As Parabolas Da Misericordia (Misericordiosos Como o Pai) - Conselho Pontificio

July 14, 2017 | Author: Jaster IV | Category: Jesus, Religious Belief And Doctrine, Religion And Belief, Science, Philosophical Science
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As Parabolas Da Misericordia (Misericordiosos Como o Pai) - Conselho Pontificio...

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ÍNDICE Capa Rosto Apresentação I - Introdução Jesus, a misericórdia e as parábolas II - Aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama: os dois devedores Lc 7,36-50 III - A compaixão de um estrangeiro: o bom samaritano Lc 10,25-37 IV - À procura da ovelha perdida e da moeda encontrada Lc 15,1-7 V - Uma compaixão excessiva: o pai misericordioso Lc 15,11-32 VI - O contrário da misericórdia: o rico anônimo e o pobre Lázaro Lc 16,19-31 VII - Como muda o coração de Deus? O juiz e a viúva Lc 18,1-8 VIII - Quem é justificado por Deus? O fariseu e o publicano no Templo Lc 18,9-14 Conclusão - O Evangelho e a misericórdia em parábolas Ficha Catalográfica

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APRESENTAÇÃO

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a Bula Misericordiae vultus (MV), o Papa Francisco escreveu que, tendo o olhar fixo em Jesus e na sua face misericordiosa, é possível

colher o Amor da Santíssima Trindade. A sua missão recebida do Pai não é outra senão revelar este amor que a todos se dá sem excluir ninguém: «Tudo nele fala de misericórdia. Nele, nada há que seja desprovido de compaixão» (MV, n. 8). Esta bela expressão pode introduzir coerentemente na reflexão das páginas deste instrumento pastoral que expõe as Parábolas da misericórdia. Será uma leitura provocativa. Entrar na parábola, de fato, não significa apenas ter uma compreensão do ensinamento que emerge, mas sobretudo ajuda a reconhecer o próprio papel dentro dessa narração. Nada melhor do que as parábolas, provavelmente, envolve o leitor a compreender a dimensão existencial que nelas transparece e a deixar-se levar pela mão rumo à mudança de vida. É sempre o Papa Francisco que, na Bula Misericordiae vultus, convida a captar a grande mensagem contida nas parábolas, quando afirma: «Jesus revela a natureza de Deus como a de um Pai que nunca se dá por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superado a recusa com a compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas, três em especial: as da ovelha perdida e da moeda encontrada, e a do filho pródigo (cf. Lc 15,1-32). Nessas parábolas, Deus é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão» (MV, n. 9). O Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização sente o dever de agradecer a monsenhor Antonio Pitta por ter acolhido o convite para escrever este comentário. Sua reconhecida competência bíblica e seu estilo direto permitem que tenhamos em nossas mãos um precioso instrumento para a pastoral. A reflexão pessoal, a catequese e a lectio divina encontrarão neste 5

comentário uma verdadeira ajuda espiritual e de notável profundidade cultural. O convite, portanto, a escutar as Parábolas da misericórdia dirigidas a cada um de nós permitirá viver o Ano Santo com um empenho para dar à profissão de fé o coerente testemunho de vida. ✠ RINO FISICHELLA Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização

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I

INTRODUÇÃO JESUS, A MISERICÓRDIA E AS

PARÁBOLAS

«Sejam misericordiosos, como o Pai de vocês é misericordioso» (LC 6,36) é uma das afirmações mais audazes de Jesus. Que Deus Pai era misericordioso, o povo hebreu bem o sabia; era problemático pensar que os seres humanos pudessem ser como Ele. Poderá alguém ser misericordioso como o nosso Pai do Céu? E por que motivo se deverá ser como Ele? O “evangelho da misericórdia”, como é definido o texto de São Lucas, narra a vida de Jesus escolhendo a misericórdia como principal fio condutor. Antes de falar dela, Jesus fez tocar e ver a misericórdia. Um dos seus primeiros milagres foi em favor de um leproso por quem teve compaixão, estendeu a mão e tocou-o (cf. MC 1,41). Movido de compaixão, Jesus não tem medo de se infectar. O grito do cego de Jericó é mais forte do que o de quem o obriga a calar-se: «Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim […]» (Lc 18,38). Os seus encontros com os doentes e os pecadores estão plenos de misericórdia. Pela compaixão, liberta uma prostituta destinada à lapidação (JO 8,11). O modo pelo qual se deixa tocar por uma pecadora repugna Simão, o fariseu (LC 7,36-50). Jesus não fala da misericórdia de modo abstrato, e mais do que a definir, narroua através de parábolas. Que parábolas? Por que, como e para quem a misericórdia em parábolas?

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1. Que parábolas da misericórdia? Para quem tem familiaridade com a Bíblia, “as parábolas da misericórdia” evocam as três narrações de Lucas 15,1-37: a ovelha perdida, a moeda encontrada e o filho pródigo. Na realidade, a misericórdia é aprofundada também noutras parábolas de Jesus: os dois devedores (LC 7,41-43), o bom samaritano (LC 10,2937), o rico e o pobre Lázaro (LC 16,19-31), o juiz injusto e a viúva insistente (LC 18,2-14), o fariseu e o publicano no Templo (LC 18,10-14). São oito as parábolas de Jesus que, a partir de vários pontos de vista, tocam a misericórdia no terceiro Evangelho. Sete delas foram contadas durante a viagem de Jesus para Jerusalém (LC 9,51–19,46). Somente a breve parábola dos dois devedores (LC 7, 41-43) foi narrada durante a sua pregação na Galileia. Porque, no Evangelho de Lucas, a grande viagem é mais interior do que física, foi necessária uma ação tão difusa sobre a misericórdia. A misericórdia não é uma virtude natural, que depende do caráter de uma pessoa – quem tem uma boa índole será mais misericordioso do que os outros –, mas, antes, uma disposição interior que amadurece estando junto de Jesus: a misericórdia aprende-se com a consequência! Naturalmente, nem todas as parábolas de Jesus abordam a misericórdia, nem esta é comunicada somente em parábolas. As parábolas da misericórdia, todavia, merecem um espaço distinto: a exortação a sermos misericordiosos, como é misericordioso o Pai celeste, é a sua geral chave de acesso.

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2. Por que em parábolas? Por que falar da misericórdia em parábolas e não servir-se de outros instrumentos de comunicação? E por que tantas parábolas sobre a misericórdia? Não bastaria a parábola do filho pródigo ou, como se prefere denominá-la hoje, do “pai misericordioso”? Ao elogio da caridade, da sapiência, podia acrescentar-se o da misericórdia. Pensando bem, se se deve ser misericordioso como (e porque) é o Pai do Céu, é impossível falar da misericórdia distinguindo-a das pessoas que a vivem ou a ignoram. Se Jesus prefere narrar a definir a misericórdia, é lógico que terá as suas razões, que aqui procuraremos evidenciar.

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2.1. O espelho da vida As parábolas de Jesus, incluindo as da misericórdia, estão ligadas à vida e interpretam-na. Seria errado pensar que, depois de se ler uma parábola sua, esta se deve interpretar. Pelo contrário: as parábolas interpretam a vida de cada um e a questionam! A parábola dos dois devedores (LC 7,41-43) inspira-se na situação embaraçosa na casa de Simão, o fariseu: Jesus deixa-se lavar e beijar os pés por uma pecadora. A parábola ilustra que o devedor a quem se atribui a maior soma de dinheiro é mais grato ao credor do que aquele que tem uma quantidade menor a devolver. Se a pecadora lava os pés de Jesus é porque Ele lhe perdoou o pecado e porque foi perdoada para lhe lavar os pés. As três parábolas da misericórdia por definição (LC 15,1-32) partem do fato de que Jesus come com os pecadores. Ora, elas esclarecem e impõem a quantos o criticam que repensem os seus juízos. A presunção de quem considera que se é exaltado perante Deus porque se vive no mundo (LC 16,15) oferece a oportunidade para a parábola do rico e do pobre Lázaro. A parábola do juiz injusto e da viúva insistente (LC 18,2-8) explica a importância da oração: se é constante, é também capaz de mudar o coração de Deus. A parábola do fariseu e do cobrador de impostos no Templo (LC 18,10-14) nasce da presunção de alguns que desprezam os outros para se exaltarem. Nas parábolas de Jesus, é a vida real que se espelha: a da sua relação com Deus e com os pecadores. Por isso, as personagens das parábolas são anônimas e os ambientes onde atuam estão desfocados. Qualquer ouvinte sente-se envolvido nas parábolas de Jesus e nelas se reflete com uma verdade enternecedora, forçando-o a repensar-se nas relações que tece quotidianamente.

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2.2. Ele, eu e o outro Se a realidade da vida se espelha nas parábolas de Jesus, todas as da misericórdia são contadas segundo uma relação triangular. Convencionalmente, podemos falar de “ele, eu e o outro”. Em cena estão dois devedores e um credor; um sacerdote, um levita e um samaritano; o pastor com cem ovelhas, das quais uma se perdeu, mas foi encontrada; uma dona de casa com dez dracmas, uma das quais perdida e depois achada; um Pai e dois filhos, um dos quais morreu e regressou à vida; um anônimo rico, Lázaro e Abraão; um juiz injusto, Deus e uma viúva; um fariseu, um cobrador de impostos e Deus no Templo. Porque nos evangelhos se encontram também as parábolas que insistem num único elemento, como a do grão de mostarda que cresce por si mesmo (LC 13, 1819), ou dos dois interlocutores, como a da massa levedada e do fermento de farinha (LC 13,20-21), o triângulo relacional nas parábolas da misericórdia é intencional. O esquema veicula um conteúdo essencial: a misericórdia de Deus não se decreta sozinha, nem somente através de uma relação entre mim e Deus, mas refere-se sempre às relação entre pessoas. «Sejam misericordiosos como (e porque) o Pai de vocês é misericordioso» (LC 6,36) é a viga mestra da misericórdia nas parábolas.

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2.3. O reverso da medalha As parábolas da misericórdia não dão nada por certo, porque têm em vista o reverso das situações. Levam os ouvintes a questionar-se porque apresentam soluções contrárias e inesperadas de que ninguém está à espera. Perante a pergunta de Jesus sobre qual dos dois devedores amará mais o seu credor, Simão responde: «Suponho que é aquele a quem ele perdoou mais» (LC 7,43). Assim o justifica, sem querer, a pecadora que lava os pés de Jesus. Se a questão de quem é o próximo a amar motiva a parábola do bom samaritano (LC 10,29), o que se segue obriga o doutor da Lei a fazer-se próximo de todos (LC 10,36), imitando quem teve compaixão do moribundo. Contrário à lógica mais evidente é deixar noventa e nove ovelhas no deserto para procurar uma perdida, arriscando-se o pastor a ficar sem o rebanho (LC 15,4-7). A parábola do pai misericordioso perturba-nos quando refletimos sobre as situações dos filhos. Ao mais novo, que pede ser tratado como um dos seus assalariados, o pai concede a dignidade de filho. E perante o mais velho, que despreza o mais novo com um constante «esse seu filho» (LC 15,30), responde invertendo a relação: «Esse seu irmão […]» (LC 15,32). Angustiante é a mudança entre o rico e o pobre Lázaro: o primeiro gozou dos seus bens durante a vida, o segundo é consolado na eternidade (LC 16,25). Se um juiz injusto escuta depois de muita insistência as petições de uma viúva, Deus escuta rapidamente as dos seus eleitos (LC 18,7). A diferença de comportamento que se verifica entre o fariseu e o publicano no Templo é inconcebível: o primeiro reza durante longo tempo, lembra as suas boas obras, mas não é reconhecido; o segundo assume-se como pecador e volta para casa reconhecido sem fazer qualquer sacrifício de expiação (LC 18,14). Tudo é invertido, como uma pirâmide virada ao contrário! As parábolas da misericórdia abalam os ouvintes porque o agir de Deus que nelas transparece derruba qualquer certeza adquirida e obriga a rever o próprio modo de pensar Deus e de considerar Jesus.

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2.4. Do olhar interior, a misericórdia A questão da misericórdia é uma questão de coração que, porém, não deveria ser confundida com sentimentalismo. O coração é, para a Bíblia, a sede do pensamento, das decisões mais íntimas. Por isso, “ter compaixão” ou misericórdia equivale a um movimento interior das víceras que do íntimo nos levam a aproximar-nos do outro. Se excluímos as parábolas mais breves, como a dos dois devedores, da ovelha perdida e da moeda encontrada, nas parábolas mais articuladas, o ponto de mudança dá-se no coração humano. A compaixão por um moribundo, negada por um sacerdote e um levita, encontra-se num samaritano: «chegou junto dele, viu e se encheu de compaixão» (LC 10,33). A compaixão colocou asas nos pés do pai misericordioso: «Ele ainda estava longe, quando seu pai o viu. Encheu-se de compaixão» (LC 15,20). Ainda que tenha sido obrigado a isso devido à fome, se o filho mais novo não tivesse caído em si, não teria decidido voltar ao lar paterno. Somente quando o juiz injusto fala consigo mesmo é que decide fazer justiça à viúva (LC 18,4). A oração arrogante do fariseu contrasta com a intimidade do publicano: «Ó Deus, tem piedade de mim, pecador» (LC 18,13). A beleza das parábolas da misericórdia encontra-se num coração humano aberto: descobre-se pelo grau de compaixão que demonstra para com o próximo. Estamos longe de uma misericórdia barata, em benefício de uma que gera e mede a paixão entre os seres humanos com a de Deus. Onde falta a disponibilidade de olharmos bem para dentro de nós mesmos, aí não existe misericórdia; resta apenas o disfarce de um homem rico, vestido de púrpura e de linho caríssimo, mas incapaz de olhar para o pobre Lázaro, que jaz abandonado à frente do portão da sua casa (LC 16,19)!

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3. A quem se dirigem as parábolas da misericórdia? A misericórdia de Deus é para todos, mas é para pessoas bem precisas. Os destinatários das parábolas são de dois tipos: os internos e os externos, que as escutam. Os dois devedores, perdoados pelo seu credor, envolvem Jesus, Simão e a pecadora! Se no início da parábola do bom samaritano o moribundo é destinatário da compaixão, no final o próximo é o próprio samaritano. Por isso, o doutor da Lei é exortado a fazer-se próximo do outro. Na mesma situação da ovelha e da moeda encontradas estão os pecadores, ao passo que os fariseus e os escribas parecem partilhar a sorte das noventa e nove ovelhas deixadas no deserto, e das nove moedas que foram deixadas em segurança (mas nem tanto!). A parábola do pai misericordioso é atravessada pela compaixão e pela súplica que o pai faz pelos dois filhos. Desta vez é mais difícil convencer os fariseus e os escribas porque são pessoas conscientes, ao contrário das ovelhas e das moedas. Enquanto o pobre Lázaro é levado pelos anjos para o seio de Abraão, o rico não vê atendido nenhum dos seus pedidos. Os que gostam muito de dinheiro não se iludam pensando que o seu alegre estilo de vida vai continuar no além. Se a viúva é destinatária de uma misericórdia que o juiz injusto lhe decide conceder, muito mais Deus escuta os seus eleitos. Um é justificado porque se reconhece pecador, mas não o fariseu que se exalta. Quem se exalta desprezando os outros tem algo para refletir perante uma parábola tão fulgurante. A escolha, para os pecadores, não é ditada pelo populismo, nem por uma revolução social, mas porque Jesus escolhe os últimos para envolver os primeiros. Caso contrário, é fácil ceder a uma misericórdia para poucas pessoas, que viaja sobre o binário do mérito, e não sobre o da graça. Imponente é a ponte que liga a primeira e a última parábola da misericórdia: a primeira é contada na casa de Simão, o fariseu, enquanto uma pecadora lava os pés a Jesus (LC 7,42-43); a última faz entrar em cena um fariseu e um cobrador de impostos que se reconhece pecador (LC 18,9-14). As parábolas da misericórdia não deixam ninguém indiferente: envolvem os ouvintes no íntimo e fazem-nos entrar na narrativa.

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II

AQUELE A QUEM

POUCO FOI PERDOADO, POUCO AMA: OS DOIS DEVEDORES LC 7,36-50

A breve parábola narrada em LC 7,41-43 ilumina diversas situações da vida pública de Jesus: Ele convive com os pecadores e as pecadoras, até para ter o direito de lhes perdoar os pecados. Esta é uma prerrogativa que, para os judeus daquele tempo, pertencia somente a Deus e era regulada pelos sacerdotes no Templo. A parábola é narrada enquanto Jesus está almoçando na casa de Simão, o fariseu: pela sua beleza, merece ser lembrada a cena na qual a parábola é proferida: Um fariseu convidou Jesus para comer com ele. Jesus entrou na casa do fariseu e se pôs à mesa. E eis que uma mulher, conhecida na cidade como pecadora, soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu. Ela chegou com um frasco de alabastro cheio de perfume. Ficou por detrás, aos pés de Jesus, e chorava. Com as lágrimas, começou a banhar os pés de Jesus, a enxugá-los com os cabelos, a cobrir de beijos os pés dele e a ungi-los com perfume. Quando viu isso, o fariseu que tinha convidado Jesus começou a pensar: “Se esse homem fosse profeta, saberia quem é que está tocando nele, e que tipo de mulher é essa, pois é uma pecadora”. Jesus então lhe disse: “Simão, tenho uma coisa para lhe dizer”. Ele respondeu: “Fale, Mestre”. Disse-lhe Jesus: “Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentas moedas de prata, e o outro devia cinquenta. Como eles não tinham com o que pagar, ele perdoou a dívida dos dois. Qual deles o amará mais?” Simão respondeu: “Suponho que é aquele a quem ele perdoou mais”. Jesus lhe disse: “Você julgou certo”. E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: “Você está vendo essa mulher? Entrei em sua casa e você não me ofereceu água para lavar os pés, mas ela os lavou com lágrimas e os secou com os cabelos. Você não me deu o beijo de saudação, mas ela não para de beijar meus pés desde que entrei aqui. Você não derramou óleo em minha cabeça, mas ela 16

ungiu meus pés com perfume. Por isso eu lhe digo: os muitos pecados dela estão perdoados, pois ela muito amou. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama”. E disse a ela: “Seus pecados estão perdoados”. Os que estavam à mesa começaram a comentar entre si: “Quem é esse que até perdoa pecados?” E então Jesus disse à mulher: “Sua fé a salvou. Vá em paz”.

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1. O embaraço do amor A hospitalidade que Jesus recebe na casa de Simão, o fariseu, é de uma intimidade perturbadora. A oportunidade é oferecida por um dos habituais convites para almoçar, que Jesus aceita de bom grado. Durante o almoço, apresenta-se uma mulher que era conhecida na cidade pela má fama. Sem ser convidada, nem pedir autorização a ninguém, aproxima-se de Jesus, lava-lhe os pés com as lágrimas, enxuga-os com os cabelos, beija-os e perfuma-os. Os seus gestos espantam, porque se trata de uma pecadora, como foi imediatamente rotulada por Simão. Todavia, a atenção de Simão concentra-se não na pecadora, mas em Jesus: Como pode ser considerado um profeta alguém que deixa que lhe lavem os pés daquela maneira? Portanto, sob juízo está não a mulher, logo considerada pecadora, mas Jesus que, deixando-se tocar por ela, se contamina com o pecado dela. A pecadora realiza certos gestos que desconcertam Simão e os convidados. Com as mãos, as lágrimas e os cabelos contamina Jesus. Como transmitir um Evangelho tão escandaloso? Somente uma parábola pode fazer entender o escândalo provocado por Jesus!

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2. Os dois devedores A paixão de Jesus pelos pecadores é densa de humanidade e gratuita, sem segundas intenções. A breve parábola esclarece o que se verifica na casa de Simão. É tanto mais breve quanto incisiva e consegue o que pretende! Para não revelar de imediato o impacto da parábola sobre a situação, Jesus conta a história de dois devedores e de um credor. Como habitualmente, Ele não chama os devedores e o credor pelo seu nome, mas invoca a atenção sobre o fundamental da história. O mesmo credor deve receber do primeiro devedor quinhentas moedas de prata e do segundo, cinquenta. A desproporção é notável porque as cinquenta moedas de prata do segundo devedor são multiplicadas por dez em relação à soma do primeiro devedor. Para vincar a ideia, cinquenta moedas de prata correspondem a cerca de dois meses de trabalho, e quinhentas moedas equivalem a dois anos e meio de trabalho dependente. Jesus explicita que os dois devedores não podem restituir as somas devidas e são perdoados pelo seu credor. Aos personagens da parábola não é concedida nenhuma palavra: não se transcreve diálogo algum entre os devedores e o seu credor. Toda a atenção se concentra sobre a expressão «perdoar aos dois», que exprime a afirmação da graça em favor dos devedores. E é a graça do credor que provoca a pergunta de Jesus a Simão: «Qual deles o amará mais?». Simão ainda não percebe ser ele uma das partes em causa e responde que é o devedor a quem foi perdoada a maior soma de dinheiro que amará mais o seu credor. A sua resposta desmascara-o e acusa-o! Se estivesse com mais atenção à parábola, ter-se-ia lembrado de que, sendo cada pecado um débito que se contrai, somente a graça pode saldar a dívida que todos têm com Deus. Vê-se que Simão não consegue superar o trauma pela graça que Jesus concede à pecadora.

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3. Aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama A parábola dá lugar à revelação da situação. Simão é como o devedor de dois meses de trabalho e, por isso, não deu água a Jesus para os pés, nem lhe deu um beijo, nem lhe ungiu a cabeça. A pecadora é como o devedor que deve dois anos e meio de trabalho: nunca conseguiria saldar a dívida. A única saída é a graça para ambos! O maior impacto da parábola sobre a situação recai sobre a relação entre a remissão dos pecados e o amor da pecadora. Infelizmente, diversas traduções dizem, na frase do versículo 47, o seguinte: «São-lhe perdoados os pecados porque muito amou». Na realidade, o original em grego exprime a consequência da remissão dos pecados: «Foram-lhe perdoados os pecados e por isso muito amou». Se não se lhe tivesse perdoado uma culpa tão grande, agora não teria capacidade para amar; a mulher é capaz de amar porque lhe foi dada uma graça sem condições. A segunda parte da resposta de Jesus confirma o primado da graça: «Aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama» (v. 47). A afirmação liga a parábola à vida: quem não vive o amor gratuito de Deus, não está em condições de o amar.

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4. A remissão dos pecados e a fé que salva Durante um único almoço, Jesus escandaliza todos os hóspedes: «Quem é esse que até perdoa pecados?» (v. 49). A pergunta encerra uma resposta lógica: «Quem pode perdoar pecados, a não ser Deus somente?» (Lc 5,21). E para que Deus possa perdoar os pecados, é obrigatório expiá-los segundo a Lei. Portanto, Jesus apropria-se de um direito divino, e não humano, o que seria um abuso de poder. Todavia, este mesmo abuso preenche a lacuna entre a parábola e a realidade do encontro em casa de Simão. Com o poder de perdoar os pecados a uma pecadora, Jesus está em linha com o modo de agir de Deus; e o faz porque reconhece a fé que a pecadora teve, desde o início, no seu poder de perdoar os pecados. Se, informada da sua presença em casa de Simão, comprou logo um frasco de perfume caro e superou qualquer obstáculo, é porque foi ajudada por uma inabalável confiança: Jesus é capaz de perdoar os pecados, como um credor a quem se devem quinhentas moedas de prata. A fé é a única condição que Jesus pede para se ser salvo; é o denominador comum dos seus milagres. Perdoar o pecado a uma pecadora é como curar um paralítico ou um cego: em ambos os casos, é a fé que salva, e não o milagre.

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5. Que impacto sobre a comunidade? Voltemo-nos agora para a parábola do rei bom e do servo impiedoso, contada em MT 18,23-35. Como na parábola de LC 7,41-43, fala-se de um credor (o rei) e de dois devedores (os servos): o primeiro servo deve ao rei dez mil talentos; a sua súplica suscita a compaixão do rei, que lhe perdoa a dívida. Infelizmente, logo que sai do palácio, esse mesmo servo encontra um outro servo que lhe deve cem denários: logo o agride rudemente e o mete na cadeia. A desproporção das dívidas é incalculável: se na época de Jesus um talento corresponde a dez mil denários, dez mil talentos são uma soma inconcebível em relação aos cem denários que o segundo servo deve ao primeiro. Na prática, com um semestre de trabalho, o segundo servo poderia pagar a dívida, mas o primeiro servo nunca poderia resolver a sua grande dívida para com o rei. Mas a graça que o primeiro servo recebeu do rei foi inútil! Informado do que aconteceu, o rei condena-o: “Então o senhor chamou o tal servo à sua presença e lhe disse: ‘Servo malvado! Eu lhe perdoei toda aquela dívida porque você me suplicou. Não devia você também ter compaixão de seu companheiro, como eu tive compaixão de você?’” (MT 18,32-33). Então, o servo foi entregue aos torturadores, até que saldasse a dívida, impossível de pagar durante uma vida inteira. A conclusão da parábola é dramática: “Assim também fará com vocês o meu Pai celeste, se cada um de vocês não perdoar de coração o seu irmão” (cf. MT 18,35). A Igreja é composta por servos aos quais é perdoada uma dívida ilimitada, para que possam perdoar aos outros servos. E que será de uma Igreja que impõe condições à misericórdia de Deus, embora tenha recebido a ordem de perdoar até setenta vezes sete ou para sempre (MT 18,21-22)? Seremos capazes de reconhecer que a misericórdia de Deus supera qualquer pecado humano e que nunca se deve transformar num direito adquirido por nós mesmos e numa concessão ao outro? Com Jesus, a misericórdia de Deus contamina-se de miséria humana e redimea, transformando-a na gratuidade de um amor incondicional. Não há episódio mais íntimo nos evangelhos do que o que se verifica na casa de Simão: uma pecadora que toca nos pés de Jesus, os lava com lágrimas, os enxuga com os

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cabelos e os beija com os lábios. De acordo com os evangelhos, a mais ninguém, nem mesmo a sua Mãe, Jesus concedeu tal intimidade. A misericórdia de Jesus redime a miséria humana não apenas tocando-a de leve, mas deixando-se contagiar.

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III

A

COMPAIXÃO DE UM ESTRANGEIRO: O BOM SAMARITANO LC

10,25-37

A parábola do bom samaritano é uma das mais desafiadoras de Cristo. Jesus tinha iniciado recentemente uma viagem com os discípulos para Jerusalém e encontra um doutor da Lei com quem entra em diálogo sobre como herdar a vida eterna. O doutor pensa pô-lo à prova sobre uma das questões mais debatidas: Qual é o mandamento mais importante da Lei, do qual depende a vida eterna? A situação inspira a parábola do bom samaritano, que apresenta a relação delicada entre a Lei e o seu núcleo: «E eis que um especialista da Lei se levantou e, para pôr Jesus à prova, lhe disse: “Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?” Jesus lhe respondeu: “O que está escrito na Lei? Como é que você lê?” Ele respondeu: “Ame o Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força, com toda a sua mente, e ao seu próximo como a si mesmo”. Jesus disse: “Você respondeu certo. Pratique isso, e você viverá”. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?” Jesus respondeu: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó. Caiu nas mãos de assaltantes, que lhe tiraram a roupa, o espancaram e foram embora, deixando-o quase morto. Por coincidência, um sacerdote descia por esse caminho: ele o viu e passou pelo outro lado. Do mesmo modo um levita que chegou àquele lugar: viu e passou pelo outro lado. Mas um certo samaritano, que estava viajando, chegou junto dele, viu e se encheu de compaixão. Aproximou-se dele e tratou suas feridas, derramando nelas óleo e vinho. Então colocou o homem em seu próprio animal e o levou a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas de prata, deu-as ao dono da pensão e disse: ‘Cuide dele. Quando eu voltar, lhe pagarei o que você tiver gasto a mais’. Qual dos três, na sua opinião, foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos assaltantes?” Ele 24

respondeu: “Aquele que o tratou com misericórdia”. E Jesus lhe disse: “Vá, e faça você também a mesma coisa”».

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1. O mandamento mais importante Entre os diversos grupos religiosos na Palestina do tempo de Jesus, parece que foram debatidas duas questões centrais sobre a Lei de Moisés: Qual é o mandamento mais importante? E quem é o próximo que devemos amar? A multiplicação das leis tornava necessário chegar a uma síntese essencial da Lei. No outro prato da balança, as tensões políticas entre os diferentes grupos, incluindo os samaritanos, exigiam que se definisse a quem se devia amar: somente quem pertencesse ao mesmo movimento religioso ou também quem partilhasse da fé no único Deus, como também o faziam os samaritanos? Portanto, ainda que a pergunta do doutor seja tendenciosa, porque pretende fazer Jesus cair numa armadil .ha, reflete o que se debatia nos vários movimentos da Palestina. A primeira parte do diálogo aborda a questão: perante a multiplicação das leis, o doutor da Lei e Jesus concordam que o amor a Deus e ao próximo é a condição necessária para se herdar a vida eterna. O doutor da Lei cita, na sua resposta, a passagem de DT 6,5 e de LV 19,18 para unificar o amor a Deus e ao próximo. Aqui chegados, o doutor da Lei tenta uma armadilha mais insidiosa: Quem é esse próximo que devo amar? O irmão, o familiar, o amigo, o estrangeiro ou até o inimigo? Pode considerar-se próximo alguém que ignora o amor a Deus? Com uma estratégia magistral, Jesus alinha a parábola do bom samaritano com os dois mandamentos: fala do mandamento do amor pelo próximo para envolver o amor consagrado a Deus, sem o nomear.

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2. O sacerdote, o levita e o samaritano Como habitualmente, as personagens da parábola são anônimas, mas a atenção de Jesus concentra-se nas suas identidades religiosas e étnicas. Jesus parte de uma situação longínqua: ainda não chegou a Jericó, na viagem para Jerusalém, e já pensa num homem que desce da cidade santa para Jericó. A estrada que ligava as duas cidades (cerca de 27 quilômetros) era perigosa, porque era atravessada por Wadi Quelt. Enquanto Jerusalém está a 750 metros de altura, Jericó encontra-se a cerca de 400 metros abaixo do nível do mar. Por isso, como narra a parábola, é preciso “descer” de Jerusalém para chegar a Jericó. Jesus refere que alguns bandidos atacaram um homem e o deixaram meio morto. A condição de quem está agonizante assinala um ponto nevrálgico da parábola. Pode-se entrar em contato com um moribundo sem se arriscar a uma contaminação? Não foi por acaso que se escolheram três personagens que, de modos diversos, se encontram envolvidos na questão do culto ao Deus único: um sacerdote que sobe (ou desce) de Jerusalém para o serviço no Templo; um levita que pertence à classe sacerdotal, mas pode também não exercer o serviço cultual; e um samaritano. E aqui as contas começam a não fazer sentido, porque a tríade normal compreende um sacerdote, um levita e um israelita (DT 18,1; 27,9). O samaritano é um terceiro incômodo porque, segundo a mentalidade judaica, é um impuro e deve ser considerado como um estrangeiro. No diálogo entre Jesus e a samaritana, revela-se o motivo principal de atrito entre os dois povos: Em que monte se deve adorar a Deus? Em Jerusalém ou no monte Garizim? (JO 4,20). Segundo a Lei de Moisés, todo aquele que tocar num cadáver fica impuro durante uma semana; se se contaminar e praticar um ato de culto, deve ser expulso de Israel (Nm 19,11-13). A norma vale com maior razão para o sacerdote, até mesmo no caso de um morto na sua família (Lv 21,1-4). Escolhe-se assim uma situação-limite, em que o sacerdote e o levita são colocados perante a alternativa entre a observância das regras de pureza cultuais e o socorro de um moribundo. Todavia, é importante esclarecer que as normas cultuais não desculpam o sacerdote e o levita, porque, em situações como a da parábola, eles

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também estão obrigados a socorrer um moribundo; no entanto, ambos o veem e passam ao largo. Finalmente, um samaritano vê aquele moribundo, sente compaixão e cuida dele. Assim, a parábola cria um contraste insustentável: o que um sacerdote e um levita não fazem, realiza-o um samaritano, que é um inimigo. O conteúdo da parábola começa a ser provocativo, porque o amor para com Deus não garante o que se deve ao próximo; pelo contrário, o que se esperaria de quem conhece melhor o amor para com Deus (o sacerdote e o levita), é realizado por quem é definido somente pela sua diversidade. O moribundo recebe a salvação de um estrangeiro!

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3. Da compaixão à cura A parábola atinge um ponto de mudança quando se refere que um samaritano «teve compaixão» do moribundo (v. 33); e, no final, o doutor da Lei reconhece que o próximo foi «aquele que o tratou com misericórdia» (v. 37). Vale a pena refletir no verbo que exprime a compaixão do samaritano. O verbo “compadecer” (splanchnízomai) deriva do sustantivo splánchna que, em grego, refere as vísceras humanas, incluindo o coração. Segundo a forma habitual de pensar na época de Jesus, por vísceras entendem-se os próprios sentimentos: o amor, a compaixão e a misericórdia. O samaritano não se limita a olhar para o moribundo, mas sente-se envolvido na parte mais íntima; e é tal a compaixão visceral que põe em movimento tudo o que lhe é possível para salvar o moribundo. A verdadeira compaixão não é um sentimento, mas uma ação que produz a cura do outro. Com atenção aos detalhes, Jesus sublinha o cuidado extremo com que o samaritano tratou o moribundo: aproxima-se dele, desinfeta-o e enfaixalhe as feridas, carrega-o na sua montaria, leva-o para uma estalagem e trata-o bem. Superada a primeira noite, que é a de maior risco, o samaritano nota que o moribundo está vivo e entrega ao estalajadeiro duas moedas, que correspondem a dois dias de trabalho. Enquanto se despede, para retomar a sua viagem, garante ao estalajadeiro que, se houver necessidade de outras despesas, pagá-las-á no seu regresso. Do início até o fim da narrativa, não se diz nada do moribundo: não se define pela sua origem nem pelo seu estatuto social. Toda a atenção recai sobre quem cuida dele, até pagar tudo do próprio bolso. A verdadeira compaixão compromete-se no bem e sai vencedora, apesar da perda de tempo e de dinheiro. Comenta bem Santo Ambrósio de Milão: «Não é o sangue, mas a compaixão quem cria o próximo» (Exposição sobre o Evangelho de Lucas 7,84).

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4. A reviravolta À pergunta do doutor da Lei, Jesus responde com a parábola do bom samaritano; e a parábola faz luz sobre a vida porque subverte o modo comum de pensar. A propósito dos debates em voga no tempo de Jesus, observamos que aquele sobre a identidade do próximo está entre os mais acesos. Cada movimento tinha uma maneira diferente de entender o próximo que se deve amar. Jesus fornece a resposta mais original porque, apoiado em tudo aquilo que contou na parábola, revoluciona todo o debate. Se no início o próximo é o moribundo, no fim é o samaritano. O moribundo responde à pergunta do doutor («E quem é o meu próximo?»), o samaritano à de Jesus: «Qual dos três, na sua opinião, foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos assaltantes?» O doutor não percebe que está tomando parte na cena. Com uma verdade desafiadora, reconhece que o próximo já não é o moribundo, mas quem teve compaixão dele. Assim, é obrigado a dar a resposta que não queria: o próximo é o samaritano, porém ele tem o cuidado de não o mencionar como tal. Então Jesus revela-lhe como a parábola ilumina a vida. Exorta-o a entrar na lógica da parábola, como um leitor na narrativa: agir como o samaritano, fazendo-se próximo do outro. Colocada a partir do outro, a pergunta sobre o próximo provoca um debate sem solução. Somente quando a pergunta se dirige a nós mesmos é que se pode resolver a questão. A parábola transforma o modo comum de pensar o próximo a partir de nós mesmos: somente assim o próximo se define, não pela sua origem religiosa, cultural ou social, mas pela sua compaixão pelo outro.

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5. Jesus, o bom samaritano? Desde a época dos Padres da Igreja, a parábola foi lida com os traços humanos de Jesus. São Clemente de Alexandria refere: «Quem mais teve compaixão de nós, de nós que, com as muitas feridas – com os nossos medos, paixões, invejas, aflições e alegrias dos sentidos –, estávamos sujeitos ao poder da morte, do príncipe do mundo das trevas? Jesus é o único capaz de curar estas feridas, porque acaba com todos os sofrimentos de modo absoluto e até a raiz» (Que rico se salva?, 29). Vários detalhes da parábola podem fazer pensar em Jesus, que, entre outras coisas, se entreteve a falar com uma samaritana (JO 4,9). Uma compaixão tão íntima e capaz de se transformar em assistência aos doentes é própria de Jesus. Até mesmo os detalhes secundários, como o de deixar a pensão ao regresso do bom samaritano, fizeram pensar no período que passa entre a ressurreição de Jesus e a sua segunda vinda. Todavia, a parábola seria empobrecida se a interpretação fosse apenas focada em Jesus. O que se disse do samaritano vale para Jesus, para a comunidade cristã, onde a dedicação ao próximo se transforma em atenção cuidadosa, e para qualquer pessoa que se reconhece no outro. Portanto, a parábola interpreta a vida quotidiana de cada um e transforma-a a partir de dentro: explica ao doutor da Lei de que modo o amor para com Deus não pode ser separado do amor ao próximo.

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6. O cumprimento da Lei As primeiras comunidades cristãs colocaram-se na trajetória de Jesus e aprofundaram o impacto da parábola do bom samaritano. Em duas ocasiões São Paulo retoma o debate sobre o principal mandamento da Lei. Perante os cristãos da Galácia, que corriam o risco de se separarem entre si, lembra-lhes: «Pois toda a Lei encontra a sua plenitude num só mandamento: Pois a Lei toda está completa num só mandamento: “Amar o próximo como a si mesmo” (GL 5,14). A liberdade cristã é absoluta porque é dom de Cristo: «É para a liberdade que Cristo nos libertou. Fiquem firmes, portanto, e não se deixem prender de novo ao jugo da escravidão» (GL 5,1). E até mesmo porque ela não se deve transformar em anarquia, encarna-se no serviço ou no amor ao próximo. Quando depois se dirige aos cristãos de Roma, São Paulo volta a falar do mandamento do amor e considera-o a única dívida que os crentes devem conservar, porque estamos sempre em dívida no amor (RM 13,9). Em ambas as ocasiões, São Paulo não menciona o amor a Deus, mas chama a atenção para o amor ao próximo. Como seria possível um desequilíbrio tão acentuado sem silenciar o amor a Deus? A razão encontra-se na Primeira Carta de São João: «Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia seu irmão, esse tal é um mentiroso. Pois, quem não ama seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê» (4,20). O grande risco que São Paulo e São João vislumbram é que, em nome do amor a Deus, na Igreja se possam cometer graves abusos e omissões. Porque o amor a Deus é fácil de adaptar às próprias exigências, difícil é amar o próximo em carne e osso. Portanto, não é o amor a Deus que gera o amor ao próximo, mas o amor ao próximo é o espelho do amor a Deus. Todavia, para não nos iludirmos, é oportuno voltar à fonte: ao amor que Deus tem por nós. Na sua primeira carta, São João precisa que «nós amamos, porque Ele nos amou por primeiro» (4,19). Quanto mais formos tocados pelo amor de Deus, tanto mais estaremos em condições para amar os outros. O amor pelo próximo nasce não de um projeto social, ou de um simples altruísmo: isto seria apenas como um aguaceiro de verão! Mas é sobretudo o amor que Deus e Jesus Cristo têm pelos seres humanos que provoca o estado febril naqueles que são

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obrigados a «não viver mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou» (cf. 2COR 5,15). A parábola do bom samaritano dá sentido à vida humana: fazer-se próximo do outro porque, de fato, Deus se aproximou e continua a inclinar-se em Cristo sobre as feridas humanas. Tal mudança põe em causa o doutor da Lei e impõelhe uma mudança de mentalidade. Não se trata de escolher entre o amor a Deus e aquele para com o próximo, mas de reconhecer que quem ama o irmão que vê, ama sempre a Deus que não vê, embora o contrário nem sempre aconteça, sendo esta uma amarga realidade da vida humana. O amor a Deus passa sempre pelo amor ao outro, de quem devemos nos fazer próximos.

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IV

À

PROCURA DA OVELHA PERDIDA E DA MOEDA ENCONTRADA LC

15,1-7

O capítulo 15 do Evangelho de São Lucas é dos mais belos do Novo Testamento: em cena está a compaixão de Jesus Cristo pelos pecadores, explicada em três parábolas. As “parábolas da misericórdia” (a ovelha perdida, a moeda encontrada e o pai misericordioso) sucedem-se umas às outras, sem interrupção. Todavia, é bom que se distingam as primeiras duas parábolas, não só porque a terceira é muito mais desenvolvida, mas também pelo desfecho diferente. Enquanto as primeiras duas parábolas concluem com uma festa, a terceira deixa-nos com a respiração suspensa: não nos diz se o irmão mais velho decide participar da festa pelo regresso do mais novo ou se permanece sozinho. Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam para ouvir Jesus. Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam: “Esse homem recebe pecadores e come com eles”. Então Jesus lhes contou esta parábola: “Quem de vocês, se tiver cem ovelhas e perder uma, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la? Quando a encontra, todo alegre a coloca nos ombros e, de volta para casa, chama os amigos e vizinhos, e lhes diz: ‘Alegrem-se comigo, porque encontrei minha ovelha perdida’. Eu lhes digo: da mesma forma, haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”.

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1. As várias categorias de pecadores No tempo de Jesus, é possível distinguir quatro categorias de pecadores: físicos, raciais, sociais e morais. Parece que Ele se relacionou com todas as categorias mencionadas. A primeira categoria de pecadores é física e deve-se à concepção pela qual qualquer enfermidade física é devida ao pecado. As doenças são vistas como consequências do pecado, e não como condições naturais. Quando Jesus cura um cego desde a nascença, os discípulos interrogam-no sobre se a cegueira depende do pecado do doente ou do dos seus pais (JO 9,1-2). Além da relação entre pecado e doença, na população palestiniana tinha-se difundido a ideia de que, porque só Deus podia perdoar os pecados, qualquer milagre devia ser pago através de uma purificação no Templo. Jesus assume o direito de purificar do pecado, como quando cura um paralítico descido pelo teto da casa (MC 2,1-12). O gesto foi visto como uma blasfêmia que escandalizou os presentes. A segunda categoria de pecadores é racial: os estrangeiros eram vistos como pecadores porque não observavam a Lei segundo as tradições judaicas. Nesta categoria entravam os samaritanos e os gentios que viviam na Palestina: a submissão à Lei de Moisés permitia serem libertados de tal forma de pecado. Por isso, aos gentios não era concedido entrar no Templo de Jerusalém, mas eram obrigados a respeitar os confins da santidade do lugar, sob pena de apedrejamento e de contaminação do lugar sagrado. Ao significado racial do termo “pecador” acrescenta-se o social, consagrado aos cobradores de dívidas ou aos publicanos, que recolhiam as taxas obrigatórias devidas ao poder imperial. Equiparados aos usurários, os publicanos viviam dos juros aplicados aos impostos. Para fazer parte dos seus discípulos, Jesus escolhe Levi, filho de Alfeu, que convida a segui-lo enquanto trabalhava na cobrança de impostos. Para sublinhar a reintegração deste grupo de pecadores, Jesus conta a parábola do publicano e do fariseu no Templo (LC 18,9-14), sobre a qual meditaremos. A última categoria de pecadores é ética e compreende os usurários e as prostitutas. Pudemos observar que a mulher que lava os pés a Jesus na casa de

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Simão é uma pecadora. A samaritana, com quem Jesus se demora a falar, teve cinco maridos e vive com um que não é o seu (JO 4,1-30). Jesus acredita que foi enviado para curar as feridas de todos os pecadores, não excluindo nenhum. Naturalmente por tratamento é acusado de ser pecador (JO 9,24-25), porque convive com pecadores. Mas os milagres desmentem a acusação, porque um pecador não pode realizar os prodígios que Ele realiza: as parábolas explicam as razões que o levam a atender os pecadores.

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2. O pastor e a ovelha perdida Jesus não foi o primeiro a escolher um ambiente pastoril para falar da relação entre o pastor e as ovelhas. O profeta Ezequiel conta uma ampla parábola contra os pastores de Israel que pode ter inspirado a parábola de Jesus: “Eu mesmo conduzirei minhas ovelhas para o pasto e as farei repousar – oráculo do Senhor Javé. Procurarei aquela que se perder, trarei de volta aquela que se desgarrar, curarei a que se machucar, fortalecerei a que estiver fraca. Quanto à ovelha gorda e forte, eu a guardarei. Apascentarei conforme o direito” (Ez 34,15-16). Todavia, a parábola de Jesus é paradoxal! Em cena entra um pastor que tem cem ovelhas, mas que, perdendo uma, deixa as restantes noventa e nove no deserto e sai à procura da ovelha perdida. Logo que a encontra, põe-a aos ombros, volta para casa, convoca os amigos e pede que se alegrem com ele. O paradoxo está na pergunta com que Jesus descreve a escolha do pastor: na realidade, ninguém deixaria noventa e nove ovelhas no deserto para procurar uma perdida – correr-se-ia o perigo de ficar sem as noventa e nove no deserto e até sem a única que não se está certo de encontrar. O modo paradoxal de agir do pastor explica o de Jesus: aqueles que consideram ou presumem estar sem pecado são como as noventa e nove ovelhas abandonadas, sem pastor. O risco é partilhado entre as noventa e nove ovelhas no deserto e a ovelha perdida, com uma diferença substancial: a que se perdeu exige que se vá à procura dela, enquanto se pensa que as outras estão seguras. A alegria liga a parábola à vida: encontrar a ovelha perdida é a felicidade do pastor e de Deus, que se alegram mais por um pecador convertido do que pelos noventa e nove justos que não precisam (ou se iludem de não ter necessidade) de conversão. Comovente é o modo como Jesus entende a conversão: é fruto não do sujeito que se converte, mas do agir divino que procura quem anda perdido. A conversão é sempre ação da graça, dada por quem põe a ovelha perdida aos ombros e regressa a casa; e porque este milagre depende da graça, a conversão exige ser partilhada. Aos fariseus e aos escribas, a escolha deve ser feita: partilhar a alegria da conversão, doada aos publicanos e aos pecadores, ou dificultá-la, caindo na presunção de poder permanecer no deserto, como um rebanho sem

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pastor à mercê dos perigos. Por isso, o componente humano da conversão é importante, pelo menos porque as pessoas não podem manipular-se como as ovelhas. Todavia, a parábola não deve ser moralizada nem por parte das noventa e nove ovelhas, nem por parte da ovelha encontrada. Por outras palavras, não é necessário perder-se para depois ser reencontrado, nem ser deixado no deserto para não ser procurado por Deus. Todas as ações são do pastor, e não das ovelhas; para sublinhar bem a origem divina da conversão, Jesus também contou a parábola das moedas.

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3. A dona de casa e a moeda encontrada A situação inconcebível do pastor e das suas ovelhas torna-se mais natural numa dona de casa que perde uma moeda e se empenha de todos os modos em procurá-la. Logo que a encontrou, a mulher convoca as amigas e as vizinhas, exorta-as a alegrarem-se com ela por ter encontrado a moeda perdida. Análoga é também a conclusão da parábola: junto dos anjos de Deus há alegria por um só pecador que se converta. Numa primeira leitura parece que o conteúdo das duas parábolas é o mesmo: às cem ovelhas correspondem dez moedas, e a ovelha perdida equivale à moeda perdida. Na realidade, a atenção concentra-se agora no empenho da mulher em procurar a moeda perdida, que vale muito menos do que uma ovelha. No tempo de Jesus, uma moeda de prata valia o mesmo que um denário ou um dia de trabalho dependente. Apesar do relativo valor de uma moeda de prata, a dona de casa empenha-se totalmente em encontrá-la. Na parábola não se especifica o estatuto social da mulher, que no caso de uma condição de pobreza explicaria tanta preocupação pela moeda perdida. Aqui a atenção concentra-se na procura meticulosa e na alegria partilhada por ter encontrado a moeda de prata perdida. A dedicação e a alegria conferem real valor à moeda, mas não pelo seu valor nominal. Uma moeda é inanimada; isto sublinha ainda mais a conversão concebida não como resposta humana, mas como ação da graça de Deus. A mais breve das parábolas da misericórdia não relaciona a moeda perdida com as outras, como, pelo contrário, a ovelha perdida com as outras noventa e nove e o filho mais novo com o mais velho. A dona de casa procura a moeda de prata por causa do valor que tem para ela, e não pelo confronto com as outras moedas. Mesmo que fosse apenas um pecador, valeria a pena procurá-lo, encontrá-lo e alegrar-se.

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4. Jesus e a comunidade com o rosto do pastor Voltemos à relação entre o pastor e as ovelhas: aprofundemo-la com os evangelhos de São João e de São Mateus. No Evangelho de João 10,1-16, Jesus narra a semelhança do bom pastor (que se poderá traduzir por belo pastor), com quem se identifica. Ele é o bom pastor porque conhece pelo nome e dá a vida pelas suas ovelhas. No cuidado das ovelhas, o pastor é diferente dos mercenários e dos salteadores. Se o mercenário está interessado no seu salário, o pastor doase às ovelhas sem olhar para despesas nem ao tempo necessário para que aprendam a familiarizar-se com ele. E enquanto o ladrão rouba as ovelhas, o pastor vive por elas e a elas se doa. Aquilo que distingue o mercenário e o ladrão do pastor é o perigo! Quando se avista um lobo, o mercenário abandona as ovelhas e foge, porque elas não lhe interessam. O pastor reconhece-se não pela função que tem, mas perante a provação e os perigos que enfrenta: quando chega o momento em que deve decidir se foge para salvar a pele ou se fica e a perde pelas suas ovelhas. Neste dom total de si mesmo, até a morte, Jesus é o bom (e o belo) pastor: de uma beleza que deriva não do seu aspecto, mas da sua permanência com as ovelhas em situações de perigo. Se no discurso sobre o bom pastor Jesus se distingue pela exclusividade de quem se doa a si mesmo até o derramamento de sangue, o Jesus do Evangelho de São Mateus acrescenta uma nova dimensão à relação entre o pastor e as ovelhas. Em Mt 18,12-14, aparece a mesma parábola de Lc 15,4-7, mas o contexto é diferente, porque faz parte de um discurso sobre a Igreja. A primeira parte do discurso é dedicada aos «pequeninos» que se devem acolher na comunidade cristã e culmina com a parábola do bom pastor. O contexto diferente volta a atenção para o impacto da parábola: «Assim também, não é da vontade do Pai de vocês que está nos céus, que se perca nenhum destes pequeninos» (Mt 18,14). A Igreja está envolvida na primeira pessoa na parábola porque lhe é confiada a vontade do Pai: que nenhum pequenino se perca. A Igreja assume o rosto do Pai misericordioso quando é a mãe que procura a ovelha perdida: não esquece as noventa e nove nos montes, mas alegra-se por

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aquela que encontrou. Vê-se bem que agora a parábola do bom pastor envolve a Igreja e os seus pastores. Os pequenos que não encontram espaço na sociedade assumem direito de cidadania na comunidade cristã. Não só são acolhidos, mas devem ser procurados correndo o risco de não os encontrar. A uma Igreja que avança no caminho simples do puritanismo e da eficácia, Jesus contrapõe outra que põe no centro os pequenos. Se a Igreja está onde dois ou mais se reúnem em nome de Jesus, o rosto de Cristo na Igreja é o dos pequeninos. Com genialidade, Alexandre Manzoni reescreveu a parábola da ovelha perdida, quando conta os encontros do namorado com Lúcia e o cardeal Federigo Borromeo. Não nos podemos alongar nos capítulos

XXI

e

XXIII

de Os Noivos:

recomendamo-los pela sua beleza. Informamos apenas que estes capítulos se centram na frase de Lúcia quando encontra o namorado: «Deus perdoa tantas coisas por uma obra de misericórdia». A afirmação impede o namorado de se suicidar durante uma noite angustiante, e no dia a seguir vai encontrar-se com o cardeal Federigo. Por seu lado, o cardeal reconhece a sua culpa e censura-se, porque ele é que deveria ter saído à procura daquele rapaz, em vez de estar à espera de ser visitado; é então aqui que aparece a releitura da parábola: «Deixemos as noventa e nove ovelhas […] em segurança no monte: agora quero ficar com esta que se perdeu. Aquelas almas estão talvez agora muito mais contentes do que ao verem este pobre bispo. Talvez Deus, que em vós operou o prodígio da misericórdia, difunda nelas uma alegria cuja causa ainda não entendem».

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V

UMA COMPAIXÃO EXCESSIVA: O PAI

MISERICORDIOSO LC 15,11-

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Com todo o respeito pelas duas primeiras parábolas da misericórdia, o ser humano é diferente de uma ovelha e, mais ainda, de uma moeda! Consciente desta enorme diferença, Jesus construiu uma história que é uma obra-prima. Eis-nos, pois, perante uma excelente parábola, porém na condição de que se mude o seu título: não «o filho pródigo» nem sequer «o pai bom», mas «o pai misericordioso» ou «compassivo». Mas leiamos a parábola com a sua riqueza e profundidade. Jesus disse também: “Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, me dê a parte da herança que cabe a mim’. Então o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou tudo e partiu para uma região distante. E ali esbanjou seus bens, numa vida desregrada. Quando já tinha gasto tudo, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. Foi então até um dos habitantes daquela região, que o mandou para seus campos, a fim de cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com a comida dos porcos, mas ninguém lhe dava nada. Então, caindo em si, ele disse: ‘Quantos empregados de meu pai têm comida de sobra, e eu aqui, morrendo de fome! Vou me levantar, irei até meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra o senhor. Já não mereço ser chamado seu filho. Trate-me como um dos seus empregados’. Então se levantou e foi ter com seu pai. Ele ainda estava longe, quando seu pai o viu. Encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se ao pescoço dele e o beijou com ternura. O filho então lhe disse: ‘Pai, pequei contra o céu e contra o senhor. Já não mereço ser chamado seu filho’. Mas o pai disse a seus servos: ‘Tragam rápido a melhor túnica e a vistam nele. Ponham um anel no dedo dele e sandálias nos pés. Peguem o bezerro gordo e o matem. Vamos comer e festejar! Porque este meu filho estava 42

morto e voltou a viver, estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festejar. Seu filho mais velho estava no campo. Quando voltava, já perto de casa, ouviu música e danças. Chamou um dos servos e lhe perguntou o que era aquilo. Ele lhe disse: ‘Seu irmão chegou, e seu pai matou o bezerro gordo, porque o recuperou com saúde’. Então ele ficou cheio de raiva e não queria entrar. Seu pai saiu e insistia com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Eu sirvo o senhor há tantos anos, e nunca desobedeci a nenhuma ordem sua. E o senhor nunca me deu um cabrito para eu festejar com meus amigos. Agora, porém, que veio esse seu filho, que devorou os bens do senhor com prostitutas, o senhor matou para ele o bezerro gordo’. O pai lhe respondeu: ‘Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu também. Mas era preciso festejar e se alegrar, porque esse seu irmão estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi encontrado’”.

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1. Para além de qualquer retribuição A parábola do pai misericordioso é um emaranhado que se pode desenlear escolhendo um dos vários fios que a compõem. Escolhamos aquele que nos parece ser o mais importante e que lhe subjaz: a retribuição. Desde o início, Jesus sinaliza o tema da retribuição, que é um dos direitos humanos mais naturais. Um homem tem dois filhos; um deles, o mais novo, pede-lhe a sua parte e o pai divide o patrimônio. Naquela época, a Lei judaica previa que o primogênito recebesse dois terços da herança, enquanto o mais novo só tinha direito a um terço dela (Dt 21,17). Sem levantar problemas, o pai entrega ao filho mais novo a parte que lhe pertence. Enquanto o mais novo gasta sua parte vivendo dissolutamente num país longínquo, a outra parte do patrimônio fica em segurança e é administrada pelo filho mais velho. Segundo um equitativo e justo modo de pensar, se e quando o filho mais novo voltasse para casa, não poderia reclamar mais nada, nem do pai nem do irmão mais velho. A culpa grave do filho mais novo poderá ser no máximo perdoada, mas não esquecida! Se alguma vez o pai esquecesse aquele triste acontecimento, o mais velho estaria sempre pronto a lembrá-lo a ambos. Seria assim respeitada a lei da retribuição: a recompensa pelo bem a quem cumpre o bem, e a recompensa pelo mal a quem faz o mal. Na realidade, a parábola transgride, do princípio ao fim, a lei da distribuição patrimonial, revelando o excessivo amor do pai. O pai não está à espera dos filhos em casa, nem verifica se o mais novo está realmente arrependido, nem questiona o que aconteceu à parte da herança que tinha repartido, mas organiza uma festa com música e danças. Inconcebível é também como o pai se comporta com o filho mais velho: não está à sua espera quando volta do campo, onde trabalha por conta da família, nem lhe pergunta como agir com o mais novo. A parábola que revela o rosto mais humano de Deus representa-o em excesso e não por defeito: a Deus não falta humanidade, mas tem-na em excesso! Ao contrário do pai, que transgride a lei da distribuição da herança, os dois irmãos não conseguem ir além da lógica do dar e receber. O filho mais novo recebe a parte da herança que lhe pertence, que gasta com prostitutas, mas decide regressar a casa quando se vê no extremo das forças. O filho mais novo

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não vai à procura do pai porque está arrependido, mas porque não consegue encontrar nenhuma saída. Em tal situação, o máximo que consegue imaginar é ser tratado como um dos muitos trabalhadores da casa paterna; o que o obrigou a isso não foi o arrependimento, mas a fome! Nos confins da retribuição encontra-se também o filho mais velho: serviu o pai durante anos, nunca transgrediu uma ordem sua e esperava que, quando menos julgasse, lhe desse pelo menos um cabrito para fazer uma festa com os amigos. Perante a compaixão do pai, o filho mais velho acusa-o de ter transgredido o princípio da retribuição; não consegue considerar-se filho do mesmo pai como o seu irmão, mas define-o somente como «esse seu filho». Encurralar o pai no nicho da retribuição impede-o de reconhecer a sua paternidade e a fraternidade do outro irmão. Alguns comentadores notam a ausência da figura materna na parábola. Na realidade, visto que o fio condutor apenas reside na distribuição do patrimônio familiar, tal direito/dever entrava nas competências do pai, e não da mãe. Na Carta aos Gálatas, São Paulo recorda que o benefício da herança dos filhos cabe ao pai, que pode estabelecer a repartição como e quando desejar (Gl 4,1-3). Aprofundemos a excessiva compaixão do pai que se relaciona com os seus filhos.

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2. Por duas vezes o pai sai de casa Entre os múltiplos e diversos conflitos que se verificam dentro dos muros domésticos, é difícil, senão impossível, imaginar um pai que abandona a sua posição para chegar junto de um filho de quem se perdeu o rasto. Se o título «o filho pródigo», proposto pela parábola, é inadequado, é porque o protagonista é o pai, que se interpõe entre ambos os filhos e transgride o direito da distribuição hereditária. No início da narração, o pai limita-se a ouvir o pedido do filho mais novo. Não é oferecida nenhuma explicação sobre as razões pelas quais o filho pede o que é seu. Por que está em conflito com o irmão mais velho? Não partilha o modo de agir do pai? Necessita de uma vida autônoma? Não é apresentada nenhuma razão porque ao narrador não interessam as motivações, mas o rápido afastamento do filho da casa paterna. Depois de ter descrito a vida dissoluta do filho mais novo, o pai entra novamente em cena com alguns gestos incríveis: vê chegar ao longe o filho, o que significa que espera por ele desde que se foi embora, sente compaixão, vai ao encontro dele, agarra-se-lhe ao pescoço e beijao (v. 20). Durante alguns instantes, deixa ao filho a possibilidade de lhe comunicar o que tinha preparado para aquele encontro. Interrompe-o antes de ouvir o pedido para ser tratado como um empregado e ordena aos servos para irem buscar a melhor túnica, para lhe porem o anel no dedo e as sandálias nos pés, matarem o novilho gordo e organizarem e festejarem. De todas as ações que o pai realiza em favor do filho mais novo, a decisiva é a que marca a viragem da parábola, e está presente na expressão «encheu-se de compaixão» (v. 20). O pai ama visceralmente o filho perdido, até sentir por ele a paixão humana mais profunda. Já encontramos este mesmo verbo na viragem da parábola do bom samaritano: «encheu-se de compaixão…» (LC 10,33; 15,20) A compaixão do bom samaritano pelo moribundo é a mesma do pai pelo filho perdido. Sem compaixão, é impossível correr ao encontro do filho, lançar-se ao seu pescoço e reintegrá-lo na dignidade perdida. São João Paulo II, na Encíclica Dives in misericordia, dedica o quarto capítulo à nossa parábola: «A fidelidade do pai a si próprio está inteiramente centralizada na vida do filho perdido, na sua

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dignidade» (Dives in misericordia, n. 6). No centro da parábola está a misericórdia do pai, e não a sua bondade. Se a bondade é uma qualidade do caráter, a misericórdia é uma dimensão que amadurece no íntimo e se concretiza em gestos pelo próximo. A prova mais dura ainda está ainda por vir e verifica-se quando é desvendado o modo de pensar do filho mais velho. Dramática é a recusa do mais velho, que decide nem sequer entrar em casa; a raiva petrifica-o junto da porta onde terá passado inúmeras vezes. Então o pai decide sair novamente de casa para lhe suplicar. Desta vez, o preço é mais elevado do que o que pagou o filho mais novo: o pai deve aguentar uma lamentação que o queima! O mais velho acusa-o de ser avarento, de nem sequer se ter disposto a dar-lhe um cabrito para festejar com os amigos. Um pai em contradição consigo mesmo é aquele que não paga a quem lhe é fiel, enquanto manda matar o bezerro gordo por aquele que dizimou tudo o que tinha. A raiva leva o mais velho a deformar a verdade que conhece desde o início: perante o pedido do mais novo da parte que lhe pertence, o pai não levantou problemas; e os três quartos do patrimônio familiar são do filho mais velho. A misericórdia do pai é ilimitada: poderia responder que, enquanto a casa for sua, quem manda é ele. Segundo o direito patrimonial, enquanto viver, pode fazer o que quiser com os seus bens! Pelo contrário, o pai cala-se sobre a situação do filho mais velho e exorta-o a repensar as suas relações. A ternura com que se dirige ao filho mais velho é imensa: embora este nunca o tenha chamado «pai», ele é que o chama «meu filho» (teknon), um termo que denota uma relação íntima. O pai reconhece que o patrimônio que possui é do filho mais velho, mas isso não lhe interessa. A sua preocupação concentra-se mais no contraste entre «esse seu filho», que lhe foi apontado pelo mais velho, para o transformar «nesse seu irmão». A conversão mais profunda que o pai esperava não é a do filho mais novo, que voltou para casa somente porque de outra forma morreria de fome, mas principalmente a do filho mais velho, incapaz de reconhecer o pai e o irmão. Antes de “uma Igreja em saída…”, esta parábola revela “um pai em saída”: pela sua excessiva compaixão para com os dois filhos, não espera por eles no centro 47

da mesa no salão, mas corre ao encontro do mais novo e conversa com o mais velho para a ambos assistir com a sua misericórdia.

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3. O filho morto que voltou a viver Este é o drama do filho mais novo: quanto mais se afasta do pai, mais chega a uma degradação sem fim. Depois de ter recebido a parte do patrimônio que lhe pertencia, o filho emigra para uma região longínqua, onde gasta toda a sua herança e vive dissolutamente. Se nessa região longínqua existe uma vara de porcos, significa que se está fora da terra santa onde não é permitido criar porcos, porque são considerados animais impuros. Portanto, guardar porcos é para o filho mais novo o grau elevado de humilhação, ao ponto de nem sequer lhe serem dadas a comida que os porcos comiam. Quando Santo Agostinho de Hipona refletiu sobre sua vida, antes da conversão, fez ressoar a condição do filho mais novo: «Na adolescência, afastei-me de Vós, andei errante, meu Deus, muito desviado do vosso apoio, tornando-me para mim mesmo uma região de fome» (Confissões 2,10,18). A condição da máxima indigência conduz o jovem a entrar em si mesmo e a refletir sobre a situação em que caiu. Lamenta-se pensando nos empregados da casa paterna: enquanto ele nem pode comer a comida dos porcos, eles têm pão em abundância. Então decide empreender a viagem de regresso e pedir ao pai que o trate como um de seus assalariados, para não morrer de fome. Vendo bem o filho mais novo, reconhece haver pecado contra o céu e contra o pai, mas pensa ser suficiente ser tratado como um trabalhador. O que mais lhe interessa é receber finalmente o pão para cada dia; e porque não consegue encontrar melhor solução, inicia o caminho de regresso. Terá sido enorme o embaraço que o filho sentiu ao chegar perto do pai, que correu ao seu encontro, agarrando-se ao seu pescoço e beijando-o. Imerecida é a compaixão do pai, capaz não só de saciar a fome do filho, mas também de lhe dar a dignidade perdida. Apressadamente e sem nenhum pedido de explicações, nem de contas, o filho veste a melhor túnica, tem o anel no dedo e as sandálias nos pés. Antes de voltar a ver o pai, estava reduzido a um ser indecente, não tinha nenhuma dignidade como filho, mas a indignidade dos animais impuros que estava proibido de comer. Se da casa paterna se ouvem as músicas e as danças, isso significa que o pai

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voltou a acolher o filho na família: estava morto, mas voltou à vida, estava perdido e foi encontrado. O que volta a dar vida a quem está morto não é o arrependimento, mas a excessiva compaixão do pai pelo filho, que dele fez uma criatura nova e com uma vida nova. A compaixão do pai não se fez somente de comoção, mas transformou-se em paixão capaz de fazer nascer a vida onde existia a morte.

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4. «Esse seu irmão» Será um caso, mas, na Sagrada Escritura, os filhos mais velhos ou os primogênitos não têm uma boa sorte: destinados a ser os filhos da promessa e da herança, experimentam muitas vezes a má sorte de quem é privado do direito mais natural. Exemplo disso são Caim com Abel, Esaú com Jacó, os filhos de Jacó em relação a José, até os filhos de Jessé em relação ao rei Davi. O enorme paradoxo da história da salvação é que a lei divina da primogenitura é infringida pelo próprio Deus, e por uma razão de capital importância: na retribuição e na herança divina, tudo deve ficar no terreno da graça, e não no do direito. Na parábola, o pai misericordioso reconhece que o patrimônio é do filho mais velho, mas pede-lhe que mude de mentalidade. Uma parábola na parábola é a que, na segunda parte, vê como protagonista o filho mais velho. Volta do campo, onde trabalha por conta do pai, escuta a música e as danças, chama um servo e informa-se sobre o que está acontecendo. O servo deve ter providenciado lenha para a fogueira porque, com uma boa dose de ironia, lhe diz que o irmão mais novo voltou para casa e o pai mandou matar o bezerro gordo. A fúria do filho mais velho é incontrolável: decide não entrar em casa e, quando o pai vai ter com ele para lhe suplicar, revolta-se contra todos. Acusa o pai de ser um avarento, por ainda não lhe ter dado um cabrito, e o irmão mais novo de ser um pervertido, que estragou todo o seu dote com prostitutas. No centro da “parábola na parábola” encontra-se a expressão «ficou cheio de raiva» (v. 28), que exprime exatamente o contrário do verbo central da primeira parte: enquanto o pai «encheu-se de compaixão» (v. 20) pelo filho perdido, o mais velho enraiveceu-se contra o pai. A raiva cegou-o e impediu-o de olhar para o bem: agora o seu irmão estava são, ele que tinha estado morto, mas agora estava vivo, estava perdido e foi encontrado. Sob os seus olhos, há apenas o pecado cometido pelo irmão, que o impede de reconhecer o bem que o pai lhe reservou. A culpa não declarada pelo pai é mostrada pelo irmão. Somente pelo mais velho sabemos que o irmão mais novo estragou toda a parte de sua herança com prostitutas. O filho mais velho parece o autor do Livro do Eclesiástico, que

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recomenda: «Não se entregue às prostitutas, para não perder sua própria herança» (Eclo 9,6). A parábola não conta o feliz ou infeliz fim da escolha do mais velho. Se se deixou convencer pelo pai a entrar em casa. Se também ele decidiu pedir a parte que lhe cabia para abandonar a casa paterna. Se cruzou finalmente o seu olhar com o do irmão mais novo. Esta parábola do pai misericordioso é uma parábola aberta, que deixa aos ouvintes a responsabilidade pelas suas escolhas: estabelecer relações de acordo com o direito e a justiça distributiva, ou inaugurar o caminho tortuoso da graça e da misericórdia. Como segunda escolha, é-se obrigado a considerar o pai não como um ingrato, por usar de misericórdia para com o pecador, mas como alguém que se alegrou pelo pecador que, morto, voltou à vida. Se as parábolas da ovelha perdida e da moeda encontrada acabam positivamente, a do pai misericordioso termina num silêncio. Àqueles que criticam Jesus por acolher e comer com os publicanos e os pecadores, é permitida a responsabilidade das escolhas: Como considerar as relações com Deus, que é Pai, e com o próximo, que é irmão?

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5. Servos, e não juízes da misericórdia Uma obra de arte pode contemplar-se de várias perspectivas e de cada uma delas proporciona significados diversos e novos. Poucos comentadores da nossa parábola se detiveram no papel dos servos, considerando-o como adquirido. Na realidade, existe uma notável tensão entre as duas partes da parábola: de uma parte, os servos participam no encontro festivo do pai com o filho mais novo; de outra, um deles comunica ao filho mais velho, que vem do campo, o que está acontecendo em casa. Todos os servos participam no encontro entre o pai e o filho mais novo e executam as ordens que recebem: ir buscar a melhor túnica, vesti-lo, pôr-lhe o anel no dedo e as sandálias nos pés, matar o bezerro gordo e participar na festa. Os servos também ouviram a principal razão que levou o pai a ordenar todos aqueles gestos: o filho estava morto e voltou à vida. Os servos estão ao serviço da misericórdia e não lhes é concedida nenhuma objeção pela compaixão excessiva do pai. Só lhes resta a sua função: vestir o filho mais novo com a dignidade perdida e organizar a festa. É significativo que o pai não só revista o filho com a dignidade perdida, mas envolva os servos numa misericórdia partilhada. Na segunda parte, um dos servos é interrogado pelo filho mais velho e limita-se a dizer: «Seu irmão chegou, e seu pai matou o bezerro gordo, porque o recuperou com saúde» (Lc 15,27). O contraste entre os servos na primeira parte e o servo na segunda parte é marcante e demonstra que este último reduz a misericórdia do pai a uma injustiça contra o filho mais velho. O servo limita-se a comunicar a morte do bezerro e a condição física do filho mais novo. Não se lembra da compaixão do pai pelo filho, nem dos gestos em que participou, mas somente da ordem de matar o bezerro. Ele também raciocina segundo uma lógica de retribuição fundada nos méritos, e não na graça. O servo bem sabe que, enquanto para o filho mais novo se matou o melhor bezerro, o mais velho nem um cabrito recebeu para festejar com os amigos. Por outras palavras, o servo parece dizer ao filho mais velho: olhe que tipo de pai é o seu! A sua obediência fiel nem sequer vale um cabrito, ao passo que a má vida do seu irmão vale o melhor bezerro. E é precisamente a notícia sobre o bezerro que encoleriza o

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irmão mais velho. Na sua ilimitada misericórdia, o pai encontra-se sozinho em frente do filho mais velho e sob os olhos do servo que reduz a sua compaixão ao cálculo da retribuição. Portanto, na relação da misericórdia entre o pai e os dois filhos, os servos desempenham dois papéis contrastantes: ser servos da misericórdia para a recuperação de uma dignidade perdida, partilhando a alegria do patrão, ou julgar como injusta a excessiva compaixão do pai pelo filho que regressou.

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6. Das parábolas à vida: o encontro com Zaqueu As três famosas parábolas da misericórdia não pedem que sejam interpretadas, mas interpretam a vida de cada um: dão sentido à existência e levam a considerála de modo novo. À primeira vista, existe uma lacuna para preencher entre Jesus, que se contamina, comendo com os pecadores, e os protagonistas das três parábolas: o bom pastor, a dona de casa e o pai misericordioso olham, com toda a evidência, para a compaixão de Deus. O que é que Jesus tem a ver com isso, se somente Deus tem o direito de perdoar os pecados? O encontro com Zaqueu (LC 19,1-10) preenche a lacuna entre o modo de agir de Deus e o de Jesus; vejamos como. As fases do encontro são conhecidas: quem acolhe Jesus nas portas de Jericó, quando está em viagem para Jerusalém, é uma multidão. Zaqueu é um homem que enriqueceu cobrando impostos: um trabalho considerado impuro, porque era feito por usurários. Pela sua baixa estatura, não consegue ver Jesus; sobe a um sicômoro, e Jesus, ao vê-lo, faz-se convidado para a casa de Zaqueu. O cobrador acolhe-o cheio de alegria, e os murmúrios de todos são tão alarmantes que chegam aos ouvidos de Zaqueu. Então, o cobrador promete publicamente dar metade de seus bens aos pobres e restituir o quádruplo se prejudicou alguém. O ponto de mudança do encontro está na declaração de Jesus: Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e lhe disse: “Zaqueu, desça rápido, porque hoje devo ficar em sua casa” (Lc 19,5). O verbo «dever» lembra não o que Jesus deseja de Zaqueu, mas a vontade de Deus que se deve realizar: deveríamos traduzi-lo por «Deus precisa». Com esse verbo verifica-se a ligação mais forte entre a parábola do pai misericordioso e a vida real de Jesus, que come com os pecadores: «Mas era preciso festejar e se alegrar, porque esse seu irmão estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi encontrado» foi dito pelo pai da parábola (Lc 15,32) e agora é também usado o mesmo «é preciso» no encontro com Zaqueu. O desígnio de Deus realiza-se todas as vezes que Jesus reconhece a urgência da misericórdia pelos pecadores. Faz parte da vontade de Deus que a salvação chegue até Zaqueu. Uma salvação como esta não pode ser atrasada, mas realizase no hoje: «Hoje devo ficar em sua casa» está ligado ao «hoje a salvação chegou

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a esta casa, pois também este é um filho de Abraão» (Lc 19,9). Encontrar Jesus é conseguir ver o rosto misericordioso de Deus, que tem sempre em mente a salvação dos pecadores; uma salvação que se realiza no hoje do encontro. Até o último suspiro, Jesus procura a salvação do pecador: «Hoje você estará comigo no paraíso», assegura ao ladrão que na cruz lhe pede que se lembre dele (Lc 23,43). Uma sentença sintetiza a misericórdia de Deus que passa pela vida de Jesus: «Porque o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido» (LC 19,10). Jesus salvou a ovelha perdida, encontrou a moeda de prata, foi ao encontro dos filhos perdidos. O amor de Deus pelos pecadores motiva o amor pelos seres humanos, expresso com grande profundidade por Fiodor Dostoiésvski em Os irmãos Karamazov, quando faz dizer ao monge russo Zosima: «Irmãos, não temais os pecados dos homens, amai o homem até mesmo em pecado, uma vez que é precisamente este que é semelhante ao amor de Deus, e é o vértice do amor nesta terra» (Segunda parte, livro V I , capítulo III ).

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VI

O

CONTRÁRIO DA MISERICÓRDIA: O RICO ANÔNIMO E O POBRE

LÁZARO LC 16,19-31

Um valor aprecia-se quando se perde ou é substituído pelo seu contrário. E porque o bem é muitas vezes obrigado a calar-se pelo mal, por vezes deve-se olhar para o mal para reconhecer o bem. Como e quando estimar a misericórdia? Desde quando é possível confiar na de Deus? O eco das três parábolas sobre a misericórdia é ainda forte, mas há um enorme obstáculo a enfrentar: Que rico se salva? E como se salva? Pouco antes da parábola que comentamos neste capítulo, Jesus pronunciou uma feroz invectiva contra alguns fariseus avaros e zombadores: “Vocês são os que querem passar por justos diante das pessoas. Mas Deus conhece os corações de vocês. Pois o que é importante para as pessoas, é detestável diante de Deus» (LC 16,14-15). A parábola do rico e do pobre Lázaro contesta esta situação: porque pelo seu estatuto social se é exaltado perante os homens, isso não significa que se seja perante Deus. Porque Deus olha para o coração, e não para a aparência! Havia um homem rico que se vestia com roupas de púrpura e linho fino, e dava grandes festas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, coberto de feridas, ficava deitado junto à porta do rico. Queria matar a fome com o que caía da mesa do rico. Em vez disso, até os cães vinham lamber-lhe as feridas. Aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos para junto de Abraão. Também o rico morreu e foi enterrado. Na morada dos mortos, entre tormentos, ele ergueu os olhos e viu ao longe Abraão, e Lázaro ao lado dele. Então gritou: “Pai Abraão, tenha piedade de mim! Mande Lázaro molhar a ponta do dedo na água para me refrescar a língua, porque estou atormentado neste fogo”. Abraão respondeu: ‘Filho, lembre-se de que você recebeu seus bens durante a vida, e Lázaro, por sua vez, desgraças. Agora, aqui ele é confortado, e você é atormentado. Além disso, 57

existe entre nós e vocês um grande abismo. De modo que os que querem passar daqui para junto de vocês não conseguem, nem atravessar daí até nós”. Ele insistiu: “Eu lhe peço, então, pai, que o mande à casa de meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Que Lázaro os alerte, para que não venham também eles para este lugar de tormento”. Abraão respondeu: “Eles têm Moisés e os Profetas. Que os escutem”. Ele disse então: “Não, pai Abraão. Mas se alguém dentre os mortos for até lá, eles se converterão”. Abraão lhe disse: “Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas, ainda que alguém ressuscite dos mortos, eles não se convencerão”.

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1. O contrário da misericórdia A parábola do rico e do pobre Lázaro coloca-se na mesma trajetória da do bom samaritano e da do pai misericordioso. Todavia, contrasta com as duas anteriormente referidas. A narração inicia como as outras duas parábolas: «Havia um homem» (LC 10, 30; 15,11; 16,19). E também agora se verificam dois atos: o rico e Lázaro neste mundo; o rico, Abraão e Lázaro na outra vida. Em cena aparecem um homem rico, que se veste como um rei e que todos os dias faz festa, e Lázaro, o pobre. O rico cobre-se com vestes de valor. A púrpura é um tecido de cor vermelho-escura, produzida pelas glândulas de um molusco, e era reservada aos reis ou aos nobres. Antes de ser crucificado, Jesus é vestido de púrpura para ser alvo de zombaria pelos soldados no pretório (MC 15,19-20). Linho fino era uma espécie de linho branco, delicado, que se punha sobre a pele. Chegam estes apontamentos iniciais para percebermos que há algo que não funciona. O rico veste-se de rei, mas não é lembrado pelo nome. O pobre, que tem como vestido a sua pele chagada, tem um nome; é até o único nome lembrado em todas as parábolas de Jesus: chama-se Lázaro, que significa “Deus ajudou”. O Novo Testamento menciona também Lázaro, o amigo de Jesus e irmão de Marta e Maria (JO 11,1-2), a quem Jesus volta a dar a vida, mas não tem nada a ver com o pobre da parábola. Apesar de Lázaro jazer no portão da casa do rico, quando morre, é levado para o seio de Abraão. Algumas traduções entendem o termo «esbanjador» como nome do rico, mas não é um nome próprio, nem se encontra na parábola. Inicia assim a lei do contraste: o rico, vestido de rei, está destinado ao anonimato; o pobre, que tem um nome, é lembrado para a eternidade. Os dois atos que compõem a parábola são desproporcionais: enquanto a história terrena dos dois protagonistas é apresentada brevemente (vv. 19-22), a do além é interminável e atravessada pelas súplicas do rico (vv. 23-31). As duas fases são contrastantes e seguem a lei da subversão. Na vida terrena, o rico festeja todos os dias, ao passo que a Lázaro nem sequer são dadas as sobras da sua mesa; no além, Lázaro é consolado, ao passo que o rico nem tem uma gota de água para molhar a língua. Os bens que o rico recebe e que são negados a

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Lázaro durante a vida terrena contrastam com a consolação em favor de Lázaro e com os tormentos para o rico. Como nas parábolas que tratam positivamente da misericórdia, também nesta se assiste à mudança da situação, mas com uma diferença: agora a condenação é definitiva, porque existem dois obstáculos. O primeiro é o portão da casa, que impede, por vontade do rico, Lázaro de ser socorrido. O segundo obstáculo é o abismo entre os infernos, onde se encontra o rico, e o seio de Abraão, onde Lázaro foi acolhido. A desproporção entre o tempo e a eternidade é comunicada pelo silêncio do tempo e do diálogo da eternidade: ambos ficam sem ser escutados. Enquanto viveu, o rico não matou a fome de Lázaro; na eternidade, Abraão não pode ouvir os três pedidos do rico. Lázaro não pode aliviar os tormentos do rico nem sequer com um dedo; nem pode vir a este mundo para testemunhar o que se passa no além; nem sequer a ressurreição de um morto pode converter os cinco irmãos do rico.

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2. A piedade não escutada Enorme é o contraste entre as parábolas da misericórdia e a do rico com o pobre Lázaro. Até agora, qualquer pedido de compaixão foi atendido: desde o perdão total que o credor dá aos dois devedores até a súplica do filho pródigo. Nas parábolas seguintes, são atendidos os pedidos da viúva insistente (Lc 18,1-8) e a súplica do cobrador no Templo (Lc 18,9-14). Contudo, nos infernos, o rico repete uma súplica semelhante à do cobrador: «Tenha piedade de mim» (Lc 16,24; 18,13). Mas é o único caso em que a súplica de um homem não é atendida, porque a situação é irreparável. Como é concebível que exista uma situação irreparável para a infinita misericórdia de Deus? Se, como veremos com a parábola do juiz injusto e da viúva insistente (LC 18,1-8), a oração perseverante é capaz de mudar o coração de Deus, por que é que a do rico não pode modificar um milímetro a sua condição? Seremos levados a defender que a situação se tornou irreparável porque na eternidade falta o tempo; e é essa resposta mais lógica, mas não é dada na parábola. O ponto de mudança explica a razão principal pela qual a situação do rico é irreparável. Quando o rico está nos infernos e vê Lázaro no seio de Abraão, reconhece-o e chama-o duas vezes pelo nome. Assim, se autocondena com as suas próprias palavras: conhecia Lázaro durante a vida na terra, mas tinha-o sempre ignorado. Com fina arte narrativa, o momento de mudança está ligado ao contraste das duas parábolas anteriores da misericórdia: «Viu e se encheu de compaixão», diz-se do bom samaritano (LC 10,33). Quando ainda estava longe, o pai avistou-o e encheu-se de compaixão, repete-se para o pai misericordioso (cf. LC 15,20). E agora o rico «viu ao longe Abraão, e Lázaro ao lado dele» (LC 16,23). Algumas traduções colocam o verbo no presente «vê-o», dando a entender que o rico é obrigado a ver Lázaro num presente sem fim, aquele mesmo que nunca viu no passado. Portanto, a situação é insanável porque a compaixão é possível desde que haja um pobre que jaz cheio de chagas no portão de um rico; depois, já não faz sentido e é de fato impossível. A misericórdia de Deus declina-se sempre com a que

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favorece o próximo; e quando esta falta, já não há espaço nem sequer para aquela. Não é por acaso que Deus nunca é mencionado em toda a parábola: fala e age por meio de Abraão. Todavia, a parábola sobre a misericórdia, pelo contrário, contém também o caminho que ensina os ouvintes a não caírem na condição do rico: Moisés e os profetas ou, como veremos mais à frente, a Palavra de Deus. Não basta haver ressurreição de um morto para converter os outros irmãos do rico, porque são os pobres no mundo o caminho para a salvação ou a condenação de qualquer rico. O pobre ignorado no mundo é reconhecido pelo rico na eternidade!

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3. «Tive fome e vocês não me deram de comer» As parábolas que chamam a atenção sobre a eternidade não são contadas para aterrorizar os ouvintes nem para descrever, como fará Dante Alighieri na sua Divina Comédia, o inferno, o purgatório e o paraíso. Com estas parábolas sobre o fim da vida humana, Jesus fala da eternidade para o tempo ou do futuro para o presente. Interessa-lhe o hoje e põe em causa o fim para interrogar os seus contemporâneos. Entre desconhecimento e reconhecimento, a parábola do rico e do pobre Lázaro incide sobre o tempo concedido a cada um. No contraste entre o desconhecimento do pobre, que jaz à frente da porta do seu palácio, e o seu reconhecimento na eternidade, a nossa parábola é continuada na do juízo final de Mt 25,31-46. Se, na primeira parte da parábola, o Filho do Homem abençoa e acolhe todos os que, sem o conhecerem, deram de comer aos famintos, de beber aos sedentos, acolheram o estrangeiro, vestiram quem estava nu, visitaram quem estava doente e preso, a segunda parte é implacável contra quem ignorou as assim chamadas “obras de misericórdia corporais e espirituais”. O critério que separa as ovelhas das cabras, ou quem é bem-aventurado de quem é maldito, encerra a parábola e vale para todos: «Então ele responderá: ‘Eu lhes garanto: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses mais pequeninos, foi a mim que não o fizeram’», e o seu contrário (Mt 25,45). O que em geral se diz das pessoas que não foram socorridas na parábola do juízo vale para a parábola do rico e do pobre Lázaro. Lázaro passa fome, mas o rico nem sequer lhe deu os restos da sua mesa; está doente ou cheio de chagas, mas o rico não o visitou; está nu, mas o rico não o vestiu; é um peregrino, deitado à frente do seu portão, mas o rico não lhe deu abrigo. As obras de misericórdia, explicadas na parábola do juízo final, não foram realizadas em favor de Lázaro, que o rico ignorou durante a sua vida, mas agora é obrigado a reconhecer para sempre. Sobre a relação entre riqueza e pobreza, que se reflete na parábola, são necessários alguns esclarecimentos, ou corre-se o risco de cair em idealismos fáceis que no fim são inúteis. Propositadamente, a parábola não explica a razão

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pela qual Lázaro é introduzido no seio de Abraão e o rico é destinado aos infernos. Evita-se assim considerar bem-aventurado o pobre porque pobre, e maldito o rico porque rico. Podemos observar que a mudança da parábola se encontra não na condição de Lázaro e do rico, mas no reconhecimento de Lázaro, que o rico foi obrigado a ver no inferno. Não são a riqueza nem a pobreza enquanto tais que garantem ou excluem o êxito positivo ou negativo do juízo final, mas a incapacidade ou a capacidade de ver e de sentir compaixão pelo outro. Nisto está o drama do rico e do pobre Lázaro emblemático para ser lido em qualquer ambiente e em qualquer tempo. O pobre que o rico não vê no tempo é reconhecido na eternidade, onde qualquer compaixão é completamente inútil.

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4. Moisés, os profetas e o coração humano Por que é que Moisés e os profetas podem convencer mais do que a vinda de um morto do além? Ou por que é que a Palavra de Deus é a única que pode converter o coração humano à compaixão? Através do Evangelho de São Lucas, é possível reconhecer duas razões principais. A primeira reside no fato de a misericórdia brotar do coração humano, e só a Palavra de Deus ser capaz de o ativar e de impedir que seque. Sob este ponto de vista, é claro o encontro do Ressuscitado com os discípulos de Emaús. Na primeira parte da narração, «E explicou-lhes o que dizia respeito a ele em todas as Escrituras, começando por Moisés e percorrendo todos os Profetas» (Lc 24,27). E depois de ter reconhecido o Ressuscitado na fração do pão, os dois discípulos confessaram: “Não é que o nosso coração ardia, enquanto ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32). Quando a Palavra de Deus penetra no coração, é capaz de o reacender e de o curar de toda espécie de cegueira e de surdez, fazendo-o capaz de ver o que não podia. O rico da parábola tem uma ideia errada da conversão: fá-la depender de um prodígio, como o de fazer levantar um morto. Não percebemos que a conversão nasce da escuta da Palavra de Deus, e não de um morto regressar do túmulo. Sobre a relação com a Palavra de Deus (ou de Moisés e dos profetas), é decisivo o verbo que Abraão utiliza duas vezes no diálogo com o rico: «Escutem [...]. Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas» (Lc 16, 29.31). Enquanto a Sagrada Escritura for apenas uma biblioteca de livros para ler, será incapaz de abrir os olhos do coração humano. O rico é um filho de Abraão e invoca-o várias vezes dos infernos: «Pai Abraão [...] pai [...] pai Abraão» (Lc 16,24.27.30). O rico, provavelmente, até conhece a Bíblia: já a leu, mas não a escutou; e se a estudou, não a acolheu no coração. Por isso, responde a Abraão que, para converter os seus cinco irmãos, é necessário enviar Lázaro ao mundo. Só uma Escritura, não lida e estudada, mas escutada enquanto Palavra de Deus é capaz de converter o coração humano para o abrir à fé. O rico da parábola, que conhecia a Escritura como todos os filhos de Abraão, é semelhante ao nobre rico que Jesus encontrará a breve distância desta parábola

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(LC 18,18-23). O nobre pergunta a Jesus o que deve fazer para herdar a vida eterna, uma vez que já conhece a Sagrada Escritura e observa os mandamentos desde adolescente. Falta-lhe a escolha decisiva: vender tudo o que possui, dá-lo aos pobres e seguir Jesus. O nobre retira-se triste porque é demasiado rico. O seguimento nasce da Palavra acolhida no coração: para aí habitar, precisa de um espaço sem riquezas. Nesta «transcendência» da Escritura enquanto Palavra de Deus, como afirmou Bento XVI na Verbum Domini, é necessária a ação do Espírito do Ressuscitado, caso contrário, a Escritura mantém-se reunida em livros e não se transforma em Palavra viva. Um dos últimos gestos do Ressuscitado é «abrir a inteligência dos discípulos» para que «compreendessem as Escrituras» (LC 24,45). Outra razão pela qual a Palavra de Deus é capaz de converter o coração humano reside na sua relação com os pobres. Se é inútil que Lázaro volte do túmulo para convencer os irmãos do rico, é porque os pobres se encontram no centro do Evangelho. Quando se ignora ou se despreza tal conteúdo essencial do Evangelho, é inútil que um morto regresse à vida: não seria reconhecido porque se trata sempre do mesmo pobre Lázaro, e não de outro com um nome diferente. A cena principal de todo o Evangelho de Lucas ilustra a relação profunda entre a Palavra de Deus (de Moisés e dos profetas) e os pobres. No início do seu ministério, Jesus passa pela sinagoga de Nazaré. É-lhe entregue um rolo do profeta Isaías, para o abrir e nele ler a passagem de Isaías 61,1-2: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres. Enviou-me para anunciar a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos, para dar liberdade aos oprimidos, e para anunciar o ano da graça do Senhor” (LC 4, 18-19). Os pobres não estão fora, nem numa parte secundária, mas no centro do Evangelho. A parábola do rico e do pobre Lázaro espanta pela enorme atenção sobre o rico. Sobre as razões pelas quais Lázaro é levado para o seio de Abraão, nada se diz, e na parábola, Lázaro nunca fala. Mais preocupante é a sorte do rico: se no tempo que lhe foi dado ignora Lázaro, na eternidade é obrigado a reconhecê-lo desde os infernos, assinando a sua condenação. Assim o indica o Papa Francisco no n. 197 da Evangelii gaudium: «Todo o caminho da nossa 66

redenção está assinalado pelos pobres». A questão da misericórdia é uma questão grave que, em nosso tempo, corre dois riscos capitais: porque a misericórdia de Deus é infinita, nós seremos salvos de qualquer maneira, ainda que em nome de Deus se julgue e se condene o próximo. E enquanto a misericórdia divina for um direito adquirido, aquela em favor do próximo é um dever que depende da liberdade de cada um. Nenhuma parábola da misericórdia nos dá estas conclusões. A misericórdia viaja sempre em três dimensões e nunca é unidirecional (eu, sozinho), nem bidirecional (eu e Deus): é a realidade dramática da parábola que ilumina a misericórdia do seu contrário. Então, o que é o inferno? E se existe, como se concilia com a misericórdia de Deus? A mesma interrogação é feita por Fiodor Dostoiévski em Os irmãos Karamazov que, de modo maravilhoso, comenta a nossa parábola: Padres e mestres, esforço-me por entender: “O que é o inferno?” Penso assim: “Será um sofrimento por não mais se poder amar”. Por uma vez, na infinidade do universo, ilimitado no tempo e no espaço, foi concedida a um ser espiritual, juntamente com a sua aparição na terra, a faculdade de dizer: eu sou e eu amo. Por uma vez, uma única, foi-lhe dado um instante de amor ativo, vivente, e por este motivo foi-lhe dada a vida terrena, e com ela o tempo e os seus prazos, e por aí adiante: este ser afortunado recusou o dom inestimável, não o apreciou, não o amou, para ele olhou com ar de troça e permaneceu insensível. Com tal disposição, já ao ir-se embora desta terra, vê o seio de Abraão, e conversa com Abraão, como se pode ver na parábola do rico e de Lázaro, e contempla o paraíso, quase podendo chegar ao pé do Senhor: mas é precisamente isto mesmo o que o atormenta, que também ele deveria chegar até onde está o Senhor, caso tivesse amor, e deveria juntar-se com todos os que amaram, ele que do seu amor escarneceu (Segunda parte, livro V I , capítulo III ). Se o inferno é o sofrimento de já não se poder amar, todo o instante da vida humana não vivido por amor antecipa o inferno.

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VII

COMO MUDA O CORAÇÃO DE DEUS? O

JUIZ E A VIÚVA LC 18,1-

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Em que níveis da vida humana mais se experimenta a misericórdia de Deus? Quando ela é necessária mais do que qualquer outro dom de Deus? E quais as condições para a reconhecer? O Jesus do Evangelho de Lucas não parece ter hesitações: na oração vislumbra-se o rosto misericordioso de Deus, que se irradia sobre a vida humana. Reflitamos agora um pouco sobre a parábola dedicada à constância na oração e que foi contada quase no fim da viagem de Jesus para Jerusalém: Jesus contou aos discípulos uma parábola para mostrar a necessidade de rezar sempre e nunca desanimar. “Numa cidade, havia um juiz que não temia a Deus e não respeitava ninguém. Naquela mesma cidade, havia uma viúva que ia ter com ele e pedia: ‘Faça justiça para mim contra o meu adversário’. Durante algum tempo, o juiz não quis atendê-la. Mas depois pensou consigo mesmo: ‘Eu não temo a Deus e não respeito ninguém. Mas já que essa viúva está me importunando, vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha, por fim, me agredir’”. E o Senhor acrescentou: “Escutem o que diz o juiz injusto. E Deus, não fará justiça a seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite? Irá demorar para atendê-los? Eu lhes digo: Deus lhes fará justiça bem depressa. Mas quando o Filho do Homem vier, encontrará a fé sobre a terra?”

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1. Um juiz, Deus e uma viúva Os protagonistas da parábola são um juiz, que não teme a Deus, e uma viúva. A relação entre os protagonistas é de novo triangular: um juiz que se relaciona com Deus e com uma viúva. A nova relação é original, porque em todas as outras parábolas que já aprofundamos até agora Deus nunca foi posto diretamente em causa: foi-o por pessoa interposta, como com Abraão, na parábola do rico, e do pobre Lázaro, ou escondeu-se por detrás do pai misericordioso. A escolha devese ao tema da oração, que inspirou a parábola. Pela mesma razão, Deus é posto em causa na parábola que abordaremos no próximo capítulo. Na escala social do tempo de Jesus, o juiz é o símbolo do poder máximo, sobretudo num ambiente caracterizado pelo analfabetismo e pela escassa familiaridade com as leis. O juiz era como o presidente da administração municipal: advogado, ministério público e notário; tinha um poder ilimitado. Noutro plano é mencionada uma viúva, que exprime a condição humana mais precária, juntamente com a dos órfãos. Quando não podia contar com a autoridade familiar e civil do marido, a viúva sofria muitas vezes vários abusos. Portanto, aqui encontramos relacionados o vértice do poder e a máxima debilidade humana. Juntamente com os dois protagonistas, a atenção é colocada sobre Deus, com quem o juiz se relaciona. No início, diz-se que o juiz não teme a Deus; depois, ele mesmo é quem o reconhece; e no final temos o confronto entre o juiz e Deus. Jesus sublinha de modo particular a distância do poder civil entre o juiz e a viúva: o juiz não tem nenhum temor de Deus nem é pessoa religiosa. Além de não temer nem acreditar no Deus de Is​rael, administra a justiça à sua vontade! Mais do que de um juiz “desonesto”, trata-se de um juiz injusto, sem um coração compassivo, porque não acredita em Deus. No lado oposto temos a atuação de uma viúva que se dirige, sem desistir, ao juiz, para que lhe faça justiça contra o seu adversário. A parábola nada diz sobre o adversário: o que lhe interessa é a arbitrariedade do juiz, nos confrontos com Deus em questões de justiça, e a insistência da viúva. Depois de tantas insistências, o juiz decide atender o pedido da viúva. Todavia, não é a compaixão

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que muda o seu coração, mas a insistência contínua da viúva.

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2. Deus não é um juiz Depois de ter narrado a parábola do juiz e da viúva, Jesus interpela os ouvintes e interroga-os sobre o que pensam acerca da ação de Deus. Recorrendo a uma argumentação que parte de um nível menor para um maior (ou a fortiori), Jesus pergunta aos ouvintes se Deus fará justiça aos seus eleitos melhor e primeiro que aquele juiz em relação à viúva. Diversamente do juiz injusto, Deus fará justiça de imediato aos seus eleitos que, dia e noite, gritam por ele. Apesar da enorme diferença entre um juiz e Deus, existe um ponto comum que ilustra o valor inestimável da oração. Ambos reveem o seu modo de agir com a viúva e com os eleitos por causa das súplicas recebidas. Muitas vezes tem-se de Deus a noção de que Ele é imperturbável ou que não muda o seu desígnio pelos seres humanos. O Ocidente habituou-nos a pensar num Deus sem paixões, que não se deixa condicionar por nenhum agente externo. A história da salvação transmite um rosto diferente de Deus: um Deus que se deixa interrogar sobre as situações humanas e que atende a oração dos eleitos (os pobres e os débeis) que lhe suplicam. Sobre esta disponibilidade em rever os seus projetos, são emblemáticos dois episódios do Antigo Testamento: a oração do rei Ezequias e a penitência dos habitantes de Nínive. O Segundo Livro dos Reis conta que Ezequias ficou gravemente doente; a sua vida estava presa por um fio. Voltando o rosto para a parede da casa, o rei faz a sua oração: “Ah! Javé! Não te esqueças: eu procurei sempre andar na tua presença com toda a fidelidade e de coração limpo. Eu procurei fazer sempre o que era bom aos teus olhos”. E Ezequias começou a chorar muito (2Rs 20,3). A oração e as lágrimas de Ezequias foram atendidas pelo Senhor, que o curou da enfermidade. O Livro de Jonas descreve como Deus se arrepende do mal com que tinha ameaçado os habitantes de Nínive (Jn 3,10). Um Deus misericordioso é inconcebível para Jonas: “E rezou a Javé: ‘Ah! Javé! Não era justamente isso que eu dizia quando estava na minha terra? Foi por isso que corri, tentando fugir para Társis, pois eu sabia que tu és um Deus compassivo e clemente, lento para a ira e cheio de amor, e que se arrepende do mal” (Jn 4,2). O profeta procurou de

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todos os modos evitar a misericórdia de Deus e, depois de ter pregado aos habitantes de Nínive, ficou à espera de ver se finalmente Deus os castigaria. Enquanto os habitantes de Nínive faziam penitência, Jonas ficou parado a oriente da cidade, à sombra de uma cabana. Para o socorrer, o Senhor fez crescer uma mamoneira que lhe deu sombra, mas no dia seguinte fê-la secar e Jonas pede para morrer. Com um argumento que antecipa a nossa parábola, Deus interroga o profeta: Javé lhe disse: “Você tem pena de uma mamoneira, que não lhe custou trabalho, que não foi você quem a fez crescer, que brotou numa noite e na outra morreu? E eu, será que não vou ter pena de Nínive, esta cidade enorme, onde moram mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir a direita da esquerda, além de tantos animais?” (Jn 4,10-11). O Deus do Antigo e do Novo Testamento deixa-se tocar no coração, não porque queira a morte do pecador, mas porque quer que se converta e viva (EZ 33,11).

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3. O que pedir e como orar? A parábola do juiz e da viúva conclui com uma promessa: o juiz fará justiça à mulher pela sua insistência. Do mesmo modo, a oração perseverante é capaz de mudar o coração de Deus. Todavia, muitas vezes se experimenta a falta de atendimento da oração, como se não fosse escutada. Onde estão a compaixão e a misericórdia de Deus quando os gritos dos seus eleitos, dos mais necessitados – desde as viúvas aos órfãos, às crianças pobres e doentes – não parecem ser escutados? E se são escutados, porque é que os resultados demonstram que não são atendidos? O Jesus do Evangelho de Lucas é mestre de oração, e para enfrentar esta dramática realidade conta a parábola do amigo importuno. A parábola de Lc 11,5-8 tem alguns aspectos em comum com a que estamos comentando, ainda que não se refira diretamente à misericórdia de Deus. Conta a história de um amigo que, por causa de um hóspede que apareceu sem aviso, não tem nada para lhe dar, e por isso vai bater à porta do vizinho do lado para lhe pedir três pães. Infelizmente, à meia-noite, o amigo tem a porta de sua casa bem trancada e os seus filhos estão dormindo. Perante a insistência do amigo, vê-se obrigado a levantar-se para lhe dar os pães que lhe pede. Na explicação que se segue (Lc 11,9-13), Jesus exorta a pedir, a procurar e a bater, porque Deus é capaz de dar, de fazer encontrar e de abrir. A seguir, acrescenta que, se um pai é capaz de dar a um filho um peixe e não uma serpente, um ovo e não um escorpião, tanto mais estará Deus disposto a dar o Espírito Santo aos que lhe pedirem. À primeira vista, parece que o Espírito Santo não tem nada a ver com isto! Mas, pelo contrário, é o dom principal que se deve pedir na oração, porque somente o Espírito permite distinguir um peixe de uma serpente e um ovo de um escorpião. Muitas vezes, pede-se na oração o que parece útil e necessário, mas não o é para Deus; porque é secundário, e não é da sua vontade. Na oração não sabemos o que pedir: é a condição em que se encontra, mais do que noutro lugar, a fraqueza humana. Mas é precisamente em tais situações que “vem o Espírito em socorro de nossa fraqueza, pois nem sabemos o que convém pedir. É o próprio Espírito que intercede com insistência por nós, com gemidos que não se exprimem. E aquele que sonda os corações sabe qual é o desejo do

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Espírito, pois é de acordo com Deus que o Espírito intercede em favor dos santos” (Rm 8,26-27).É fácil libertar-nos da oração quando parece não ser atendida; difícil é persistir nela como uma viúva insistente, porque Deus está disposto, mais do que qualquer juiz, a escutar imediatamente os gritos dos seus eleitos. Aos crentes é pedido para perseverarem na oração, mesmo quando os êxitos são diferentes dos que se esperam.

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4. Perseverar na fé A parábola do juiz e da viúva projeta sobre a vida humana uma interrogação que faz pensar. Por ocasião da sua segunda vinda, Jesus encontrará fé sobre a terra ou no mundo? Tem-se frequentemente um conhecimento desvalorizado e restrito da fé: não se sabe bem se é de todos e se se identifica com um conjunto de noções, ou se, inversamente, corresponde ao que é incompreensível. Na realidade, a fé é difícil de conservar, sobretudo quando se pede o que não lhe corresponde; então, desiste-se da oração e falta a fé. Sobre a relação entre oração e fé, é exemplar o que foi escrito sobre Jesus na Carta aos Hebreus: “Foi ele quem, durante sua vida mortal, apresentou pedidos e súplicas, com clamores e lágrimas, àquele que podia livrá-lo da morte. E foi atendido, porque era submisso. Embora sendo Filho, sofrendo, aprendeu o que é obedecer. Levado à perfeição, tornou-se a fonte da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,7-9). Com toda a sua humanidade, Jesus atravessou a dificuldade da provação e permaneceu fundamentado na sua piedade, que é a fé capaz de abandonar-se sem reservas nos braços do Pai. Nada do que sofreu o afastou de Deus, mas permitiu-lhe aprender a fé obedecendo à vontade do Pai. Parece paradoxal o que se diz na Carta aos Hebreus: Como é possível afirmar que Jesus foi atendido, se não lhe foi poupada uma gota do cálice que teve de beber? Pode considerar-se atendida a sua oração se teve de enfrentar a vergonha ignóbil da cruz? Na realidade, foi atendido pelo Pai com a ressurreição que transita sempre pela morte de cruz. A fé que é pedida a quem escutou a parábola do juiz e da viúva é, ao mesmo tempo, confiança, fidelidade, entrega: nasce da oração e é feita de obediência por quem aprende a escutar a vontade de Deus, mesmo quando não a compreende. Infelizmente, em nosso tempo, torna-se cada vez mais difícil e rara a constância na oração e a disponibilidade para ouvir as respostas que, frequentemente, são diferentes das nossas petições.

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5. «Viu-o com misericórdia e eleição» A relação entre a viúva e os eleitos de Deus deve ser aprofundada porque exprime uma das verdades evangélicas mais desconcertantes: Deus não se põe do lado do juiz, que, por seu lado, nem sequer tem algum temor dele, mas da viúva. Os eleitos de Deus são os órfãos e as viúvas que não podem enfrentar os abusos a que são submetidos. E porque escolhe Jesus os fracos e os pecadores, como Levi, que é um cobrador de impostos? «Jesus saiu e viu um cobrador de impostos chamado Levi, sentado junto à mesa de cobrar impostos. Disse-lhe: “Siga-me!” E, deixando tudo, ele se levantou e seguia a Jesus» (Lc 5,27-28). Na explicação que se segue, Jesus afirma que «não são os que têm saúde que precisam de médico, e sim os doentes», e que não veio para «chamar justos, e sim pecadores, para a conversão» (Lc 5,31-32). A lógica da eleição é inconcebível: Deus escolhe quem no mundo é fraco, desprezado e ignóbil para confundir os fortes, os sábios e os nobres, para que ninguém possa reclamar algum direito perante Deus (1Cor 1,26-29). Em termos positivos, Deus escolhe os últimos para chegar aos primeiros, caso contrário, é inevitável pensar numa escolha que exclui os outros. Dito com as palavras da misericórdia, permanece válido tudo o que está escrito em Ex 33,19 e que São Paulo explica: Com efeito, ele diz a Moisés: “Farei misericórdia a quem eu quiser fazer, e terei compaixão de quem eu quiser ter” (Rm 9,15). Em que sentido é Deus misericordioso com quem quer? Pode excluir alguém da sua misericórdia? E quem são os eleitos? Em primeiro lugar, a escolha que Deus faz é atravessada, do início ao fim, pela graça, e não está condicionada por nenhum agente exterior: Deus não escolhe porque se é bom, mas para fazer bom quem escolheu! A propósito da sua eleição, São Paulo diz que: «Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas por isso mesmo é que encontrei misericórdia, para que Cristo Jesus pudesse mostrar, começando por mim, toda a sua generosidade. E isso como exemplo para os que depois iriam acreditar nele, a fim de terem a vida eterna» (1TM 1,15-16). É-se escolhido para a graça não por exclusão dos outros, mas para os incluir na misericórdia de Deus. Infelizmente, quando pensamos nos eleitos, quase sempre

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se cai na armadilha da exclusão. Na realidade, Deus escolhe alguns não para rejeitar outros, mas para atingir todos. Assim se deve compreender a terrível palavra da “predestinação”, que não tem em vista a eleição e a rejeição, mas só a eleição. No desígnio de Deus não existe nenhuma predestinação para o mal e para o bem, mas só e sempre para o bem. E esta escolha depende não da bondade de Deus, mas do fato de que, como explica Jesus no diálogo noturno com Nicodemos, «Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha vida eterna» (Jo 3,16). Somente quando se pensa na eleição, sem ter em atenção a cruz de Cristo, é que se pode imaginar que existe uma escolha de alguns em desvantagem ou, pior ainda, contra os outros. O retrato da eleição pela misericórdia de Deus verifica-se não na arrogância, nem numa presunção, mas no serviço aos outros. Se Deus é «Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação» é porque «nos consola em todas as nossas tribulações, para que possamos consolar os que se acham em qualquer tribulação, por meio da consolação que nós mesmos recebemos de Deus» (2Cor 1,3-4). Portanto, não é que exista, primeiro, a eleição e a seguir a misericórdia, mas a misericórdia de Deus é que se transforma em eleição. Escreve bem São Beda, o Venerável, em comentário à vocação de Levi (ou de Mateus), na Homilia 21,149: «Jesus viu um publicano e porque o viu com misericórdia e eleição, disse-lhe: “Segue-Me”». Miserando atque eligendo ou “com misericórdia e eleição”, tal é o lema do Papa Francisco.

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VIII

QUEM

É JUSTIFICADO POR NO

DEUS? O

FARISEU E O PUBLICANO

TEMPLO LC 18,9-14

Quem é justo aos olhos de Deus e como é justificado? A parábola do fariseu e do publicano no Templo é narrada para contestar a apropriação indevida da justiça que leva a julgar e a desprezar os outros. A parábola está colocada logo a seguir à parábola sobre a oração, mas agora o seu horizonte é mais amplo, porque contempla a questão da justiça entre Deus e os seres humanos. Com fina arte psicológica, o Jesus de São Lucas entra, uma vez mais, nos meandros do coração humano, avalia-lhe os pensamentos e os sentimentos que emergem de dentro: Jesus contou esta parábola para alguns que estavam convencidos de serem justos e desprezavam os outros: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu e o outro era cobrador de impostos. O fariseu, em pé, rezava assim no seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como o restante dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Faço jejum duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. O cobrador de impostos ficou a distância e não ousava sequer levantar os olhos ao céu. Ele batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, tem piedade de mim, pecador’. Eu lhes digo: este último desceu para casa perdoado, mas o outro não. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”.

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1. Um fariseu e um publicano A cena desenrola-se no Templo, para onde se dirigiram os dois protagonistas, que permanecem anônimos. Os dois homens foram escolhidos não para condenar ou premiar as categorias a que pertencem, mas para dar a ideia das tipologias representadas na parábola. Não é por um pertencer ao movimento dos fariseus que se deve considerar soberbo, nem é pelo fato de o outro ser um cobrador de impostos que é humilde. Não são as suas origens a fazê-los justos e pecadores, mas o seu modo de se relacionar com Deus e com o próximo. O Templo de Jerusalém é o lugar do encontro: até ser destruído pelos romanos no ano 70 d.C., era o lugar mais importante da piedade judaica e era destinado, entre outras coisas, a expiar e perdoar os pecados. Como habitualmente, a parábola apresenta uma relação triangular: um fariseu, um cobrador e Deus, a quem se dirigem. O terceiro polo é tão importante como os outros dois: as orações de ambos iniciam com «Ó Deus» (LC 18,11.13) e no fim sai justificado por Deus o cobrador, e não o fariseu (LC 18,14). Todavia, as atitudes e as orações dos dois protagonistas são contrastantes. Ambos se dirigem ao mesmo Deus, mas têm uma ideia e uma atitude opostas. O fariseu reza de pé, ao passo que o publicano não tem a coragem de levantar os olhos para o céu e bate no peito. Mais contrastantes ainda são os conteúdos das suas orações: na língua grega do Evangelho, o fariseu utiliza vinte e nove palavras, ao contrário do publicano, que pronuncia apenas seis. O fariseu dá graças a Deus por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como o publicano, que está em oração a certa distância. Sutil e penetrante é a ironia sobre a oração do fariseu: lembra-se dos outros não para os recomendar ao Senhor, mas para os desprezar e condenar, precisamente como os que se consideram justos e julgam os outros, citados antes desta parábola (LC 18,9). No momento em que se considera correto, o fariseu comete um dos pecados mais graves: substitui-se a Deus para condenar o próximo. Sem nenhum pudor, lembra a sua excessiva observância da Lei. De acordo com LV 16,29-31, o jejum é obrigatório para o dia da expiação; o fariseu da parábola jejua duas vezes por semana. E se a dieta alimentar prevê comer

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alimento puro, excluindo, por exemplo, carne de porco, ele paga o dízimo sobre qualquer compra. É um perfeito exemplo de quem se exalta perante Deus. Em atitude penitencial, o cobrador limita-se a dizer: «Ó Deus, tem piedade de mim, pecador» (v. 13). A sua oração diz o essencial em poucas palavras: contém o reconhecimento da culpa e o pedido de expiação em vista do perdão. A sua oração penitencial é semelhante à do Salmo 79,9: «Socorre-nos, ó Deus, nosso salvador, pela palavra gloriosa do teu nome. Livra-nos e perdoa nossas culpas, por causa do teu nome».

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2. A mudança Quando se trata de esclarecer, Jesus dirige-se aos ouvintes e evidencia, em poucas dicas, a mudança que houve da situação. Quem volta para casa justificado é o publicano, e não o fariseu, porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Quem eleva os humildes e humilha os soberbos é Deus, que, como canta Maria, no Magnificat, «agiu com a força de seu braço. Dispersou os arrogantes de coração. Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes» (LC 1,51-52). Faz parte do modo de agir de Deus derrubar os soberbos dos tronos e elevar os humildes, sobretudo os que, como o fariseu da parábola, precisam pisar a dignidade dos outros para se exaltarem. Foi arrogante a atitude do fariseu, mas humilde a do cobrador. Apesar de uma longa oração, o fariseu não foi justificado, ao passo que foi suficiente a breve oração do cobrador para ir para casa justificado. O que foi que determinou a mudança da situação? Porque foram escolhidos dois caracteres típicos, a parábola polariza-se à volta de dois polos. Na primeira parte, decisiva foi a mudança na oração do fariseu: não lhe bastou exaltar-se perante Deus, mas sentiu também a necessidade de se confrontar com os outros para os desprezar. O foco está na expressão «nem como este cobrador» (v. 11). O resto da sua oração não foi uma petição; foi a de um homem zelante pela Lei e pelas tradições judaicas. O que o enviou para casa não justificado foi o desprezo pelo publicano: julga-o, ignorando o seu arrependimento e a oração, dada a distância que o separa dele. Também a segunda parte contém uma mudança na oração do cobrador: «Ó Deus, tem piedade de mim, pecador» (v. 13). O cobrador não procura uma atenuante, como «já que o meu trabalho é considerado impuro, esforço-me por dele tirar o menor lucro possível»; ou então «tenho uma família para sustentar e não posso mudar de profissão». Acima de tudo, apresenta-se perante Deus de coração nu. Através de uma brevíssima oração, exprime o que mais agrada a Deus: o reconhecimento da culpa, a expiação e a confiança no perdão. Reconhecer-se pecador aos olhos de Deus é a condição necessária para ser justificado, do contrário, prevalece a arrogância de quem se tem por correto.

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3. A justificação pela graça Infelizmente, em nosso tempo, um dos termos mais sujeitos a equívocos é “justificação”, que na linguagem comum equivale a encontrar uma desculpa válida. Pense-se numa forma qualquer de “justificação” no âmbito profissional. Comprometidos estão também termos como “justiça” e “reconciliação”. Muitas vezes, a justiça é vista como uma forma de retribuição: o bem é reservado a quem faz o bem e o mal a quem faz o mal. E a reconciliação é entendida como fruto de uma paz restabelecida entre pessoas em estado de conflito. A nossa parábola exprime uma visão diferente da justiça, da justificação e da reconciliação. Em primeiro lugar, os três termos são equivalentes à graça que Deus concede ao cobrador, e não ao fariseu. A quem se justifica por si mesmo, opõe-se um outro que espera do Senhor a graça de ser justificado. Sobre este primado da graça são necessários alguns esclarecimentos, caso contrário, a parábola é mal interpretada e instrumentalizada. A graça não se deixa condicionar pelo pecado: é errado pensar ser necessário pecar para obter a justificação e a reconciliação de Deus. Quanto mais se peca, tanto mais se recebe a graça divina. Encontramo-nos perante um modo de pensar não muito diferente do do fariseu: uma graça dependente do pecado (a do cobrador), parecida com a que é condicionada pelo mérito (a do fariseu). A graça da justificação é sempre gratuita e superior a qualquer ação humana. Por causa do primado da graça, São Paulo não foi bem entendido: que seria necessário fazer o mal ou não observar a Lei para receber o bem da graça. Na Carta aos Romanos, reage contra esta manipulação para sublinhar que a graça superabunda não porque está condicionada pelo pecado, mas porque se é justificado em Cristo somente pela graça: «Portanto, tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Por meio dele, através da fé, tivemos acesso a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus» (RM 5,1-2). Um mal-entendido ulterior diz respeito às modalidades com que se realiza a justiça de Deus. Em geral, somos levados a pensar que, primeiro, Deus deve ser justo para depois justificar o pecador. Na prática faz parte da equidade dar

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primeiro a cada um o que é seu e só depois justificar. Deste modo entende-se mal um aspecto central da justiça divina: Deus é justo quando justifica o pecador. Sobre este ponto, a parábola é sólida: a justificação é oferecida ao cobrador não depois de uma justa retribuição. Em tal caso, o fariseu teria em parte razão porque é um observante zeloso da Lei. Deve-se, sim, pensar que entre a justiça de Deus e a justificação do pecador não há distância alguma: Deus é justo quando justifica o pecador! Por fim, é relevante a consequência principal da justificação: estar reconciliados com Deus por uma relação nova e inesperada. Porque a justificação é ação gratuita de Deus, ao ponto de a justificação do cobrador dissipar qualquer previsão, a reconciliação não corresponde ao restabelecimento da paz entre duas pessoas que se encontram num mesmo plano. Aqui está todo o paradoxo da reconciliação em Cristo: enquanto geralmente quem erra paga e pede reconciliação com quem tem diferenças, em Cristo Deus reconciliou o mundo consigo, «não levando em conta as faltas das pessoas e pondo em nós a palavra da reconciliação» (2Cor 5,19). Se o fariseu não vai para casa justificado, é porque as suas boas obras não o impediram de julgar os outros, ao passo que o cobrador é justificado por evitar condenar os outros.

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4. A justiça misericordiosa de Deus Ao longo dos séculos esta parábola foi lida contra a religião hebraica: o fariseu era equiparado ao judeu e o cobrador ao cristão. Vendo bem, Jesus quis pôr em cena duas modalidades contrastantes de relacionamento com Deus e com o próximo que se podem verificar em qualquer ambiente religioso, e até na Igreja. O risco de se considerar correto e a exigência de derrubar os outros para exaltarse pertencem, infelizmente, ao gênero humano, independentemente da religião que se professa. Acerca da leitura errada da parábola, teve provavelmente um papel determinante o preconceito que considera o judaísmo como religião dos méritos e o cristianismo como a religião da graça. Deste modo, corre-se o risco de produzir um retrato falseado do Antigo Testamento, como se este confessasse um Deus diferente do de Jesus Cristo e das primeiras comunidades cristãs. Na realidade, no Antigo Testamento, a justiça de Deus está relacionada com a salvação e a misericórdia, como canta o profeta Oseias: «Eu me casarei com você para sempre. Eu me casarei com você na justiça e no direito, no amor e na ternura» (Os 2,21). Para o Sl 145,7-8, as gerações dos homens que se sucedem no tempo: Difundirão a lembrança da tua imensa bondade, darão gritos de alegria em tua justiça. Javé é clemente e compassivo, lento na cólera e repleto de amor.

A Regra da Comunidade 11,11-12 de Qumran contém uma maravilhosa oração sobre a justiça misericordiosa de Deus: Quanto a mim, se tropeçar, a misericórdia de Deus salvar-me-á para sempre; se cair na culpa da carne, a justiça de Deus, que permanece eternamente, será o meu juízo.

Estamos a uma distância abissal da concepção de um Deus que se limita a

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julgar o homem pelo seu pecado. O pecado enquanto tal nunca deve ser confundido com o bem; mas a justiça de Deus enquanto tal transforma-se em misericórdia e em remissão dos pecados. O Antigo e o Novo Testamento são atravessados por uma justiça que revela o rosto misericordioso de Deus, sem nunca confundir o bem com o mal, mas transformando o mal em bem. Tudo o que Jesus ilustrou com a parábola do fariseu e do publicano, São Paulo explicou-o, deixando-se alcançar pelo amor de Cristo. O escândalo que Jesus provocou nos que pensavam ser justos está potenciado pelo da cruz: “Aquele que não tinha conhecido o pecado, Deus o fez pecado, para que nós, por meio dele, nos tornássemos justiça de Deus” (2Cor 5,21). Com a sua cruz, Jesus foi feito pecado, para que a justiça de Deus atinja todos, estabelecendo com cada um uma relação justificada. A parábola do fariseu e do publicano representa para cada um um enorme paradoxo: o pecador é justificado, ao passo que o mesmo não se pode dizer do justo presunçoso. Onde existir juízo para com o outro, desaparece a justiça de Deus.

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CONCLUSÃO O EVANGELHO E A MISERICÓRDIA EM

PARÁBOLAS

Por que narrar a misericórdia em tantas parábolas? Não bastariam as três parábolas do capítulo 15 no Evangelho de Lucas? A verdade é que o coração humano é um abismo e a misericórdia é questão séria: é fácil de dizer, mas difícil de viver! Sendo assim, procuremos percorrer, ainda que brevemente, as parábolas de Jesus que, de pontos de vista diferentes, falaram da misericórdia entre Deus e os seres humanos.

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1. Os vários rostos da misericórdia A misericórdia como perdão da dívida contraída, que é o pecado humano, reflete-se na parábola dos dois devedores perdoados pelo seu credor (LC 7,41-43). Quem recebe um perdão maior está em condição de amar mais, ao passo que quem tem pouco para se fazer perdoar, ama pouco. A primeira nota da misericórdia é a graça que gera a gratidão; é também ela que domina quando chega à justificação gratuita do pecador. Observada sob o prisma da compaixão pelo outro, a misericórdia não se detém na procura do próximo a quem amar, mas encontra-o pelo caminho como um moribundo socorrido por um samaritano (LC 10, 25-37). O amor a Deus passa sempre pelo do próximo, sem que um mandamento fique separado do outro. A misericórdia como procura de quem anda perdido, em relação aos que pensam estar seguros, ecoa na parábola da ovelha perdida (LC 15,4-7). Uma misericórdia assim tão paradoxal vale também por um só pecador que se converte, porque uma única pessoa é preciosa como uma moeda em relação às nove moedas de prata que uma mulher conserva em casa (LC 15,8-10). Um pai movido por uma compaixão excessiva sai de casa duas vezes para salvar os dois filhos: corre ao encontro do mais novo e deixa a festa para sair de casa e suplicar ao mais velho para entrar e participar na comemoração (LC 15,11-32). Reconhecer um pobre, como Lázaro, somente na outra vida é inútil; devia tê-lo visto e socorrido em vida, porque onde não houver misericórdia pelo outro falta a de Deus (LC 16,19-31). A salvação do rico passa pelo socorro do pobre. Uma oração perseverante é o manifesto de uma misericórdia capaz até de mudar o coração de Deus, mais do que o de um juiz incomodado por uma viúva insistente (LC 18,1-8). Os eleitos de Deus, que são os débeis e os pobres, estão nos seus pensamentos: uma eleição que não exclui os outros, mas que, partindo dos últimos, atinge todos. A misericórdia justifica e reintegra até um pecador oficial, como um cobrador de impostos, ao passo que Deus não sabe o que fazer com as obras justas de quem, para exaltação de si mesmo, condena o pecador (LC 18,9-14). Vê-se que a atenção de Jesus no Evangelho de Lucas se concentra sobre os

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traços essenciais da misericórdia sem nunca ceder ao moralismo. A misericórdia decide-se nas relações que partem do coração humano e se espelham nas palavras e nas ações.

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2. Conclusões abertas Se prescindirmos das parábolas da ovelha perdida e da moeda encontrada, que terminam na alegria partilhada, as outras parábolas da misericórdia concluem-se de um modo aberto, deixando aos ouvintes a responsabilidade das suas escolhas. De Simão, o fariseu, não se diz o que fez depois de ter ouvido a parábola dos dois devedores e do seu credor. O doutor da Lei, que foi interpelado pela parábola do bom samaritano, foi convidado a fazer-se próximo do outro, e não a escolher, a seu bel-prazer, o próximo. Terão continuado ou deixado de murmurar contra Jesus os que ouviram as três parábolas proverbiais da misericórdia? A parábola angustiante do rico e do pobre Lázaro terá convencido os ricos que se iludem ser exaltados depois da vida terrena como o são no mundo? A parábola do juiz e da viúva concluiu-se com uma inquietante interrogação: «Quando o Filho do Homem vier, encontrará ainda fé no mundo?» E os que desprezam os outros para se exaltarem a si mesmos terão ficado convencidos com a parábola do fariseu e do publicano quando foram rezar ao Templo? Se as parábolas de Jesus continuam a interrogar cada leitor, em qualquer lugar e tempo em que se viva, significa que, representando no modo mais fiel a realidade da vida, permanecerão para sempre. A relação real e não artificial de Deus, através da pregação de Jesus, com os homens de ontem, é a mesma que com os de hoje (se não tiver sido deteriorada em alguns aspectos!) e os de amanhã. Um evangelho de fronteira é o das parábolas da misericórdia. Sem nada tirar à pregação do Reino de Deus que se avizinha com os gestos e o seguimento de Jesus, a misericórdia de Deus em parábolas vai além do grupo dos discípulos e dialoga com todos os que encontra. Não dão a salvação, que acontece sempre no encontro pessoal com Jesus, com a sua morte e ressurreição; mas as parábolas da misericórdia exploram novos caminhos, avançam por caminhos difíceis, onde o Evangelho ainda não chegou ou é posto de lado. Portanto, se é impensável que a salvação passe pela compreensão de uma parábola, é também inegável que as parábolas de Jesus indicam de modo incomparável os caminhos da salvação.

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3. Que exemplos de misericórdia? Uma vez que, como recomendava Sêneca a Lucílio, «longo é o caminho que passa pelos preceitos, breve e eficaz o que é dado pelos exemplos» (Epístolas 6,5), haverá alguém que, para além de Jesus, praticasse a exortação de ser misericordioso como o nosso Pai celeste? Estendamos brevemente o olhar ao Evangelho de Lucas e aos Atos dos Apóstolos. O terceiro Evangelho abre-se com dois hinos irmanados pela misericórdia. O cântico de Maria, depois da Anunciação e da visita a Isabel, sua parente, conhecido como o Magnificat, diz: pois o Todo-poderoso fez grandes coisas por mim. Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração para aqueles que o temem. Ele agiu com a força de seu braço. Dispersou os arrogantes de coração. Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes (LC 1,49-52).

A mudança das situações, que verificamos nas parábolas, é antecipada por tudo o que Deus realizou na vida de uma humilde adolescente da Galileia. Em sintonia com Maria, Zacarias, pai de São João Batista, canta o seu Benedictus. Quando se encontra perante o prodígio de um filho há tanto tempo esperado, bendiz a Deus porque: Ele tratou com misericórdia a nossos pais, e se lembrou de sua santa aliança, e do juramento que fez a nosso pai Abraão: de permitir que, libertos da mão dos inimigos, o servíssemos sem medo, em santidade e justiça diante dele, todos os nossos dias. E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás à frente do Senhor para preparar os caminhos dele, e para dar a seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão de seus pecados. Graças ao coração misericordioso de nosso Deus, pelo qual nos visita o Sol que nasce do alto (Lc 1,72-78).

As vísceras são a compaixão misericordiosa de Deus: um Deus que manifesta a sua lembrança não com o juízo, mas com a mesma compaixão do pai misericordioso pelos dois filhos. Os «humildes da terra (ou da nação)», como eram chamados no tempo de Jesus os que não pertenciam a nenhum círculo de privilegiados, são os exemplos que Lucas dá antes de serem contadas as parábolas da misericórdia. Cada vez que se quer tocar com a mão a misericórdia de Deus, deve imergir-se entre os humildes da nação, da Igreja e da sociedade, onde a mudança das situações humanas suscita o espanto e a alegria da misericórdia. A exemplaridade da misericórdia é retomada nos Atos dos Apóstolos, por

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ocasião do martírio do diácono Estêvão: «Enquanto o apedrejavam, Estêvão repetia esta invocação: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”. Depois, caiu de joelhos e gritou forte: “Senhor, não os condenes por este pecado”. E, ao dizer isso, adormeceu» (AT 7,59-60). As últimas palavras de Estêvão lembram as de Jesus sobre a cruz pelos seus executores: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que estão fazendo” (LC 23,34). Com as devidas diferenças, o martírio de Estêvão é uma imitação original da paixão de Cristo: é reproduzida no tempo da Igreja. O martírio cristão é o vértice da misericórdia porque responde com o dom da vida por Cristo e pelos outros, sem sentimentos de vingança, nem ódio, e transforma o mal em bem.

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Coordenação de desenvolvimento digital: Guilherme César da Silva Revisão: Rita Bruno, Célia Nogueira, Tiago José Risi Leme, Iranildo Bezerra Lopes Tradução: Mário José dos Santos Capa: Edizione San Paolo Desenvolvimento digital: Daniela Kovacs Conversão EPUB: Paulus Citações bíblicas: © Nova Bíblia Pastoral, São Paulo: Paulus, 2014 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) As Parábolas da Misericórdia [livro eletrônico]; Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização [organizador]; [tradução: Mário José dos Santos] – São Paulo: Paulus, 2015 879Kb; ePUB Título original: Le Parabole della Misericordia © Pontificio Consiglio per la Promozione della Nuova Evangelizzazione © PAULUS Editora, Portugal, 2015 Tradução: Mário José dos Santos © PAULUS – 2016 Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 São Paulo (Brasil) Fax (11) 5579-3627 • Tel. (11) 5087-3700 paulus.com.br • [email protected] [Facebook] • [Twitter] • [Youtube] eISBN 978-85-349-4333-8

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Os Salmos da Misericórdia Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização 9788534943406 136 páginas

Compre agora e leia O livro consiste num importante instrumento pastoral para ajudar a oração e a reflexão dos peregrinos do Ano Santo da Misericórdia. Foram selecionados dez Salmos em que o tema da Misericórdia emergisse em toda a sua valência existencial e significado teológico, no espírito da Bula Misericordiae vultus, em que o Papa Francisco afirma: “Os Salmos, em particular, fazem sobressair esta grandeza do agir divino: 'É Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. É Ele quem resgata a tua vida do túmulo e te enche de graça e de ternura’ (103,3-4). [...] A misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor, como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até o mais íntimo das suas vísceras” (MV, n. 6). Compre agora e leia

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Pastoral da Escuta Pereira, José Carlos 9788534937078 96 páginas

Compre agora e leia A Pastoral da Escuta é um braço da Pastoral da Acolhida. O agente dessa Pastoral escuta atentamente as necessidades e desabafos da pessoa, e busca apontar caminhos de solução. Este subsídio apresenta os passos necessários, as ferramentas para auxiliar na implantação e manutenção da Pastoral da Escuta. A obra se coloca dentro do espírito do Documento de Aparecida e das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, com a intenção de contribuir no processo de evangelização e para o estado permanente de missão das comunidades paroquiais. Diz o autor: "Os avançados meios de comunicação, a tecnologia e a informática criam modalidades de interação que não substituem o contato pessoal, o olho no olho, a presença física de alguém que ouça gratuita e desinteressadamente”. Compre agora e leia

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Índice Rosto Apresentação I - Introdução Jesus, a misericórdia e as parábolas II - Aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama: os dois devedores Lc 7,36-50 III - A compaixão de um estrangeiro: o bom samaritano Lc 10,25-37 IV - À procura da ovelha perdida e da moeda encontrada Lc 15,1-7 V - Uma compaixão excessiva: o pai misericordioso Lc 15,11-32 VI - O contrário da misericórdia: o rico anônimo e o pobre Lázaro Lc 16,19-31 VII - Como muda o coração de Deus? O juiz e a viúva Lc 18,1-8 VIII - Quem é justificado por Deus? O fariseu e o publicano no Templo Lc 18,9-14 Conclusão - O Evangelho e a misericórdia em parábolas Ficha Catalográfica

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