Mente.e.cérebro.ed.290.Março.2017

November 16, 2020 | Author: Anonymous | Category: N/A
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ESPECIAL | GUIA PARA ENTENDER O PSICODRAMA ANO XII

ANIMAL Como funciona a rede social dos bichos

RONCO Uma epidemia barulhenta e perigosa neurociê cia

TERAPIA

9 771807 156009

R$ 15,90 4,90 €

www.mentecerebro.com.br

Drogas psicodélicas contra ansiedade e depressão

00290

psicanálise

ISSN 1807-1562

psicologia

A molécula do prazer Cientistas desvendam mistérios da dopamina para compreender melhor os mecanismos de vários tipos de dependência, da memória, das variações de humor e da doença de Parkinson

Fórmula molecular da dopamina (C8H11NO2)

carta da editora

A senha neuroquímica da satisfação

“O

prazer é a sombra da felicidade”, diz um provérbio hindu, para se referir a esse efeito efêmero da exposição a estímulos sensoriais, estéticos ou intelectuais. Embora intrinsecamente satisfatória, a sensação não se sustenta e, muito rapidamente, tende a se tornar neutra ou mesmo desagradável. Ainda que saibamos disso, a maioria de nós corre atrás dessa vivência, insistindo em repeti-la a todo custo. O fenômeno – comum tanto a seres humanos quanto a outros animais – tem fascinado cientistas e, para aprofundar essa compreensão, pesquisadores de várias partes do mundo têm buscado entender o papel da dopamina, uma substância intimamente associada ao bem-estar. No cérebro, o neurotransmissor funciona como uma espécie de senha para a felicidade. “Sob a óptica da neuroquímica, a dopamina cria o registro de que a vida valha a pena ser vivida, pois nos permite reconhecer experiências prazerosas”, explica Maia Szalavitz, autora de Unbroken brain: A revolutionary new way of understanding addiction (St. Martin’s Press, 2016, ainda não lançado no Brasil) e do artigo de capa desta edição. Diante disso, seria lógico pensar que precisamos de dopamina para alcançar uma vida melhor, mais plena. Certo? Nem tanto. Essa ideia é controversa e cada vez mais cientistas concordam que o neurotransmissor não define neurologicamente o prazer. “Mas a molécula pode desvendar o mistério intricado daquilo que nos move”, afirma Szalavitz. Uma descoberta recente abriu espaço para que seja considerada uma função muito interessante da dopamina: “contabilizar” quanto bem-estar teremos em determinada situação. “O neurotransmissor codifica a diferença entre o que estamos obtendo e o que esperávamos”, diz o neurologista Wolfram Schultz. No ano passado, seus estudos revelaram que embora a dopamina não avalie com precisão “quanto” uma experiência será agradável, pode determinar seu valor para o organismo naquele momento. Essas descobertas levam os cientistas a compreender que a sensação de prazer começa antes da vivência propriamente dita. Os estudos também possibilitaram o estabelecimento de relações do papel da dopamina na fixação de memórias, no aprendizado, nas dependências (de comida, jogo, drogas etc.) e até mesmo em sintomas da doença de Parkinson. Ou seja: a investigação trouxe desdobramentos até há pouco tempo impensados – o que, aliás, é ótimo. Boa leitura! Que seja prazerosa.

GLÁUCIA LEAL, editora-chefe [email protected]

sumário | março 2017 CAPA: SHUTTERSTOCK/FVAL

capa

14 Uma epidemia barulhenta por David Noonan

O ronco pode ser um indicador de apneia, uma doença grave, que pode até levar à morte. Especialistas apostam em estímulos cerebrais para ajudar o paciente e quem convive com ele

30 Memória: use para preservar por Hal Arkowitz e Scott O. Lilienfeld

À medida que envelhece, a pessoa deve ter claro que manter a mente saudável depende, em grande parte, dos próprios hábitos

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A molécula do prazer por Maia Szalavitz A “neuroquímica do desejo” não funciona exatamente da forma como se acreditava até há pouco tempo. Novas constatações têm ajudado cientistas a compreender os mecanismos que regem não apenas a satisfação, mas a adicção, as variações de humor e a memória e a dinâmica de doenças neurodegenerativas

36 Sensação de não ter escolha aumenta o estresse por Gláucia Leal

Mesmo em situações de pressão extrema, causada pela vivência da violência ou pela morte de alguém querido, há a possibilidade de não se furtar a tomar decisões que nos fazem bem

40 O componente auditivo do autismo por Anne Pycha

Novas evidências sugerem que pessoas com o transtorno entendem bastante bem os sinais sociais transmitidos por vozes

42 A rede social dos bichos

especial

por Lee Alan Dugatkin e Matthew Hasenjager

59 Psicodrama Definido por Jacob L. Moreno como “a ciência que explora a verdade por caminhos dramáticos”, o método inspirado no teatro propõe o desempenho de papéis para elaborar questões psíquicas de forma terapêutica

60 O teatro da mente 4

Em muitas espécies, há desde associações simples entre alguns peixes que formam um cardume para viajar juntos até configurações muito complexas, como a de babuínos, baseada em hierarquia e afeto

50 Gravidez causa mudanças duradouras no cérebro da mulher As novas mães apresentaram remodelação neural até dois anos após o parto; as alterações ajudam na adaptação à maternidade

54 Entrevista – Roland Griffiths Uma jornada além do medo e da morte por Richard Schiffman

O farmacologista clínico Roland Griffiths, da Universidade Johns Hopkins, fala a respeito de uso da droga psicodélica psilocibina para tratar depressão e ansiedade em pacientes terminais

seções 3 CARTA DA EDITORA

6 PALAVRA DO LEITOR

8 ASSOCIAÇÃO LIVRE Notas sobre atualidades, psicologia e psicanálise

11 NA REDE O que há para ver e ler na internet

34 NEUROCIRCUITO Novidades nas áreas de psicologia e neurociência

especial digital Sono e ciência A cada noite, milhões de pessoas se preparam para dormir – e não conseguem conciliar o sono. Ou, se o fazem, acordam antes do que gostariam, ainda cansadas e, na maioria das vezes, ansiosas por saber que chegarão exaustas ao fim do dia. A longo prazo, essa privação compromete a qualidade da saúde física e mental. A insônia já é considerada um problema de saúde pública, muitas vezes associada a quadros de obesidade, depressão, ansiedade e psicose. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente um terço da população mundial enfrente problemas para dormir. No Brasil, a insônia é um distúrbio que acomete 36,5% das pessoas, segundo dados do Instituto do Sono de São Paulo. Na edição especial Mente e Cérebro 58 – Sono, especialistas tratam dos vários aspectos desse fenômeno psíquico tão fascinante e complexo que é o adormecer. Principalmente nos últimos anos, mesmo quem não tem dificuldade para dormir tende, muitas vezes, a se habituar a permanecer mais horas acordado, seduzido pelas redes sociais ou por séries e filmes. Já as longas jornadas de vigília (ou o adormecimento entrecortado) em razão da atividade profissional podem prejudicar a capacidade de raciocínio. Um estudo desenvolvido pelo psicólogo Ian Deary, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, já mostrou que depois de uma noite de plantão, a capacidade dos médicos de lembrar resultados de exames e histórico do paciente, por exemplo, diminui quase 20%. Quer dizer: de cada cinco informações, uma seria esquecida por causa do sono atrasado. Saiba mais sobre o assunto. Veja como baixar seu especial em www.mentecerebro.com.br.

80 LANÇAMENTOS

colunas 12 PSICANÁLISE Amando animais e seus limites

Acompanhe a @mentecerebro no Instagram Saiba com antecedência qual será o tema da capa da próxima edição

por Christian Ingo Lenz Dunker

82 LIMIAR Sete perguntas do nosso tempo por Sidarta Ribeiro

www.mentecerebro.com.br NOTÍCIAS Notas sobre fatos relevantes nas áreas de psicologia, psicanálise e neurociência. AGENDA Programação de cursos, congressos e eventos. A localização das estruturas cerebrais nas imagens desta edição é apenas aproximada Os artigos publicados nesta edição são de responsabilidade dos autores e não expressam necessariamente a opinião dos editores

março 2017 • mentecérebro

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palavra do leitor

PUBLICIDADE Gerente: Almir Lopes [email protected] Escritórios regionais: Brasília – Sonia Brandão (61) 3321-4304/9973-4304 [email protected] Rio de Janeiro – Edson Barbosa (21) 4103-3846 /(21) 988814514 [email protected] com.br TECNOLOGIA Gerente: Paulo Cordeiro Analista programador: Diego de Andrade Analista de suporte: Antônio Nildo Matias MARKETING/WEB Diretora: Carolina Martinez Gerente marketing digital: Carolina Madrid Gerente marketing de assinatura: Mariana Monné Eventos: Lila Muniz Coordenador de criação e designer: Gabriel Andrade Desenvolvedores: Giovanni Coutinho, Lucas Alberto e Lucas Lacerda Editor de vídeo: Gabriel Pucci ASSINATURAS E CIRCULAÇÃO Supervisora: Cláudia Santos Eventos Assinaturas: Ana Lúcia Souza Vendas telemarketing ativo: Cleide Orlandoni FINANCEIRO Faturamento/contas a receber: Karen Frias Contas a pagar: Siumara Celeste Controladoria: Fabiana Higashi Recursos humanos/Depto pessoal: Tatiane Cavalieri Mente e Cérebro é uma publicação mensal da Editora Segmento com conteúdo estrangeiro fornecido por publicações sob licença de Scientific American. Spektrum der Wissenschaft Verlagsgesellschaft, Slevogtstr. 3-5 69126 Heidelberg, Alemanha

ESPECIAL | A EST RANHA CAP

ACIDADE DE VER SAB

Cartas para a revista Mente e Cérebro: Rua Cunha Gago, 412 1o andar – São Paulo/SP CEP 05421-001 Cartas e mensagens devem trazer o nome e o endereço do autor. Por razões de espaço ou clareza, elas poderão ser publicadas de forma reduzida. PUBLICIDADE Anuncie na Mente e Cérebro e fale com o público mais qualificado do Brasil. [email protected] CENTRAL DE ATENDIMENTO AO LEITOR Para informações sobre sua assinatura, mudança de endereço, renovação, reimpressão de boleto, solicitação de reenvio de exemplares e outros serviços São Paulo (11) 3039-5666 De segunda a sexta das 8h30 às 18h, [email protected] www.editorasegmento.com.br Novas assinaturas podem ser solicitadas pelo site www.lojasegmento.com.br ou pela Central de Atendimento ao Leitor Números atrasados podem ser solicitados à Central de Atendimento ao Leitor pelo e-mail [email protected] ou pelo site www.lojasegmento.com.br MARKETING Informações sobre promoções, eventos, reprints e projetos especiais. [email protected]

Eu me identifiquei profundamente com a reportagem de capa da edição 289, de fevereiro. Passei por um episódio de depressão, precisei PARA CURAR de medicação A psiquiátrica e, durante as sessões de análise, com a ajuda da psicanalista que me acompanha até hoje, aos poucos me dei conta de que voltar a me exercitar poderia ser importante para minha recuperação. Eu só não imaginava o quanto mexer o corpo faria diferença em minha vida. Hoje, passados três anos, treino em um grupo de corrida, participo de provas de rua quase todos os meses e pratico natação com regularidade. Retomei minha vida e posso dizer com alegria que esses três elementos – medicação (que deixei há muito tempo), análise e exercício – me curaram do marasmo doloroso em que eu vivia. Queria muito que milhares (ou milhões) de pessoas que passam por essa dor pudessem ter a mesma oportunidade de recuperação que tive. Ana Rosa Ferreira – Osasco, SP

A ciência pode ajudar no aprendizado de idiomas

Não adianta fugir

• neurociên ci

a

ANSIEDADE

das preocupaçõ es, é melhor dar espaç o a elas

MEMÓRIA

MEXER O CORPO

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Como novas exper iências reforçam recor dações que pareciam perdi das

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DEPRESSÃO , barato e sem ão, o exercício rado por muito êutica auxiliar apel central no m muitos caso s, r a medicação

LIDERANÇA Muito interessante o especial sobre liderança da edição 288, de janeiro. Recomendo a leitura para qualquer pessoa que pretenda trabalhar em empresas (e não apenas na área de psicologia ou recursos humanos). Alisson Lima – Rio de Janeiro, RJ

Editora Segmento Rua Cunha Gago, 412 – 1o andar São Paulo/SP – CEP 05421-001 www.editorasegmento.com.br

especial

O líder focado

Edição no 290, março de 2017, ISSN 1807156-2. Distribuição nacional: DINAP S.A. Rua Dr. Kenkiti Shimomoto, 1678.

Prestar atenção em si mesmo é fundamental, mas não basta – é preciso estar atento ao ambiente que nos rodeia. Profissionais que conseguem se concentrar efetivamente em outras pessoas emergem como líderes naturais, independentemente de sua posição organizacional ou social

Editor-chefe: Carsten Könneker Gerentes editoriais: Hartwig Hanser e Gerhard Trageser Diretores-gerentes: Markus Bossle e Thomas Bleck

por Daniel Goleman

O AUTOR DANIEL GOLEMAN, doutor em psicologia pela Un vers dade Harvard, é um dos diretores do Consórc o de Pesquisas sobre Inteligência Emocional em Organizações da Universidade Rutgers É autor de Inteligênc a emocional (1996), Foco (2013), ambos pela editora Objetiva, entre outros livros Este art go foi or ginalmente publicado pela Harvard Business Rev ew 60 $662& $d®2 1$&,2 $/ '( (' 725(6 '( 5(9,67$6

CORES

LINGUAGEM

psicologia • psicanálise

REDAÇÃO Comentários sobre o conteúdo editorial, sugestões, críticas às matérias e releases. [email protected] tel.: 11 3039-5600 fax: 11 3039-5610

ORES E OUVIR

NO

ISSN 1807-1562

Editora-chefe: Gláucia Leal Editora de arte: Fernanda do Val Estagiária: Paula Mesquita (redação) Colaboradores: Maria Stella Valli e Ricardo Jensen (revisão) Tratamento de imagem: Paulo Cesar Salgado Produção gráfica: Sidney Luiz dos Santos

CORRER DA DEPRESSÃO

aneiro 2017 • mentecérebro 61

9 771807 156009

Presidente: Edimilson Cardial Diretoria: Carolina Martinez, Marcio Cardial e Rita Martinez

MENTE E CÉREBRO ON-LINE Visite nosso site e participe de nossas redes sociais digitais. www.mentecerebro.com.br facebook.com/mentecerebro twitter.com/mentecerebro Instagram: @mentecerebro

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SONO Muito boa a matéria “Quer dormir? Desligue a TV e o celular!”, publicada na edição 288 de Mente e Cérebro. Precisamos de fato nos “desligar” da tecnologia para relaxar, e dormir com um sono de qualidade, pois uma boa noite de sono regula os hormônios e melhora o humor. Emanuela Fernandes – via Facebook

capa

O que

motiva você?

shutterstock

Estamos sempre buscando recompensas – que podem aparecer em forma de bens materiais, prazeres sensoriais, afeto ou sentimentos de profunda autorrealização – e evitando punições. Na prática, pessoas motivadas procuram se superar e buscar melhores resultados, são mais entusiasmadas, responsáveis, comprometidas – e, principalmente, mais felizes e realizadas. O problema é que nem sempre nosso empenho está alinhado com os resultados obtidos. Novas pesquisas indicam a importância de rever o que queremos e, eventualmente, corrigir rotas

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ciência para viver melhor

CAPAS BONITAS Adoro a revista e ultimamente também tenho gostado muito das capas das revistas: criativas, alegres e atraentes. l midt – Porto Alegre, RS

Quer dormir? Desligue a TV e o celular! Sabemos há décadas que a luminosidade intensa suprime a melatonina, o hormônio que o cérebro produz à noite para induzir o sono. Porém, estudos mais recentes provaram que alguns tons específicos emanados pela tela de aparelhos eletrônicos fazem isso de forma mais pronunciada, deixando as pessoas mais alertas quando deveriam começar a se sentir sonolentas Por Ferris Jabr, jornalista

H

á uma década a desenvolvedora de software Lorna Herf, de Los Angeles, decidiu testar seu talento em pintura a óleo. Ela e o marido, Michael, também programador de computadores, instalaram claras lâmpadas fluorescentes no mezanino do apartamento para que a moça pudesse pintar à noite e ainda ter uma ideia precisa de como as cores na tela pareceriam durante o dia. Uma vez, tarde da noite, ela desceu para a sala onde computadores estavam ligados. Já mais acostumada às diferenças da iluminação, reparou como as luzes intensas dos equipamentos entravam em choque com a suavidade dos bulbos incandescentes que os cercavam. Ela lembra ter pensado que as telas eletrônicas pareciam “pequenas janelas de luz artificial do dia”, comprometendo o ambiente aconchegante da sala. O casal, versado em tecnologia, projetou então uma solução criativa para minimizar a discrepância. Eles es54

creveram alguns códigos para mudar o número e o comprimento das ondas dos fótons emitidas pelas telas dos computadores à medida que o dia avançava. O objetivo era imitar o máximo possível as mudanças naturais no ambiente da iluminação, transitando da luz clara e azulada da manhã, passando pelo efeito do sol da tarde para chegar à luminosidade fraca e alaranjada do entardecer. Primeiro eles pretendiam apenas harmonizar o esquema de iluminação da casa. Mas logo começaram a suspeitar que seu novo aplicativo, que chamaram de f.lux, pudesse também trazer benefícios à saúde. “Depois de usá-lo por algum tempo, começamos a notar que parecia mais fácil desacelerar à noite e dormir depois que os aparelhos eletrônicos eram desligados”, relembra Lorna. Não foram os únicos a apreciar o efeito relaxante. Desde que casal lançou o programa gratuito em 2009, o f.lux foi baixado mais de 20 milhões de vezes.

magens shutterstock

MOTIVAÇÃO Mais uma vez venho dizer que admiro as publicações e artigos da Mente e Cérebro. Ao ler a matéria de capa da edição 288, “O que motiva você”, lembrei-me da matéria “Ursinho de pelúcia desperta a ética em adultos” da edição 283 e gostaria de sugerir, quem sabe, uma “compilação” de ambas, já que muito se tem falado sobre trabalho, motivação e mentiras. Parabéns novamente! Luana Miranda Neves São Paulo, SP

três sugestões para reportagens rtigos das próximas edições de e Cérebro: transgêneros, terapia de casal e loucura. Bruna lencar – São Paulo, SP

CONCURSO CULTURAL: ESCREVA E GANHE UM LIVRO! Mande sua opinião sobre um dos artigos desta edição para o e-mail [email protected] ou uma sugestão e concorra a um livro. Por limitação de espaço, tomamos a liberdade de selecionar e editar as cartas recebidas. A premiada deste mês é Ana Rosa Ferreira – Osasco, SP.

XEXPOSIÇÕES

Obras gigantes abordam emoção, corpo e consumismo Criações híbridas de fíguras humanas e objetos cotidianos propõem reflexão sobre a identificação com coisas que desejamos e compramos; visitantes podem participar de performances sugeridas na sala Esculturas de um minuto

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fotos: divulgação

U

ma inusitada casa obesa erguida no térreo do Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo desperta a curiosidade de quem passa pelo prédio. A estrutura de duas toneladas é Casa gorda, uma das 40 obras da exposição O corpo é a casa, do austríaco Erwin Wurm. Sucesso nas galerias de arte de todo o mundo, Wurm se destaca por imprimir características orgânicas a esculturas de bens de consumo, como casas, carros, utensílios e alimentos industrializados. A aparente diversão despertada pelo surrealismo das obras gigantes resguarda uma intenção mais profunda do artista – uma reflexão sobre como estamos emocionalmente identificados com os objetos que compramos e desejamos, a ponto de tratar marcas e produtos como extensão da nossa personalidade. Essa ideia é trabalhada especialmente na sala Esculturas de um minuto, a obra mais conhecida de Wurm, que tem sido apresentada em vários museus desde os anos 90 e inspirado não só outros artistas, mas também o público geral a subverter objetos do dia a dia. A proposta é que os visitantes toquem e interajam com alguns objetos escolhidos e deixados por Wurm na sala, seguindo algumas instruções do artista, explicadas com texto e imagem. Basta uma simples pesquisa no site de vídeos YouTube com o título da obra para visualizar vídeos de anônimos que visitaram e filmaram suas autoperformances de 60 segundos – são dezenas de cenas de homens e

mulheres encaixando-se dentro de mesas de centro, usando bolsas de luxo sobre a cabeça, abraçando produtos de limpeza, entre outras imagens surrealistas, marcadas pela descontextualização. A seleção de obras compreende também as séries Dentro de casa e Comida, que propõem uma inversão irônica e bem-humorada da utilidade final de móveis, utensílios e alimentos. A seleção traz, por exemplo, um mictório com pernas humanas e esculturas de bronze de salsichas em posições sexuais. Vídeos de performances e instalações do artista estão espalhados pelas paredes do CCBB. Depois de São Paulo, as obras seguem para as unidades do CCBB de Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

ssociação livre

ESCULTURAS, INSTALAÇÕES E VÍDEOS serão exibidos nas unidades do CCBB de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro ao longo do ano

divulgação

PÚBLICO É CONVIDADO a experimentar texturas, cheiros e sabores na mostra da artista plástica Maria Lynch: abaixo, imagem da sala Comida

Festa para os sentidos

V

Erwin Wurm – O corpo é a casa. CCBB São Paulo*. Rua Álvares Penteado, 11, Centro. De quarta a segunda, das 9h às 21h. Informações: (11) 3113-3651. Grátis. Até 3 de abril. CBB Brasília. SCES Trecho 2, Lote 22, Asa Sul. Informações: (61) 3108-7600. De 21 de abril a 26 de junho. CCBB Belo Horizonte. Praça da Liberdade, 450, Funcionários. Informações: (31) 3431-9400. De 11 de julho a 18 de setembro. CBB Rio de Janeiro. Rua Primeiro de Março, 66, Centro. Informações: (21) 3808-2020. De 11 de outubro a 8 de janeiro de 2018. *Para evitar filas, a visita pode ser agendada no site do CCBB: culturabancodobrasil.com.br.

isão, tato, paladar, audição e olfato são os protagonistas da mostra Máquina Devir, em cartaz no espaço Oi Futuro, no Rio de Janeiro. São nove salas temáticas com títulos bem sugestivos, como Memória, Desejo, O que você mais gosta de fazer?, Mito, Roupagem e Comida, que convidam o visitante a participar de exercícios sensoriais elaborados pela artista plástica Maria Lynch. Em uma das salas, o espectador ouve textos de pensadores como Nietzsche e Deleuze, recitados por atores fantasiados, em clima circense. Em outra, entra de olhos vendados para experimentar materiais de diferentes formas e texturas, testando suas percepções. Também pode criar suas performances, em uma sala sem câmeras, com objetos tão provocativos como um bambolê ou um vibrador.

Máquina Devir. Oi Futuro Ipanema. Rua Visconde de Pirajá, 54, Ipanema, Rio de Janeiro. De terça a domingo, das 13h às 21h. Informações: (21) 3131-9333. Grátis. Até 19 de março. março 2017 • mentecérebro

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associação livre XMONÓLOGO

Diário de uma transexual

O

Brasil está entre os países que lideram a lista de crimes contra travestis e transexuais. A transfobia é tema central do monólogo Gisberta, baseado na história real de uma transexual brasileira assassinada em Portugal. O ator Luis Lobianco dá voz à personagem Gis. Conta sobre os motivos que a fizeram mudar-se para a Europa ainda nos anos 70, intimidada pelos casos de agressão contra LGBTTs no Brasil, e sobre seu processo de transição. De forma sensível, o texto passeia pelas descobertas e amores de Gis, que se apresentava em casas noturnas na cidade do Porto, aprofundando-se em episódios dramáticos do fim de sua vida, como as complicações de saúde causadas pelo vírus HIV e a depressão, culminando na sua morte trágica – Gis foi atirada em um poço por um grupo de crianças, depois de, fraca e doente, ter sido torturada por elas durante dias.

Gisberta. Centro Cultural Banco do Brasil (Teatro III). Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro. De quinta a domingo, às 19h30. Informações: (21) 3808-2020. R$ 20. Até 30 de abril.

elisa mendes

LUIS LOBIANCO leva aos palcos a trágica história de Gisberta, brasileira assassinada em Portugal por um grupo de crianças

XMOSTRA INTERNACIONAL DE TEATRO

Ator fala sobre experiência real de afasia e agnosia libanês Yasser Mroué tem dificuldade de compreender os significados de palavras e de aplicá-las corretamente no cotidiano. Também não consegue reconhecer rostos nem objetos em fotografias. Esses sintomas, que caracterizam distúrbios como afasia, propagnosia e agnosia, respectivamente, são decorrentes de lesões cerebrais causadas por um tiro que Yasser levou na cabeça aos 17 anos, durante a guerra civil em seu país. Sua história é recontada de forma poética em Cavalgando em nuvens, destaque da programação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. No texto escrito e dirigido pelo próprio irmão, Rabih Mroué, Yasser interpreta um homem que não consegue mais usar palavras depois de ser ferido na guerra. O ator, que tem superado várias das sequelas por meio do treino de reconhecimento de imagens com o uso de vídeos, conta com um expositor de vídeos legendados em português para mostrar flashbacks das memórias do protagonista, em passagens que mesclam realidade e ficção. 10

divulgação

O

Cavalgando em nuvens. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, São Paulo. Informações: (11) 5080-3000. De 17 a 19 de março. Horários não confirmados até o fechamento desta edição, mas disponíveis no site da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo: mitsp.org

o que há para ver e ler

| na rede

Pais de jovem com autismo criam comunidade para adultos com o transtorno

PROJETO PREVÊ 20 alojamentos individuais adaptados para pessoas com TEA, com controle de estímulos visuais e sonoros. Serão oferecidos programas educacionais para desenvolver habilidades e autonomia dos moradores

reprodução/29acres.org

O futuro de John Heighten, de 19 anos, tornou-se uma preocupação para seus pais, os médicos Debra Claudy e Clay Heighten, à medida que envelheciam. John apresenta sintomas severos do transtorno do espectro autista (TEA) e precisa de acompanhamento nas atividades diárias. Os pais são os principais responsáveis pela manutenção das suas rotinas e cuidados com sua higiene e alimentação. Realidade comum a muitos pais de adultos com autismo, aliás. Pensando em uma solução confortável para famílias que vivem situações semelhantes, o casal de médicos adquiriu por conta própria um terreno em Dallas, no Texas, e iniciou o projeto de construção de um conjunto habitacional específico para adultos autistas. Batizado 29 Acres, tamanho da área, o projeto já recebeu mais de US$ 1 milhão em doações e prevê cerca de 20 alojamentos individuais adaptados para pessoas com TEA, à prova de som e com poucos estímulos visuais, mas que podem ser customizados pelos moradores. O local serve tanto como lar permanente quanto lugar para passar parte do tempo. A ideia é que tenham privacidade, mas também liberdade para transitar entre suas casas e áreas comuns. A assessoria de psicólogos, educadores e profissionais de saúde é permanente. O casal está organizando também uma “universidade” destinada a trabalhar habilidades e a autonomia dos moradores e estimulá-los a desenvolver trabalhos voluntários e atividades de seu interesse. A previsão é que a comunidade comece a funcionar até o final de 2017. O custo estimado de cada morador é de cerca de US$ 50 mil por ano – a intenção dos pais de Heighten é que governo e instituições privadas se interessem em financiar bolsas para famílias que optem ou necessitem colocar os filhos na comunidade. Saiba mais em 29acres.org

março 2017 • mentecérebro 11

psicanálise

inconsciente a céu aberto

Eles podem ser parte de nossa recuperação psíquica, mas também se prestam a suportar, silenciosos, nossas formas mais patológicas de expressão de afeto e perversão

A

nimais de estimação são como filhos, mas filhos que não crescem nem nos abandonam. Retribuem nosso amor com sua presença e solicitude, sem conflitos ou oscilações na qualidade afetiva, oferecendo suporte simbólico para experiências de reconhecimento, metafóricas e metonímicas, centrais na formação e na reconstrução de nossa capacidade de amar. Eles podem ser parte de nossa recuperação psíquica, como vemos na abordagem proposta por Nise da Silveira, mas também se prestam a suportar, silenciosos, nossas formas mais patológicas de amar, como os acumuladores de cães ou gatos, os que submetem animais a uma vida “demasiadamente humana” e, no 12

limite, os estupradores crônicos de animais. Está em jogo aqui a sutil diferença entre ser como um filho, amigo ou amante e ser o próprio bebê, companheiro e objeto de satisfação erótica. Nossa gramática amorosa, definida pela inversão entre amor e ódio, entre amar e sem amado ou entre amar e ser indiferente depende essencialmente deste “como se”. Por isso, amar não é dissociável da poesia e suas práticas equivalentes. Por isso, em nosso amor pelos animais nós os fazemos falar conosco, sentindo suas atitudes como fidelidade canina ou independência felina. Portanto, animais domésticos são “como nós”, eles vivem em nossa casa, como parte de nossa família e extensão metonímica de nosso modo de vida. No entanto, eles não são “nós”, mas uma metáfora dos humanos, pois a eles não aplicamos nossas leis, nem esperamos sua participação na vida política. Justamente por isso eles colocam-se em posição decisiva para que exercitemos este limite tão difícil entre o amor narcísico, no qual nós amamos através do outro, amamos o outro como uma extensão projetiva de nós mesmos e esta outra forma de amor, na qual sua alteridade, sua estranheza e sua diferença são os fatores decisivos. Reduzindo o problema: animais nos convidam a investigar este limite entre o amor metonímico (o outro como parte de

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

mim) e o amor metafórico (o outro como outro). Quando amar se opõe a ser amado, segundo o tema clássico da correspondência, os animais tornam-se uma espécie de totem de nosso amor primário, cujo exagero nos faz entender a força irresistível da imagem de animais fofinhos, desamparados e supremos em sua disponibilidade para receber e oferecer a nossa mera presença como um presente. Metáfora do outro que um dia fomos, ou que gostaríamos de ter sido. Quando tomamos a inversão entre amar e odiar, entendemos por que podemos dirigir nosso ódio aos animais, exercendo sobre eles crueldade impiedosa, voracidade instrumental e ambição de domínio. Metonímia do que não suportamos em nós mesmos. Contudo, quando falamos da oposição entre amor e indiferença, não estamos nem no totemismo metafórico nem no animismo metonímico, mas no cruzamento contingente de nossas perspectivas humanas, com uma espécie de destino comum e inumano. Desta feita, eles nos ensinam algo sobre nosso próprio limite que nos constitui, nos abrindo para formas de amor ainda não descobertas. CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER,

psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

arquivo pessoal (foto), shutterstock (imagem)

Amando animais e seus limites

sono

Uma epidemia

barulhenta

O ronco pode ser um indicador de apneia, uma doença grave. Novos recursos, como estímulos cerebrais, ajudam tanto o paciente quanto quem convive com ele a vencer esse problema por David Noonan, jornalista científico

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urante muitos anos, o ronco estrondoso de Al Pierce costumava levar sua mulher a sair do quarto e se aconchegar no sofá da sala de televisão. Após inúmeras noites maldormidas, ele passou, então, a usar um pequeno controle remoto para ligar um sensor eletrônico implantado no peito. O dispositivo detecta pequenas mudanças no padrão de sua respiração – sinais precoces de que as vias aéreas de Pierce estão começando a entrar em colapso. Ao detectar essas mudanças, ele aciona um leve estímulo elétrico que percorre um fio até o pescoço. O fio termina em um minúsculo eletrodo ligado a um nervo que controla os músculos de sua língua. O nervo, estimulado pela carga, ativa músculos que empurram a língua de Pierce para a frente na boca, levando as vias aéreas a abrirem. Durante toda a noite, o encanador de 65 anos de Florence, Carolina do Sul, recebe centenas de pequenos choques – mas dorme tranquilamente. Na manhã seguinte, descansado e revigorado, Pierce usa o controle para desligar o dispositivo. Essa nova tecnologia, chamada estimulação eletrônica das vias aéreas superiores, aprovada no verão passado pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos, oferece muito mais que alívio de um barulho irritante. O ronco alto

de Pierce era o sintoma mais evidente de apneia obstrutiva do sono. O distúrbio é drasticamente subdiagnosticado, com número de atingidos estimado em 25 milhões de americanos. No Brasil, o Instituto do Sono de São Paulo estima que aproximadamente, 33% de pessoas sofrem de apneia. O problema é grave: está associado a hipertensão arterial, cardiopatias, diabetes, depressão e até diminuição da capacidade de aprendizagem, podendo deflagrar ou agravar esses quadros. Em geral, portadores de apneia do sono grave têm o triplo do risco de morte por todas essas causas, em comparação com pessoas sem o distúrbio. No entanto, não é fácil encontrar auxílio para quem sofre do problema. Uma opção eficaz, uma máscara presa com tira que empurra delicadamente o ar para dentro da garganta para mantê-la aberta, é compreensivelmente rejeitada por grande parte dos que tentam usá-la, por ser bastante desconfortável. Outras opções oferecem resultados contraditórios. Assim, por mais radicais que possam parecer, o implante cirúrgico e a estimulação do nervo talvez sejam a resposta para muitos roncadores. Em um estudo publicado no ano passado no New England Journal of Medicine, a técnica reduziu episódios de apneia grave em cerca de dois terços. A aprovação da FDA viabiliza o tratamento com cobertura de seguro. março 2017 • mentecérebro 15

Enquanto você dorme Quando os músculos relaxam durante o sono, as vias aéreas sofrem constrição e bloqueiam o fluxo de ar para os pulmões

Palato mole Língua

Amígdalas Úvula

Via aérea superior aberta

Via aérea superior fechada

Grande parte dos médicos ainda não se dedicam muito a encontrar terapias para a apneia. Mesmo os pacientes tendem a não considerar que o distúrbio seja grave. “A apneia do sono não aparece em um atestado de óbito”, avalia Patrick J. Strollo, Jr., especialista do sono do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. “Apesar de poder contribuir para a morte, não é realmente uma causa direta e o tratamento costuma ser visto como pouco urgente.” Aproximadamente metade das pessoas que roncam alto têm apneia do sono, segundo a Fundação Nacional do Sono, nos Estados Unidos – mas nem todos sabem que sofrem desse quadro. Pierce só descobriu que tinha apneia porque sua mulher, Gail, solicitou ao médico uma receita de pílulas para dormir. Ele perguntou o motivo, e ela explicou que o ronco do marido não a deixava descansar. O médico lhe disse que, se as coisas eram assim tão sérias, o marido deveria fazer uma polissonografia. Durante o exame, feito à noite, enquanto o paciente dorme, vários sensores são ligados a ele. A observação revelou que Pierce tinha até 30 episódios de apneia por hora – ou seja, a cada dois minutos A MÁSCARA DE OXIGÊNIO (CPAP) cobre o nariz e a boca; uma pequena bomba externa proporciona fluxo constante de ar pressurizado através de tubo plástico

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apresentava dificuldade para respirar. Apesar de anos de cansaço contínuo, ele ficou atordoado ao saber do problema médico. “Pensei que era assim que todos viviam; não sabia de nada diferente”, recorda . A apneia obstrutiva do sono costuma se desenvolver quando as pessoas envelhecem ou engordam, o que causa o estreitamento do tubo das vias aéreas, assim como a perda do tônus dos músculos da boca e da garganta. Quando os músculos relaxam durante o sono, as vias aéreas sofrem constrição e bloqueiam o fluxo de ar para os pulmões. Algumas pessoas com apneia grave param de respirar completamente, por até um minuto ou dois, até 600 vezes por noite. Essa privação de oxigênio força o coração a trabalhar mais e cria ondas de adrenalina, que por sua vez provocam picos de pressão arterial. Além disso, os níveis de oxigênio oscilantes podem provocar danos em células e tecidos nos pulmões e em outros órgãos. Grandes intervenções, como a cirurgia reconstrutiva da garganta, têm sido ineficazes. Médicos frequentemente recomendam alterações no estilo de vida como perda de peso e às vezes até mesmo tocar instrumentos de sopro para fortalecer e tonificar os músculos da língua. Dilatadores nasais e bocais genéricos, fáceis de adquirir em farmácias, visam o ronco, o sintoma, em vez da apneia subjacente. O problema é que o que ajuda um paciente pode ser completamente inútil para outro. Além disso, qualquer objeto projetado para ficar na boca ou na garganta durante o sono, e manter as vias aéreas abertas, pode incomodar o paciente e realmente atrapalhar o sono. Qualquer tratamento precisa ser confortável, fácil de usar e confiável. É o caso da máscara de oxigênio, chamada CPAP, que pressiona as vias aéreas, cobrindo o nariz (ou o nariz e a boca), sendo mantida por tiras que envolvem a cabeça. Uma pequena bomba de cabeceira proporciona um fluxo constante de ar pressurizado para a máscara através de tubo plástico. A terapia, disponível desde o início da década de 80, alivia sintomas de apneia obstrutiva do sono, e pesquisas indicam índices mais baixos de doenças cardiovasculares e mortalidade entre pacientes que a adotam.

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sono

Porém, metade das pessoas que tentaram usar a máscara desistiram. Pierce é um deles. Como tantos outros, ele não conseguia dormir facilmente enquanto usava algo sobre o rosto, e ele não gostava do modo como a tubulação restringia seus movimentos na cama. Strollo é um forte defensor da CPAP, mas há muito reconheceu a necessidade de alternativa. A estimulação eletrônica de vias aéreas superiores pode ser essa opção, segundo ele. O pesquisador conduziu um amplo estudo sobre o novo tratamento, um ensaio de um ano sobre sua segurança e eficácia, envolvendo 126 pessoas com apneia obstrutiva de moderada a grave. Todos os participantes tinham índice de massa corporal (IMC) de 32 ou menos (um homem com 1,77 m de altura e 101 kg de peso tem IMC de 32), tinham tentado CPAP inicialmente e não apresentavam histórico de doença cardiovascular. Em um estudo de janeiro passado no New England Journal of Medicine, Strollo e seus colegas relataram que a terapia, com um dispositivo feito pela Inspire Medical Systems, reduziu eventos de apneia do sono dos participantes em 68%, de uma média de 29,3 eventos por hora para nove por hora, basicamente transformando a apneia grave em um caso leve. (O CPAP, após ajuste, pode ter resultado ainda melhor, reduzindo a quantidade de eventos de apneia grave a menos de cinco por hora, em média, mas apenas em pacientes que o usarem continuamente.) O cientista Alan R. Schwartz, especialista do sono na Universidade Johns Hopkins e responsável por grande parte do trabalho inicial de estimulação no nervo – ele mostrou, em animais, que dar choque no nervo controlador da língua abriria as vias aéreas –, diz estar satisfeito, mas cauteloso. “Ainda temos muito a aprender”, observa ele, ressaltando que pessoas com sobrepeso e obesas, grupo que representa porcentagem significativa da população com apneia obstrutiva, não são consideradas boas candidatas para o procedimento devido ao excesso de tecido em vias aéreas. Além disso, a estimulação envolve um procedimento invasivo. A cirurgia para implante do dispositivo leva cerca de duas horas. Um cirurgião de cabeça e pescoço, operando através de uma incisão na lateral

O dronabinol, uma versão sintética de um composto ativo da maconha, estimula a atividade dos neurotransmissores, o que ajuda a prevenir ou reduzir episódios de interrupção da respiração do pescoço, sob o queixo do paciente, coloca um eletrodo sobre o nervo hipoglosso, que controla os músculos da língua. Ele também implanta um conjunto de bateria e um sensor no peito e os conecta ao eletrodo com um fio condutor. Geralmente, o paciente tem alta no dia seguinte; o dispositivo é ligado e ajustado após um mês. Pesquisadores investigam alternativas, como medicação. Em um estudo de seis semanas envolvendo 120 pacientes, David W. Carley, médico da Universidade de Illinois, em Chicago, está testando um fármaco denominado dronabinol, versão sintética de um composto ativo da maconha. Ele está comparando pessoas que recebem o medicamento com as que não o recebem. O dronabinol pode prevenir ou reduzir episódios de apneia do sono, estimulando certa atividade dos neurotransmissores no cérebro. Outros pesquisadores examinam o papel exercido pela leptina, hormônio que suprime o apetite e pode melhorar a função respiratória. Um pequeno estudo de 26 obesos com IMC superior a 45 sugere que determinados níveis de leptina podem minimizar o colapso das vias aéreas superiores. Schwartz também quer modificar a técnica de estimulação, testando um dispositivo que elimina o sensor. Em vez disso, ele envia uma carga repetida ao nervo da língua para manter as vias aéreas abertas. Esse refinamento deve simplificar a cirurgia e reduzir peças que poderiam falhar, segundo Schwartz. Pierce, no entanto, está muito feliz com seu sistema. Seja acordado ou dormindo tranquilamente, ele nem percebe a presença do dispositivo. Leia mais sobre o tema na edição especial de Mente e Cérebro 58, Sono, em versão digital. Veja como baixar seu exemplar em www.mentecerebro.com.br. março 2017 • mentecérebro 17

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A molécula do

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PRAZER por Maia Szalavitz

Uma nova teoria postula que o cérebro utiliza a dopamina para fazer predições de quanto uma experiência será gratificante. Os níveis do neurotransmissor são elevados quando uma vivência supera as expectativas. Descobertas recentes sobre o funcionamento da “química do desejo” têm ajudado cientistas a compreender os mecanismos que regem não apenas a satisfação, mas a adicção, as variações de humor, a memória e até sintomas de doenças neurodegenerativas, como Parkinson

A AUTORA MAIA SZALAVITZ é jornalista, autora de vários livros, entre eles Unbroken brain: a revolutionary new way of understanding addiction (St. Martin’s Press, 2016, não lançado no Brasil). março 2017 • mentecérebro 19

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uando Stephanie (nome fictício) começou a comer em excesso, as pessoas que conviviam com ela estranharam: aquele não era um comportamento típico da gerente comercial de 34 anos. Ela nunca tinha tido problemas com peso. Porém, em 2009 passou a sentir um apetite incontrolável – especial por doces – e, rapidamente, passou a acumular quilos. Com a mesma rapidez, ela desenvolveu uma obsessão por jogos de azar online. “Até então, nunca tinha sequer arriscado um palpite na loteria em toda a minha vida”, lembra-se. No entanto, começou a apostar de forma compulsiva. “Eu percorria diversas lojas à procura dos bilhetes; acreditava que, se comprasse em determinados lugares, teria mais chances de ganhar.” Além disso, comprava compulsivamente em sites na internet e, muitas vezes, era atormentada por uma excitação sexual intensa, que lhe trazia desconforto. A jovem só se deu conta anos mais tarde de que seus comportamentos poderiam ser considerados efeitos colaterais de uma medicação à base de pramipexol (que atua no cérebro, aliviando problemas motores). Seu médico havia prescrito o remédio para tratar a doença de Parkinson, com a qual tinha sido diagnosticada aos 29 anos, algo bastante incomum nessa faixa etária. Naquele momento, a preocupação maior de Stephanie era evitar o agravamento dos sintomas da doença neurodegenerativa, em especial os tremores e as dificuldades de movimento. Embora sob vários aspectos esse quadro permaneça um mistério, os cientistas sabem que a doença gradualmente destrói células cerebrais que produzem o neurotransmissor dopamina. E o pramipexol atua como uma espécie de versão artificial dessa molécula, ativando os 20

mesmos receptores no cérebro, o que pode ajudar a explicar os problemas de Stephanie. Embora poucos de nós despendam tempo contemplando os mensageiros moleculares em funcionamento em nosso cérebro, devemos muitíssimo a eles – e à dopamina em especial. Essa substância desempenha papel fundamental no movimento, na motivação, no humor e na memória. E, como a história de Stephanie sugere, tem também um lado obscuro. O neurotransmissor está relacionado aos mecanismos de recompensa e à dependência (de comida, drogas, jogo etc.), à esquizofrenia, a episódios de alucinação e paranoia. Ainda assim, a dopamina é mais conhecida pelo seu papel na sensação de prazer. O neurotransmissor está associado à satisfação (uma espécie de senha cerebral para a felicidade) e ao efeito estimulante ou sedativo produzido pelas drogas psicoativas. No nível neuroquímico, muitos já leram ou ouviram dizer que a dopamina é elemento que faz com que a vida valha a pena ser vivida, é o que permite que cada momento prazeroso seja reconhecido como tal e aproveitado. Isso se justificaria porque ela está na “composição da euforia” que todos buscam seja por meio da exposição (e aceitação) nas mídias sociais, do uso de drogas psicoativas, do esporte, da comida ou do sexo, por exemplo. Mas pode ser hora de repensar esses conceitos. “A dopamina não é a molécula do prazer da maneira simples e direta como muitos acreditam; sua função é muito mais cheia de nuances”, afirma a pesquisadora Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos, que vem estudando esse neurotransmissor há vários anos. Em sua opinião, a ideia muito difundida atualmente de que “precisamos da dopamina” é controversa. Alguns pesquisa-

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dores argumentam que, quando esse neurotransmissor atua na área cerebral conhecida como sistema de recompensa, sinaliza desejo. Outros defendem que a substância ajuda o cérebro a prever recompensas e a direcionar o comportamento para buscá-las. Um terceiro grupo procura um consenso, dizendo que ambas as explicações podem ser válidas. Ironicamente, se há algo com que os cientistas concordam neste momento é que a dopamina não define neurologicamente o prazer. Em lugar disso, essa molécula pode desvendar o mistério intricado daquilo que nos move. ENTRE O QUERER E O GOSTAR Em 1978, o neurocientista Roy Wise, então na Universidade Concordia, no Québec, publicou um artigo crucial sobre dopamina. Em la-

boratório, ele rebaixou níveis do neurotransmissor em ratos com medicações antipsicóticas e constatou que, sob esse efeito, os roedores deixavam de se empenhar para receber alimentos saborosos ou drogas desejáveis, como anfetamina – embora não tivessem nenhuma limitação física que os impedisse de fazer os movimentos necessários para obter algo prazeroso –, o que sugere que seu comportamento mudou, pois a experiência deixou de ser recompensadora. Parecia que, pelo menos quando atuava em um circuito localizado próximo à área central do cérebro, a dopamina era necessária para a sensação de satisfação. Na década seguinte, dados que respaldavam a ideia de Wise só fizeram crescer. Portanto, era compreensível que, quando comemarço 2017 • mentecérebro 21

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EM TEMPO DE DESPERTAR (1990), baseado no livro homônimo de Oliver Sacks, Robin Williams faz o papel do neurologista: médico tratou pacientes que sofriam de letargia 22

não buscavam alimentos e tinham de ser alimentados artificialmente. “Não queriam se alimentar nem beber nada”, diz Berridge. Todavia, para surpresa de todos, suas reações faciais ficavam completamente normais – continuavam a lamber os beiços em resposta a algo doce e a fazer caretas diante de uma refeição amarga. Fizeram o experimento diversas vezes – e Berridge e seus colegas obtiveram os mesmos resultados. Quando simulavam uma situação que basicamente criava as condições opostas – ao aumentar os níveis de dopamina em ratos utilizando eletrodos implantados em regiões apropriadas –, os roedores não lambiam os lábios de modo mais ávido ao comer alimentos saborosos, como a teoria “dopamina é prazer” previa. Na verdade, algumas vezes os animais pareciam até sentir menos prazer quando abocanhavam seus doces. No entanto, continuavam a comer com muito mais voracidade do que o normal. Os pesquisadores ficaram perplexos. Em vez de produzir prazer, a dopamina parecia impulsionar o prazer. O desejo em si pode ser agradável em pequenas doses – mas a longo prazo, se não for satisfeito, causa sensação oposta, de desconforto. No final, Berridge e Robinson se deram conta de que havia tipos distintos de prazer: aquele envolvido em buscar uma recompensa e aquele relacionado a obtê-la de fato. Os cientistas rotularam o im-

divulgação

çou a pesquisar a dopamina na Universidade de Michigan, o neurocientista Kent C. Berridge acreditasse – como a maioria de seus colegas – que a molécula fosse um sinal de “prazer”. O próprio trabalho de Berridge se concentrava em expressões faciais de bem-estar, que têm uma correspondência surpreendente entre os mamíferos. Os ratos lambem avidamente os lábios quando recebem doces e abrem a boca com repugnância após experimentarem um gosto amargo – assim como os bebês humanos. Expressões de satisfação típicas de mamíferos se intensificam quando, por exemplo, um roedor faminto recebe uma guloseima especialmente saborosa ou um animal sedento finalmente bebe água. Berridge pensou que estudar e medir essas respostas poderia confirmar ainda mais a ideia de que a dopamina significa prazer para o cérebro. Nessa mesma época, seu colega da Universidade de Michigan, o neurocientista Terry Robinson, vinha utilizando uma neurotoxina para destruir neurônios dopaminérgicos e criar ratos que simulavam sintomas severos da doença de Parkinson. Berridge decidiu dar alimentos doces a esses roedores e observar se pareciam satisfeitos. Sua expectativa era que a falta de dopamina nos animais faria com que essa resposta não se manifestasse. Como estavam com estoque tão baixo de dopamina, os ratos de Robinson quase não se moviam quando eram deixados sozinhos,

A novidade sobre a dopamina Apesar de ser há muito tempo associado à satisfação, o neurotransmissor está ligado a muitos outros fenômenos Memória de trabalho

Compulsão

Percepção de dor Ciclo sono/vigília Atenção e vigilância

Indução de movimento

Dopamina

Comportamento repetitivo

Aprendizado

Humor Recompensa e motivação

Uso indevido de drogas e dependência

Alucinação e paranoia Inibição da produção de leite materno

pulso que a dopamina parecia induzir como “querer” e chamaram de “gostar” a alegria da sensação de saciedade (que não parecia estar conectada à dopamina). Essa dissociação encontrou respaldo nos estudos realizados com pacientes diagnosticados com Parkinson. Eles são capazes de aproveitar as alegrias da vida, mas muitos costumam ter problemas com motivação. Talvez o exemplo mais vívido disso tenha ocorrido no começo do século 20, quando, nos Estados Unidos, uma epidemia de encefalite letárgica deixou milhares de pessoas com uma condição parkinsoniana especialmente severa. Seu cérebro estava com estoque tão baixo de dopamina que eram incapazes de dar início a movimento e ficavam basicamente “congeladas no lugar”, como estátuas vivas. O filme Tempo de despertar, em que Robin Williams fazia o papel do neurologista Oliver Sacks, se baseou no livro homônimo (Companhia das Letras, 1997) e narra a fase em que o médico tratou pacientes com esse quadro na década de 70. O autor mostra que um desencadear externo forte era capaz de estimular ação para pessoas com essa condição, ainda que o efeito não perdurasse. Em um caso mencionado por Sacks, um homem que tipicamente se

sentava imóvel em sua cadeira de rodas na praia viu alguém se afogando. Ele saltou da cadeira, resgatou o nadador e então voltou à sua posição anterior, rigidamente fixa. Outro paciente de Sacks costumava ficar quieto e imóvel em sua cadeira, a menos que lhe fossem lançadas várias laranjas, que ele então agarrava e com elas fazia malabarismos. O CÍRCULO INFINITO A droga que Stephanie tomava pertence a uma classe de medicamentos conhecida como agonistas dopaminérgicos, utilizados para reabilitar movimento e motivação. Os receptores dopaminérgicos “percebem” essas drogas como a substância produzida pelo organismo e reagem como se assim fosse. Como consequência, as medicações podem oferecer um alívio excelente para sintomas como tremor, rigidez e outros problemas de movimento. Porém, as drogas podem ter também alguns efeitos colaterais desagradáveis. Stephanie, por exemplo, passou de um estado de desânimo para um excesso de motivação. Ou, pelo menos, a motivação que a droga estimulava era mal direcionada, já que, além de comer em excesso, seus problemas com agonistas dopaminérgicos incluíam dependência de jogos de azar, obsesmarço 2017 • mentecérebro 23

capa GOSTO BOM: humanos, orangotangos e ratos expressam sua satisfação com uma guloseima lambendo os lábios: esse código comum possibilitou que pesquisadores avaliassem o grau de prazer em experimentos em que eram oferecidos alimentos doces

são com seu iPhone, compras compulsivas online e desejos sexuais classificados por ela mesma como “inadequados”, que a colocavam em situação de risco. Subjetivamente, as experiências que descrevia eram muito parecidas às relatadas por pessoas que sofriam de variados tipos de compulsão e dependência. “No caso da compra de bilhetes de loteria, era como se estivesse presa num círculo de repetição, já que perdendo ou ganhando, sempre havia a necessidade de tentar de novo e de novo; era como se não houvesse possibilidade de fazer diferente”, lembra Stephanie. “A diferença entre jogadores compulsivos e outras pessoas é que os primeiros vão atrás de ganhos e vamos atrás de perdas, e nunca há o suficiente para se ganhar e nunca o suficiente para se perder”, escreveu Arnie Wexler, um ex-jogador compulsivo, autor de All bets are off, lançado nos Estados Unidos em 2004, sem tradução para o português. Muita gente que sofre de alguma dependência e compulsão vivencia a intensificação no desejo que, da mesma forma, não é acompanhada por um aumento semelhante na capacidade de desfrutar o prazer. “O querer era tanto que eu nunca parei para pensar coisas do tipo: ‘Será que eu realmente gosto disso?’. O curioso é que naquele momento isso simplesmente não importava”, diz Stephanie. Suas palavras descrevem de modo bastante preciso o que Berridge e Robinson chamam de “sensibilização de incentivo à dependência”, que se relaciona à ação dopaminérgica, uma teoria que, desenvolvida em 1993, tem sido reforçada por estudos mais recentes. 24

Em 2005, por exemplo, uma equipe de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Wisconsin e do Instituto Nacional de Abuso de Drogas acompanhou a atividade cerebral de oito pessoas com dependência de cocaína quando se preparavam para se autoadministrar a droga. Condizente com a teoria do “querer” de Berridge, a atividade nos percursos de dopamina atingia o ápice pouco antes de a droga ser consumida. “O que a dopamina realmente faz é absorver e decodificar os estímulos como se fossem pistas para o cérebro; aquilo que cheiramos e ouvimos tem um significado motivacional que se torna intensificado, o que também aumenta o impulso para buscar esses elementos”, explica Berridge. Segundo o cientista, inserir dopamina diretamente no núcleo accumbens dos ratos faz com que se esforcem de duas a três vezes mais para obter o que anseiam – mas, uma vez obtida a recompensa, a experiência prazerosa não será intensificada. UMA MOEDA PODEROSA Mais recentemente, outros pesquisadores se concentraram em estudar uma função diferente da dopamina nos sistemas neurológicos associados à motivação. Esses cientistas argumentam que o cérebro usa dopamina nessas regiões não tanto como uma maneira de incentivar comportamentos determinados pelo que quer, mas como um sinal de previsões de ações ou aposta em objetos que mais seguramente fornecerão a recompensa pretendida. “O neurotransmissor codifica a diferença entre o que você está obtendo e o que você esperava”, diz o neurologista Wolfram Schultz, agora na Universidade de Cam-

bridge, que publicou um artigo crucial em 1997 sobre o que conhecemos como “teoria da dopamina do erro de predição das recompensas”. Em uma série de experimentos iniciados na década de 80, Schultz e seus colegas mostraram que, quando macacos obtêm pela primeira vez algo agradável – nesse caso, suco de frutas –, seus neurônios dopaminérgicos disparam mais intensamente quando tomam o líquido. Mas, uma vez que aprendem que uma pista como uma luz ou um som prevê a entrega de algo delicioso, os neurônios disparam quando o estímulo é percebido, e

não quando a recompensa é recebida. Essa resposta se altera quando o valor da recompensa muda. Se ela é maior ou melhor do que o esperado, os neurônios dopaminérgicos disparam mais em resposta a essa surpresa feliz; se não ocorrer ou for inferior à expectativa, os níveis de dopamina despencam. Em um estudo de 2016, Schultz e seus colegas solicitaram a 27 voluntários que se submetiam a ressonância magnética que olhassem para uma tela de computador em que aparecia uma série de retângulos, cada um representando uma escala de valores em dinheiro (de zero a US$ 100, por exemplo),

A ação neuroquímica é capaz de explicar por que, quando estamos desapontados, é confortante saber que as coisas poderiam ter sido ainda piores

março 2017 • mentecérebro 25

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QUANDO MACACOS obtêm pela primeira vez algo agradável, como suco de frutas, seus neurônios dopaminérgicos disparam mais intensamente ao saborear a bebida; mas, se associam esse prazer a um estímulo luminoso ou sonoro, por exemplo, os disparos passam a ocorrer antes mesmo de receberem a bebida

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sem a indicação de quantias específicas. Um ponto para onde as pessoas deveriam olhar na tela surgia em algum lugar aleatório sobre um retângulo para indicar um prêmio em dinheiro. Em vários ensaios, os participantes adivinhavam a quantia e depois, virtualmente, recebiam o valor correspondente. Enquanto isso, os pesquisadores monitoravam a atividade em áreas seletas de intensa atividade dopaminérgica. Constataram que a atividade na substância negra e na área tegmental ventral, regiões vizinhas no mesencéfalo, estava relacionada ao erro de predição das pessoas – se tinham uma surpresa gratificante ou se ficavam desapontadas pelo prêmio. Além disso, a atividade nessa área ao longo do experimento estava associada ao grau de sucesso com que os participantes ajustavam suas estimativas à medida que obtinham insights a partir de erros passados. Com base nessas observações, Schultz ressalta o papel da dopamina tanto no aprendizado quanto no processo de buscar quando evitar determinadas situações e experiências. Levando isso em consideração, o neurotransmissor não pode avaliar com certeza o quanto uma experiência será agradável, mas

quanto valor ela representa para o organismo naquele momento em particular. Schultz observa que os neurônios dopaminérgicos não distinguem entre diferentes tipos de recompensa. “Só estão interessados no benefício que trazem; não se ‘importam’ se é uma recompensa de alimento, bebida ou dinheiro. Há precisão quanto ao erro de predição, mas não se importam com qual é a recompensa”, diz o neurologista. Schultz sugere que a dopamina serve como um sistema monetário, uma espécie de moeda para o desejo. Por exemplo: quando o cérebro recebe um sinal de que o corpo está com sede, aumenta o valor da água para aquele indivíduo naquele momento. O líquido fresco se torna mais atrativo, e evitar o desconforto – e a desidratação, que coloca o organismo em risco – será uma ação priorizada. “Mas, quando nos apaixonamos, a química cerebral muda e todas as recompensas se tornam relativamente menos valiosas”, diz. Mesmo um copo de água significará pouco em comparação à oportunidade de estar com a pessoa amada – por isso, nossas prioridades tendem a mudar quando estamos enamorados. Dessa perspectiva, é fácil ver por que a dopamina é crucial para a questão da dependência. Se as drogas e outros prazeres irresistíveis alteram a maneira como o sistema de recompensa determina aquilo que é valioso, será atribuída prioridade máxima ao objeto de desejo, e a motivação mudará de acordo com isso. Entender a função da dopamina sob esse prisma pode explicar também uma série de fenômenos psicológicos. Não por acaso, tantas pessoas costumam preferir uma recompensa menor imediata a uma maior mais tarde – algo que os economistas chamam de “desconto do futuro”. Isso ocorre porque, à medida que as recompensas estão “poupadas” para serem desfrutadas posteriormente, parecem distantes e muito menos atraentes do que aquelas prestes a serem recebidas – e são representadas por níveis progressivamente menores de dopamina. Além disso, se a dopamina codifica erro de predição da recompensa, pode explicar também a chamada adaptação hedônica, aquela experiência universal em que aquilo

que nos faz sofrer de desejo com o tempo se torna menos fascinante, exigindo maior intensidade de experiência, novos graus de novidade ou maiores doses para alcançar a mesma satisfação. Todo mundo já passou por isso: você compra um carro novo, mas dirigi-lo logo se torna rotina, e você começa a ansiar por um carro mais completo. Ou a pessoa anseia por um chocolate, mas, se continuar comendo grandes quantidades do doce, logo vai enjoar e desejar outros alimentos. Em linhas gerais, é o que os filósofos budistas definem como “sofrimento de prazer”. De acordo com a teoria do erro de predição da recompensa, quando o cérebro acerta (algo ocorre igual ao previsto, nem mais nem menos), os níveis de dopamina não se alteram. “Mas o nível de prazer pode aumentar as expectativas para a experiência seguinte; então o erro de predição é menos elevado e

sua reação menos intensa”, diz Shultz. Essa lógica confirmaria a hipótese de 1965 de Mick Jagger em relação à baixa probabilidade de obter satisfação a longo prazo. Outros pesquisadores começaram a testar as ideias de Schultz. Em 2016, nos Proceedings of the National Academy of Sciences USA, o neurocientista Read Montague, da Virginia Tech, e seus colegas publicaram descobertas envolvendo 17 pessoas com Parkinson que tinham feito implantes cerebrais que eram capazes de medir mudanças em dopamina no estriado, outra área no mesencéfalo associada a experiências gratificantes. Constataram que a sinalização da dopamina pode ser ainda mais cheia de nuances do que a realização de um simples cálculo que compara experiência com expectativas. No experimento desenvolvido por Schultz, os pacientes participavam de um jogo que

O lugar do desejo no cérebro Os sinais que se originam em estruturas ricas em dopamina no mesencéfalo, como o núcleo accumbens, e viajam para o córtex pré-frontal, têm sido, por muito tempo, considerados como “vias do prazer”. Trabalhos mais recentes, no entanto, sugerem que a dopamina estimula o desejo ou querer em vez da satisfação propriamente dita.

Córtex pré-frontal

Estriado

Substância negra

Núcleo accumbens

Área tegmental ventral março 2017 • mentecérebro 27

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envolvia apostar fazendo uma simulação de mercado. Enquanto jogavam, consideravam as possíveis consequências de várias escolhas e posteriormente avaliavam suas decisões baseados naquilo que ocorreu de fato. Os sinais de dopamina registrados não monitoravam um simples erro de predição de recompensa. Em vez disso, variavam pelo real desempenho das apostas comparado a como o investimento teria se saído se tivessem feito uma escolha diferente. Em outras palavras, se alguém ganhasse mais do que esperava, mas poderia ter ganho mais ainda se tivesse feito uma escolha diferente, apresentava menor liberação de dopamina do que 28

se não tivesse sabido que havia uma maneira de ter um desempenho ainda melhor. Além disso, se alguém perdesse alguns dólares quando poderia ter perdido muito mais se tivesse feito uma escolha diferente, a dopamina aumentava. Essa descoberta explica por que saber que “poderia ter sido pior” pode tornar a experiência, ainda que desagradável, mais positiva – ou, pelo menos, não tão penosa. Embora alguns cientistas considerem incompatíveis as teorias do erro de predição da recompensa e da sensibilização do incentivo de Robinson e Berridge, elas não invalidam diretamente uma à outra. Muitos especia-

O aumento do neurotransmissor faz com que roedores se esforcem de duas a três vezes mais para obter o que anseiam, mas, uma vez obtida a recompensa, DH[SHUL©QFLDSUD]HURVDQ¢R¨LQWHQVLƩFDGD listas acham que cada uma captura algum elemento da verdade. A dopamina pode sinalizar o “querer” em alguns neurônios ou circuitos e também significar erro de predição de recompensa em outros. Ou, em vez disso, é possível que essas funções operem em diferentes escalas de tempo – como sugerido por um estudo em 2016 em ratos realizado por cientistas na Universidade de Michigan, colegas de Berridge e Robinson. O estudo publicado na Nature Neuroscience constatou que mudanças em níveis de dopamina de segundo a segundo eram compatíveis com a noção da dopamina como um indicador de valor, o que respalda a hipótese do erro de predição de recompensa. Mudanças a prazo mais longo, no decorrer de alguns minutos, porém, estavam associadas a mudanças de motivação, o que reforça a teoria de sensibilização ou saliência do incentivo. Enquanto recebia agonistas dopaminérgicos, Stephanie tinha certamente consciência de que suas prioridades haviam mudado de maneiras desconfortáveis – mas naquele momento ela aceitava o fato, pois seu comportamento de dependência parecia, como ela relata, “a coisa certa a fazer”. Nossos sentimentos, em determinado sentido, são algoritmos de tomada de decisão que se desenvolveram para orientar o comportamento em direção àquilo que historicamente apresentava maior probabilidade de promover sobrevivência e reprodução. O prazer pode nos estimular a repetir atividades como comer e fazer sexo, mas o medo nos afasta de riscos potenciais. Se as regiões cerebrais que determinam aquilo que valorizamos saem dos eixos, pode ser bem difícil mudar comportamentos, pois essas áreas farão você “querer” continuar e também o comportamento de dependência parecer mais adequado.

Quando Stephanie parou de tomar o pramipexol, todos os seus desejos e comportamentos de dependência desapareceram da noite para o dia. Na verdade, não só ela deixou de procurar seu iPhone a cada instante e de comprar bilhetes de loteria compulsivamente, como essas coisas lhe pareceram até certo ponto pouco interessantes e até mesmo repulsivas. Ela perdeu também o peso que havia acumulado sem muito esforço. O psiquiatra Daniel Weintraub, professor na Universidade da Pensilvânia, comenta que a experiência da moça é típica de pacientes de Parkinson que desenvolvem transtornos de controle de impulso quando tomam agonistas dopaminérgicos, o que corresponde aproximadamente a algo em torno de 8% a 17% das pessoas que utilizam essas medicações. O fato de o fim da administração dessas drogas ser capaz de acabar com o comportamento indesejável (e até autodestrutivo) de modo tão abrupto e decisivo mostra como a dopamina é crucial para impulsioná-lo. Alguns anos mais tarde, entretanto, os sintomas de Parkinson de Stephanie se agravaram, e ela concordou em tentar outro agonista dopaminérgico. Não demorou muito para que se visse despendendo horas online, buscando em websites por pessoas dispostas a ter casos ou sexo casual. Mas ela resistia aos impulsos. “Não poderia fazer isso com meu marido; parte do meu cérebro ainda sabia que aquilo estava errado, não era o que realmente me faria bem”, diz. Sua experiência anterior com pramipexol também fez diferença. “Sabia o que investigar, o que eu não sabia da primeira vez”, diz. Embora a dopamina possa regular nossos impulsos, não é o único determinante daquilo que fazemos e do que nos importa. Afinal, o que humanos buscam e valorizam é um pouco mais complicado do que nossos desejos passageiros.

PARA SABER MAIS Dopamine reward prediction error coding. Wolfram Schultz, em Dialogues in Clinical Neuroscience, vol. 18, nº 1, págs. 23-32; março de 2016. Addicted to: food, games, gambling, sex, internet. Carl Erik Fisher em Scientific American Mind, págs. 43-49, janeiro/ fevereiro de 2016. Tempo de despertar. Oliver Sacks. Companhia das Letras, 1997.

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maturidade

Memória

use para preservar A solução para reduzir o esquecimento associado à idade não vem em forma de comprimido ou de outro recurso externo. Na maioria dos casos, o diferencial está nos hábitos e no estilo de vida por Hal Arkowitz e Scott O. Lilienfeld

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uando Mick Jagger cantou pela primeira vez “que chatice é ficar velho” (na música Mother’s little helper), há meio século, ele tinha 23 anos. Hoje, aos 73, o roqueiro parece ter encontrado o segredo para permanecer em boa forma física à medida que sua idade avança. De fato, com os inúmeros recursos existentes atualmente, os sinais visíveis dos efeitos do tempo sobre corpo podem ser bastante atenuados. Envelhecer, porém, tem também implicações psíquicas. Muita gente teme a perda de memória e receia estar enveredando pela demência, como a doença de Alzheimer, a mais comum delas. Toda vez que esquecem suas chaves, deixam uma porta destrancada ou não se lembram do nome de alguém, essa persistente preocupação se manifesta. Na maioria OS AUTORES HAL ARKOWITZ é professor associado da Universidade do Arizona. SCOTT O. LILIENFELD é professor da Universidade Emory, em Atlanta, na Geórgia. Ambos são doutores em psicologia. 30

dos casos, porém, esses pequenos e irritantes incidentes são parte da perda normal de memória associada à idade – e não um sinal de demência iminente. Embora muitos adultos mais velhos acreditem que esse declínio é inevitável, há boas notícias para muitos deles. Pesquisadores desenvolveram uma série de atividades para exercitarmos nossa mente e nosso corpo, que podem ajudar a reforçar e a apoiar a memória em um cérebro normal que está envelhecendo. A memória não é uma função isolada. O termo engloba várias modalidades de lembrar, e algumas delas não declinam com a idade. Pessoas mais velhas, por exemplo, continuam dominando seu vocabulário, com seu conhecimento geral sobre o mundo (memória semântica). Elas também são capazes de executar tarefas rotineiras, como fazer uma omelete ou digitar em um computador (memória processual) com destreza mais ou menos igual à que tinham quando eram mais jovens. Mas seu desempenho

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maturidade prospectiva. Eles constataram que auxílios externos, como fazer listas ou programar lembretes em um telefone celular, podem ser úteis para reduzir problemas de memória como deixar de pagar contas ou comparecer a reuniões. Outra estratégia bem-sucedida envolve associar informações a serem lembradas a uma imagem, frase, sentença ou palavra. Quanto mais relevante do ponto de vista pessoal for a associação, mais provável será ser lembrada, uma abordagem conhecida como processamento autorreferencial. Se tivermos de devolver um livro à biblioteca, por exemplo, podemos nos imaginar fazendo exatamente isso. Acrônimos inventados também podem ser

piora para se lembrarem de fatos recentes em sua vida (memória episódica) ou recordarem onde receberam originalmente uma informação (memória de origem), gerenciar o armazenamento temporário de informações de curto prazo (memória de trabalho) e lembrarse de coisas a fazer (memória prospectiva). Esta última, em particular, é um alvo fundamental, já que se esquecer de realizar tarefas ou compromissos futuros pode gerar considerável frustração ou mal-estar. Em 2002, o psicólogo Narinder Kapur, do Hospital Geral de Southampton, na Inglaterra, e seus colegas revisaram estudos sobre a eficácia de várias técnicas comuns para reforçar a memória

Os circuitos da lembrança inconscientemente, como parte da memória implícita. Ela liga a substância negra com o caudado e o córtex motor. Mas é a memória episódica ou autobiográfica (violeta) que possibilita a retenção de eventos vividos pessoalmente um dia. No circuito de Papez, as informações saem do hipocampo, passam pelos corpos mamilares, pelo tálamo e vão para o giro cingulado, no córtex cerebral.

Três sistemas de memória de longo prazo existem concomitantemente no cérebro: o de memória semântica (seta verde; apenas uma parte do circuito está representada) retém no hipocampo e no lobo temporal conhecimentos factuais como o que aprendemos na escola ou mesmo regras gramaticais. Habilidades motoras, como andar de bicicleta ou jogar pinguepongue, são possíveis graças à memória de procedimentos (laranja), que trabalha

Córtex motor Giro cingulado

Córtex cingulado

Tálamo Corpos mamilares

Hipocampo

Substância negra

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delphine bailly

Córtex temporal

Exercitar o corpo todos os dias tem efeitos muito positivos, ainda que seja durante atividades rotineiras como caminhadas, arrumação da casa, jardinagem e a subida de escadas uma enorme ajuda. Nessa estratégia, uma pessoa forma uma nova palavra com as letras iniciais daquilo que quer lembrar. Em 2008, as psicólogas Elizabeth L. Glisky, da Universidade do Arizona, e Martha L. Glisky, na época no Centro Médico Evergreen, em Seattle, descreveram outros métodos que envolvem elaboração visual ou semântica. Em um deles, uma pessoa evoca imagens associadas a algo que ele ou ela quer reter. Para se lembrar do nome “Mônica”, por exemplo, a pessoa pode imaginar a personagem criada pelo cartunista Maurício de Souza. Embora Glisky e Glisky tenham encontrado sustentação para essas técnicas visuais e semânticas, entre outras, elas fizeram a ressalva de que melhorias de memória no laboratório não se traduzem necessariamente em melhoramentos no dia a dia. Esses benefícios exigem praticar e aplicar as táticas regularmente. A lacuna em eficácia pode ser muito maior no caso de estratégias que envolvem tempo e esforço consideráveis para serem aprendidas. Além disso, melhorias em uma área da memória frequentemente não se generalizam e se difundem para outras. De modo geral, os estudos encontraram sustentação para a validade da afirmação “Use-a ou perca-a”. Quanto mais exigimos de nossa memória, por exemplo, ao lermos, desvendar quebra-cabeças e participar de jogos de tabuleiros, melhor ela pode ser – provavelmente porque essas atividades envolvem um exercício considerável. É claro que as pessoas que têm memórias mais afiadas também podem ser mais propensas a exercitar sua mente para começo de conversa, o que responde em parte (mas provavelmente não tudo) pela associação entre boa memória e quantidade de estímulo cognitivo. Se Mick Jagger estiver fisicamente em forma como parece, sua mente pode estar

seguindo o mesmo caminho. Alguns estudos constataram que níveis mais elevados de exercícios aeróbicos estão associados a uma memória melhor em adultos mais idosos. Quando o psicólogo Stanley Colcombe e seus colegas da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign revisaram 18 estudos controlados que abordavam essa associação em 2003, encontraram evidências de que a prática desses exercícios de fato levava a uma memória mais aguçada. Uma atividade aeróbica sustentada pode não ser a única maneira de manter a sua mente ágil e sua memória afiada. Em um estudo recente, a neurologista Ruth Ruscheweyh e seus colegas da Universidade de Münster, na Alemanha, avaliaram a atividade física total em 62 idosos ao longo de seis meses. O questionário da equipe incluía tanto perguntas sobre exercícios formais quanto rotinas diárias como caminhar para o trabalho, subir escadas e praticar jardinagem. Ao final do estudo, os pesquisadores associaram os aumentos de atividade geral reportados, independentemente de que tipo, a melhorias na memória episódica. Quanto maior o aumento dos níveis de atividade, maior o reforço da capacidade mnêmica. Portanto, manter-se fisicamente ativo através de exercícios regulares, com afazeres fora de casa (a pé ou de bicicleta, por exemplo) e execução de tarefas cotidianas, pode ser a melhor receita para revigorar seus poderes de recordação. A pesquisa sugere que muitas técnicas para fortalecer a memória, assim como um estilo de vida física e mentalmente ativo e estimulante, podem melhorar essa capacidade em adultos com mais de 60 anos. Ainda temos um longo caminho a percorrer antes que tenhamos métodos altamente eficazes, mas, diante do vigor desse campo, podemos esperar grandes progressos no futuro próximo.

PARA SABER MAIS Physical activity and memory functions: an interventional study. R. Ruscheweyh, C. Willemer, K. Krüger, T. Duning, T. Warnecke, J. Sommer, K. Völker, H. V. Ho, F. Mooren, S. Knecht e A. Flöel, em Neurobiology of Aging, vol. 32, no 7, págs. 13041319; 2011. Avaliação neuropsicológica. Leandro F. Malloy-Diniz, Daniel Fuentes, Paulo Mattos e Neander Abreu. Artmed, 2010. Train your brain: how to maximize memory ability in older adults. Robert Winningham. Baywood Publishing Company, 2009. Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. Eric R. Kandel. Companhia das Letras, 2009. La vita nascosta del cervello. A. Oliverio. Giunti, 2009. Memória. Ivan Izquierdo. Artmed (2ª edição), 2002.

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X

ENGANAÇÃO

Grupos descobrem mentiras melhor do que uma pessoa sozinha

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em sempre somos suficientemente habilidosos para identificar quando alguém conta uma lorota. A menos que estejamos a par de informações que contradizem diretamente uma falsa história, pesquisas já mostraram que, em média, percebemos apenas metade das mentiras que nos contam. Mas em equipe podemos ser mais perspicazes para descobrir se alguém está tentando esconder a verdade. Pelo menos é o que mostra um estudo publicado em junho na Proceedings of the National Academy of Sciences USA. Cientistas constataram, porém, que isso só ocorre quando os membros do grupo se consultam entre si antes de chegar a uma conclusão. O psicólogo Nicholas Epley, pesquisador da área de negócios, e o doutorando Nadav Klein, ambos da Universidade de Chicago, realizaram quatro experimentos para comparar a percepção da mentira de pessoas sozinhas ou acompanhadas. Em cada cenário, centenas de voluntários foram distribuídos em grupos de três para assistir a uma série de dez clipes de vídeo que apresentavam alguns oradores que diziam a verdade e outros que tentavam enganá-los. 34

Então, os participantes ponderaram sobre quais acreditavam estar simulando – alguns julgaram individualmente e de imediato, enquanto outros optaram por discutir o caso com os membros da equipe antes de tudo. Em todos os cenários, os grupos tiveram vantagem e detectaram mentiras em até 62% do tempo em comparação com os que agiram de forma independente. Os pesquisadores acreditam que os resultados não se resumem ao chamado efeito da “sabedoria popular” porque julgamentos não ajudaram a aumentar a habilidade para detectar engodos – isso só aconteceu quando houve discussão e várias opiniões foram consideradas. Os cientistas suspeitam que haja elementos sinérgicos envolvidos e pretendem aprofundar os estudos para compreender as condições e características grupais que favorecem esse fenômeno. “As conclusões não significam, necessariamente, que avaliações grupais sejam mais eficientes do que individuais”, pondera Epley. Mas enfatiza que os resultados sugerem a importância de discussões em equipe em locais onde somos convidados a apurar mentiras – de deliberações em um júri a investigações de fraudes de seguro. (Por Andrea Anderson, jornalista científica)

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Durante estudo, equipes detectaram a falsidade até 62% mais rápido do que voluntários que desempenhavam a tarefa sozinhos

neurocircuito

Em busca da verdade A análise de mais de 200 estudos sobre mentiras e capacidade de desvendá-las mostrou que pessoas sem nenhum tipo de treinamento tendem a distinguir engodos em pouco mais de 50% das vezes (aproximadamente o mesmo índice de acerto caso o indivíduo apenas “chutasse” um palpite, sem nenhuma convicção). Aqueles com formação mais específica, como psicologia clínica, se saem um pouTécnica Polígrafo

co melhor e demonstram precisão em torno de 65%. Para ajudar na tarefa de chegar mais perto do que se acredita ser a verdade, especialistas desenvolveram diversos métodos de investigação, mas nenhuma técnica é infalível, até porque não há comportamentos que indiquem o ato de enganar. Veja cinco métodos promissores que ajudam a detectar mentiras:

Como funciona

Precisão

O inconveniente

Detecta respostas automáticas relacionadas ao estresse, como o aumento da condutividade da pele (que mede a transpiração), a frequência cardíaca e respiratória e a pressão arterial

Os estudos variam significativamente e mostram fidelidade de 60% a mais de 90%

Sentimos estresse por diversas razões — nervosismo, raiva, dor, surpresa; além disso, indivíduos culpados podem tentar enganar usando sedativos ou antiperspirantes

Análise de estresse pela voz

Um programa de computador mede as flutuações nos padrões da fala, como os microtremores, o tom e a intensidade, na esperança de detectar níveis elevados de estresse, o que pode indicar mentira

Incerta

Um artigo de 2013 mostra que essa técnica identificou o estresse melhor do que um polígrafo, mas até que ponto isso significa que o método é um bom detector de mentiras permanece incerto

Microexpressões

Popularizados na série de televisão “Lie to Me” (Enganame se puder, no Brasil), esses movimentos involuntários faciais quase imperceptíveis podem expor uma gama de emoções, assim como a tentativa de enganar

Ainda é muito cedo para avaliar

Não há dados concretos que mostrem que as microexpressões são indicadores muito confiáveis de mentiras

Ressonância magnética funcional

A fMRI aponta mudanças no funcionamento cerebral. Estudos mostram que, quando mentimos, exibimos maior atividade no córtex préfrontal, que desempenha um papel na tomada de decisões

Obscura

Uma revisão publicada em 2013 na Frontiers in Human Neuroscience concluiu que as evidências científicas atuais ainda não são sólidas

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bem-estar

Sensação de não ter escolha aumenta o

estresse Mesmo em situações de pressão extrema, causada pela vivência do horror, da violência, ou pela morte de alguém querido, há a possibilidade de não se furtar a tomar decisões por Gláucia Leal

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ão há como fugir dele. O estresse já se incorporou ao cotidiano da maioria das pessoas, em especial nas grandes cidades. E, embora tenha se tornado nos últimos anos sinônimo de irritação, frustração e problemas a serem resolvidos, não é, por si só, necessariamente ruim. Pelo contrário: se hoje estamos aqui é porque, em momentos de grande risco à preservação da própria vida (como encontrar um predador pela frente), em frações de segundo o cérebro de nossos antepassados deu ordem para que fosse descarregada na corrente sanguínea uma considerável carga de hormônios. Esse processo orgânico, indissociável das consequências emocionais, os preparou para duas reações possíveis: lutar ou fugir. Obviamente havia outra possibilidade: ficar e ser inexoravelmente devorado pela fera – mas, claro, os que fizeram essa escolha não viveram para perpetuar seus genes e se tornar nossos ancestrais. O problema dessa história são os resquícios que carregamos desse funcionamento.

A AUTORA GLÁUCIA LEAL é jornalista, psicóloga e psicanalista. Editora-chefe de Mente e Cérebro. 36

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Não por acaso, quase todo mundo vive estressado na maior parte do tempo. Os números são impactantes. Segundo dados da International Stress Management Association (Isma), no Brasil 70% dos adultos economicamente ativos sofrem de estresse e quase metade desse contingente sente-se sobrecarregada em razão do trabalho. Brasileiros, aliás, ocupam o segundo lugar nesse ranking pouco atraente dos mais estressados do mundo – perdendo apenas para os japoneses. O quadro tem consequências graves: estudos científicos indicam que o nível de estresse e o estilo de vida da pessoa determinam em torno de 60% das doenças que ela pode vir a desenvolver. Especialistas americanos estimam que cerca da metade das internações diárias nos Estados Unidos hoje é causada por distúrbios direta ou indiretamente decorrentes da sobrecarga, principalmente emocional: são mais de 230 milhões por ano. Ainda assim, por estranho que possa parecer para alguns, o estresse tem seu lado positivo: pode ser benéfico, desde que ocorra em doses pequenas. Quem vive experiências instigantes e descortina horizontes inteiramente novos está sujeito a uma excitação estimulante. Ou seja: evitar o estresse a qualquer custo, além de impossível, seria, portanto, indesejável. “Quem vive de modo excessivamente pacato também sofre com estresse causado pelo tédio e pela monotonia”, afirma o endocrinologista Sepp Porta, chefe do Instituto março 2017 • mentecérebro 37

bem-estar

Se pararmos para nos questionarmos com sinceridade, provavelmente vamos descobrir que a maior parte dos motivos que nos incomodam é banal – batalhas nas quais poderíamos tranquilamente escolher apenas não entrar

para Pesquisas Aplicadas do Estresse, em Graz, na Áustria. Estudos confirmam suas palavras: a calma duradoura é tão estressante quanto uma vida demasiadamente agitada. A diferença mais marcante entre as pessoas muito e as pouco estressadas foi encontrada por pesquisadores ingleses do Centro Internacional de Saúde e Sociedade, por meio do famoso estudo Whitehall II. Durante vários anos, foram analisadas a saúde e as condições de trabalho e de vida de 10 mil funcionários públicos de meia-idade. Os resultados mostraram que a diferença fundamental na suscetibilidade ao estresse não reside nem nos fatores genéticos nem na estrutura psíquica dos indivíduos, mas em um fator psicossocial: quanto mais autônoma e dona de seu destino é uma pessoa, tanto menos está sujeita a tensões e ao estresse. É por esse motivo que, de acordo com os resultados coincidentes dos estudos americanos, suecos e ingleses, funcionários em posição de comando não apresentam a maior incidência de problemas decorrentes de tensão nervosa. Apesar de terem agendas superlotadas e carga excessiva de trabalho, pessoas em posição de comando costumam ser mais relaxadas que seus subalternos. Estes últimos, embora só precisem trabalhar oito horas por dia, têm de cumprir tarefas que lhes são impostas e obedecer a prazos. E, muitas vezes, se frustram por não se sentirem reconhecidos como gostariam. Podemos pensar que essa situação se agrava quando, inconscientemente, nutrimos em relação a nossos chefes a expectativa da aceitação incondicional que outrora desejamos ter de papai e mamãe. É claro que essa dependência da aprovação de figuras de autoridade pode ser vista (e possivelmente transformada) na psicoterapia 38

– mas, enquanto persiste, é inegavelmente estressante e tem efeitos no corpo. Vários estudos recentes mostram a alta proporção de vítimas de infarto que sofreram rebaixamento profissional e, com isso, perderam liberdade de decisão. Algumas delas talvez apresentassem propensão genética ao estresse, outras talvez carregassem traumas de infância, e em vários casos o infarto estava relacionado às suas características de personalidade. Mas não há dúvida de que, na maioria dos pacientes, o fator psicossocial exerceu papel determinante no desencadeamento da doença. Em última instância, porém, o fator psicossocial é o único que decorre em sua totalidade da ação humana, o que abre possibilidade de ser modificado. Não há como influenciar a herança genética de um indivíduo; do mesmo modo, sua estrutura de personalidade dificilmente é modificada. Mas os fatores psicossociais talvez possam ser alterados com resultados positivos. Apesar das boas perspectivas, as receitas correntes de combate ao estresse – banhos quentes, exercícios físicos, relaxamento muscular –, não obstante seu efeito inegavelmente benéfico, não alteram estruturalmente as fontes de estresse. Nos últimos anos, cada vez mais especialistas têm concordado que, tão importante quanto mudar as coisas em si, concretamente, é imprescindível alterar a relação que temos com as situações da própria vida. ÓCIO CRIATIVO Há alguns anos, a psicóloga Rebecca Shansky, pesquisadora da Universidade Northeastern, em Boston, descobriu, em estudos com animais, que o estresse prolongado afeta as conexões entre os neurônios no córtex pré-frontal. Nos seres humanos, essa região regula funções cognitivas superiores como a concentração e a organização. Alterações estruturais podem levar a deficiências nessas funções. Há pessoas que se sentem especialmente estimuladas quando são desafiadas com questões trabalhosas, mas não impossíveis de serem resolvidas. “Nesses casos, a pressão mental pode energizar o desempenho, mas sempre há um limite para o que podemos suportar de forma saudável”, observa

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o pesquisador Stuart Sidle, da Universidade de New Haven, em Connecticut. Na maioria das vezes, o “remédio” para a sobrecarga do cotidiano pode ser mais simples do que muitas pessoas imaginam. “Para manter a sanidade, basta dar um passo atrás”, afirma Rebecca Shansky. Uma pausa é importante não só para garantir saúde psicológica, mas para manter o bem-estar físico. Estudos realizados por ela em animais revelam que se após um período grande de sobrecarga houver um período de descanso, as mudanças neuroanatômicas tendem a reverter. “Precisamos recarregar nossas baterias mentais, por isso ter tempo simplesmente para não fazer nada é fundamental”, argumenta Phillip Clifford, do Medical College of Wisconsin, em Milwaukee, numa referência à ideia do ócio criativo, apresentada por Domenico de Masi. O cientista italiano se tornou famoso ao defender uma melhor distribuição entre atividade profissional, estudo e lazer. Diferentemente do que alguns acreditaram, ele não prega a diminuição das horas trabalhadas, mas a diversificação de atividades, com maior integração entre produção e prazer. E, se pararmos para pensar e nos questionarmos com sinceridade, provavelmente vamos descobrir que a maior parte dos motivos que nos estressam é banal – batalhas nas quais poderíamos tranquilamente escolher simplesmente não entrar. Até porque “vencer” (respondendo no mesmo tom a alguém que disse algo ríspido ou tendo a última palavra em uma discussão, por exemplo) não vai melhorar em nada nossa vida. Mas o fato é que tendemos a reagir aos agentes estressores do dia a dia – congestionamentos, divergências com parceiros ou colegas, pressões profissionais, contas a pagar etc. – como se fossem predadores que ameaçassem nossa vida. Não raro, nos sentimos tão tomados pelos problemas e pela sobrecarga a ponto de adoecer e nos esquecer de que nem sempre é preciso suportar passivamente (ainda que reclamando, esperneando e mesmo assim sem sair do lugar) o peso das sobrecargas que povoam nossos dias e nos levam à exaustão mental e emocional. Nesse caso, recorro a um pouco de liberdade poética para uma reinterpretação do que poderia

ser entendido por lutar ou fugir. A luta ganha conotação mais ampla quando nos antepomos ao que oprime e buscamos saídas por meio de uma reflexão crítica, inteligente e objetiva a respeito da própria vida. Um exemplo banal: o trânsito provoca cansaço, mau humor, e disso advêm sintomas físicos, sabemos. E aí chegamos ao cerne da questão – a razão pela qual conferimos a essa situação lugar tão importante, mesmo considerando que, em si, não podemos alterá-la, já que o trânsito provavelmente continuará intenso e caótico ainda por muito tempo. É possível mudar o horário de sair de casa, o trajeto, até mesmo a cidade? Principalmente, é possível mudar a atitude? É o caso de olhar a fera nos olhos ou então, eventualmente, fugir, sim, por que não? Mas de forma consciente, sabendo que, mesmo nas ocasiões em que parece não haver margem de manobra, ainda há alguma chance de autonomia. Às vezes – menos do que gostaríamos, é verdade – as circunstâncias não são estanques. Mudam e, com elas, se transformam as relações consigo mesmo e com os outros. Até para o estresse supremo, causado pela vivência do horror, da violência, ou pela morte de alguém querido, há a possibilidade de não se furtar ao doloroso processo de sobreviver. E, apesar do sofrimento e do cansaço, descobrir que é possível reinventar-se e criar brechas de afeto e prazer.

PAUSAS SÃO IMPORTANTES não só para garantir saúde psicológica, mas para manter o bem-estar físico

março 2017 • mentecérebro 39

saúde mental

O componente auditivo do

autismo

Novas evidências sugerem que pessoas com o transtorno entendem os sinais sociais transmitidos por vozes por Anne Pycha, jornalista científica

“O

s olhos são a janela da alma”, afirma o ditado popular. Pessoas com autismo, no entanto, muitas vezes são incapazes de julgar quando um olhar ou mesmo uma expressão facial transmite emoções básicas, como alegria ou tristeza. Muitos pesquisadores tomam essa dificuldade de decodificar intenções e sentimentos alheios como evidência de que o autismo envolve sérios déficits de processamento de informações sociais. Mas som também pode fornecer pistas emocionais importantes, e vários estudos recentes indicam que, quando ouvem vozes, autistas são capazes de reconhecer emoções e outros traços como pessoas consideradas neurotípicas (que não apresentam distúrbios significativos do funcionamento psíquico). Em alguns casos, a percepção de autistas foi até superior à de pessoas sem o diagnóstico. Apesar do interesse que a constatação provocou no meio científico, muitos pesquisadores foram cautelosos. “Os estudos foram específicos, a amostra, pequena e se concentrou apenas em adultos bastante funcionais, cujas habilidades não são necessariamente representativas da população autista mais ampla”, salientou Andrew Whitehouse, chefe de pesquisa de autismo no Instituto Telethon Kids, em Perth, na Austrália. ”E o êxito em uma tarefa

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de laboratório não se traduz necessariamente em sucesso em interações sociais no mundo real”, acrescentou Helen Tager-Flusberg, professora de ciências psicológicas e cerebrais na Universidade de Boston. Ainda assim, os estudos sugerem que, para pelo menos alguns subgrupos de pessoas autistas e em certas situações, déficits na identificação de emoções poderiam ficar restritos principalmente às percepções associadas à visão. “Isso é uma grande notícia da perspectiva de tratamento”, comemora Kevin Pelphrey, diretor do Instituto de Autismo e Distúrbios de Desenvolvimento Neurológico da Universidade George Washington. “É muito mais fácil ajudar alguém a superar uma incapacidade de ler emoções em rostos do que seria tratar de uma falta fundamental de compreensão de emoção de todas as modalidades.” TRÊS NOVOS ESTUDOS O cientista Daniel Javitt e um grupo de colegas do Instituto Nathan Kline para Pesquisa Psiquiátrica exibiram fotografias de rostos que expressavam felicidade, tristeza, medo ou raiva a 19 voluntários com autismo. Nenhum deles se saiu bem na tarefa de identificar essas emoções. Mas, quando pesquisadores tocaram audioclipes de vozes que

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transmitiam sentimentos similares, os participantes do estudo reconheceram e nomearam as emoções relevantes tão bem quanto um grupo de controle, formado por pessoas sem o diagnóstico. Os dados foram publicados em agosto no Journal of Psychiatric Research. A neurocientista Tamami Nakano, da Universidade de Osaka, no Japão, e seus colegas pediram que participantes de outro estudo avaliassem vozes cantadas de pessoas e outras geradas por computador. Embora o desempenho dos grupos de autistas e de controle fosse diferente para as vozes reais, os 14 participantes com autismo deram às vozes artificiais as mesmas notas baixas por suas qualidades humanas e emocionais que seus pares neurotípicos. Os resultados foram publicados em agosto na Cognition. Uma equipe liderada por I-Fan Lin, da Universidade Metropolitana de Tóquio, mediu a

rapidez com que pessoas conseguiam julgar se determinado som vinha ou não de um ser humano (os exemplos de áudio incluíram um violino tocando dada nota musical e uma pessoa pronunciando a vogal “i”). Os 12 participantes com autismo não só executaram a tarefa mais rapidamente que seus pares neurotípicos como também se saíram melhor ao responder prontamente a vozes humanas mesmo quando faltavam importantes componentes acústicos. Os resultados foram publicados online na Scientific Reports. março 2017 • mentecérebro 41

shutterstock/arte fval

comportamento animal

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A rede social dos bichos Em muitas espécies, amizades influenciam fortemente a vida dos indivíduos e do grupo. Vemos desde associações simples entre alguns peixes que formam um cardume para viajar juntos até configurações muito complexas, como as encontradas em bandos de babuínos em que ocorrem múltiplas relações de hierarquia e afeto por Lee Alan Dugatkin e Matthew Hasenjager

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oa parte de nossa vida é influenciada por quem está em nossas redes sociais: dependemos de famílias estendidas, amigos de amigos de amigos, colegas de trabalho e suas conexões para obter informações sobre tudo, de indicações de leitura a como votar e que carreiras seguir. Mas não estamos sozinhos nessa dependência: redes sociais afetam também as experiências diárias e, de fato, a sobrevivência de indivíduos em muitas espécies animais. Há décadas se sabe que chimpanzés e outros primatas têm complexas vidas sociais. Estudos mais recentes revelaram que atividades de aves, golfinhos e outras criaturas isoladas só fazem pleno sentido em seus contextos sociais. Essas descobertas poderiam afetar desde esforços para conservação a entendimento de nossas próprias redes sociais.

OS AUTORES LEE ALAN DUGATKIN é professor de biologia na Universidade de Louisville; autor de mais de 150 artigos científicos e dos livros The altruism equation: seven scientists search for the origins of goodness e Mr. Jefferson and the giant moose: natural history in early America (nenhum deles lançado em português). MATTHEW HASENJAGER é pesquisador, doutorando da Universidade de Louisville.

Investigações sobre animais, muitas vezes empregando técnicas desenvolvidas para conhecer melhor o comportamento grupal humano, podem retroalimentar estudos futuros feitos por nós e sobre nós. Etólogos, estudiosos do comportamento animal, precisaram de tempo e de novas maneiras de pensar para reconhecer a importância das redes sociais no reino animal. Na década de 30, o pesquisador Konrad Lorenz, futuro ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973, publicou seus famosos trabalhos em que descreveu como induzir em gansos o instintivo apego emocional de um recém-nascido aos primeiros cuidadores que encontra durante um período crítico no desenvolvimento. A ideia de que a maioria das criaturas são, basicamente, autômatos que se engajam em um comportamento instintivo, programado (ou seja, geneticamente controlado), logo se tornou dogma. Pesquisadores perceberam rapidamente, porém, que fatores externos interagiam com a programação gênica subjacente. O inato (natureza, genes) mais o adquirido (ambiente) impulsionavam o comportamento animal. Emmarço 2017 • mentecérebro 43

comportamento animal bora essa afirmação possa parecer abrangente, ela na realidade não é muito útil, porque o inato mais o adquirido incluem praticamente toda influência que se possa imaginar. SINAIS DE INTELIGÊNCIA Por essa razão, pesquisadores passaram a avaliar como o aprendizado por tentativa e erro também moldava o comportamento. Junto com as observações de campo, esses estudos resultaram, forçosamente, no reconhecimento de que animais eram muito mais espertos e inteligentes do que imaginávamos: chimpanzés e corvos produzem e usam ferramentas; papagaios resolvem problemas usando lógica; elefantes desativam cercas elétricas com grandes pedras que deixam cair sobre elas. Enquanto estudavam esses sinais óbvios de inteligência, pesquisadores notaram também que alguns animais em grupos aprendiam comportamentos copiando seus companheiros mais próximos. E um membro do grupo em particular talvez notasse que estava sendo observado por outros que tentavam obter informações sobre ele. É claro que, como físicos bem sabem, uma vez que você transpõe questões (de interação entre) entre dois corpos, as coisas podem ficar excessivamente complicadas. Por isso, as primeiras tentativas de estudar formas de interação entre indivíduos em um grupo social frequentemente envolviam dois ou três animais. Dezenas de estudos analisaram o modo como um animal imitava outro na escolha de um par, ou se concentraram em um membro do grupo espionando as habilidades de luta física de potencial concorrente, ou em um aproveitador que roubava alimento de componentes mais produtivos do grupo. Mas, quanto mais os etólogos estudavam

Interações que determinam escolhas na hora de brincar, brigas e gestos de solidariedade têm implicações importantes para sobrevivência e reprodução; por meio delas são disseminadas informações cruciais sobre alimentos e predadores 44

esses comportamentos, mais eles percebiam que essas interações entre alguns poucos indivíduos eram apenas uma indicação do intrincado conjunto de relacionamentos entre todos os membros de um grupo. O que era necessário para uma compreensão mais profunda e completa da vida social de animais era o reconhecimento de que muitos deles, assim como nós, humanos, estão inseridos em complexas redes sociais, relações que conectam cada indivíduo aos demais. A aplicação moderna dessa abordagem passou a ser consistente há uns 15 anos, quando etólogos começaram a adotar livremente métodos consagrados por cientistas sociais para o estudo de redes sociais humanas; primeiro, em locais de trabalho ou bairros e, mais tarde, em comunidades virtuais como o Facebook e o Twitter. Em animais, redes sociais vão desde simples associações que envolvem apenas alguns indivíduos, como um cardume descontraído de peixes que viajam juntos, a configurações muito mais complexas, como as encontradas em bandos de babuínos em que indivíduos são inseridos em múltiplas relações sobrepostas (como redes de acasalamento, dominância ou higienização) capazes de influenciar o grupo direta e indiretamente. Redes podem mudar com frequência: membros podem ir e vir, e os indivíduos podem mudar suas posições e conexões em resposta a doença, aquisição de conhecimentos e interações anteriores. Tanto em sociedades animais simples como complexas, interações da rede têm implicações importantes para sobrevivência e reprodução. A precisão de informações sobre alimentos, predadores e pares, assim como a velocidade com que essas informações são transmitidas em um grupo, dependem da estrutura de uma rede social. Está relacionada a escolhas para brincar, desavenças e solidariedade. Além disso, doenças e parasitas podem ser transmitidos de um indivíduo a outro sem contato direto ao repassarem o patógeno através de intermediários. Como parte de suas avaliações gerais, pesquisadores identificam várias características de redes animais: os indivíduos-base (que têm muitas conexões e cujo afastamento/elimi-

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nação interrompe a rede social); os “nodos” (qualquer indivíduo incluído na rede); a densidade da rede (uma proporção entre o número de vínculos reais e o número de todos os elos possíveis); o grau (o número de vínculos entre cada indivíduo e todos os outros); o alcance (o número de amigos dos amigos de um indivíduo); e a centralidade (a porcentagem de todas as conexões entre indivíduos que incluem determinado animal). A maioria das pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, tem baixa centralidade à escala do país, mas quase todas sabem quem é o presidente e estão conectadas a ele por meio de suas autoridades locais; a centralidade dele chega perto de 100%. PAPEL DE POLÍCIA Para ter uma ideia de como redes sociais operam na natureza, e de que maneira podem ser o principal impulsionador de todos no grupo se comportam em última análise, vamos tratar das vidas não tão privadas de três espécies não humanas. Macacos-rabo-de-porco (Macaca nemestrina), por exemplo, estabelecem múltiplas ligações, como as formadas por amigos de brincadeiras ou parceiros de higienização. Redes diferem em tamanho, e um macaco pode ter parceiros favoritos em diferentes redes. Um animal também pode desempenhar um papel mais proeminente em uma rede que em outra. Mas as várias redes compartilham um aspecto comum: elas operam sob o olhar vigilante de algumas figuras de autoridade que mantêm a paz. Esses “policiais”, alguns dos machos da mais alta hierarquia do grupo, investem tempo e energia apartando brigas entre outros indivíduos de suas redes sociais. A cientista Jessica Flack, do Instituto Santa Fe, no Novo México, e seus colegas (inclusive o renomado primatólogo Frans de Waal, da Universidade Emory, na Geórgia) estudaram o papel desses animais policialescos em um bando de 84 macacos no Centro Nacional Yerkes de Pesquisa de Primatas, em Emory, do início a meados da década de 2000. Geneticistas frequentemente decifram o papel de um único gene em uma célula ou um organismo ao desligá-lo e observar as consequências de sua ausência. A equipe de

Flack adaptou essa abordagem de “neutralização” aos Macaca removendo três animais machos com função de policiamento. Em seguida, observaram e esperaram. A ausência de um membro de baixo escalão do grupo praticamente não afetou as redes sociais. Mas, como era de esperar, a ausência de “policiais” resultou em um aumento de agressões e menos reconciliações após brigas na população. O que foi menos previsível é que, sem a presença dos “policiais”, as redes de colegas de brincadeiras e higienização também sofreram uma complexa reestruturação. Sem os policiais, diminuiu o número de parceiros de brincadeiras e higienização dos integrantes do grupo. Ou seja, o “grau” de suas redes de diversão e higiene diminuiu. E o “alcance” dos animais remanescentes – número de amigos de amigos de dado indivíduo – também decresceu nessas redes. Ao mesmo tempo, a coesão de toda a sociedade enfraqueceu; a população passou por uma espécie de “balcanização”, dividindo-se em grupos menores e mais homogêneos que raramente interagiam com estranhos. Essas observações levaram Flack e seus colegas a teorizar que a presença de animais “policiais” possibilitava uma rede mais saudável e densa, em que os membros tinham contatos mais amigáveis e mais frequentes com um número maior de seus companheiros. Esse tipo de experimento de “neutralização”, sugerindo que alguns indivíduos em uma rede são especialmente valiosos para sua estrutura, mostra que a compreensão de

MACACOS-RABO-DEPORCO estabelecem múltiplas relações: um animal pode desempenhar um papel mais proeminente em uma rede que em outra

março 2017 • mentecérebro 45

comportamento animal

formulação de políticas, a fim de minimizar o impacto de nossas ações sobre essas criaturas maravilhosas.

INTERAÇÕES INFLUENCIAM desde as oportunidades de acasalamento entre manakins-de-caudalonga (ao lado), até a propensão de alguns golfinhos-nariz-degarrafa de cooperar com pescadores humanos

redes sociais animais pode ser importante para a biologia conservacionista. Considere o caso de “baleias assassinas” (Orcinus orca), conhecidas como orcas. Fêmeas, tanto jovens individuais como agrupamentos de aparentadas, parecem ser polos importantes de transmissão de informações sobre oportunidades de forrageio e outros aspectos da vida no mar. Qualquer interferência humana que perturbe essas “centrais” de informações isoladas ou em grupo, da caça à poluição oceânica, à construção de barreiras que as impeçam de nadar livremente em seu ambiente, pode interromper severamente a rede social das orcas e enfraquecer as perspectivas de sobrevivência do grupo inteiro. Essa compreensão poderia, no mínimo, servir para esclarecer a 46

PARCEIROS DE CANTO E DANÇA As redes sociais de populações selvagens de aves em seus hábitats naturais também têm sido objetos de análise. Uma dessas espécies é o manakin-de-cauda-longa (Chiroxiphia linearis) da América Central. Os machos são extraordinariamente bonitos, diferenciados por suas penas de cor índigo, “capacetes” vermelhos e, como o nome indica, caudas longas e finas. Encontre o par certo de machos empoleirados em um galho, e um observador de pássaros pode testemunhar um comovente e encantador show de canto e dança. Manakins fêmeas também assistem a essas exibições e as avaliam quando escolhem companheiros. Para os machos, a chance de poder se apresentar é muito importante. Mas, infelizmente para eles, a competição pela oportunidade de participar de um desses duetos é altamente concorrida e muitas vezes bastante agressiva. O pesquisador David McDonald, da Universidade do Wyoming, observou essas aves na Costa Rica por mais de dez anos, totalizando 9.288 horas. Com técnicas de análise de redes sociais, ele descobriu que os machos com um alto grau de conectividade no início de sua vida conquistam o privilégio de se exibir nessa “noite de microfone ao vivo” aviária.

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Como em qualquer competição de dança, tudo é bastante complicado, mas é algo mais ou menos assim: conjuntos de oito a 15 machos passam seu tempo em “zonas de poleiros”, áreas que contêm um ou vários galhos onde as aves se apresentarão. Qualquer macho em um agrupamento pode praticar seu canto e dança em um poleiro fora do período de reprodução (do final de fevereiro ao início de setembro) ou até durante a época de acasalamento, desde que não haja fêmeas por perto. Mas na época reprodutiva, quando elas estiverem presentes, só os dois machos mais destacados, denominados alfa e beta, podem cantar e dançar em poleiros. De fato, os artistas concorrentes formam uma equipe para enxotar agressivamente todos os outros machos da área. O macho alfa conquista quase todas as oportunidades de acasalamento em uma zona de poleiro. A recompensa para o macho beta é a sucessão à cobiçada posição no topo quando o alfa reinante morre. Esse sistema cria um enorme benefício para o alfa e o beta, vantagem que todos os machos querem, mas poucos conseguem. À medida que jovens machos amadurecem, entre um e seis anos, eles frequentemente transitam entre zonas de poleiros, estabelecendo relações com muitos outros machos. A idade média de um macho reprodutor bem-sucedido é de 10 anos, o que significa que, à medida que amadurece, qualquer macho tem muitos outros companheiros em sua rede social. Em suas quase 10 mil horas de trabalho de campo, McDonald monitorou quais machos interagiam uns com os outros todos os anos durante mais de dez anos. Com seus dados, ele construiu um mapa de redes sociais para verificar se a estrutura da rede revelaria quais animais acabavam sendo “vencedores”, exibindo-se como bem-sucedidos cantores de dueto. Suas análises de rede levaram em conta tanto os caminhos curtos, que conectavam um exemplar diretamente a outro, como caminhos indiretos, que podiam incluir interações entre aves a vários elos de distância do primeiro indivíduo. (“Não conheço Bert pessoalmente, mas conheço Caco, o Sapo, que conhece Ernie, que conhece Bert” – re-

Não raro, animais revelam interesse em se aproximar de alguns de seus semelhantes e se mantêm mais afastados de outros, o que leva cientistas a crer que haja diferentes graus de afinidade e simpatia entre os indivíduos ferência a personagens de Vila Sésamo.) Por fim, McDonald determinou que o segredo de tudo era a “centralidade”: machos “centrais” eram muito mais propensos que animais menos bem relacionados a ascender na hierarquia reprodutiva, ocasionalmente atingindo os status de alfa e beta que lhes permitiriam subir ao palco para conquistar os corações de fêmeas com seus cantos e danças. Esse tipo de pesquisa identifica estruturas de rede e as associa a comportamentos observados. Nesse caso, uma conexão direta entre estrutura e comportamento é presumida, não provada. É possível que, em vez de conquistarem poder graças às suas muitas conexões, machos alfa e beta tivessem estabelecido muitas ligações por características que os tornavam populares entre seus pares. Pelo fato de muitas ferramentas da teoria de redes terem sido importadas das ciências sociais, não é surpresa que alguns dos primeiros objetos de estudo de detalhadas análises de redes sociais não humanas tenham sido golfinhos-nariz-de-garrafa, já reconhecidos como animais inteligentes, de cérebro grande e altamente sociais. No final da década de 90, o então pós-graduando David Lusseau se apaixonou pelos golfinhos-roaz (Tursiops truncatus) do estreito Doubtful, um magnífico fiorde no sul da Nova Zelândia, a mais de 320 km a oeste da Universidade de Otago, onde fazia sua dissertação de doutorado. Hoje na Universidade de Aberdeen, na Escócia, Lusseau monitorou os belos animais por sete anos. Uma de suas ferramentas foi a fotografia, que o ajudou a sistematizar marcas naturais de todos os 64 golfinhos no estreito Doubtful e monitorá-los. Depois de ter observado mais de mil grupos de vários tamanhos, que incluíam subconjuntos desses 64 animais, Lusseau verificou março 2017 • mentecérebro 47

comportamento animal que os golfinhos eram parte de uma grande rede social que vinculava quase todos eles. Além disso, constatou que golfinhos individuais preferiam a companhia de apenas alguns membros específicos do grupo. Mas ele não conseguiu identificar a razão disso. O que a conectividade em rede de golfinhos alcançava e que tipo de informações ou benefícioseram compartilhados entre seus associados Para investigar essas questões mais a fundo, Lusseau se uniu a Paulo C. Simões-Lopes, do Laboratório de Mamíferos Aquáticos da Universidade Federal de Santa Catarina. Eles

estudaram uma população de 55 golfinhos-nariz-de-garrafa que se engajavam em um comportamento singular que Simões-Lopes identificara alguns anos antes: uma interação mutuamente benéfica com os pescadores artesanais catarinenses. A cada primavera, de abril a junho, pescadores na região brasileira de Laguna usam uma técnica introduzida na área por colonos portugueses dos Açores há mais de 200 anos. Eles lançam longas redes na água para pegar cardumes de tainhas (Mugil platanus) que migram das águas mais frias ao largo da Ar-

Unidos para pescar pescadores (indicado por quadrados). Golfinhos do terceiro grupo (laranja) também não demonstraram interesse nos pescadores, com a notável exceção de um animal, conhecido como golfinho “20” (círculo laranja). Esse animal ajudou os humanos e agiu como intermediário entre sua equipe e o grupo cooperativo 1, e talvez ainda ensine o bando 3 a trabalhar com humanos. É sabido que a colaboração entre golfinhos e pescadores aumenta a disponibilidade de alimento para os animais e o volume de captura dos humanos.

Grupo 2

Interações dentro dos grupos (cinza escuro) Cooperativos com pescadores Não cooperativos com pescadores

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¹¨Š´›¹÷Ĉ Pescadores

Interações entre os grupos (cinza-claro)

fonte: “the structure of a bottlenose dolphin society is coupled to a unique foraging cooperation with artisanal fishermen”, por f. g. daura-jorge et al., em biology letters, vol. 8, nº 5; 23 de outubro de 2012; arte jen christiansen

Alguns membros de uma comunidade de golfinhos na região de Laguna, no Sul do Brasil, desenvolveram uma aliança única com pescadores artesanais locais, unindo-se nos esforços para capturar tainhas. Os golfinhos formaram três “equipes”. Todos os membros do grupo 1 (verde) colaboraram (indicado por círculos) com os pescadores e eram altamente interativos (linhas unindo os animais individuais) entre si. Integrantes da equipe 2 (violeta) interagiram menos uns com os outros que os animais do grupo 1 e não tiveram contato com

gentina. Nos últimos anos, esses pescadores têm recebido ajuda: alguns, mas só alguns, dos golfinhos-nariz-de-garrafa nas lagunas de fato arrebanham os cardumes de tainhas “tocando-os” na direção dos pescadores. No momento exato, os golfinhos batem a cabeça ou a cauda na superfície da água. Essas batidas sinalizam aos seus parceiros humanos quando e onde lançar suas redes. O resultado dessa notável interação é que as duas espécies de mamíferos pegam mais peixes do que fariam sem essa colaboração. A experiência anterior de Lusseau levou-o a considerar a análise de redes sociais como um meio de examinar os detalhes desse comportamento incrível. De setembro de 2007 a setembro de 2009, Lusseau, Simões-Lopes e alguns colegas saíram de barco pelo sistema lagunar, com fotografias de golfinhos, e reuniram dados sobre animais que estavam nadando juntos. A equipe conseguiu coletar informações confiáveis sobre 35 dos 55 golfinhos nessa população. Mesmo incompletos, os dados deixaram claro que esses mamíferos tinham estabelecido uma rede social altamente estruturada. A análise estatística concluiu que os golfinhos de Laguna podiam ser subdivididos em três grupos nos quais os indivíduos passavam a maior parte do tempo. Embora todos tivessem algumas interações tênues, eles tendiam a nadar juntos e interagir mais com os outros da própria “turma”. Associações tão estreitas como essas poderiam facilitar a transmissão de informações entre membros. O grupo 1 tinha 15 golfinhos, e todos cooperavam com os pescadores locais. Todos os integrantes dessa “turma” altamente interconectada se relacionavam com frequência na temporada outonal de pesca de tainha e no resto do ano. O fluxo de informação era fácil. Não foi surpresa, portanto, o grupo 1 se beneficiar de sua relação com os pescadores enquanto os outros dois perdiam essa oportunidade. Os grupos 2 e 3 diferiam acentuadamente do primeiro. Nenhum dos 12 golfinhos da turma 2 colaborava com os pescadores. E, embora todos desse grupo estivessem juntos tanto durante como fora da temporada de pesca, suas relações sociais eram mais fracas

que as observadas entre animais do grupo 1. Dos oito golfinhos da turma 3, sete não cooperaram com os pescadores; mas um, apelidado “20”, colaborou. E de todos os golfinhos na população da região de Laguna, ele foi o que passou mais tempo interagindo com os integrantes de todos os grupos. Parece que o golfinho 20 agia como elo entre seu grupo e o grupo colaborador 1 (veja quadro na pág. ao lado). Determinar a influência de intermediários desse tipo em redes altamente complexas pode ser promissor para futuros estudos. De qualquer modo, os resultados atuais indicam que uma rede coesa, como no caso do grupo 1, pode ajudar animais a superar desafios que não conseguem resolver sozinhos; nesse caso, encontrar uma forma de se comunicar com eficiência com membros de outra espécie: pescadores humanos. Os pesquisadores ainda não sabem se alguns indivíduos-chave, ou dominantes, do grupo 1, talvez mais velhos e experientes, ensinam outros membros a cooperar com os pescadores. Mas, em vista do fato de que ensinar é algo já constatado para outros comportamentos alimentares complexos de golfinhos, não seria surpreendente encontrar uma instrução similar sendo repassada aqui. De fato, tradições socialmente aprendidas como essa formam a base da cultura animal e são fortemente facilitadas por redes sociais. Atitudes em relação a animais evoluíram muito desde a concepção inicial de vê-los apenas como seres irracionais que executam programas genéticos. Etólogos agora sabem que muitos animais são bem mais espertos, têm comportamentos flexíveis e mais aptos a aprender que os pioneiros desse campo jamais poderiam ter sonhado. Prevemos que mais pesquisas sobre redes sociais e maior divulgação desses estudos mudarão de forma mais acentuada o modo como pensamos sobre animais. Ao contrário de autômatos pré-programados, muitas criaturas não humanas passam sua vida, como nós, inseridas num complexo meio social – redes em que interações diretas e indiretas com outros indivíduos determinam grande parte do que realmente é importante para a sobrevivência e o sucesso.

PARA SABER MAIS Structure of male cooperation networks at long-tailed manakin leks. Andrew J. Edelman e David B. McDonald, em Animal behavior, vol. 97, págs. 125133; novembro de 2014. Herd composition, kinship and fission-fusion social dynamics among wild giraffe. Fred B. Bercovitch e Philip S. M. Berry, em African Journal of Ecology, vol. 51, nº 2, págs. 206-216; junho de 2013. The structure of a bottlenose dolphin society is coupled to a unique foraging cooperation with artisanal fishermen. F. G. Daura-Jorge et al., em Biology Letters, vol. 8, nº 5, págs. 702-705; 23 de outubro de 2012. Policing stabilizes construction of social niches in primates. Jessica C. Flack et al., em Nature, vol. 439, págs. 426-429; 26 de janeiro de 2006.

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gestação

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Gravidez causa mudanças duradouras no

cérebro da mulher Mães apresentaram remodelação neural até dois anos após o parto; as alterações ajudam na adaptação à maternidade

T

er um ser humano crescendo dentro da própria barriga não é algo corriqueiro. Os hormônios proliferam e o corpo sofre uma enorme transformação física. Mas as mudanças não terminam aí. Um estudo publicado na Nature Neuroscience revela que durante a gravidez as mulheres sofrem uma remodelação significativa no cérebro – e o mais intrigante: essa alteração persiste por pelo menos dois anos após o nascimento do bebê. O estudo oferece também evidências preliminares de que essa remodelação pode desempenhar um papel importante em ajudar as mulheres na transição para a maternidade.

Uma equipe de pesquisa da Universidade Autônoma de Barcelona, liderada pela neurocientista Elseline Hoekzema, da Universidade de Leiden, realizou exames cerebrais em mulheres antes e depois da gravidez. Os cientistas encontraram mudanças significativas nas regiões cerebrais cinzentas (onde há maior concentração de neurônios) associadas à cognição, em especial às percepções e relações sociais e à capacidade empática de se colocar no lugar do outro e imaginar o que se passa na mente alheia. Essas áreas foram ativadas quando as mulheres olhavam fotos de seus bebês. As mudanças, que ainda estavam presentes dois anos após o nascimento, se mostraram em altas pontuações obtidas pelas voluntárias em testes de apego materno. Curiosamente, eram tão claras que um algoritmo de computador poderia usá-las para identificar quais mulheres estavam grávidas ou tinham tido filhos nos últimos meses. Uma das características da gravidez é um enorme aumento nos hormônios sexuais, como a progesterona e o estrogênio, que ajudam o corpo feminino a se preparar para a chegada da criança. Há apenas outra ocasião em que nosso corpo produz quantidades grandes similarmente dessas substâncias: durante a puberdade. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que, nessa fase, os hormônios causam mudanças estruturais e organizacionais significativas no cérebro. março 2017 • mentecérebro 51

gestação Durante a adolescência, tanto os meninos quanto as meninas perdem a substância cinzenta, já que as conexões cerebrais das quais não precisam são podadas e seu cérebro é esculpido em sua forma adulta. No entanto, poucas pesquisas têm se concentrado nas alterações anatômicas cerebrais durante a gestação.

À flor da pele O pediatra e psicanalista Donald W. Winnicott descreveu um estado de sensibilidade aumentada durante o final da gravidez e persistente por várias semanas no pós-parto – condição fundamental para a criação de um ambiente propício ao desenvolvimento da criança. Apenas uma mãe sensibilizada pode “sentir-se como seu filho” e assim interpretar e responder às necessidades dele. O gráfico abaixo simula a curva temporal dessa sensibilidade materna na gravidez e no pós-parto, que coincide com as descrições de estudos controlados feitos de 1972 a 1990 em hospitais americanos e canadenses, entre outros, para verificar a hipótese de um período sensitivo materno. De modo geral, procurou-se investigar se o contato mais íntimo da mãe com seu recém-nascido, logo após o nascimento e as primeiras horas de vida, poderia alterar a qualidade do apego estabelecido ao longo do tempo. Hipótese confirmada, os resultados serviram de base para modificações nas práticas hospitalares, como o alojamento conjunto.

Sensibilidade

0

3

6 Tempo em meses

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9

12

fonte: pais e bebês: a formação do apego. artes médicas, 1993

Nascimento

Hoekzema e seus colegas realizaram exames neurológicos detalhados da anatomia de um grupo de mulheres que estavam tentando engravidar pela primeira vez. As 25 voluntárias que engravidaram foram examinadas logo após o parto, e 11 delas passaram por um exame de neuroimagem dois anos depois. Para estabelecer comparação, os pesquisadores escanearam também o cérebro de homens e mulheres que não estavam tentando nem pretendiam ter filhos, assim como o de pais de primeira viagem. Durante o período pós-parto, os pesquisadores realizaram também exames no cérebro das novas mães enquanto elas olhavam para fotos de seu bebê. Os cientistas usaram uma escala-padrão para avaliar a intensidade do apego das mulheres. Eles descobriram que as novas mães experimentaram reduções de matéria cinzenta que durou pelo menos 24 meses após o nascimento. “A perda, no entanto, não é necessariamente ruim e a localização dessas ‘podas neurais’ chamou bastante atenção”, observou Hoekzema. O fenômeno ocorreu em regiões cerebrais envolvidas na cognição social, particularmente na rede dedicada à teoria da mente, que nos ajuda a pensar sobre o que está acontecendo com outra pessoa. E essas áreas tiveram a resposta mais forte justamente quando as mães olharam as imagens de seus filhos. As alterações cerebrais podem ser usadas também para prever como as mães pontuaram na escala de inserção. Os pesquisadores utilizaram um algoritmo de computador para identificar que mulheres eram novas mães com base unicamente nos seus padrões de perda de matéria cinzenta. Esse processo não foi observado em homens em geral, fossem eles pais recentes ou não. Ainda não está inteiramente claro para os cientistas por que as mulheres perdem substância cinzenta durante a gravidez, mas Hoekzema supõe que pode ser porque seu cérebro está se tornando mais especializado em formas que vão ajudá-las a se adaptar à maternidade e a responder às necessidades de seus bebês. A pesquisa oferece algumas evidências preliminares para apoiar essa ideia. Considerando que o estudo se concentra principalmente em documentar as altera-

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Cheirinho de bebê Quando as circunstâncias exigem, o cérebro dos mamíferos – incluindo os humanos – apresenta uma incrível capacidade de promover mudanças. Nos últimos anos, pesquisas com os roedores têm nos ajudado muito a conhecer melhor as alterações neurológicas que ocorrem em futuras mamães. Durante a gestação de uma rata, por exemplo, o sistema olfativo começa a produzir novos neurônios rapidamente. Pelo menos na teoria, essas células adicionais devem permitir que as mães se tornem mais competentes em reconhecer as pistas escondidas nos odores dos filhotes. Evidentemente, a forma como elas reagem diante dos cheiros que reconhecem diverge bastante. Para ratas virgens, os recém-nascidos são malcheirosos, mas quando elas ficam prenhes esses mesmos odores se tornam atraentes para elas. Segundo a psicóloga Alison Fleming, da Universidade de Toronto-Mississauga, no Canadá, isso também é observado em mulheres que

tiveram bebês. A pesquisadora descobriu que a probabilidade de as mães recentes considerarem agradáveis os cheiros de bebês é muito maior, em comparação com mulheres sem filhos. Para transformar a percepção dos odores nas mulheres, o sistema olfativo utilizaria uma região conhecida como amígdala medial. “Essa área do cérebro pode agir como um centro para o sistema olfativo, transformando a informação que entra em conteúdo emocional”, afirma o neurobiólogo Michael Numan, da Universidade de Boston. Ele ressalta que os estímulos olfativos podem ajudar na consolidação do vínculo mãe-filho tornando atraentes os aromas exalados pelo bebê. Não são raros os casos de mulheres que antes de terem o primeiro filho evitavam os odores de crianças de colo mesmo as da família. Mas após dar à luz descobrem que não têm problemas de aproximar o nariz das fraldas de uma criança para saber se precisam ser trocadas.(Da redação)

ções cerebrais durante a gravidez, ela espera que o trabalho de acompanhamento aborde questões mais aplicadas, como a forma como as alterações cerebrais se relacionam com depressão pós-parto ou dificuldades de criação de vínculo entre mãe e filho. O neurocientista Ronald Dahl, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que não participou do trabalho, comentou ter sido surpreendido pelo resultado do estudo. “Esta é uma contribuição fundamental, que não só documenta alterações cerebrais estruturais ligadas à gravidez, mas o faz de forma convincente, oferecendo evidências que sugerem que elas representam mudanças adaptativas”, escreveu.

O psicólogo evolucionista Mel Rutherford, da Universidade McMaster, em Ontário, também mostrou entusiasmo com o uso da neuroimagem para acompanhar as alterações cerebrais durante a gravidez. Os resultados corroboram a pesquisa desenvolvida por Rutherford sobre as mudanças cognitivas durante a gravidez, que ele aborda de uma perspectiva evolutiva. “Como pais, passamos a ter a incumbência de resolver problemas adaptativos e cognitivos ligeiramente diferentes aos quais estávamos acostumados antes de ter filhos”, diz. “As pessoas passam a ter outras tarefas e prioridades, e seu cérebro muda para acompanhar essas demandas.” março 2017 • mentecérebro 53

entrevista

Uma jornada além do medo e da morte O farmacologista clínico Roland Griffiths, pesquisador da Universidade Johns Hopkins, fala a respeito de um novo estudo sobre possibilidades terapêuticas da psilocibina, uma droga psicodélica – um tema bastante controverso mesmo entre profissionais. Para o pesquisador, devemos compreender que há mecanismos para ampliar certos tipos de experiências, e aprender a utilizá-los pode nos ajudar não apenas a viver melhor como também contribuir para não aniquilarmos uns aos outros por Richard Schiffman, jornalista

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E

m uma das maiores e mais rigorosas investigações clínicas sobre drogas psicodélicas até hoje, pesquisadores das universidades Johns Hopkins e de Nova York descobriram que, em certos casos, uma única dose de psilocibina – composto psicoativo presente em certos tipos de cogumelos – pode ajudar a diminuir a depressão e a ansiedade em pacientes com câncer avançado. Substâncias alucinógenas foram objeto de uma enxurrada de pesquisas médicas na década de 1960, quando muitos cientistas acreditavam que alguns desses compostos trouxessem grande promessa terapêutica para o tratamento de problemas graves de saúde mental e dependência de álcool. Nessa época, o professor de psicologia da Universidade Harvard Timothy Leary, um dos principais cientistas envolvidos nesses estudos, começou a promover o ácido lisérgico (LSD) de forma muito enfática como uma ferramenta de expansão da consciência para as massas. Em pleno auge da contracultura, os jovens responderam ao “chamado” do psicólogo. Leary, porém, perdeu o emprego e tornou-se uma espécie de fugitivo internacional. Resultado: praticamente toda a pesquisa legal com psicodélicos chegou a um impasse quando as políticas de drogas federais endureceram na década de 70.

divulgação

ROL AND GRIFFITHS

O retraimento dessa pesquisa perdurou por décadas e o quadro só se alterou em 1999, quando Roland Griffiths, pesquisador da Universidade Johns Hopkins, foi um dos primeiros a iniciar uma nova série de estudos sobre a psilocibina. Um dos pioneiros do século 21 nessa área de investigação, o cientista de fala mansa e avesso a grandes exposições na mídia não é ativista ou xamã. Farmacologista clínico, autor de mais de 300 estudos sobre as substâncias que alteram o humor, é conhecido entre seus pares por ser “cientificamente cauteloso”. Grande parte do fascínio de Griffiths pelos psicodélicos decorre de sua própria prática de meditação mindfulness (atenção plena) que, segundo ele mesmo conta, despertou seu interesse por estados alterados de consciência. Quando começou a administrar psilocibina a voluntários para sua pesquisa, ele se impressionou com o fato de que cerca de dois terços dos participantes do experimento (mais de 60 pessoas) classificaram sua viagem psicodélica como “uma das experiências mais importantes de sua vida”. Griffiths acredita que os psicodélicos podem ser mais do que ferramentas para explorar os confins da mente humana. Ele acredita que possam revelar notável potencial para o tratamento de condições que vão desde a depen-

dência de drogas e álcool até os sintomas de depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Segundo o farmacologista, eles podem também ajudar a aliviar uma das agonias mais cruéis da humanidade: a angústia que decorre diante da morte iminente. Em pesquisa realizada colaborativamente por Griffiths e o diretor clínico do Centro Langone, de Nova York, Stephen Ross, foram testados 80 pacientes com câncer em estado avançado. Cuidadosamente acompanhados por psicólogos, todos receberam psilocibina sintetizada em laboratório. Mais de três quartos dos voluntários relataram alívio significativo dos sintomas de depressão e ansiedade. Os benefícios permaneciam seis meses depois de as pessoas terem tomado o composto, de acordo com o estudo duplo-cego publicado em dezembro de 2016 no periódico científico The Journal of Psychopharmacology. Ross e Griffiths reconhecem que psicodélicos talvez não possam simplesmente estar disponíveis na prateleira da farmácia. Mas os dois cientistas vislumbram um futuro promissor para essas substâncias em uso clínico controlado. Na entrevista a seguir, Griffiths fala sobre o estudo do câncer e seu outro trabalho com psicodélicos – em sua opinião, um campo que poderia contribuir para ajudar a garantir a sobrevivência de nossa espécie. março 2017 • mentecérebro 55

entrevista Mente e Cérebro: Quais foram as suas preocupações quando se voltou para o estudo do câncer? Roland Griffiths: Vários voluntários vieram até nós muito estressados e exauridos tanto pela doença quanto pelo tratamento médico, em geral extenuante. Tive receio no início, perguntei às pessoas se não temiam que a participação no experimento agravasse questões dolorosas ligadas à morte e ao morrer. Expliquei que não tínhamos como saber se nossas experiências com o composto poderiam exacerbar sentimentos de desorientação e angústia. Mas isso não acontece. Ele faz exatamente o oposto. A experiência parece ser profundamente significativa do ponto de vista espiritual e pessoal, funcionando como uma espécie de “cura emocional”, pois ajuda na compreensão do contexto da própria doença, na relação com as pessoas queridas e em como elas conseguirão seguir em frente.

Mente e Cérebro: O que os voluntários contavam sobre o uso da psilocibina? Roland Griffiths: Há algo no núcleo dessa experiência que abre as pessoas para o grande mistério que nos envolve. Claro, não é todo mundo que diz: “Ah, agora eu acredito em vida após a morte”. Não é esse o caso. Mas a experiência com psilocibina permite às pessoas entrar em contato com uma maior compreensão de si mesmas, com significados mais profundos. É como se parassem de se agarrar à vida e se dessem conta de que “está tudo bem”, que não há nada para ter medo. Existe uma variação do que vem para cada um, o que é bastante notável. Sempre me chamam atenção os participantes que estão muito abatidos pela doença e depois da experiência se sentem mais serenos, a ponto de tranquilizar aqueles que amam. Para nós, pesquisadores, é admirável ver uma pessoa que está morrendo poder oferecer conforto para seus cuidadores.

Mente e Cérebro: O senhor pode descrever seu procedimento? Roland Griffiths: Passamos pelo menos oito horas conversando com as pessoas sobre câncer, ansiedade, suas preocupações e assim por diante para desenvolver um bom relacionamento com cada uma. Durante as sessões, não havia intervenção psicológica predeterminada, os pacientes eram apenas convidados a se deitar no sofá e a falar de seus sentimentos.

Mente e Cérebro: Todos reagiram assim? Roland Griffiths: A resposta variou de acordo com a dose. A dose maior despertou resposta muito mais intensa que a menor. Descobrimos também que a ocorrência de experiências místicas é positivamente correlacionada a resultados positivos: aqueles que eram mais propensos a apresentá-las eram também os que tinham maior magnitude de recuperação duradoura da depressão e da ansiedade.

O uso da droga pode ser controlado por uma farmácia central, que a envie para clínicas autorizadas a administrála num contexto terapêutico específico. Não se trata de receber uma prescrição, comprar e levar para casa. A analogia seria mais com um anestésico sendo receitado e gerido por um anestesista”

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Mente e Cérebro: Algum dos voluntários teve dificuldades? Roland Griffiths: Não podemos nos enganar. Existem riscos potenciais associados a esses compostos. É possível nos proteger contra muitos desses riscos, por meio do rastreio e controle rigoroso do procedimento de preparação do composto no ambiente médico. Cerca de 30% dos nossos voluntários relataram ter sentido medo ou desconforto em algum momento durante a experiência. Se os indivíduos estão ansiosos, então podemos dizer algumas palavras, ou segurar sua mão. Oferecemos acolhimento e dados de realidade, lembrando a eles que tomaram psilocibina, que a sensação ruim vai passar e tudo vai ficar bem. Muitas vezes, essas experiências curtas oferecem uma espécie de desafio psicológico que pode ter efeito catártico e servir de portas para a pessoa se aproximar da ideia de transcendência, mas é algo muito subjetivo, pessoal. É importante lembrar que nem todos vivem a situação da mesma maneira, mesmo em condições protegidas, do ponto de vista médico e psicológico. Mente e Cérebro: Quais os passos seguintes? Roland Griffiths: O Instituto de Pesquisa Heffter, que financiou nosso estudo, acaba de abrir um canal de diálogo com o Food and Drug Administration (FDA) a respeito do início de uma investigação de fase 3. Um ensaio clínico de fase 3 é o padrão-ouro para determinar se algo é clinicamente eficaz e atende aos padrões necessários para que possa ser lançado como um produto farmacêutico. Inicialmente, a aprovação é submetida a condições muito estreitas e restritivas. O produto pode ser controlado por uma farmácia central, que o envia para clínicas autorizadas a administrar psilocibina num contexto terapêutico específico. Não se trata de receber uma prescrição, comprar numa drogaria e levar para casa. A analogia seria mais com um anestésico sendo receitado e gerido por um anestesista.

Mente e Cérebro: Estão atualmente realizando também pesquisas sobre psilocibina e tabagismo. Roland Griffiths: Estamos usando a psilocibina em conjunto com psicoterapia para tratar de fumantes que não tiveram êxito repetidamente no propósito de deixar o cigarro. A ideia é averiguar se as experiências vividas como profundamente significativas por boa parte das pessoas podem ser associadas à intenção e ao compromisso de parar de fumar. Desenvolvemos um trabalho preliminar e publicamos um estudo piloto não controlado em que, num total de 50 voluntários, tivemos taxas de abstinência de 80% que se mantinham após seis meses, quando fizemos o acompanhamento. Agora estamos fazendo um ensaio clínico controlado, com acompanhamento dessa população. Mente e Cérebro: O que o senhor destaca como resultados mais notáveis nesse estudo? Roland Griffiths: Pessoas que tomaram psilocibina parecem ter mais confiança em sua capacidade de mudar o comportamento e gerir a própria dependência. Antes dessa experiência, muitas vezes o indivíduo sente que não tem a liberdade em relação à adicção, que não tem a capacidade de mudar. Mas, depois de uma experiência desse tipo, muitos começam a acreditar que são autônomos para escolher deixar de fazer algo que faz tão mal. Quando o uso da psilocibina é associado a psicoterapia, o potencial da ferramenta que oferecemos aos fumantes se torna muito potente. Mente e Cérebro: O senhor está trabalhando também com praticantes de meditação... Roland Griffiths: Temos feito um estudo inédito com meditadores iniciantes. Descobrimos que a psilocibina potencializa o seu compromisso com a sua prática espiritual e parece aumentar características como disposição, gratidão, compaixão, altruísmo, sensibilidade e predisposição ao perdão. Estávamos interessados em saber se a psilocibina usada em conjunto com a meditação poderia criar mudanças a longo prazo nas pessoas, reforçando seus valores sociais e morais. E parece mesmo ser o caso. março 2017 • mentecérebro 57

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mpre me chamam atenção os rticipantes que estão muito abatidos pela ença e depois da experiência se sentem renos a ponto de tranquilizar aqueles que am. Para nós, pesquisadores, é admirável r uma pessoa que está morrendo poder erecer conforto para seus cuidadores”

Mente e Cérebro: O senhor fala em reforçar valores morais. Podemos pensar em mudanças de traços de personalidade? Roland Griffiths: Sim. Isso é realmente interessante porque a personalidade é considerada fixa. Muitos pesquisadores acreditam que está “pronta” e sem grandes possibilidades de alteração quando a pessoa tem 20 e poucos anos. Mesmo assim, estamos vendo aqui aumentos significativos da capacidade de abertura, da flexibilidade e de outras dimensões sociais da personalidade, correlacionadas à criatividade, algo que considero verdadeiramente surpreendente. Mente e Cérebro: Mas sabemos o que está acontecendo no cérebro dessas pessoas? Roland Griffiths: Temos feito estudos de neuroimagem. O grupo do professor Robin de Carhart-Harris, do Imperial College de Londres, também tem desenvolvido estudos usando o imageamento cerebral. Trata-se de uma área de investigação muito ativa. Talvez os efeitos sejam explicados, pelo menos inicialmente, por alterações numa área do cérebro que chamamos “rede de modo padrão”, que está envolvida no processamento autorreferencial, desvinculada da sustentação de nosso senso de eu. Acontece que esse sistema se torna hiperativo em casos de depressão. Sem dúvida, a rede de modo padrão é muito mais complexa por causa da grande interconexão da função cerebral. Curiosamen58

te, tanto a meditação quanto a psilocibina se relacionam com a experiência de clareza do momento presente. Talvez isso nos ajude a entender os efeitos agudos da droga, mas os efeitos duradouros são ainda muito menos claros, e, sinceramente, não acho que temos um bom controle sobre muitos de nossos processos mentais. Mente e Cérebro: Quais são as implicações práticas desse tipo de conhecimento neurológico e da terapêutica dos psicodélicos? Roland Griffiths: Em última análise, não é realmente sobre psicodélicos que estamos falando. A ciência caminhará para além dos psicodélicos quando começarmos a compreender os mecanismos cerebrais subjacentes a essas substâncias e pudermos aproveitar esses benefícios para a humanidade. A experiência mística se baseia numa interconexão de todas as pessoas e coisas, traduz a consciência de que estamos todos juntos nisso. É precisamente a falta desse sentimento de pertencimento mútuo que coloca nossa espécie em risco agora, com a mudança climática e o desenvolvimento de armas que podem destruir a vida no planeta. Portanto, a resposta não é que todo mundo precisa tomar psicodélicos. Não é disso que falamos nem é isso que defendemos. A questão é compreender que há mecanismos para maximizar certos tipos de experiências, e aprender a utilizá-los pode nos ajudar a não aniquilarmos uns aos outros.

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Psicodrama

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Definido por Jacob L. Moreno como “a ciência que explora a verdade por caminhos dramáticos”, o método inspirado no teatro propõe o desempenho de papéis que ajudam a elaborar questões psíquicas de forma terapêutica

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O teatro da mente Somos seres relacionais. É nos grupos sociais que nos desenvolvemos; por meio das relações, experimentamos alegrias e frustrações – ambas fundamentais para o desenvolvimento sadio. Na abordagem terapêutica que se dá no “aqui e agora”, a pessoa se expressa com palavras e movimentos, recorrendo a personagens e dramatizações para lidar com conflitos psíquicos por Mariana Kawazoe e Ricardo Franco Lemos

OS AUTORES MARIANA KAWAZOE é psicóloga, psicodramatista didata e terapeuta de aluno pela Sociedade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP). É coordenadora do acervo científico do Departamento de Psicodrama do Instituto Sedes Sapientiae e membro-associado da Sociedade de Psicodrama de São Paulo. RICARDO FRANCO LEMOS é psicólogo psicodramatista e ator, criador do projeto Cinema Vivo. 60

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O

termo “psicodrama” vem do grego psiché, alma, e do latim drama, que, diferentemente do sentido popular ligado a algo triste ou sofrido, em sua acepção original, significa ação. Na abordagem psicodramática, as pessoas passam por fortes vivências; a linguagem não se limita à verbal, mas abrange todo tipo de expressão. Foi na década de 20, em Viena, que Jacob Levy Moreno criou o que depois seria chamado de psicodrama. Contrapondo-se às psicoterapias usuais, em que o indivíduo agia passivamente, ele propôs técnicas de ação; com isso, pretendia tornar o “paciente” ativo e participante. Seu método consistia em passar da palavra à ação, sem abandonar a primeira: “Existem palavras sábias, mas a sabedoria não é suficiente, falta ação”, dizia. O psicodrama se dá no “aqui e agora”, com elementos emocionais constitutivos da situação patológica, expressos por meio dos personagens e das situações que emergem em uma sessão. Moreno propunha também transgredir o que chamou de “conserva cultural”, aquilo que está cristalizado na sociedade e nas relações humanas, rumo à criatividade e à espontaneidade. Hoje, no Brasil, a atividade psicodramática divide-se em duas grandes áreas: a psicoterapêutica e a socioeducacional. A primeira, segundo o colombiano radicado na Argentina J. G. Rojas-Bermúdez, é “um valioso método para evidenciar as defesas conscientes e inconscientes do paciente, bem como suas condutas e quadros patológicos”. Já a segun62

da pode tomar as mais variadas formas, de acordo com seu uso: ensino; orientação pedagógica e educacional; seleção e treinamento de pessoal etc. O PERCURSO DE MORENO O criador do psicodrama, da sociometria, da psicoterapia de grupo e do sociodrama nasceu em 18 de maio de 1889 na cidade de Bucareste, na Romênia. Sua família, de origem judaica (sefaradita) e oriunda da Península Ibérica, radicou-se em solo romeno na época da Inquisição. Um fato marcante em sua infância, que ele costumava relacionar às suas ideias sobre a espontaneidade, ocorreu aos 4 anos, quando experimentou a conhecida “brincadeira de ser Deus”. No porão de sua casa, o pequeno Jacob e outras crianças imaginavam ser “Deus e anjos” e empilharam mesa e cadeiras até o alto. Cada cadeira representava um nível do céu, e no topo estava o “menino-Deus”, representado pelo próprio Moreno. Um amigo-anjo pediu que ele voasse. Acreditando ser de fato a divindade, pulou e fraturou o braço direito. Moreno costumava relatar essa passagem com humor, dizendo ter sido esse o primeiro psicodrama protagonizado por ele mesmo. Entre 6 e 7 anos, ele e sua família saíram de Bucareste rumo a Viena, onde fixaram residência, e, aos 14 anos, passou a viver sozinho. Mais tarde, tornou-se membro do grupo fundador da “Religião do Encontro”, cujos participantes viviam nas ruas com os

colecão particular

biblioteca nacional, washington colecão particular

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mais pobres e buscavam novos modos de interação com as pessoas. Foi assim que começou a se dedicar a trabalhos sociais. Sua entrada na Universidade de Viena, em 1909, foi complicada, pois tinha abandonado a escola antes de obter o diploma; desse modo, não podia tornar-se médico como pretendia e cursou provisoriamente filosofia, para só mais tarde retomar o curso de medicina. Entre 1910 e 1914, atuou nos Jardins de Viena, reunindo grupos de crianças para improvisar representações espontâneas e criativas. Em 1914, trabalhou com prostitutas de Viena usando técnicas grupais, a fim de levá-las a refletir sobre a própria situação de vida. Em 1917, ano em que se formou em medicina, começou a colaborar com a Daimon Magazine, revista de cunho existencialista e expressionista que contava com ilustres colaboradores como o filósofo e pedagogo Martin Buber (1878-1965), o escritor Franz Kafka (1883-1924), o filósofo conhecido pelos seus

JACOB LEVY MORENO (1889-1974) em três momentos: aos 4 anos, na juventude e na maturidade. No alto, vista de Bucareste, Romênia, onde nasceu

trabalhos sobre fenomenologia Max Scheller (1874-1928) e outros que contribuíram para a filosofia da existência. No dia 1º de abril de 1921, Moreno fez a primeira dramatização pública em Viena, no Komoedien Haus, um teatro dramático. Essa data foi considerada por ele o marco da fundação do teatro da espontaneidade e da criação do psicodrama. Nesse dia, Moreno se apresentou sozinho diante de uma plateia de mais de mil pessoas; ao ser aberta a cortina, havia só uma cadeira de veludo vermelho com um trono e uma coroa. A cidade, como outras no pós-guerra, estava revolta, e não havia governo ou líder que se estabilizasse no poder. Moreno então convidou os espectadores a representar o papel do rei e a buscar a instauração de uma nova ordem no país. No entanto, segundo ele, “ninguém foi considerado digno de ser rei, e o mundo permaneceu sem líder”. Suas propostas sobre o teatro espontâneo despertavam interesse no público, na crítimarço 2017 • mentecérebro 63

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Nos anos 30, o psiquiatra desenvolveu um trabalho com prisioneiros em Sing-Sing; foi nessa ocasião que usou pela primeira vez o termo “psicoterapia de grupo”

ca e na imprensa, mas poucos acreditavam na possibilidade de sua existência de fato. Quando Moreno conseguia chegar a uma representação autêntica e correta do ponto de vista artístico, alegavam que havia ensaiado; caso contrário, diziam que esse tipo de teatro era inviável. Mas ele insistiu e criou o “Jornal Vivo”, técnica por meio da qual se buscava dramatizar as notícias, e não simplesmente repeti-las. Moreno descobriu o teatro terapêutico a partir do teatro da espontaneidade, em 1923. Isso se deu com o caso de Bárbara e George. Ela era uma atriz que participava do teatro da espontaneidade e em geral fazia papéis doces e românticos; ele era um jovem que costumava assistir às peças e se apaixonara por Bárbara. Os dois se casaram, e, em seguida, George foi procurar Moreno dizendo ser insuportável viver com a atriz, pois em casa ela era muito agressiva, ao contrário do que parecia no teatro. Moreno então propôs a ela que passasse a desempenhar papéis mais agressivos e vulgares no teatro, como o de uma prostituta que seria assassinada. Ela se saiu muito bem e continuou a fazer personagens desse tipo. Segundo George, a mulher vinha se transformando: quando ia se enfurecer, ria de si mesma e se lembrava de suas atuações no teatro. Depois de ter analisado o desenvolvimento desse psicodrama, sessão por sessão, o psiquiatra relatou ao casal a história de sua cura. Aqui já se encontrava o embrião da terapia de casal. Em 1925, Moreno emigrou para os Estados Unidos, onde poderia difundir mais livremente suas ideias e práticas. Em 1929, no período da grande depressão econômica e da 64

quebra da Bolsa de Nova York, ele desenvolvia psicodramas públicos no Carnegie Hall. Em 1931, realizou um trabalho de reeducação de prisioneiros em Sing-Sing. Foi nessa ocasião que usou pela primeira vez a expressão “psicoterapia de grupo” e deu início aos seus estudos da sociometria. No ano seguinte, aplicou e desenvolveu seus estudos sociométricos na Escola para Educação de Moças do Estado de Nova York, em Hudson, um reformatório feminino. Nessa fase, voltava sua atenção ao estudo e à medição das relações interpessoais, tendo firmado os métodos da sociometria. Moreno tinha habilidade especial para lidar com psicóticos; essa capacidade, somada ao desejo de ter o próprio hospital, motivou-o a comprar um imóvel em Beacon – uma pequena cidade junto ao rio Hudson, localizada a cerca de 90 km de Nova York – para transformá-lo em instituição hospitalar. Em 1936, mudou-se para lá e construiu o primeiro teatro psicodramático, o Beacon Hill Sanatorium, que posteriormente passou a se chamar Moreno Sanatorium. Este funcionou até 1982 como um centro de formação de psicodramatistas, além de local de atendimento de casos psiquiátricos de difícil tratamento, para os quais eram usados os métodos de Moreno para abordar psicoses. Nesse espaço, eram realizadas também sessões semanais de psicodrama público. Foi em Beacon que Moreno atendeu Mary. O caso da jovem diagnosticada com paranoia se tornou um dos mais conhecidos entre os psicodramatistas. A moça de 23 anos acreditava ter conhecido um rapaz chamado John, pelo qual se apaixonara. Depois de ter passado por vários psiquiatras, finalmente ela caiu nas mãos de Moreno, que construiu um grande psicodrama, utilizando egos-auxiliares treinados para representar as pessoas envolvidas no delírio de Mary. O tratamento teve a participação da família, que frequentava regularmente as reuniões. Moreno e sua equipe criaram uma história fictícia em que John estava lutando na guerra e se comunicava com Mary por meio de telegramas. Foi dessa maneira que eles “se casaram” e tempos depois ela recebeu a notícia do falecimento dele. Nessa época, ela

corrente mística do judaísmo. O princípio do seinismo, cujo termo vem do verbo sein (“ser” em alemão), é a busca do homem por ser e agir profundamente de acordo com seus valores. Um exemplo citado por Moreno foi a vida do escritor russo Leon Tolstói (1828-1910), que abdicou do conforto para viver como camponês, assim como Buda, entre outros grandes nomes. Já o hassidismo, que preconiza o fervor, a piedade, a intenção sobre o rito e o “aqui e agora” da experiência religiosa, surgiu em resposta à miséria e ao sofrimento das comunidades judaicas russopolonesas do século XVIII. Moreno foi fortemente influenciado pelas ideias filosóficas de Soren Kierkegaard (1813-1855) e Henri Bergson (1859-1941). Entre as atividades que desenvolveu estão as encenações de histórias infantis nos Jardins de Viena, de 1910 a 1914, o trabalho com prostitutas, entre 1913 e 1914, e a assistência a refugiados de guerra de 1915 a 1917. Data dessa época o poema Convite ao encontro (1914), considerado um dos lemas do psicodrama, em que Moreno define esse estado de comunicação mútua que ultrapassa o plano intelectual, tendo em vista a totalidade do ser, como demonstra este trecho: “Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face./ E quando estiveres perto, eu arrancarei os teus olhos/ e os colocarei no lugar dos meus,/ e tu arrancarás os meus olhos/ e os colocarás no lugar dos teus,/ eu então o olharei com os

QUATRO MOMENTOS CRIATIVOS Como acontece com outros grandes autores, as experiências de vida de Moreno e os contextos nos quais estava inserido influenciaram diretamente sua obra. Dessa maneira, podemos dividi-la em quatro momentos marcantes de sua criação. O primeiro deles é o “místico-religioso”, que vai até 1920. As filosofias existenciais constituem seu tema central. Entre elas estão o seinismo, corrente filosófica da qual Moreno foi um dos criadores, e o hassidismo, a

MÉDICOS DO EXÉRCITO austríaco prestando assistência aos refugiados tiroleses no campo de Mittendorf, em 1914; Moreno é o quarto da esquerda para a direita

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se apaixonou por outro homem, com quem se casou posteriormente, vindo a ter um filho, que batizou de John. Tendo se dado conta de seus delírios, Mary passou a conversar consigo mesma, de modo a diferenciá-los de seus pensamentos. Vale ressaltar que Moreno nunca falou em “cura” da psicose, mas sim em lidar de forma diferente com os sintomas, como os delírios e as alucinações, validando a verdade de cada um. Em 1941, Moreno conheceu Zerka Toeman, com quem se casaria em 1949, após ter se divorciado da primeira mulher, Florence, com quem teve uma filha, Regina. Moreno e Zerka viveram juntos até o final da vida dele e tiveram um filho, Jonathan. Em 1942, o psiquiatra fundou a Sociedade Americana de Psicoterapia de Grupo e Psicodrama (ASGPP, na sigla em inglês) e o Instituto Moreno. Nessa época, passou a se interessar mais pelo trabalho psicoterápico e organizou sua teoria, nomeando-a socionomia. Em 1946, publicou o livro Psicodrama. Os congressos internacionais de psicodrama começaram em 1964, tendo Moreno participado dos quatro primeiros. O criador do psicodrama morreu em Beacon, nos Estados Unidos, em 14 de maio de 1974, aos 85 anos. Na etapa final de sua vida, buscou o diálogo com outras linhas terapêuticas, assim como a fundamentação da sua proposta de psicoterapia. Não à toa, ele havia pedido que em sua sepultura fossem gravadas as seguintes palavras: “Aqui jaz aquele que abriu as portas da psiquiatria à alegria”. De fato, sua obra e suas ações abriram a possibilidade de os terapeutas trabalharem no campo da saúde mental com criatividade e alegria.

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especial teus olhos/ e tu me olharás com os meus”. Também é nesse período que colabora com Daimon Magazine, entre 1917 e 1919, e publica o livro As palavras do Pai (1920). O segundo momento é o “teatral”, que vai de 1921 a 1924. Nesse período, a intenção de Moreno era romper com a “conserva cultural” do teatro da época, fazendo com que os atores substituíssem a catarse por uma forma de expressão por meio da qual, no momento da ação, cada um deles se tornaria criador de sua história a fim de transformá-la. A sessão de psicodrama em 1º de abril de 1921 é tida como sua grande criação do período. Suas atividades foram as experiências teatrais, o teatro da espontaneidade (1921), o Jornal Vivo, a observação do caso Bárbara e George e o teatro terapêutico (1923). O livro O teatro da espontaneidade, de 1923, é emblemático dessa fase. O terceiro momento é o “sociométrico”, que vai de 1925 a 1941. É a época em que Moreno chega aos Estados Unidos e na qual predomina sua preocupação com o social e a dinâmica dos grupos. Ele vinha da Europa com ideias da fenomenologia e do existencialismo, decepcionado com a guerra. Em solo americano, deparou com o behaviorismo e a tendência a medir o ser humano, o que resultou num ato criador: a sociometria de grupos. Foi nessa época que criou a psicoterapia de grupo e a sociometria. E foi nesse período que realizou diversas atividades, entre elas o trabalho com moças delinquentes em Hudson, a constru-

ção de um teatro terapêutico, em Beacon, bem como a ligação, por ele estabelecida, com as universidades Colúmbia e de Nova York. Essa fase foi marcada pelas publicações científicas, como o periódico Impromptu (1931), que dirigiu, e a Sociometry (1937), que fundou. No período, publicou também o livro Who shall survive? (1934), traduzido para o português como Quem sobreviverá?: fundamentos da sociometria, da psicoterapia de grupo e do sociodrama (Dimensão, 1992). Por fim, o quarto momento é o “clínico”, que vai de 1942 a 1974. É a fase final, quando Moreno se aproxima do trabalho psicoterápico e procura compor a doutrina denominada socionomia. Nessa época, funda o Instituto Moreno (1942), bem como a ASGPP (1942), e cria o Departamento de Psicoterapia de Grupo da Associação Psiquiátrica Americana (1951). É também quando publica a trilogia Psicodrama (1946), Fundamentos do psicodrama (1959), Psicodrama: terapia de ação & princípios da prática (1969), em colaboração com Zerka T. Moreno, e Psicoterapia de grupo e psicodrama (1959). POR MEIO DA AÇÃO Conceitualmente, o psicodrama é um método que faz parte da socionomia, palavra que vem do latim socius (companheiro, grupo) e do grego nomos (regra, lei). Ou seja, é o estudo das leis que regem um grupo, ou, amplamente falando, o social. A socionomia divide-se em três vertentes:

CRONOLOGIA 1889

Nasce Jacob Levy Moreno, em 18 de maio, em Bucareste, Romênia.

1913

1894

1914

Muda-se para Viena, Áustria.

1909

Ingressa na Universidade de Viena, no curso de filosofia, e, no ano seguinte, transfere-se para a Faculdade de Medicina.

Organiza, por dois anos, um programa de readaptação das prostitutas vienenses. Alista-se no Corpo Médico Tirolês do exército austríaco, assistindo, até 1917, os refugiados tiroleses no campo de Mittendorf, nos arredores de Viena. Publica Convite a um encontro.

1917 1911

Faz a primeira sessão psicodramática no Teatro de Crianças de Viena, encenando Os feitos de Zaratustra. 66

Forma-se médico em 5 de fevereiro.

1. Sociodinâmica, que estuda a dinâmica das relações interpessoais e tem como método o role-playing (jogo de papéis), no qual as pessoas desempenham diversos papéis. 2. Sociometria, que mede e estuda as relações e as leis que regem as interações em determinado grupo por meio do teste sociométrico. Esse método tem como foco a ordem de escolha de outros membros do grupo em termos de atração (proximidade), rejeição (distância) e neutralidade, a fim de medir as relações dos indivíduos dentro do grupo. 3. Sociatria, que trata da “cura” das relações sociais no e do grupo. Para tanto, apoia-se nos seguintes métodos: psicoterapia de grupo, sociodrama e psicodrama. A psicoterapia de grupo, como o próprio nome diz, trata das relações interpessoais. O sociodrama, por sua vez, volta-se para questões sociais e culturais, levando em conta a individualidade de cada membro. Já o psicodrama pode ser utilizado tanto em grupo como individualmente e tem como foco o indivíduo e suas relações, tendo em vista os aspectos sociais e culturais de cada um. A teoria socionômica ficou conhecida mundialmente pelo nome de “psicodrama”. Segundo Moreno, “o psicodrama pode ser definido, então, como a ciência que explora a ‘verdade’ por meio de métodos dramáticos e lida com relações interpessoais e com mundos privados”. Há diversas modalidades (ferramentas) psicodramáticas: teatro espon-

O método faz parte da socionomia, palavra que vem do latim socius (companheiro) e do grego nomos (regra, norma); trata-se do estudo das leis que regem o grupo, o social

tâneo, Jornal Vivo, role-playing, treinamento da espontaneidade etc. O teatro espontâneo, por exemplo, é oriundo do teatro da espontaneidade (ou de improviso), que constitui a base do psicodrama e pelo qual Moreno começou a desenvolver sua teoria. Em geral, o trabalho é iniciado por uma equipe de profissionais, que traz uma cena específica sobre determinado tema. Aos poucos, o diretor começa a dar espaço para que as pessoas da plateia possam participar e se expressar dramaticamente a partir daquela cena inicial. O Jornal Vivo, por sua vez, é uma técnica que toma notícias de jornais como ponto de partida para as dramatizações. Geralmente, são trabalhados aspectos socioculturais contidos nas reportagens. Os atores são os participantes dos grupos. Já o role-playing, como o próprio nome diz, é o “jogo de papéis”. Essa ferramenta é utilizada para treinar ou desenvolver perso-

1918

Passa a residir em Bad Vöslau e abre sua clínica particular em Viena.

1923

1919 Torna-se redator da revista de literatura existencial Daimon. Passa a viver com Marianne Lörnitzo.

1925

1920

Moreno publica O teatro da espontaneidade e As palavras do Pai, agora com autoria registrada. Muda-se para os Estados Unidos, inicialmente morando em Nova York, e depois, em 1936, transfere-se para Beacon, à margem do rio Hudson.

Publica anonimamente As palavras do Pai.

1927

É autorizado a praticar a medicina em Nova York.

1921

É feita a primeira dramatização pública do Das Stegreiftheater (Teatro da Espontaneidade) em 1º de abril, considerado o marco da criação do psicodrama.

1928

Faz experiências sobre espontaneidade com crianças no Instituto Plymouth e no departamento de março 2017 • mentecérebro 67

especial nagens, como, por exemplo, o de esposa, de secretária, de piloto de carro etc. Por fim, o termo “treinamento (ou adestramento) da espontaneidade” consiste em uma situação na qual o diretor coloca dificuldades ou circunstâncias diferentes, a fim de que a pessoa encontre recursos para uma melhor saída ou solução das situações. Tendo em vista que um dos grandes objetivos do psicodrama é o desenvolvimento da espontaneidade-criatividade (atitudes criativas em situações adversas), o foco está sempre na ação por meio das dramatizações, com diferentes linguagens, como a corporal e a verbal. QUATRO PILARES Tempo, espaço, realidade e cosmos são os quatro princípios universais da psicoterapia psicodramática, segundo Moreno. No caso do psicodrama, no que tange ao tempo, só existe o tempo presente, o “aqui e agora”. Passado e futuro se condensam no presente. Um evento que se passou na história de uma pessoa ou que poderá vir a acontecer é trazido ao palco como algo que está acontecendo em um momento específico. No que se relaciona ao espaço, qualquer lugar pode ser usado para o trabalho terapêutico. Moreno ia aonde estavam os grupos: aos Jardins de Viena, ao local onde as prostitutas ficavam, a campos de concentração, à escola para moças de Hudson, ao presídio de Sing-Sing etc. E criticava os analistas por

pediatria do Hospital Monte Sinai, em Nova York. Casa-se com Beatrice Beecher em 31 de maio para obter o visto americano .

1929

Leva o Teatro do Improviso ao Carnegie Hall, onde faz psicodramas públicos combinados com dinâmica de grupo. Cria a Impromptu, revista sobre teatro de improviso e música.

1930

A psicóloga e pedagoga Helena Antipoff (1892-1974) introduz o psicodrama no Brasil, com uso de técnicas parciais, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

ESPONTANEIDADE-CRIATIVIDADE A espontaneidade-criatividade é definida por Moreno como algo que acontece no presente, sendo a “resposta adequada à nova situação ou a resposta nova para uma situação já conhecida”, com diferentes graus de inovação. Essa ação espontâneo-criativa se dá diante do que chamamos de “aquecimento”, que prepara a pessoa para uma ação em busca de tais respostas inovadoras.

1931

Moreno leva a pesquisa sociométrica à prisão de Sing-Sing, Ossining, Nova York, e à escola pública 181, do Brooklyn, Nova York. Em 5 de junho, expõe suas ideias sobre psicoterapia de grupo na Associação Psiquiátrica Americana.

1932

Lança as bases da sociometria, realizando estudos com jovens delinquentes da comunidade de Hudson. Publica, com E. Stagg Whitlin, Aplicação do método grupal na classificação. Torna-se diretor de pesquisa na Escola para Moças, em Hudson.

1934 68

ficarem em salas fechadas com divã e uma poltrona, pois acreditava que em um local mais amplo e sem muitos móveis as pessoas poderiam trazer os próprios cenários imaginados e construídos. Ao falar de realidade, Moreno destacava três tipos: a infrarrealidade, que é uma “realidade reduzida” e fica no nível da imaginação, do pensar; a vida ou realidade presente, que é o dia a dia vivido pelas pessoas; e a realidade suplementar, que corresponde à vivida no psicodrama. Nesse contexto, pode-se ser diversos personagens ou pessoas, bem como fazer e viver coisas que não são experimentadas na realidade presente. No palco psicodramático, podemos trazer fantasias e dramatizá-las e, desse modo, lidar com sentimentos não aceitos na vida cotidiana. Nele, não existe gênero, idade ou etnia, pois todos somos um e fazemos parte de um cosmos. O micro contém o macro. “O homem é um ser cósmico”, já dizia Moreno.

Divorcia-se de Beatrice.

Estas vêm para quebrar a “conserva cultural”, inimiga dos seres humanos e da sociedade, espécie de cristalização do processo criativo que faz com que tenhamos atitudes sobre as quais muitas vezes nos perguntamos: “Qual o motivo de eu sempre fazer isso?” ou “Por que tal coisa me acontece frequentemente?”, ou ainda: “Qual a razão de eu sempre encontrar um companheiro igual ao anterior?”. A conserva nos transforma em “seres mecânicos”. Quando não pensa mais no que faz, a pessoa “liga o automático” e vai adiante: acorda todos os dias no mesmo horário, toma café da manhã, entra no banho, escova os dentes, sai para o trabalho, enfrenta o trânsito, trabalha, almoça sempre as mesmas coisas, volta para o escritório, sai dele na hora habitual (ou nem se dá conta do horário), pega o carro de volta para casa, come, assiste à TV e dorme de novo. Quando se dá conta, até o happy hour da sexta-feira virou parte da rotina. Se do ponto de vista psicológico a conserva é um padrão de comportamento cristalizado, do ponto de vista sociocultural é um produto final, como um livro, um filme ou uma música. Estes são importantes, mas, para o psicodrama, deve-se sempre criar, sendo o produto final (ou conserva cultural) uma base para outras criações (ou outros atos espontâneo-criativos). Por exemplo, a partir de um estilo musical, é possível criar outros, como a bossa nova, que derivou da mistura do jazz com o samba. Inovação e renovação são ne-

1935

cessárias para a vida das pessoas, inclusive no dia a dia. Os cânones da criatividade (espontaneidade, criatividade e conserva), conforme descritos por Moreno, podem ser vistos na imagem (veja abaixo). O círculo representa uma espiral, vista de cima, que gira sempre, como um processo em construção. A espontaneidade (E) estimula a criatividade (C), que pode ou não responder ao estímulo. Se ela assim o fizer, produzirá uma conserva cultural (CC), que pode gerar outro movimento estimulado pela espontaneidade (E). O processo de aquecimento (A) sempre permeia o processo de espontaneidade-criatividade. Imagine, por exemplo, que este é um processo de preparação de um alimento: “CC” é a receita; “E” são os ingredientes; “C” é a mistura deles, que pode variar durante a preparação; e “A” é o fogo que mantém o cozimento do alimento. E do preparo do alimento resulta outra conserva (CC). Espontaneidade – Criatividade – Conserva A

A CC

C E

Começa a fazer filmes terapêuticos.

A

A

1942

Funda a Sociedade Americana de Psicoterapia de Grupo e Psicodrama (ASGPP) e o Instituto Moreno.

1936

Inaugura o Sanatório de Beacon Hill dentro da nova proposta terapêutica do teatro de psicodrama.

1945

Cria a Associação Americana de Sociometria.

1937

1946

Publica o primeiro volume de Psicodrama.

Cria a revista Sociometria e liga-se às universidades de Colúmbia e Nova York.

1949 1938

Casa-se com Florence Bridge, com quem teria sua filha, Regina, no ano seguinte.

1941

Zerka Toeman, que viria a ser sua terceira mulher, trabalha em Beacon como ego-auxiliar.

Separa-se de Florence para se casar com Zerka Toeman. Faz o Teatro do Psicodrama em Harvard. O sociólogo Guerreiro Ramos entra em contato com Moreno e dirige, no Rio de Janeiro, o que costuma ser considerado o primeiro seminário sobre psicodrama feito no Brasil.

março 2017 • mentecérebro 69

especial

Qualquer lugar pode ser usado para o trabalho terapêutico; a noção de papéis é fundamental na abordagem, pois abarca o conceito de inter-relação, por meio da qual se dá o processo psicodramático

PERSONALIDADE E CATARSE A teoria dos papéis é fundamental na abordagem de Moreno, pois carrega em si o conceito de inter-relação, aspecto essencial na vida de qualquer ser humano, por meio do qual se dá todo o processo psicodramático. Toda relação ocorre por intermédio dos papéis – a que se estabelece entre terapeuta-paciente, inclusive. É por meio deles que podemos vislumbrar nossa parte mais subjetiva e privada. Nos papéis estão fundidos aspectos sociais e culturais. Cada um de nós tem uma história particular, mas também carrega componentes do meio onde vive. Ou seja, a personalidade do indivíduo se compõe da fusão de elementos coletivos e privados, sendo ela o conjunto de características e papéis emergidos das relações (papel e contrapapel) com familiares (matriz de identidade), amigos, namorados etc. Aí reside o interes-

1950

Moreno participa do I Congresso Mundial de Psiquiatria em Paris.

1956

1951

Funda a Seção de Psicoterapia de Grupo na Associação Psiquiátrica Americana.

1957

1952

Nasce Jonathan, filho de Moreno com Zerka.

1959

1953

Publica Quem sobreviverá?: fundamentos da sociometria, psicoterapia de grupo e sociodrama.

1964

1954

1968

Ocorre o I Congresso Internacional de Psicoterapia de Grupo, em Toronto, Canadá. 70

se do psicodrama: a personalidade privada do paciente e a sua catarse. As pessoas, individualmente, passam por vivências. A forma de se relacionar com o mundo e com os outros define a identidade (ou seja, o “eu”), que é formada por diversos papéis. Todo papel, porém, requer um contrapapel na sua interação. Por exemplo: mãe-filho(a), marido-mulher, professor-aluno, terapeuta-paciente. A construção dos papéis se faz na “matriz de identidade”, que são as primeiras relações estabelecidas pelo bebê por meio das quais ele desenvolve os papéis, os psicossomáticos (ou fisiológicos). Estes são, como o próprio nome diz, sustentados nas funções biológicas: ingeridor, urinador, defecador etc. Essa é a fase em que a criança é dependente de outras pessoas, denominadas egos-auxiliares no psicodrama, que cumprem funções que ela ainda não pode exercer – seja o ato de buscar alimento ou de se limpar, por exemplo. É a partir do papel psicossomático e das experiências corporais do bebê nessa fase que começam a se esboçar seus primeiros traços da personalidade. Da etapa que Moreno denominou “brecha entre fantasia e realidade” se originam os papéis psicológicos ou psicodramáticos e os sociais. Os primeiros pertencem ao âmbito da fantasia: princesa, madrasta, fantasma ou os papéis delirantes, quando a pessoa acredita ser Jesus Cristo, por exemplo. Eles expressam a dimensão psicológica do “eu” e são

Funda a Revista Internacional de Sociometria e Sociatria. É um dos criadores e o primeiro presidente do Conselho Internacional de Psicoterapia de Grupo. Lança o segundo volume de Psicodrama.

Realiza-se em Paris o I Congresso Internacional de Psicodrama e Sociodrama. Moreno recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade de Barcelona.

desempenhados no palco psicodramático. Já os segundos fazem parte da realidade e têm função social: policial, professor, psicoterapeuta, filho, paciente, mãe, pai etc. A figura (veja ao lado) representa uma pessoa com seus diversos papéis sociais – o de policial, o de pugilista, o de pai etc. – que marcam as relações com outras pessoas: policial x ladrão, pugilista x adversário, pai x filho etc. Quando um papel está ativo, os outros ficam “adormecidos”. Além disso, todos eles carregam características pessoais particulares. São essas particularidades que representam a pessoa privada. UMA TEORIA DO DESENVOLVIMENTO A matriz da identidade é uma teoria do desenvolvimento infantil e da personalidade que lança as bases do primeiro processo de aprendizagem emocional da criança. Ela é representada pelas relações primárias, ou seja, as pessoas e as coisas ao redor do bebê que fazem parte da primeira relação que ele estabelece no mundo. Dois universos compõem a matriz de identidade. O primeiro deles divide-se em dois tempos: o 1º tempo do primeiro universo ou período de identidade total (matriz de identidade total indiferenciada), em que a criança não diferencia pessoas de objetos, nem a fantasia da realidade, e vive o presente; e o 2º tempo do primeiro universo ou período da identidade total diferenciada ou realidade total (matriz de identidade total diferenciada). Este

1969

Pessoa Privada

Policial

Pugilista

Pai

se caracteriza pelo início da diferenciação entre objetos e pessoas; os registros começam a surgir e a criança passa a sonhar. Além disso, vai percebendo que os outros são diferentes e, dessa forma, torna-se apta a selecionar as pessoas que podem se aproximar dela. O segundo universo é o momento em que ocorre a “brecha entre a fantasia e a realidade”, ou seja, a criança começa a diferenciar fantasia da realidade. Surgem então os papéis psicodramáticos (fantasia) e os sociais (realidade), conforme exposto anteriormente. De início, Moreno descreveu a matriz de identidade em cinco etapas: 1. Para a criança, tudo é uma coisa só. Nessa fase de indiferenciação, ela, os outros e o mundo são a mesma coisa. 2. Concentra a atenção no outro e se esquece de si mesma. 3. Está atenta a si própria e ignora o outro.

Lança o terceiro volume de Psicodrama.

1970

Ocorre o V Congresso Internacional de Psicodrama e Sociodrama, no Museu de Arte de São Paulo – Masp; Zerka e Moreno não comparecem. É criado o Anfiteatro de Psicodrama “Moreno”, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

1974

divulgação

Em 14 de maio, J. L. Moreno falece em sua casa em Beacon, Nova York, aos 85 anos; no cofre onde estão suas cinzas está escrito: “Aqui jaz aquele que abriu as portas da psiquiatria à alegria”.

março 2017 • mentecérebro 71

especial

Tudo acontece no “como se”; as cenas ocorrem em qualquer época ou lugar, é possível ser os mais diferentes personagens; as sessões são individuais ou em grupo, e o psicoterapeuta atende tanto sozinho quanto com egos-auxiliares

4. Percebe a ela mesma e ao outro, experimentando desempenhar o papel do outro, mas ainda não aceita que exerçam o seu. 5. Ocorre a inversão de papéis, ou seja, ela desempenha o papel do outro e permite que o outro faça o seu. Posteriormente, ele sintetizou a matriz de identidade em três fases: 1. Do duplo: a criança, a mãe e o mundo são uma coisa só, e, para sobreviver, ela precisa de egos-auxiliares que representem seu duplo. 2. Do espelho: condensa as fases 2 e 3 acima. A criança se olha no espelho e se estranha. 3. De inversão: condensa as fases 4 e 5 da descrição anterior, nas quais a criança de-

sempenha o papel do outro e depois o inverte com o outro. Os nomes das fases também são os mesmos das técnicas mais reconhecidas no psicodrama clássico: duplo, espelho e inversão de papéis. Essas divisões são apenas didáticas e ocorrem de modo concomitante, respeitando o desenvolvimento biológico e psicológico da criança, que funciona de forma dialética, ou seja, o biológico interferindo no psicológico, e vice-versa. Há três contextos diversos: social, grupal e dramático. O primeiro corresponde à “realidade social” em que se dão as experiências cotidianas, cujos temas são trazidos para a sessão. O segundo é o momento em que as pessoas se reúnem em torno de determinado objetivo com regras e normas particulares. O terceiro, por sua vez, se dá quando a vida é dramatizada. As cenas podem acontecer em qualquer época ou lugar, e as pessoas podem ser qualquer personagem (real ou imaginário). Tudo acontece no “como se”. Nesse contexto, o sujeito pode viver seus delírios, suas alucinações, suas fantasias, seus desejos e todos os papéis internalizados. Para isso, a técnica psicodramática lança mão de cinco instrumentos: 1. O diretor, que é o profissional (terapeuta) que coordena o grupo e tem as atribuições de cuidar de seu aquecimento e da escolha do protagonista, bem como de

TELE E TRANSFERÊNCIA O fator “tele” é responsável pela coesão grupal, tornando as relações sociais mais sadias. Trata-se de uma espécie de ligação entre pessoas, que também pode ocorrer com relação aos objetos (como no caso de um indivíduo diante de uma obra de arte, capaz de sentir o que o artista tentou comunicar com sua produção). O tele é muito mais que a capacidade de perceber o outro objetivamente. Na relação télica, ambos precisam sentir o que o outro sente e se colocar no lugar dele. Muitas vezes, essa sensação não é explicada, simplesmente acontece. É o que se chama de “química entre as pessoas”. O conceito começou a ser delineado por Moreno por volta de 1921, diante da observação das relações que os 72

atores da sua companhia de teatro da espontaneidade estabeleciam uns com os outros. Ele notou que, entre alguns deles, havia uma afinidade quase mediúnica, como se um lesse o pensamento do outro. Esse fator, que ainda não se chamava tele, era, então, um comunicador. Posteriormente, em meados de 1931, Moreno começou a desenvolver a sociometria, utilizando testes sociométricos, que mediam as relações de um grupo por meio de escolhas. Ele partia do princípio de três modos relacionais: atração (proximidade), rejeição (distância) e neutralidade. Quando essas escolhas eram recíprocas, ele as chamava de tele. A partir dessa experiência, passou a dizer que tele era a empatia em

imagens: divulgação

via dupla. No dicionário, encontramos seu significado como “capacidade de identificar-se totalmente com o outro”. Segundo Moreno, a empatia é uma percepção unilateral ligada ao ramo psicológico. Já a transferência, também unilateral, pertenceria ao ramo psiquiátrico e teria um significado psicopatológico. Com isso, ele quer dizer que esta última é uma percepção com interferências em relação ao outro. Por exemplo, um homem conhece uma mulher chamada Maria. Ela é muito parecida com sua ex-mulher, Ruth. Ele, então, começa a atribuir características a Maria como se ela fosse Ruth, o que o impede de perceber Maria como ela realmente é.

PRIMEIRO TEATRO de psicodrama, em Beacon, 1936 (acima, à esq.). Psicodrama filmado durante congresso de Paris, 1964. Nessa cena, o próprio Moreno dirige o casal Paul e Michelle, usando a técnica para ajudá-los a explorar conflitos conjugais (ao lado). Moreno, em foto sem data, durante encenação (acima)

O autor diz que “enquanto a empatia busca perceber algo real, a transferência percebe algo irreal”. Ambas, no entanto, seriam fenômenos individuais. Daí a criação do tele, por meio do qual seria possível explicar os fenômenos grupais e sociais. “Esse conceito atende às necessidades do psicólogo, do psiquiatra e do sociólogo”, dizia ele. O tele é, portanto, o fenômeno que mantém o funcionamento e a coesão dos grupos. Como dito anteriormente, pertence ao âmbito da comunicação. Na relação terapeuta-paciente, corresponde ao “sentir recíproco de um no outro”, sendo responsável pela estabilidade do relacionamento terapêutico e essencial em todo método eficaz de psicoterapia. março 2017 • mentecérebro 73

especial REGRAS GERAIS Segundo Moreno, no livro Psicodrama: terapia de ação & princípios da prática, há 14 regras gerais para a utilização do psicodrama:

1 2 3 4 5 6

“O sujeito (paciente, cliente, protagonista) encena seus conflitos, em vez de falar deles.” “O sujeito ou paciente atua ‘no aqui e agora’ independentemente da condição.”

“O sujeito deve encenar ‘sua verdade’ como a sente e a percebe, de maneira inteiramente subjetiva.” “O paciente é encorajado a ampliar ao máximo toda expressão, ação, comunicação verbal, em vez de resumi-la.” “O processo de aquecimento caminha da periferia para o centro.”

“Sempre que possível, o protagonista escolherá o tempo, o lugar, a cena e o ego-auxiliar requeridos na produção do psicodrama.”

7 8 9

“O psicodrama é ao mesmo tempo um método de contenção e um método de expressão.” “É permitido ao paciente ser tão não espontâneo ou inexpressivo quanto ele o é neste momento.”

“A interpretação e a aquisição de insight no psicodrama são de naturezas diferentes das obtidas nos tipos de terapia verbal.”

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“Mesmo se fazendo interpretação, o que é fundamental é a ação. Não pode haver interpretação sem ação prévia.”

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“O aquecimento para o psicodrama deve se adequar a cada cultura, devendo-se fazer mudanças apropriadas na aplicação do método.”

12

“As sessões de psicodrama constam de três partes: o aquecimento, a dramatização e o compartilhamento do grupo após a dramatização.”

13

“Nunca se deve deixar o protagonista com a impressão de que ele é o único no grupo a ter esse tipo de problema.”

14

“O protagonista deve aprender a fazer o papel de todos aqueles com quem se relaciona significativamente, a experimentar a condição das pessoas de seu átomo social, sua relação com ele e com o outro.”

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dirigir a cena psicodramática, aplicar as técnicas necessárias ao momento da sessão, ajudar o protagonista e o grupo a elaborar o vivido. 2. Os egos-auxiliares, que podem ser profissionais (terapeutas) ou pessoas da plateia, constituem uma espécie de extensão do diretor, da plateia e do protagonista, funcionando como ator, agente terapêutico e pesquisador. Como estão em outro lugar na ação dramática (dentro da ação), muitas vezes notam algo que passou despercebido pelo diretor e apontam ao grupo o que perceberam. 3. O cenário, lugar onde acontece a ação dramática, representa o campo terapêutico do psicodrama, em que o espaço imaginado pelo protagonista é montado “concretamente”. 4. A plateia (ou público), que é constituída pelos demais participantes da dramatização, os quais, mesmo não atuando diretamente na cena, trabalham suas questões, só que de outro lugar. Além disso, também colaboram com o protagonista compartilhando, no final das sessões, o que sentiram na dramatização. 5. Por fim, há o protagonista, que é o autor e ator da dramatização, representante do drama grupal. Além do contexto e dos instrumentos, a sessão psicodramática é feita segundo etapas básicas. De início foram elencadas três – aquecimento, dramatização e compartilhamento –, que depois foram desdobradas em cinco: aquecimento inespecífico, aquecimento específico, dramatização, compartilhamento e processamento. O aquecimento inespecífico faz a ponte entre o contexto social e o dramático e é responsável pela criação de um ambiente relaxado para que as pessoas tragam as questões a ser trabalhadas. É nessa fase que surgem os protagonistas da sessão. O aquecimento específico, que vem em seguida, corresponde ao encontro do diretor com o protagonista, aquecendo-o para a ação dramática. A terceira etapa do processo – a dramatização – equivale ao núcleo do psicodrama, que é onde acontece a ação. Sua finalidade é alcançar o insight psicodramático e a catarse de integração, ou seja, o ponto em que o protagonista se dá conta de seus sentimentos, abrindo-se

para novas possibilidades, e pode elaborar o que sentiu ou percebeu. Não é “teatrinho”, pois a pessoa realmente se coloca na situação, sente e pensa “como se” estivesse vivendo aquela cena naquele momento (no “aqui e agora”). Já na etapa seguinte, denominada compartilhamento, as pessoas dividem seus sentimentos em relação ao vivido no palco psicodramático. Aqui é importante que falem de si, e não do que “acharam” do que aconteceu com o outro. É também nesse momento que se dá a elaboração do que aconteceu na sessão. O processamento é uma etapa à parte do psicodrama, pois ocorre apenas em grupos de formação de psicodramatistas. Trata-se da elaboração (teórica) da prática. A psicoterapia psicodramática pode ser individual ou em grupo; ou, ainda, de casal ou família. Além disso, o psicoterapeuta (diretor) pode atender sozinho ou com uma equipe (um ou mais egos-auxiliares profissionais). Tem como propósito ajudar o indivíduo a encontrar sua verdade (autoconhecimento). Além disso, almeja desenvolver sua espontaneidade-criatividade (uma forma de lidar melhor com situações adversas), bem como desenvolver sua capacidade télica (percepção de si e do outro). E, também, levar o paciente a colocar-se no lugar do outro, elevar a autoestima, melhorar a qualidade de vida e das relações, assim como ampliar a capacidade de organização e planejamento. TÉCNICAS PSICODRAMÁTICAS Entre as técnicas mais clássicas do psicodrama estão o duplo, o espelho e a inversão de papéis. No duplo, o terapeuta ou um ego-auxiliar se coloca no lugar do paciente, expressando os sentimentos que este não consegue perceber, tanto verbal como corporalmente. É o caso do indivíduo que está com respiração ofegante, o corpo agitado e o tom de voz bastante agressivo, mas sua frase sai do seguinte modo: “Não senti nada. Para mim é indiferente”. O terapeuta ou o ego-auxiliar, que percebe quanto sua expressão difere de sua fala, diz o seguinte com a mesma postura que o paciente: “Eu estou muito bravo com essa situação. Estou morrendo de raiva de fulana!”. No entanto,

Nas dramatizações, a consciência corporal ajuda a perceber os sentimentos em contraposição à racionalização da linguagem verbal é preciso que o duplo não seja caricato; ele deve ser feito com empatia e sensibilidade. A pessoa que o faz precisa estar realmente conectada com o paciente e atenta ao que ele está sentindo no momento. No espelho, o terapeuta ou um ego-auxiliar desempenha o papel do paciente em questão, e este se vê na cena, causando a sensação de “se ver de fora”. Por exemplo, David se queixa que as pessoas o tratam mal. Ele, então, monta uma cena em que uma atendente do guichê no aeroporto é mal-educada com ele. Em certo ponto da dramatização, o diretor o tira da cena, o coloca de fora para que ele a perceba em um ângulo mais distanciado. Desse ponto de vista, David se dá conta de que ele também é rude com as pessoas e, talvez, por isso seja tratado por elas de forma semelhante. Já a inversão de papéis é caracterizada pela troca de personagens, como o próprio nome diz. Por exemplo, quando em uma cena de casal o homem agride a parceira sem perceber o que está fazendo. Ao inverter os lugares, ele assume o papel dela, e vice-versa, desempenhando novamente a cena com a carga emocional equivalente. Outras técnicas psicodramáticas foram enumeradas por Moreno no livro Psicodrama: terapia de ação & princípios da prática (1969). Entre elas estão o solilóquio (“pensar em voz alta”, como se a pessoa estivesse falando sozinha, consigo mesma); a autoapresentação (o indivíduo se apresenta da forma como gostaria que os outros o percebessem; essa técnica é importante na primeira sessão de grupo para ver como a pessoa se apresenta, pois, como diz o ditado popular, “a primeira impressão é a que fica”); a projeção de futuro (simulação de alguma situação esperada do futuro, em que se trabalham as diversas março 2017 • mentecérebro 75

especial

A concretização é a própria montagem na qual se encena o drama. Quando se transforma um sentimento em algo “concreto” é possível entrar em contato com a emoção e representá-lo

possibilidades de atuação); e a apresentação de sonho (em que ele é trabalhado dramaticamente; o protagonista atribui significados durante a dramatização, que pode se misturar com elementos da realidade). Além dessas técnicas existe a de maximização, que, em geral, é utilizada quando o paciente faz um gesto que não percebe. Então, em vez de o terapeuta apenas pontuar o movimento, pode pedir à pessoa que o exagere. Algumas vezes, solicita a ela que dê voz a ele. Por exemplo, se o paciente começa a coçar a parte de trás da cabeça todas as vezes que fala de seu chefe autoritário, o terapeuta lhe pede que amplie esse movimento. Com isso, seu corpo começa a balançar. O movimento fica mais intenso e o coçar se torna um tapa na sua cabeça. O paciente lembra, então, de uma situação de sua vida em que seu pai o estapeava para que ele estudasse mais. O terapeuta então diz: “Dê voz a esse tapa na sua cabeça”. Ao que o paciente responde: “Vá, moleque. Você precisa estudar mais, seu burro!”. A partir daí há uma cena a ser dramatizada. Outra técnica disponível é concretização, que é a própria montagem na qual é encenado o drama. Ou, então, quando se transforma um sentimento em algo “concreto”. Como, por exemplo, utilizar um ego-auxiliar para representar o sentimento de raiva ou levar a própria pessoa a desempenhar o papel de sua emoção e interagir com ela. A escultura é outra possibilidade na cena psicodramática. Por meio dela, o paciente modela seu corpo em uma imagem estática, como se fosse uma escultura, para ilustrar al76

guma sensação ou sentimento. Por exemplo, quando o terapeuta pede que um casal monte uma escultura que expresse como cada um representa a relação. A mulher se coloca de joelhos, olhando para cima e estendendo a mão como quem pede alguma coisa (querendo receber). O homem fica em pé, olhando para o horizonte, mas seus braços mostram-se como quem oferece alguma coisa. As imagens se complementam, mas o casal ainda não tem consciência disso. Eles invertem os lugares e, depois de um trabalho dramático, percebem o que falta na relação. A escultura, nesse caso, é o ponto de partida para a dramatização. Outras técnicas foram criadas por psicodramatistas contemporâneos e são hoje bastante conceituadas na prática psicodramática. Novas ideias nessa área são sempre bem-vindas. Vale ressaltar que a linguagem do corpo é fundamental no psicodrama e, durante as dramatizações, essa consciência corporal auxilia o sujeito na percepção de seus sentimentos, em contraposição à racionalização que a linguagem verbal costuma direcionar. RELAÇÃO TERAPEUTA-PACIENTE Tanto o terapeuta como o paciente são responsáveis pela manutenção da qualidade da relação terapêutica. No entanto, cabe ao primeiro manter o “clima” apropriado àquele momento de psicoterapia e, evidentemente, utilizar a instrumentalização teórico-prática, bem como definir estratégias para o atendimento de cada paciente e grupo. Para tanto, faz uso de seus sentimentos, sensações e percepções a favor do paciente. Os aspectos pessoais do psicoterapeuta podem emergir a qualquer momento em uma sessão. Cabe a ele ser criativo e propor estratégias que considera melhores. Dessa maneira, os pacientes podem aprender outras formas de se relacionar, encontrando caminhos diferentes do modo cristalizado e criando mais recursos de crescimento nas relações. No caso das psicoterapias grupais, além disso, o terapeuta deve trabalhar como diretor e, ao mesmo tempo, permitir que a dinâmica aconteça naturalmente. Ele é um facilitador do grupo, aquecendo-o para a ação, dirigindo a cena, fazendo o fechamento e intervindo quando necessário.

divulgação

PLACA COMEMORATIVA dos 120 anos do nascimento de Moreno colocada na casa de sua família, na Bulgária, em 2009. Ao lado, foto do psiquiatra

biblioteca nacional de medicina, bethesda

Um dos recursos mais importantes na psicoterapia psicodramática é trabalhar o “aqui e agora” da relação, ou seja, operar sobre a própria relação terapeuta-paciente (nos momentos apropriados), já que há padrões de relacionamentos que são levados pelo paciente para a relação com o terapeuta ou com o grupo de terapia. As mesmas dificuldades que surgem em outros relacionamentos se repetem no setting psicoterapêutico. Essa é uma das vantagens em trabalhar no “aqui e agora”, em um ambiente protegido e propício para tanto. A relação que o paciente estabelece com o seu terapeuta funciona também como um novo modelo relacional, a partir do qual pode aprender a desenvolver em outros relacionamentos. Por isso, o terapeuta muitas vezes aponta os pontos positivos da relação, fortalecendo os aspectos “saudáveis” daquele que o procura, enquanto os que o atrapalham nas relações (conserva) são trabalhados tendo em vista a criação de saídas mais espontâneo-criativas.

março 2017 • mentecérebro 77

especial A PRÁTICA NO BRASIL O psicodrama foi introduzido no Brasil em 1930 por Helena Antipoff, em Belo Horizonte, por meio do trabalho com técnicas parciais psicodramáticas. Num segundo momento, em 1949, quando o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos (foto) teve contato com Moreno, coordenou no Rio de Janeiro o que se acredita ter sido o primeiro seminário sobre psicodrama no Brasil. Em 1950, o francês Pierre Weil, formado em psicodrama por intermédio da francesa Anne Ancelin Schutzenberger, levou oficialmente o psicodrama para o Rio de Janeiro e depois para Minas Gerais. Um dos primeiros grupos psicodramáticos de São Paulo foi coordenado por Íris Soares de Azevedo, que reuniu um grupo de estudos em psicodrama em meados de 1966. Posteriormente, em 1967, veio a contribuição de Jaime G. RojasBermúdez, que dirigiu um psicodrama no V Congresso Latino-Americano de Psicoterapia de Grupo, ocorrido no Teatro

da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Tuca), e depois foi convidado a dirigir grupos de psicodrama e de aprendizagem na cidade de São Paulo. Em 1968, nasceu o Grupo de Estudos de Psicodrama de São Paulo, sob sua coordenação, marcando a formação oficial dos primeiros psicodramatistas brasileiros. Foi nesse período que se iniciou o movimento psicodramático brasileiro. A década de 70 foi repleta de acontecimentos na área psicodramática. Em 1970, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), foi realizado o V Congresso Internacional de Psicodrama e Sociodrama e I Congresso da Comunidade Terapêutica. Em 1975, o Brasil recebeu a contribuição do psicodramatista argentino Dalmiro Bustos, que havia passado pelo treinamento com o próprio Moreno em Beacon. Em 1976, foi fundada a Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap), que desde esse momento até hoje congrega todas as entidades de psicodrama do Brasil; e em 1978 foi realizado o I Congresso Brasileiro de Psicodrama.

fotos brenda rocco

SESSÃO DE PSICODRAMA público no vão-livre do Museu de Arte de São Paulo (MASP), em 2016

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GRUPOS EM AÇÃO O grupo é o ponto central da teoria psicodramática. Inicialmente, o psicodrama foi criado para acontecer em qualquer espaço e tempo. Moreno privilegiava as sessões de um só encontro com um grupo formado naquele momento, o qual chamou de psicodrama público. No Brasil, adotamos outros nomes: ato terapêutico, ato socionômico ou sessão aberta. O psicodrama público possibilita às pessoas trabalhar algumas questões particulares em uma só sessão, com começo, meio e fim. Tudo se passa em um único encontro, com um grupo apenas. Evidentemente, o diretor em questão toma todos os cuidados para que a pessoa não se sinta exposta. Para isso, o contrato (definição de regras com o grupo) deve ser muito bem feito. Já os grupos de psicoterapia psicodramática processuais diferem do psicodrama em um só ato. Acontecem no consultório do psicoterapeuta, e a quantidade de pessoas pode variar. O contrato é diferente, pois aqui se trata de um grupo fechado, ou seja, são sempre as mesmas pessoas que participam das sessões, que ocorrem em um mesmo dia e horário. Os encontros são semanais, e geralmente cada sessão tem duração de duas horas. O terapeuta pode incluir mais pessoas no grupo, porém todos os participantes precisam aceitar o novo membro consensualmente. A vantagem de fazer psicoterapia grupal é a possibilidade de contar com várias vivências, sejam semelhantes ou completamente diferentes. O importante é que os membros sejam cooperativos, no sentido de comprometerem-se com a psicoterapia. Isso não significa que as relações precisem ser sempre harmônicas, já que o conflito ajuda o grupo a crescer, assim como a seus componentes. As pessoas podem trabalhar esses “entraves” naquele momento, no “aqui e agora” da psicoterapia grupal. Outra vantagem de fazer psicoterapia grupal é que todos os membros também exercem papéis de egos-auxiliares, interagindo com os outros na cena dramatizada. Quando alguém desempenha o papel de ego-auxiliar, também trabalha aspectos de sua vida. É muito mais rico construir uma cena com pes-

soas do que utilizar objetos intermediários, embora esse recurso também seja bastante eficaz. As pessoas dão vida aos personagens (papéis) desempenhados no psicodrama e inserem elementos privados na construção das cenas. Isso também ajuda o indivíduo a aprender a se colocar no lugar do outro, desenvolvendo sua empatia, o tele e, claro, o autoconhecimento. Há também os grupos autodirigidos destinados a profissionais psicodramatistas, nos quais os participantes são pacientes e diretores das sessões, sob a supervisão de um profissional que acompanha e está presente nos encontros. Trata-se de uma modalidade de grupo de terapia e, ao mesmo tempo, de treinamento. UMA FILOSOFIA DE VIDA Com quase um século de existência oficial, o psicodrama traz como essência alguns pontos centrais básicos e fundamentais para o trabalho: a visão otimista da vida, a ideia do homem, segundo Moreno, como um ser relacional (que vive sempre em relação consigo mesmo, com os outros e com o mundo), a concepção de que todos têm um deus dentro de si (ser criativo), a proposta de inclusão social e, claro, a ação propriamente dita. Muitas outras técnicas foram criadas a partir da base que Moreno nos deixou, vários conceitos foram desenvolvidos e adaptados para a nossa cultura, tal qual desejou seu criador. Aliás, Moreno sempre quis que as pessoas dessem continuidade à sua obra, incentivando a todos que passaram pelo seu caminho a fazê-lo. Trabalhar com o psicodrama não é só usar uma ferramenta ou acreditar em uma teoria: é uma filosofia de vida. Ter a essência do psicodrama internalizada nos ajuda não só a atuar como profissionais psicodramatistas, mas a nos relacionar melhor com nós mesmos, com os outros e com o mundo. Torna a vida mais colorida. Acreditar que somos autores da própria vida e responsáveis por nossa história nos dá potência de ser, de estar, de agir, de criar e de acontecer. Ajudar os outros, nos preocupar em incluir as diferenças, pensar no social e no humano, sentir, perceber – assim é ser psicodramatista.

PARA SABER MAIS Quem sobreviverá? Fundamentos da sociometria, da psicoterapia de grupo e do sociodrama. Edição do estudante. J. L. Moreno. Daimon, 2008. Psicodrama: terapia de ação & princípios da prática (1969). J. L. Moreno. Daimon, 2006. O essencial de Moreno: textos sobre psicodrama, terapia de grupo e espontaneidade. J. Fox. Ágora, 2002. Psicoterapia de grupo e psicodrama. J. L. Moreno. Livro Pleno, 1999. J. L. Moreno: autobiografia. J. L. Moreno, com organização de Luiz Cushnir. Saraiva, 1997. Psicodrama. J. L. Moreno. Cultrix, 1997. As palavras do Pai. J. L. Moreno. Editorial Psy, 1992. Lições de psicodrama: introdução ao pensamento de J. L. Moreno. C. S. Gonçalves, J. R. Wolff, W. C. de Almeida. Ágora, 1988. O teatro da espontaneidade. J. L. Moreno. Summus, 1984. Fundamentos do psicodrama. J. L. Moreno. Summus, 1983. Revista da Febrap http://www.febrap.org.br.

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livros | lançamentos MUNDO CONTEMPORÂNEO

Mercantilização do sono 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono. Jonathan Crary. Ubu, 2016. 144 págs. R$ 39,90

CÉREBRO-MÁQUINA

AUTISMO

LEITURA PARA JOVENS

PSICANÁLISE

Avanços da neurociência

Relato de um pai

Formando cientistas

Perspectivas sobre sexualidade

Considerado um dos melhores livros de ciências brasileiros, Muito além do nosso eu – A nova neurociência que une cérebro e máquinas, e como ela pode mudar nossas vidas ganha edição atualizada. O neurocientista Miguel Nicolelis conta a evolução da pesquisa que culminou na criação, por sua equipe, do exoesqueleto, dispositivo que permite que paraplégicos usem a mente para acionar movimentos dos membros. A nova edição traz um panorama de pesquisas que podem impactar nossa qualidade de vida nas próximas décadas.

“Não há nada de bonitinho no autismo”, diz francamente o jornalista Luiz Fernando Vianna, pai de um adolescente com transtorno do espectro autista. Em Meu menino vadio, ele revela a experiência de criar e conviver com o filho Henrique – os sintomas iniciais, o diagnóstico, o desafio de compreendê-lo e comunicar-se com ele. Crítico a abordagens midiáticas que têm, segundo ele, “glamorizado” o transtorno, Vianna oferece um relato realista – mas também amoroso e responsável – de como é cuidar de uma criança com TEA.

Uma adolescente entra em contato com a neurociência em um projeto da escola e fica encantada com esse campo de conhecimento e suas possibilidades de responder a questões sobre o comportamento humano. CuriosaMente: descobrindo a neurociência é uma introdução didática às estruturas e ao funcionamento do cérebro. Volume da coleção O que é ser cientista?, a obra tem o objetivo de despertar interesse científico nos jovens.

Psicanálise sem Édipo? discute os recursos da psicanálise para lidar com a sexualidade humana da perspectiva da aceitação da diversidade. Philippe van Haute e Tomas Geyskens questionam noções de normalidade. Para os autores, comportamentos patológicos são indissociáveis das múltiplas formas de expressão humana – “não há sujeito sem sintoma”, nas palavras de Lacan. Além de Freud e Lacan, recorrem a Foucault e Deleuze para refletir sobre a natureza humana.

Muito além do nosso eu. Miguel Nicolelis. Planeta, 2017. 512 págs. R$ 69,90

Meu menino vadio. Luiz Fernando Vianna. Intrínseca, 2017. 208 págs. R$ 44,90

CuriosaMente: descobrindo a neurociência. Edgard Pereira Neves, Maria Teresa CartheryGoulart, Roberta Roque Baradel (orgs.). Editora UFABC, 2016. 328 págs. R$ 19,90

Psicanálise sem Édipo? Philippe van Haute e Tomas Geyskens. Autêntica, 2016. 208 págs. R$ 54,00

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imagens: divulgação

Os avanços da tecnologia estão tornando as fronteiras entre trabalho, lazer e descanso cada vez mais tênues. Existe a percepção de que a todo tempo podemos trabalhar, responder a e-mails, ler notícias que nunca param de chegar, interagir nas redes sociais. Para Jonathan Crary, autor de 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono, a lógica do mundo não se prende mais a limites temporais e espaciais. E essa nova ordem traz impactos sobre o tempo e a qualidade do sono. Crítico de arte e professor da Universidade Columbia, Crary analisa os aspectos históricos, sociais e econômicos que, nas últimas décadas, têm influenciado a percepção de que o sono deve ser sacrificado e adaptado às demandas de trabalho e ofertas de diversão.

ZYGMUNT BAUMAN

Xenofobia e política Morto no início deste ano, o sociológico polonês Zygmunt Bauman é considerado um dos maiores pensadores da atualidade. Autor do conceito de “liquidez”, Bauman foi um analista e crítico das novas dinâmicas socioeconômicas e afetivas no mundo globalizado. A editora Zahar lança em português Estranhos à nossa porta, um ensaio sobre as origens do preconceito contra imigrantes nos países desenvolvidos. Para Bauman, vivemos uma crise humanitária na qual políticos exploram medos enraizados nas populações e inflam um nacionalismo ilusório. O autor desafia a noção de fronteiras ao propor que nos identifiquemos como espécie humana e busquemos construir pontes em vez de muros.

Estranhos à nossa porta. Zygmunt Bauman. Zahar, 2017. 120 págs. R$ 44,90

limiar neurociências

Sete perguntas do nosso tempo Sidarta Ribeiro entrevista o advogado Emilio Figueiredo, participante da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas. Consultor jurídico do growroom.net e associações de usuários que fazem uso medicinal da cannabis, é membro do Conselho Consultivo da Plataforma Brasileira de Política de Drogas substâncias que o Poder Público deixa para o monopólio de pessoas à margem da lei. Além disso, a maconha não tem dose letal e dificilmente causa intoxicação, o que torna o mercado consumidor perene.

Qual a proposta do Growroom para a legalização da maconha? Emilio Figueiredo: O Growroom construiu uma proposta de regulação da maconha na qual todos os usos da cannabis são previstos, desde o cultivo doméstico até o industrial, passando pelo cultivo coletivo associativo, religioso, medicinal e comercial. Também há previsão de criação de um regime tributário específico para a maconha e de um observatório para análise de dados sobre os efeitos da regulação.

Como impedir que a legalização aumente a ocorrência de outros crimes? Emilio Figueiredo: No Brasil há o bordão de que o país não está pronto para a legalização, que os traficantes irão cometer outros crimes. Primeiro, o Brasil não está em guerra, mas os hospitais do Rio, por exemplo, estão prontos para ferimentos de fuzil. Segundo, os que hoje participam do mercado ilícito só continuarão na ilicitude se não forem incluídos no processo de legalização. Para isso, a legalização deve ser feita com uma função social e não mercadológica, buscando o protagonismo das comunidades que fizeram a resistência à proibição, a inclusão social de pessoas hoje envolvidas com o mer-

Qual a importância da maconha para o narcotráfico? Emilio Figueiredo: Maconha é a droga ilícita mais consumida e uma das 82

O que aprendemos com a experiência do Uruguai? Emilio Figueiredo: A força do cultivo doméstico e das associações, conhecidas como cannabis social clubs, e a sua eficiência para suprir o mercado. Atualmente, são 5.446 cultivadores cadastrados e 27 clubes em funcionamento, mas, passados três anos da legalização, as empresas ainda não conseguiram colocar a maconha para vender nas farmácias.

cado ilícito que não tenham cometido crimes de sangue e a reparação dos danos históricos da guerra às drogas. O que falta para a Marcha da Maconha atingir as periferias das grandes metrópoles? Emilio Figueiredo: A marcha é um evento cosmopolita, realizado em diversas cidades do mundo. No Brasil é feita há 15 anos e desde 2011 a reunião é assegurada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje, há forte participação da periferia em São Paulo, Recife e Fortaleza. Creio que para atingir mais periferias a Marcha da Maconha deve garantir a segurança dos participantes e deixar claro que a periferia é parte interessada fundamental no debate da legalização, portanto deve participar das marchas. Quais devem ser as bases para uma regulamentação de drogas eficaz e racional? Emilio Figueiredo: O respeito ao fato social de que pessoas usam drogas, a tolerância entre aqueles que usam ou não usam drogas, o reconhecimento de que é possível o uso das drogas hoje proibidas para o bem-estar, e a primazia da redução de danos para o uso de qualquer droga, seja lícita ou ilícita. SIDARTA RIBEIRO, neurobiólogo, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e professor titular da UFRN.

andrei verner (foto)

Como está a discussão sobre legalização de drogas no contexto da crise penitenciária? Há boas iniciativas parlamentares? Emilio Figueiredo: A emergência da barbárie no sistema prisional brasileiro fez o debate da reforma da política de drogas tomar novo fôlego em 2017. O debate já vinha forte, com o extermínio de jovens pobres sob o argumento da repressão ao “tráfico” e o uso terapêutico da maconha por crianças com epilepsia de difícil controle. Hoje, a única iniciativa parlamentar inovadora é o Projeto de Lei 7270/2014 do deputado Jean Wyllys, que descriminaliza todas as drogas e regula o ciclo da maconha. Os demais projetos se resumem a piorar a lei de drogas.

IDARTA RIBEIRO

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