRose. Tratado de Yôga (2007) 8

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Sendo assim, o pránáyáma não pode ser restrito apenas à quarta parte da prática, mas deve estar presente em todos os demais angas do sádhana e também na vida do praticante fora da sala de aula. KRIYÁ Em seguida, passa-se para duas etapas de atuação mais corporal, que são o quinto anga, kriyá – as técnicas de purificação – e o sexto anga, ásana – técnicas orgânicas do Yôga. Kriyá significa atividade e designa uma intensa prática de purificação das mucosas internas. Os kriyás são classificados em dois tipos: os kriyás secos e os úmidos. Em aula costuma-se realizar os kriyás secos, que atuam gerando limpeza dos órgãos intestinais – através de uma forte movimentação da musculatura abdominal – oferece purificação do sistema respiratório – com técnicas de limpeza das fossas nasais – e também há exercícios voltados para o sistema ocular – aprimorando a visão e a capacidade de concentração (respectivamente: nauli kriyá, kapálabháti, e trátaka). Além de uma atuação no campo físico denso, efetuando uma verdadeira “faxina” interna, os kriyás também contribuem para dinamizar a bioenergia. Quando associados a mentalizações tem um forte potencial de estímulo da kundaliní10. ÁSANA Foram catalogadas mais de 2000 técnicas corporais associadas à prática do Yôga Antigo. Existe uma infinidade de combinações de ásanas, pois cada um vai atuar de uma determinada maneira no corpo do praticante. Na cultura hindu há uma frase atribuída a Shiva – o criador mitológico do Yôga – que diz: Há tantos ásanas quanto homens sobre a terra”. Dentre as várias características dos ásanas, em relação à posição podemos citar a estabilidade, o conforto e a estética da posição. Tratando-se da respiração, esta deve ser consciente, profunda e ritmada. É muito importante também que o praticante mantenha uma atitude interior em relação ao ásana, ampliando a sua consciência corporal através de mentalizações, vivenciando intensamente a posição. Para ser ásana, é preciso ter todas estas características, e outras mais. Em ambos os angas, ásana e kriyá, o praticante atua mais diretamente no seu corpo físico denso, mas não somente neste. Todas as técnicas do SwáSthya Yôga são complementadas por regras gerais de respiração, localização da consciência, permanência e mentalização, e através dessas atuações obtêm-se mais conhecimento das emoções e da nossa mente. Numa analogia, podemos dizer que o yôgin durante o anga ásana (e durante todo o ashtánga sádhana) usa a sua consciência como uma ferramenta para lapidar o seu corpo, assim como um artesão esculpi a rocha e dela extrai uma bela escultura. Essa é uma característica essencial do Yôga.

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kundaliní – é uma energia física, de natureza neurológica e manifestação sexual. Está ligada à libido, e encontra-se adormecida na base da coluna vertebral, no múládhara chakra. O seu despertamento é uma das condições para atingir a meta do Yôga.

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YÔGANIDRÁ O yôganidrá é uma técnica de descontração que reduz o ritmo interno do praticante e o prepara para a meditação, que será exercitada no oitavo e último anga, o samyama. O corpo do praticante se solta no solo, descontraindo todos os músculos e tendões, alcançando um nível de consciência tão sutil que muitas vezes perde-se até o tato do corpo no solo. Essa etapa não se trata de um relaxamento simples. Enquanto o praticante vivencia um estado profundo de descontração, assimila os efeitos gerados pela prática. O corpo físico se aquieta e a mente torna-se cada vez mais serena. Este estado de descontração é ideal para trabalhar mentalizações positivas, principalmente relacionados aos objetivos de vida do praticante. Por isso, durante o yôganidrá deve-se permanecer lúcido e acordado. A descontração também prepara para a meditação. SAMYAMA Todo o encadeamento das técnicas do ady ashtánga sádhana11 têm um propósito bastante claro: preparar com segurança o praticante para a meditação. Meditar consiste em parar as ondas mentais, tarefa extremamente difícil e trabalhosa que exige muito esforço e dedicação. Para tanto, primeiro é necessário desenvolver a capacidade de concentração. As técnicas de meditação dividem-se em três graus: 1ºgrau, yantra dhyána12; 2ºgrau mantra dhyána e 3ºgrau tantra dhyána, de natureza iniciática. Nos dois primeiros graus o praticante deve focar a sua atenção sobre um único ponto. No caso do yantra dhyána, a consciência se volta para uma imagem; já o mantra dhyana consiste na atenção em um som. Ambas as técnicas visam à estabilidade da mente, buscando cessar as ondas mentais. Durante toda a prática a respiração tem um papel fundamental, auxiliando na dinamização da energia, na ampliação da consciência corporal e principalmente por aprimorar a concentração, indispensável para o trabalho de meditação. Segundo Pátañjali, o samádhi consiste em fundir numa coisa só o ato da observação, o objeto observado e o observador. Em dhyána, a atenção (observação) do praticante (observador) volta-se para um único ponto da consciência (objeto observado), procurando eliminar as dispersões mentais, que impedem o meditação e o próprio samádhi. Uma vez alcançado o estado de intuição linear, pode-se vislumbrar o samádhi, que é um estado de megalucidez indescritível por palavras. Só se sabe o que é quem o vivencia. Mas tecnicamente, o samádhi ocorre quando a consciência esvazia-se de sua própria natureza, ou seja, quando elimina as suas dispersões, que no Yôga se chamam vrtti. Enquanto houver vrttis, haverá instabilidade, e o homem estará impossibilitado de atingir o samádhi, pois estará identificado com as dispersões da sua mente. Ainda segundo Pátañjali, quando as instabilidades mentais cessam, o homem conscientiza-se de sua própria identidade, obtendo o conhecimento puro de si mesmo: o conhecimento de Púrusha13. 11

É o nome dado à prática mais ortodoxa do SwáSthya Yôga, dentre as variações de ashtánga sádhana que existem – adi – fundamental (mas quando seguida de palavra iniciada por voga, substitui-se o i por y). 12 Dhyána – termo sânscrito que designa o estado de supressão das ondas mentais, que no ocidente recebeu a equivocada tradução de meditação. Meditar, em qualquer dicionário ocidental, significa pensar sobre algo, o oposto do que é o estado de dhyána. 13 Na filosofia Sámkhya, naturalista, há uma descrição da natureza que a define como sendo o resultado da manifestação do Púrusha (consciência condensada) através da Prakrti (atributos da natureza). O Púrusha é a consciência cósmica que reside em tudo o que há no universo e o samádhi ocorre quando os atributos da Prakrti são dissolvidos e permitem a identificação do homem com sua essência.

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METODOLOGIA Após uma breve descrição do Yôga e do Método DeROSE, podemos começar a falar do pránáyáma propriamente dito, e abordando-o de acordo com dois pontos de vista distintos: contextualizando-o na prática do ashtánga sádhana, procurando apontar que fenômenos cada técnica desencadeia, e descrevendo-o num contexto mais amplo, fora da sala de prática, e por isso mesmo tendo um caráter diferente. Adotou-se uma metodologia que se aprofunda nos fundamentos gerais do pránáyáma, em oposição a uma descrição mais detalhada das técnicas. Isso por que são muitos respiratórios diferentes, com as mais variadas características, sendo cada uma destinada à manifestação de fenômenos distintos. O intuito foi o de trazer à tona quais são as práticas essenciais que caracterizam um pránáyáma, diferenciando-o de uma respiração normal.

A AMPLIAÇÃO DA VITALIDADE Pránáyáma é um conjunto de técnicas respiratórias que visam à expansão da bioenergia. Isso quer dizer que a técnica em si compreende algo a mais do que simplesmente respirar. Trata-se de agir com consciência a fim de ampliar a captação e a absorção da bioenergia, ou prána. Durante o ato respiratório, uma pessoa inspira oxigênio, nitrogênio, gás carbônico, e mais uma ampla gama de gases. Suspenso no ar em meio a todos esses vapores, está o prána, energia vital que permeia tudo no universo. Formado por pequenas partículas de energia, sua atuação no corpo se faz de forma automática para uma pessoa que não tem consciência do prána. Dessa forma, a sua influência no corpo se limita ao trivial ato inconsciente da respiração. Porém, a bioenergia pode ser absorvida não só pelo ato respiratório, mas também através da pele e de uma alimentação mais saudável e consciente. O que diferencia o pránáyáma da respiração comum é a consciência plena no ato respiratório, concentrando-se nas etapas de inspiração e expiração, e também nas fases de retenção cheia e vazia. Há outros detalhes que caracterizam o pránáyáma, que serão descritos mais adiante. Os praticantes de Yôga mais experientes transformam a respiração num ato superlativo de revitalização, que atua de forma imediata no corpo e também é extremamente prazerosa. O que torna o pránáyáma tão fascinante é a sua ação imediata, tanto no corpo físico, trazendo mais energia e disposição, quanto nas esferas mais sutis, como os campos emocional e mental, que são fortemente influenciados pelo ritmo respiratório. Por ser extremamente poderosa, sutil e discreta, o pránáyáma é uma técnica de Yôga que é facilmente aplicada fora do contexto da prática. Há inúmeras situações nas quais não só é simples realizar um pránáyáma, como também extremamente útil e benéfico. Mas para obter autonomia suficiente e aplicar estas técnicas no dia a dia, o praticante deve conhecer bem cada respiratório e entender como se dá a sua atuação no seu corpo. Mais que isso, deve manter-se bem atendo à sua respiração no seu cotidiano para saber quando um respiratório lhe é necessário. Assim, será feita uma breve descrição de técnicas bastante comuns numa prática de SwáSthya Yôga. Cada uma delas será contextualizada primeiramente no âmbito do sádhana, e em seguida serão abordadas aplicações fora da prática.

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CARACTERÍSTICAS PRÁTICAS DO PRÁNÁYÁMA Seguindo mais adiante na caracterização das técnicas respiratórias do Yôga, podemos classificá-las de acordo com alguns critérios bastante importantes: 1. Respiração consciente 1.1. Durante o pránáyáma a consciência deve voltar-se somente para o ato respiratório. Se o praticante não estiver focado no exercício, apenas executando a técnica de forma mecânica e automática, o pránáyáma não se torna efetivo, e seus efeitos são reduzidos. 2. Respiração ampla e profunda 2.1. Nossa respiração se divide em três fases, associadas à região do pulmão que utilizamos: respiração baixa, média e alta. 2.1.1. A respiração baixa é responsável por 60% da nossa capacidade pulmonar. É a respiração abdominal, que tem como principal característica o preenchimento dos pulmões a partir do aumento do volume do abdome. 2.1.2. A respiração média é responsável por cerca de 30% da capacidade pulmonar. Compreende a respiração intercostal, que consiste no aumento do volume da caixa torácica. 2.1.3. A respiração alta é responsável por aproximadamente 10% da capacidade pulmonar. Trata-se de uma respiração curta, que caracterizase pelo preenchimento dos pulmões pela região alta do tórax. Unindo todas essas fases num ciclo respiratório, temos uma respiração ampla, profunda e extremamente prazerosa. A maioria das pessoas desconhece a sua capacidade pulmonar, e por esse motivo, ao chegar pela primeira para uma prática de Pré-Yôga, este é um dos primeiros fundamentos que o aluno aprende. 3. Respiração nasal e silenciosa (salvo raras exceções) 3.1. Nosso sistema respiratório é dotado de mecanismos que filtram o ar que respiramos. Esses filtros estão localizados na mucosa nasal, e tanto servem para barrar impurezas como para filtrar o ar termicamente. Por isso as técnicas de pránáyáma são exclusivamente nasais. Há algumas exceções, como o chitali pránáyáma, mas majoritariamente a respiração é nasal. 3.2. Outro detalhe importante é a sutileza da respiração, que deve ser silenciosa. Algumas técnicas chegam a ser tão sutis que um observador não percebe a respiração do praticante. O silêncio na técnica reflete o grau de interiorização que a prática proporciona. Há algumas exceções, por exemplo, o bhástrika, o respiratório do sopro rápido, que deve ser rápido e curto, gerando ruído forte durante a inspiração e a expiração.

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4. Aplicação de ritmos respiratórios – matra 4.1. O ritmo é uma das mais fortes ferramentas dos respiratórios. Consiste em conduzir o fluxo da respiração por cada uma de suas quatro fases: inspiração (púraka), retenção cheia (kúmbhaka), expiração (rêchaka) e retenção vazia (shúnyaka). 4.1.1. Púraka – é a etapa de captação do prána, através da inspiração. Tem caráter de expansão interior, ampliando a reserva de energia no corpo. Devese associar a mentalizações de absorção da bioenergia. 4.1.2. Kúmbhaka – é a etapa de retenção do ar nos pulmões. Tem caráter renovador, revitalizando cada célula do organismo. Nesta fase, o foco das mentalizações deve ser a assimilação do prána, proporcionando regeneração celular, aumento da vitalidade e uma enorme sensação de prazer. 4.1.3. Rêchaka – é a etapa de expiração, exalando o prána excedente que não foi assimilado, devolvendo-o ao ambiente. Nessa fase, há uma característica de expansão exterior, ampliando o espaço vital ao redor do corpo. O prána sai não só pelas narinas, mas também pela pele, acumulando-se e formando uma redoma energética em torno do praticante. A mentalização desta fase associase ao aumento da percepção do espaço através do campo energético. 4.1.4. Shúnyaka – é a etapa de retenção com os pulmões vazios. É a fase de caráter introspectivo, que volta a atenção para dentro. Em shúnyaka, o praticante experimenta uma sensação de interiorização. 5. Aplicação de bandhas – contração de plexos e glândulas Os bandhas são técnicas avançadas do Yôga, utilizadas nos exercícios respiratórios, e em algumas técnicas orgânicas. Consistem em contrações de plexos e glândulas visando à dinamização do prána no interior do organismo. Nosso corpo possui diversos canais energéticos por onde flui o prána, as nádis. Cada ponto de cruzamento de nádis gera um pequeno vórtice de energia, chamado chakra. Existem milhares de chakras espalhados pelo organismo, responsáveis pelo gerenciamento do fluxo energético. Distribuídos ao longo da coluna vertebral, há sete chakras principais, verdadeiros centros de força que distribuem a energia pelo nosso corpo. O fluxo da energia segue princípios físicos, e por isso impostas, como a gravidade e a polaridade. A bioenergia nosso corpo, dividindo-se e se especializando em metabolismo. Apenas como caráter explicativo, segue a prána, ou vayú14:

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está sujeita a influências se diferencia ao entrar no funções específicas do distinção de cada tipo de



Prána vayú – localizado na região do peito, é responsável pela captação da energia



Apána vayú – localizado na região coccínea, gerencia os processos de excreção.



Uddana vayú – localiza-se na região da laringe, e está associado, entre outras coisas, à expressão facial.



Vyána vayú – presente em todo o corpo, é responsável pela separação e distribuição da bioenergia, fazendo- chegar a cada parte do corpo.



Samána vayú – localiza-se na região gastro-intestinal, e está associado aos processos de digestão e assimilação.

Vayú– significa vento, e é uma forma de classificar os tipos de prána.

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Os dois primeiros são os mais importantes para a prática, e servirão aqui para explicar como atuam os bandhas. No fluxo energético que ocorre naturalmente no organismo, o prána vayú tende a fluir em sentido ascendente, em direção ao alto da cabeça, por onde é dissipado, e o apána vayú por sua vez, tende ao lado oposto, fluindo em sentido descendente, em direção à base da coluna, onde também ocorre a sua dispersão. Os bandhas são contrações musculares que pressionam determinadas regiões do corpo por onde o prána se esvai, com isto visando à redução da dispersão natural da bioenergia. 5.1. Múla bandha – é a contração forte dos esfíncteres de ânus, uretra e da musculatura do períneo. Estimula o sistema nervoso central, e o chákra15 localizado na base da coluna, o múládhara, onde reside a energia de kundaliní. Pode-se utilizar durante as retenções com pulmões cheios ou vazios. Uma variação é a contração ritmada, o aswiní bandha, que consiste em contrair e soltar de forma rápida e repetitiva. Este bandha atua na retenção do apána, forçando-o a subir, invertendo o seu sentido normal de saída pela região coccínea. 5.2. Uddiyana bandha – é a sucção do ventre, forçando-o para dentro do corpo e para cima. Deve ser feito na fase de shúnyaka. Por aumentar a elasticidade da musculatura do diafragma, contribui fortemente para o aumento da capacidade pulmonar. Além disso, no plano energético, força o encontro de prána e apána na região do plexo solar, estimulando o despertamento de kundaliní. 5.3. Jihvá bandha – jihva significa língua. Consiste em pressionar o palato mole com a ponta da língua, localizado na parte posterior do céu da boca. Esse ponto é conhecido pelo encontro das três principais nádis: sushumná, idá e pingalá. Ao executar jhiva bandha, evita-se que a energia seja dispersada pelo alto da cabeça, fazendo o prána retornar ao centro do corpo. 5.4. Jalandhara bandha – este bandha é feito comprimindo o queixo no alto do peito. Força a energia ascendente a retornar ao centro do corpo. Sua atuação física é a compressão das artérias que levam sangue ao cérebro, com a conseqüente elevação da pressão arterial nessa região. Isso gera um comando do cérebro para reduzir a intensidade dos batimentos cardíacos, reduzindo a pressão arterial, e contribuindo para um estado de maior estabilidade da mente. 5.5. Bandha traya – consiste na utilização de três bandhas de forma simultânea: múla bandha, uddiyana bandha e jalandhara bandha. Essa combinação é usada na fase de shúnyaka, a retenção com os pulmões vazios. O principal efeito é o estímulo à ascensão de kundaliní. O múla bandha impede a dispersão do apána vayú pela base da coluna, forçando-o a subir coluna acima; o jalandhara bandha inverte o sentido do movimento do prána vayú, conduzindo-o para coluna abaixo. Esses dois vayús se encontram na região do plexo solar, e nessa região, o uddiyana bandha reforça ainda mais o vórtice de energia através da sucção do abdome. A assimilação do prána através da respiração é intensificada pelos bandhas, que inicialmente evitam a sua dispersão, e num segundo momento contribuem para o direcionamento da bioenergia para as regiões desejadas. Como complemento, ainda há mais um fator determinante na execução dos pránáyámas: as mentalizações.

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Chakra – cetro de força responsável pela distribuição de prána no corpo humano.

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6. Mentalização de fluxos energéticos – A mentalização é uma das ferramentas mais poderosas que o ser humano possui. Antes de construir uma casa, o arquiteto projeta, antes de projetar ele rascunha no papel, mas antes mesmo de rascunhar, ele imaginou a casa em questão. Tudo que o homem faz passa antes pelo processo de imaginação, de visualização mental de algum objetivo que se quer ver concretizado. Na prática de pránáyáma, a mentalização visa à intensificação da captação e à dinamização da bioenergia, bem como à estabilização da consciência. Por ser uma energia sutil, o prána responde muito bem às mentalizações. Durante a execução de um pránáyáma, a mente pode conduzir a bioenergia através do corpo, visando à ativação de chakras e ao despertamento de kundaliní. Se observarmos o escalonamento dos veículos de manifestação do homem (corpos do homem), a bioenergia compreende o corpo físico energético. Entre o campo mental e o campo físico energético há o campo emocional, que tende a dificultar eclipsar a manifestação mental. Através de uma atuação direta da mente sobre a bioenergia – campo mental sobre o físico energético – é possível “driblar” os efeitos da esfera emocional, que tendem a dificultar a concentração e dispersam a mente. As mentalizações durante o pránáyáma ocorrem em dois níveis: 6.1. Mentalização de cores – a utilização de cores está relacionada a atributos que cada cor pode proporcionar ao corpo: 6.1.1. alaranjado – força, energia, vitalidade, 6.1.2. verde esmeralda – saúde generalizada, 6.1.3. azul celeste – descontração, alívio de estresse, 6.1.4. rosa – carinho, compaixão, afetuosidade, 6.1.5. dourada – ampliação da capacidade intelectual, 6.1.6. violeta – proteção e alívio kármico. Cada mentalização se associa a uma dessas cores, dependendo do intuito do instrutor ou do praticante. 6.2. Direcionamento da mentalização – ao mesmo tempo em que se constroem imagens mentais ligadas a cores específicas, deve-se, num estágio ainda mais avançado de prática, direcionar essas luminosidades para as regiões desejadas, como por exemplo chakras específicos que se pretende trabalhar durante o sádhana. Cada técnica de pránáyáma visa um objetivo específico. Há práticas que intensificam a captação de prána por hiperoxigenação, numa atuação mais densa, ou através de mentalizações intensas, que configuram um exercício mais sutil, mas extremamente poderoso. Na prática, o instrutor é responsável pela escolha das técnicas dadas em aula, e por isso deve conhecer bem cada uma das características dos respiratórios a fim de proporcionar aos alunos vivências poderosas, mas ao mesmo tempo seguras.

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INTENSIFICANDO AS VIVÊNCIAS Uma vez que temos um panorama geral com as características principais do pránáyáma, é possível agora descrever como podemos aplicar um pránáyáma em situações corriqueiras da vida cotidiana. Mais uma vez vale a pena frisar a importância da constância da prática diária do ashtánga sádhana. As vivências são intensificadas com a disciplina e só elas possibilitam os insights que transportam a prática para a vida, transformando desta forma o praticante em um yôgin. Em que situações poderíamos aplicar uma técnica respiratória diferenciada? Na verdade, a todo o momento deve-se ter consciência da respiração. Entretanto, a mente está sujeita a tantas influencias externas – ainda mais com as novas tecnologias da informação, que bombardeiam o indivíduo até com dados que ele não precisa – que fica difícil manter-se focado durante o dia todo. O ritmo respiratório está sempre associado ao estado emocional, sendo que o sentido de influência se faz geralmente do estado emocional para o ritmo respiratório. Ou seja, uma determinada emoção tende a alterar o ritmo da respiração. Uma das mais valiosas contribuições do Yôga foi a descoberta da relação entre os estados emocionais e os ritmos respiratórios. Observou-se que uma pessoa respira de forma curta e mais contida quando está aflita, ansiosa ou triste. Isso gera uma deficiência respiratória, e num dado momento o corpo “pede” oxigênio. Então, a pessoa inspira rápida e profundamente, soltando o ar logo em seguida. Esse tipo de respiração “suspirada” sempre esteve associado a estados de tristeza e melancolia. Os yôgins perceberam que há uma relação de causa e efeito: a tristeza e a melancolia são estados emocionais que condicionam o homem, levando-o a adotar um determinado ritmo respiratório. Seria possível usar o caminho inverso e alterar o estado emocional mudando a cadência da respiração? Esse tipo de raciocínio lógico pode ser considerado uma verdadeira ciência oriental, com um método claro de abordagem dos fenômenos naturais. Como o Yôga surgiu numa civilização naturalista, que cultuava a natureza e seus fenômenos, muita experimentação foi feita, e hoje temos um legado de mais de 50 técnicas respiratória diferentes, poderosas e seguras, que atuam das mais diversas maneiras. Esse tipo de pensamento quase cartesiano – que aborda o fenômeno dividindo-o em partes menores – provém da filosofia Sámkhya, que consiste na mais antiga filosofia teórica hindu, e talvez uma das mais antigas do mundo. Surgiu numa civilização muito antiga, que data de um período proto-histórico – cerca de 5.000 atrás. Sua principal característica é essa abordagem naturalista do mundo, ou seja, não mística. Procura entender como os fenômenos ocorrem, e não o porquê de suas manifestações. Sem dúvida a compreensão deste sistema filosófico, o Sámkhya, tem muito a contribuir para o aprimoramento do praticante. Isso por que ao estudar os seus princípios filosóficos, extremamente ligados à natureza e esclarecedores quanto à relação que cada fenômeno tem com a vida, o praticante se vê como parte do todo, e por isso se torna mais consciente de si. O Yôga que se fundamenta nessa filosofia, que a utiliza como aporte teórico, apresenta uma característica técnica extremamente poderosa, e as técnicas de pránáyáma são bons exemplos da eficiência desse ponto de vista filosófico.

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APRIMORANDO A CONCENTRAÇÃO Na prática de Yôga, o poder de foco é fundamental para atingir estados mais sutis de consciência. O praticante experiente se utiliza principalmente de um ritmo respiratório cadenciado a fim de obter maior estabilidade emocional e em seguida mental. A melhor maneira de fazê-lo é aplicando ritmos que ampliam o tempo da expiração, pois assim o organismo reduz os batimentos cardíacos, diminuindo as oscilações internas e conduzindo a um estado de maior estabilidade mental. Os efeitos já podem ser sentidos após apenas alguns ciclos realizados num ritmo 1-2-3-016, por exemplo. Como mencionamos acima, o benefício imediato desta técnica é proporcionar estabilidade emocional e mental. O aumento no tempo de expiração diminui o nível de oxigênio no sangue produzindo redução dos ritmos internos. Numa situação de nervosismo e estresse, se este ritmo for adotado, ajudará a pessoa a raciocinar de maneira clara, pois estabilizará seu campo emocional. Todos já ouviram dizer que não é bom tomar decisões de cabeça quente. E ainda há aquela máxima que diz que num momento de nervosismo, respire fundo e conte até dez. Isso é um exemplo de que o ritmo respiratório conduz o fluxo das nossas emoções. Na prática regular, o tamás pránáyáma17, costuma ser utilizado antes da prática de meditação, com a finalidade de proporcionar a estabilidade da mente. Na medida em que reduz o ritmo respiratório, o praticante adentra um estado de aquietamento mais intenso. No tamás, o fluxo da respiração tende a ser tão lento, que se uma pluma estivesse flutuando abaixo das narinas, ela não se moveria. Esse ritmo pode ser considerado difícil para um iniciante. Nesses casos, recomenda-se um ritmo quadrado18, 1-1-1-1, no qual o praticante irá adotar o mesmo tempo para cada fase da respiração. Aos poucos passará a ritmos mais avançados, até chegar no 1-2-3-0. AMPLIANDO A VITALIDADE Podemos observar na ciência ocidental algumas explicações para os fenômenos desencadeados pelo pránáyáma. Sabe-se que o sistema respiratório está intrinsecamente ligado ao sistema cardiovascular. Os cientistas estudaram o funcionamento do metabolismo humano, descobrindo que quando uma pessoa aumenta sua atividade física, necessita de mais oxigênio para suprir às suas células. Isto leva ao aumento do fluxo sanguíneo e em contrapartida, aumenta também o ritmo respiratório para renovar o sangue com mais velocidade e intensidade. Em situações de intensa atividade física respiramos de forma mais rápida, mas isso se faz automaticamente, pois nosso corpo “pede” por oxigênio. Essa carga extra de energia servirá para abastecer nosso corpo com o combustível que necessita durante a prática de exercícios. Entretanto, ao adotarmos um ritmo respiratório mais intenso em repouso, uma grande quantidade de energia será canalizada para nossas células. Com o corpo parado, o consumo dessa energia não é tão imediato, e ela tende a se acumular por todo o corpo, gerando um efeito de hiperoxigenação. Essas são as características do bhástrika, o respiratório do sopro rápido. Durante o ashtánga sádhana, esse respiratório é feito sentado, inspirando e espirando rapidamente, produzindo um forte ruído. Essa técnica proporciona um estado de prazer 16

Cada número representa uma das quatro fases da respiração, descritos do item 4.1.1 ao 4.1.4.

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tamás – inerte, inércia. É o respiratório lento e imperceptível.

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chaturanga pránáyáma

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imenso, pois a energia é sentida com intensidade. A função é canalizar mais energia para dentro do corpo. O próprio nome da técnica, bhástrika, se traduz por fole, pois a rápida movimentação do abdome durante o exercício se assemelha à de um fole bombeando oxigênio em direção a uma chama. Ao contrário do tamás, o intuito deste respiratório é ampliar a energia interna, aumentando o fluxo de oxigênio e com isso a capacidade de raciocínio rápido. Uma adaptação deste respiratório pode ser adotada em momentos de sonolência, quando é preciso estar desperto no trabalho ou ao volante de um carro, por exemplo. Como o sopro rápido não é uma técnica muito discreta, uma alternativa é intensificar a respiração, prolongando ambos os tempos de inspiração e expiração, mas sem retenções vazias ou cheias. Dessa forma o corpo é carregado por energia nova, num fluxo mais intenso de oxigênio que tende a hiperoxigenar o cérebro, gerando um estado mais desperto.

CONCLUSÃO O intuito deste trabalho foi descrever os principais aspectos das técnicas respiratórias, contextualizando-as na prática regular de SwáSthya e apontando algumas aplicações em situações normais da vida do praticante. Para que um leitor leigo em Yôga pudesse compreender o texto, procurei descrever, ainda que brevemente, a primeira característica do SwáSthya Yôga, o ashtánga sádhana. Essa prática é a principal ferramenta utilizada no Método DeRose e proporciona aos praticantes vivências verdadeiramente transformadoras. O Yôga gera um aprendizado excepcional. Ao travar contato com técnicas de mentalização, respiração, mantras e técnicas corporais, passamos a conhecer melhor os nossos mecanismos internos, a maneira como reagimos a certos estímulos e condicionamentos, mas principalmente aprendemos a atuar de forma consciente sobre nossos atos, emoções e pensamentos. A conseqüência direta disso é que aos poucos o praticante amplia para fora da sala de prática as vivências que aprende dentro dela. Após as explicações prévias da estrutura do SwáSthya e do pránáyáma, procurei apontar duas técnicas respiratórias que podem ser usadas pelos praticantes em seu cotidiano, cada qual com um propósito bem distinto: uma para aquietar e au mentar o poder de foco e concentração (tamás), e outra para despertar, ampliar a energia e a capacidade de raciocínio rápido (bhástrika). O simples fato de tomar consciência da respiração já ajuda o praticante no seu dia a dia, mas quando ele consegue cadenciar o ritmo os resultados são muito mais intensos. Como conclusão, vale a pena reforçar a importância da prática regular do ashtánga sádhana. De nada adianta procurar aplicar os respiratórios e outras técnicas do Yôga no dia a dia sem manter a disciplina no sádhana, pois é através dele que intensificamos a nossa evolução rumo ao auto conhecimento. Essa evolução nos torna mais conscientes de nós mesmos, nos traz verdadeiros insights, e esse exercício deve ser praticado diariamente. Assim será possível atingir um nível significativo de auto-suficiência, que é uma das muitas traduções do termo sânscrito SwáSthya!

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REFERÊNCIAS DeRose. Tratado de Yôga (Yôga Shástra). São Paulo: Nobel, 2007. CASTRO, Rosângela de. Respiração total. São Paulo: Uni-Yôga, 2007. SANTOS, Sérgio. Yôga, Sámkhya e Tantra. São Paulo: Uni-Yôga, 2001.

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