Darling 22 - Vicki Lewis Thompson - Jogo Arriscado
December 7, 2016 | Author: VivianeMoura | Category: N/A
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romance...
Description
Jogo arriscado Vicki Lewis Thompson Darling 22
Se vencer no mundo dos negócios, ela destruirá o homem amado... Olhos nos olhos, Clare desabotoa a camisa de Max e põe as mãos no peito musculoso, sentindo que seu coração bate loucamente. Beija-lhe o queixo, os lábios e afasta a camisa, roçando os seios contra a pele ardente e nua. É outra mulher, impetuosa, atrevida, entregue à sensualidade que ele soube despertar, ensinando-lhe o alucinante ritual do amor. Nada mais existe nesse momento, e se amam, esquecidos de que a vida brinca cruelmente com eles: irá cobrar um preço muito caro por aquele encantamento.
Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos, de fãs para fãs. Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente proibida. Cultura: um bem universal.
Digitalização: Logística e Revisão: Projeto Revisoras
Copyright © 1989 by Vicky Lewis Thompson Publicado originalmente em 1989 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá. Título original: FULL COVERAGE Tradução: Helena Wiechmann Copyright para a língua portuguesa: 1991 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3? andar CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil Caixa Postal 2372 Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda. Impressão e acabamento no Círculo do Livro S.A.
CAPÍTULO 1
A janela de Max Armstrong, quase do tamanho de um cartaz de estrada, refletia as montanhas nevadas e nuvens brancas num céu muito azul. Clare ficou olhando, fascinada, a bola de golfe aproximando-se do vidro. Quando o atingiu, fazendo um buraco todo recortado na paisagem, ela sentiu um momento de alegria bárbara. — Bem feito! — disse baixinho, antes de sentir-se culpada e pensar nas conseqüências do incidente. — Isso foi barulho de vidro quebrado? — perguntou seu irmão, um rapaz de dezessete anos, saltando do carrinho de golfe para ver melhor. — Nossa! Você quebrou a janela de Max! — Foi sem querer — disse ela, pensando se realmente não quisera fazer aquilo. — Ele vai sair berrando, já, já! — Ele não está em casa, Clare. — Tem certeza? Como sabe? — Não tem bandeira. Ele sempre hasteia a bandeira com o ursinho, quando está em casa. — É mesmo? — Clare admirou a perfeição do gramado de golfe no terreno de seu concorrente, a casa de três andares e o mastro despido. — Hum... Essa idéia não é nova. — Pode não ser — retrucou Joel, mas se vir um ursinho de pelúcia em qualquer casa de Flagstaff, já sabe quem é o agente de seguro do morador: “O Ursinho Armstrong, Símbolo de Segurança”! — Não precisa repetir: ouço essa frase até em sonhos! — A idéia foi do Tom, quando estava com seis anos — explicou o rapaz, onze anos mais novo do que a irmã. — Isso eu não sabia. — Olhou, curiosa, para a enorme casa cinzenta, de novo. — Por que ele mora aí? Não é grande demais para uma pessoa só? — Acho que é por causa dos filhos, para Tom e Brian terem algo familiar, quando vêm visitá-lo. E a janela, Clare? — Vou deixar um recado para ele. — Não precisa: Max não vai adivinhar que a bola é sua. — Joel! Está insinuando que eu fuja da responsabilidade?
— Minha irmãzona moralista! Já pensou nas conseqüências? Você está querendo ganhar a concorrência com Max para fazer o seguro deste clubehotel... e ele vai contar a todo mundo que grande jogadora de golfe você é! A primeira a quebrar a janela da casa dele e o pessoal vai morrer de rir. Primeira, como? Max mora praticamente dentro do clube— hotel, a janela dele deve viver quebrada e... Pelo que Tom me contou, não. Ele disse que um golfista tem que ser muito ruim para chegar perto da janela, quanto mais para quebrá-la. Em dez anos, algumas caíram no terraço. — Não imagina o quanto suas palavras me fazem bem, Joel! — Assim mesmo vai deixar recado? Pensei que tínhamos vindo jogar aqui para impressionar o dono do clube... — Ele olhou ao redor. — Veja, não há ninguém, podemos esquecer! Clare fez que não com a cabeça, decidida a ser honesta, também para dar exemplo ao irmão. Depois da morte dos pais, assumira a liderança da família e levava a obrigação a sério. — Vou deixar meu cartão de visitas num lugar que ele possa ver. — Que tal jogá-lo pelo buraco no vidro? — Obrigada pela idéia! Quer ir comigo? — Eu, não! Depois vão dizer que a culpa foi minha. Clare aproximou-se da casa, que tinha um jardim lindo, com abetos azuis e canteiros de crisântemos brancos. Alguns álamos tocados pelo orvalho brilhavam ao sol como fontes de moedas de ouro. O terraço era cercado por vasos com gerânios vermelhos. Ela subiu a escada, pegou um cartão no bolso da calça e escreveu: “Desculpe ter quebrado sua janela. Gostaria de saber como resolver isso.” Enfiou-o por baixo da porta. Então, achou-se com direito de espiar a toca do urso. Pelo vidro fumê da porta conseguiu divisar uma imensa lareira em uma das paredes do living; na outra havia um quadro a óleo, do Grand Canyon. Diante da lareira, um grande sofá curvo, ao lado um piano coberto por um pano e, no fundo, um bar. Joel devia adorar ir a essa casa, antes de os meninos irem embora, por causa do divórcio. Não era à toa que ele imitava Max Armstrong, em vez do pai, que não fora tão bem sucedido. Quando decidira concorrer com Max para derrubá-lo como o agente de seguros mais importante de Flagstaff, Clare calculara qual seria o prêmio anual do seguro do clube-hotel de golfe e descobrira que Max era vulnerável:
não fornecera cobertura total a E. Hamilton Durnberg, o proprietário. E era por ali que ela ia entrar. Ganhando essa conta, ela poderia empanar um pouco a imagem de Max diante dos olhos de Joel e firmar a Agência de Seguros Pemberton, demonstrando a ele, também, que a capacidade dela e os programas de computador podiam vencer os métodos antiquados do homem que ele admirava. Dois meses atrás, Joel anunciara que ia abandonar os estudos e trabalhar na agência porque estavam precisando de dinheiro e Max Armstrong se saíra muito bem na vida sem ir para uma universidade. Clare ouvira isso, alarmada. Não sabia se o futuro do irmão residia nos seguros, mas se ele deixasse os estudos não teria opção. Ela queria duas coisas: dinheiro para Joel estudar e oportunidade de provar que Armstrong podia ser derrotado. Para isso teria que ganhar E. Hamilton Durnberg como cliente. Segunda-feira à tarde, Clare trabalhava no computador, procurando terminar a proposta para apresentar a Durnberg. O computador fora o primeiro passo para elevar o nível da agência que herdara do pai. Ela aumentara a renda, desde que assumira o escritório, a ponto de poder contratar uma secretária ou comprar um computador. Optara pelo aparelho. Por isso, tinha que usar secretária eletrônica e nem queria pensar no fato que não tirava férias há dois anos, nem tiraria tão cedo. Se conseguisse Durnberg como cliente, tudo iria melhorar. Quando a porta se abriu, ela ergueu os olhos, aborrecida com a interrupção. A má vontade transformou-se em vexame quando viu o homem de terno marrom e chapéu que se aproximava de sua mesa, brincando com uma bola de golfe amarela. O rosto dela ficou rubro. Não tinha idéia do que dizer àquele homem tão seguro de si, cuja janela destruíra. Esperara que ele telefonasse, não se preparara para enfrentar Max Armstrong em pessoa. — Eu... eu sinto muito pela sua janela — disse, por fim. Ele tocou a aba do chapéu. Seus olhos castanhos-claros, quase dourados, tinham um brilho divertido. — Duas coisas me impressionaram nesse incidente — disse, colocando a bola no centro da mesa de Clare. Ela recuou, como se a bola pudesse explodir: — Duas coisas? — estranhou. — Primeiro, queria saber como fez o que nenhum golfista conseguiu...
— Foi uma tacada errada, eu acho. — Que taco estava usando? — Hum... Era o n? 5, de ferro... — De que distância? — Uns cem metros, acho... Foi o vento que atrapalhou! — Só se usa taco n? 5, de ferro, num furacão! — Joel me disse que o taco era pesado, mas... — Afastou a bola para o canto da mesa e fitou os olhos do adversário. — Vou pagar a janela. Não preciso explicar como aconteceu, sr. Armstrong! — Então, sabe quem sou? Ela amaldiçoou-se por ter dito o nome dele. Seria melhor fingir que não o conhecia. Agora, ia ter que massagear o ego daquele homem. — Vi uma foto sua num jornal... — Ultimamente? Não é possível. Posso me sentar? — Tenho um compromisso às três e preciso terminar um trabalho... — Não vou demorar — disse ele, sentando-se. — Preciso chegar às três para vender um seguro... — Eu também. Engraçado, não? Como seu escritório fica no meu caminho, decidi satisfazer a curiosidade. — Preciso treinar golfe, sr. Armstrong, se é o que deseja saber. — Max. — Está bem, Max. — Lembrou-se do aviso de Joel: ele poderia transformar o incidente em piada para divertir Durnberg. — Comecei a dominar o jogo depois do décimo buraco. Até Joel comentou que... — Joel... seu marido? — Meu irmão. Assim que falou, ela ficou furiosa consigo mesma por ter respondido tão depressa. O tom da voz dele forçava à cooperação. Na certa, falava daquele jeito para vender apólices. — Eu sei. Joel Pemberton, um amigo do Tommy. — E, acho que eles se conhecem — ela imitou o tom casual de Armstrong. — Agora me lembro! A agência era de seu pai e ele... — Morreu... Faz dois anos. — Sinto muito. Eu não o conheci, mas parecia um homem muito decente. — E era.
— Você está dirigindo a agência? — Ela fez que sim. — Aposto que redecorou isto aqui! — Ele olhou à volta. — Acha? Por quê? Ela fizera quase tudo sozinha, para economizar. O gráfico na parede é recém-pintado e os quadros parecem ter sido escolhidos por uma mulher jovem e brilhante... — Como assim? — Não sabia se ele aprovava ou não. — Essa linha em ziguezague, na parede, como um gráfico de vendas é interessante. O quadro abstrato mostra que é moderna, ágil. — Para ser agente de seguros é preciso ser moderna. — Sem dúvida — ele recostou-se na poltrona. — Que tipo de pintura há em suas paredes, Max? — Tenho um amigo pintor que fez duas paisagens de montanha, no outono. As pessoas gostam de olhar para elas. Ela notou que ele acentuara a palavra pessoas. Concluiu que estava pouco ligando para a decoração dela, mas gostasse o sr. Armstrong ou não, aquela seria a maior agência de seguros de Flagstaff. O tempo de conquistar clientes com ursinhos de pelúcia já terminara. — Você parece com seu irmão — comentou ele. — É esguia como Joel, cabelos da mesma cor, mas não lembro se ele tem olhos verdes... — São azuis — disse Clare, acostumada a ser comparada com Joel, de quem parecia gêmea, com a diferença na cor dos olhos. — Admiro-me que lembre tão bem dele. — Sempre me lembro dos bons amigos que Tommy leva em casa. Agora que sei que é irmã de Joel, não mais me surpreende o fato de ter se responsabilizado pelo incidente, quando poderia ter se omitido. Clare lutou contra a sensação gostosa que o elogio provocou. Não devia ligar para o que ele pensava de seu escritório, do seu irmão, de sua ética!, disse a si mesma, zangada. Calculou a idade dele entre trinta e cinco e quarenta anos. Chegara à idade em que alguns homens se tornam mais atraentes, outros cansados. Max pertencia ao primeiro grupo. Tinha ombros largos, firmes, a cabeça alta como a das pessoas bem-sucedidas na vida. Compreendia porque Joel o admirava. A personalidade dele era marcante, poderosa, tanto que a fizera abandonar o trabalho e conversar. Não acabaria a tempo. Olhou o relógio e disse: — Preciso sair... Quanto custa o conserto da janela? — Esqueça... Já foi consertada e estava no seguro.
— Mas você tem franquia, não? Não me custou nada. Já fiz vários trabalhos com a fábrica de vidro e eles nem queriam cobrar, porém eu paguei: todos precisam ganhar para viver. — Eu sei, por isso faço questão de pagar! — Não queria dever nada a ele. — Está com a consciência pesada? Então, pague-me indo tomar alguma coisa comigo... Ela ficou perplexa e notou que suas mãos suavam. — Bem, eu... — Já sei: seu namorado não ia gostar! — Não é isso. — Não? Então, eu convido. Vamos sair, então. Hoje talvez não dê, porque o compromisso das três pode se prolongar. E se eu vier buscá-la amanhã, no fim da tarde? Com o coração aos pulos, ela procurou uma desculpa, mas nunca aprendera a mentir. Além disso, na hora combinada Max já teria descoberto que ela estava a fim de lhe roubar o seguro do clube-hotel e desmarcaria o encontro. — Está bem — disse, numa voz que não parecia ser a sua. — Ótimo. Vou esperar ansioso. — Ele levantou-se e estendeu a mão. Depois de hesitar, ela ergueu-se e apertou a mão dele, o calor de seus dedos percorrendo-lhe o corpo todo. Imaginara que Max tinha sangue-frio, literária e figuradamente? Engano. O contato com aquela mão despertou nela sensações alarmantes, que não imaginava existirem, e ficou assustada. — Epa! Eu a convidei para tomarmos um aperitivo, não para fazermos um linchamento! Por que esse espanto? — Desculpe... — sorriu ela, imaginando o que ele poderia pensar de seu comportamento. — As mesmas covinhas... — O quê? — Você tem as mesmas covinhas do Joel. Dê-lhe lembranças minhas. — Darei... — e ela engoliu seco. O que acontecia? Tinha que manter a calma com esse homem; era seu concorrente, precisava ter a cabeça fria. — Até amanhã, então — Max soltou-lhe a mão. — Até amanhã. Ela percebeu que tremia, então apoiou as palmas das mãos no tampo
da escrivaninha, observando-o sair. Ele parou perto da mesinha com revistas, entre duas poltronas: — Alguém lê isto? — pegou duas revistas de economia. — Eu leio. — Estou falando dos seus clientes. — Bem, não sei. Acho que eles precisam se informar sobre finanças, por isso deixo as revistas e folhetos aí... — Hum... — Max colocou as revistas no lugar. — Você tem esse tipo de revistas em sua sala de espera? — Não. — Que tipo, então? — Vários... Rider’s Digest, People, Time... Coisas que gosto de ler. — Acontece que eu gosto de ler sobre dinheiro. — Imagino... — disse ele, olhando umas aquarelas penduradas na parede. E antes que ela dissesse alguma coisa, tocou a aba do chapéu, num cumprimento, e saiu. Que coisa mais idiota!, pensou Clare. Por que ele não telefonara, simplesmente? Agora, lidava com um homem real e... A frase grudou em seu cérebro: homem real. Essas palavras, com suas implicações, abalaram-na como uma avalanche. Não. Não devia dar espaço para esse tipo de pensamento em relação a um homem como Max Armstrong. Retirou a proposta que fizera da impressora do computador, cobriu-o com a capa. Colocou os papéis na pasta que a mãe lhe dera no Natal. A mãe estava contente por ela continuar com a agência de seguros e estar vivendo desse trabalho. Duvidou que o sr. Armstrong tivesse uma pasta elegante como a sua. Não devia pensar nele, avisou a si mesma, enquanto ligava a secretária eletrônica e saía do escritório. A reunião com Durnberg exigia toda concentração, se queria ganhar a concorrência. Enquanto dirigia seu carrinho usado e entrava no clube-hotel, viu que ele era o mais velho de todos que estavam no amplo estacionamento. Joel dissera uma porção de vezes que um dia teria um Porsche como Max Armstrong. Ela se irritava com a fixação dele por carros caros, mas agora até gostaria de estar ao volante de algo mais novo e mais brilhante. Seu pai jamais ligara para ostentações de riqueza. Ela até desconfiava que ele usava a pobreza como bandeira de honra. Tentara cultivar a mesma
atitude, mas se aborrecera. O edifício do clube-hotel Flagstaff Farways encontrava-se no meio de pinheiros gigantescos que mantinham inúmeros empregados varrendo as agulhas e pinhas das alamedas e canteiros. As árvores tinham sido mantidas para conservar a atmosfera de montanha, mas fora preciso sacrificar muitas delas para fazer os campos de golfe. No entanto, tudo aquilo valorizava o local e aumentava o prêmio do seguro, cuja renovação seria dali a dois meses, no dia 15 de janeiro. Clare queria que Durnberg tivesse tempo para estudar sua proposta. Estacionou, saiu do carro e dirigiu-se para as imponentes portas da entrada principal. Já sabia que havia um hidrante à direita do edifício e que outros estavam espalhados pelas alamedas do condomínio. O fogo era a grande preocupação das companhias de seguro e ela não queria que o contrato saísse errado por não oferecer proteção adequada. Parou diante da porta dupla e respirou fundo. Preparara-se para aquela reunião há semanas, pesquisando as necessidades do local e comparando-as às de um pacote de seguro oferecido por preço muito baixo. Mas sabia que não poderia derrotar Max apenas com o preço, então juntou um plano para outro clube-hotel de Durnberg, na Flórida, o Sugar Sands, além de um seguro de saúde e de vida. Venderia o pacote controlado por uma única agente: ela própria. Pretendia apresentar o projeto e vencer Max, embora soubesse que não ia ser fácil. Ele era o agente de seguros preferido de Flagstaff há muito tempo. Teria que lutar tanto contra a lealdade quanto contra a inércia, porém se determinara a derrotar ambas. Erguendo a cabeça, determinada, abriu a porta. Sabia onde ficava o escritório de Durnberg, pois estivera ali várias vezes, antes de ele voltar à cidade. O empresário costumava passar pouco tempo lá, preferindo o clima mais ameno do Golfo do México. A recepcionista sorriu para Clare, mas parecia nervosa. — Durnberg disse que a fizesse entrar assim que chegasse — disse, olhando para a porta do escritório, entreaberta; então baixou a voz. — Felicidades! — Obrigada, Beverly. Clare ficara amiga da recepcionista e através dela soubera muita coisa sobre os dois clubes. Se pegasse a conta, convidaria a moça para um jantar, prometeu a si mesma, enquanto andava pelo corredor. O som de vozes masculinas na sala do empresário a fez parar. Queria conversar a sós com ele.
Talvez fosse um empregado e saísse logo. Bateu à porta, que se encontrava apenas encostada. — Entre — disse alguém, certamente Durnberg. Ela entrou e parou no umbral, sorriu para o homem sentado atrás da mesa e, depois, olhou para o outro, sentado numa das duas poltronas, de costas para ela. Ele voltou-se e tocou a aba do chapéu, enquanto dizia, suave: — Prazer em vê-la de novo, Clare.
CAPÍTULO 2
— Então, já se conhecem? — o empresário sorriu, exibindo dentes perfeitos. — Sim, desde hoje à tarde... Com dificuldade, Clare desviou a atenção para ele. Suas têmporas grisalhas e os traços fortes do rosto sugeriam aristocracia, familiaridade com dinheiro e privilégios, embora Max parecesse tão à vontade com ele como se estivesse em sua casa. O escritório tinha lambris de madeira que mais combinavam com a personalidade de Armstrong do que com a do proprietário do clube-hotel. O mobiliário consistia em uma escrivaninha pesada, enorme, duas poltronas estofadas à frente dela, um pequeno sofá junto a uma das paredes, estantes e um armário encostados à outra. Sobre o armário exibia-se um ursinho. — Talvez eu tenha me enganado sobre a hora do nosso encontro, sr. Durnberg — disse ela. — Posso voltar mais tarde, quando o senhor puder... — Não, não! Venha sentar-se perto do meu amigo Max. Então, Durnberg o considera seu amigo!, pensou Clare. — Olhe, se o senhor não se importar, eu preferia... — Escute, Ham, acho que a moça não está gostando da situação. — Max levantou-se. — Posso ir dar uma volta. Clare estranhou: seria ele tão generoso a ponto de sair de campo e deixá-la agir à vontade? — Não quero que nenhum dos dois saia — respondeu Durnberg, firme. — Tive que mudar meus planos e resolvi que o modo mais simples seria conversar com os dois ao mesmo tempo. — Mudar os planos? Como? — perguntou Clare, segurando a pasta contra o peito com mais força. — Sente-se, srta. Pemberton. Já explico — disse o empresário, fitandoos com expressão divertida. Clare aproximou-se da poltrona ao lado da de Max e sentou— se na beiradinha, como se fosse fugir a qualquer momento. — O que fez com ela, Max, que está tão assustada? Max cruzou as pernas e ela notou que a sola de seu sapato es
tava bastante gasta. — Bem — retrucou ele — talvez ela pense que estou furioso, porque pensa que vai tirar você de mim... Ela ficou rígida ao vê-lo tão à vontade. — Pelo jeito, acha isso impossível — comentou, fria. — Tudo é possível — disse Max, rindo —, mas a vida é curta demais para a gente se aborrecer com uma pequena competição. A moça ia rebater, mas Durnberg interrompeu. — Competição amigável, disso é que eu gosto. Nesse caso, tenho uma proposta para os dois. Preciso voltar para a Flórida, só que antes devo resolver umas coisas por aqui, por isso não há tempo para examinar a proposta da senhorita e compará-la à sua, Max. Será melhor os dois irem comigo. — Mas, eu... — começou Clare. — Eu vou com prazer, Ham. Clare tratou de obrigar seu ritmo cardíaco a se regularizar. Se ele fosse e ela não, jamais pegaria o cliente. Além disso seria bom para ela ir à Flórida. — Por quanto tempo? — perguntou ainda indecisa. — Poucos dias — disse Durnberg, examinando uns papéis que tinha sobre a mesa. — Vocês poderão deixar as agências por conta de suas secretárias... — Glória vai ficar feliz com minha cara feia longe dela. Acho que eu a incomodo — comentou Max. Clare pensou depressa. Não tinha escolha, precisava ir. Quem cuidaria do escritório, na sua ausência? — Bem, darei um jeito... — disse, num murmúrio. — Ótimo! Então espero os dois no aeroporto, amanhã às seis... — Ok — disse Max, erguendo-se. — Bem que preciso me bronzear um pouco, providencie bastante sol para nós, Ham! — Rapaz, o sol sempre brilha sobre E. Hamilton Durnberg, você já devia saber! — disse o empresário, rindo. — Então, vou ficar perto de você, para pegar uns reflexos. — Pois fique. Nos vemos no aeroporto, então, senhori... Ora, não podemos esquecer as formalidades? Posso chamá-la de Clare? — Naturalmente, sr. Durnberg. — Ham. É como meus amigos me chamam. Agora, para fora, os dois: tenho muito que fazer.
Fazia mais de cinco anos que a tinham posto para fora desse jeito. Isso e a evidente auto-suficiência de Durnberg deixaram Clare irritada e sem vontade de conversar. Tentou livrar-se de Max, mas foi inútil. Caminharam lado a lado, depois de sair da sala do empresário. — Parece que fiquei com a tarde livre — comentou ele. — Vamos tomar aquele aperitivo, então? — Agora? — indagou Clare, parando. — Por que não? — Preciso resolver umas coisas antes de viajar. — Eu também, mas vamos, assim mesmo. — Segurou-a por um cotovelo. — Não vamos discutir. Eu gostaria de sentar e relaxar um pouco. Você parece estar precisando da mesma coisa. — Está bem. — O toque da mão dele em seu braço teve o poder de enfraquecer seus protestos. — Pelo jeito, sabe onde devemos ir. — Até o fim do corredor. Há um bar gostoso, lá... só que talvez eu deva perguntar se as vidraças dele estão inteiras, depois de sua passagem por aqui. — Não achei a menor graça nessa piadinha! — Desculpe... O pedido de desculpa surpreendeu-a. Resolveu testar a profundidade do cavalheirismo dele. — Max, não tenho o menor direito de lhe pedir isto, mas gostaria muito se você não contasse ao sr. Durnberg que eu quebrei a sua janela... — Não vou dizer nada, pode ficar tranqüila. — Obrigada. É muita bondade sua. — Talvez, mas é uma tática de venda, também. Jamais tirei vantagens diminuindo meus competidores. O cliente pode até achar que é mentira, quando se fala mal do outro. Só faço isso quando tenho certeza que se trata de pessoa mal-intencionada, que vai prejudicar o cliente. — Levou-a a um canto discreto do bar e sentaram-se a uma mesinha. — Não é seu caso: sei que você não é desonesta. Clare afastou-se um pouco dele, no banco forrado de couro. Sentia demais a proximidade do corpo, da respiração cálida de Max. Colocou as mãos sobre a mesa, engolindo seco. — Admiro muito a sua atitude — disse, por fim. — Que bom! Nem todo mundo me admira... O que quer tomar? — Vinho branco. O da casa é ótimo. Ele ficou calado, mas quando o garçom se aproximou pediu uísque e
vinho branco francês. Aquele gesto aumentou a admiração dela: sempre sonhara encontrar um homem como aquele, que encarava a vida e não hesitava em tomar decisões arbitrárias. — Estou interessada em sua teoria de falar bem do competidor. Lembrou-me a citação de um personagem de “Bambi”... — Sim, eu sei. “Se você não puder falar bem de alguém, não diga nada”. — Não sabia que era fã de “Bambi” — disse ela, rindo. À meia-luz, os olhos dele tornaram-se castanhos-escuros. — O que pensa que eu sou? O grande caçador branco que mata a mãe de Bambi? — Isso não, mas vejo-o apunhalando o pai... — Mesmo? — indagou ele, empurrando o chapéu para trás, com o polegar. — Veja sua roupa... parece saída de um catálogo para vaqueiros... — Então, não se importaria se eu mascasse fumo? Prometo não cuspir na sua direção... — Claro que me incomodaria! Acho mascar fumo um hábito horrível! Quanto ao de cuspir, eu... — interrompeu-se quando o garçom trouxe as bebidas, então percebeu que ele brincava. — Ora, você não masca fumo! Ele riu com vontade e ela chegou à conclusão que preferia o riso dele ao de Durnberg, que lembrava um anúncio para pasta de dentes. — Fiz esse sermão uma porção de vezes para o Joel — explicou, sentindo calor no rosto. — Ele joga beisebol e durante algum tempo achou que uma das exigências do jogo era mascar fumo. Se ele soubesse que você não mascava, garanto que... — interrompeu-se tarde demais. — O que tenho a ver com isso? — Bem, nada... Qualquer adulto em contato com ele exerceria influência e, claro, ele se impressionou com você. — Entendo... Mas ele esteve só três vezes em minha casa. Ou será que há algo que você não quer me dizer? — Alguns adultos nem têm idéia de quanto influenciam jovens impressionáveis, mesmo que o contato entre eles seja breve. Ele ergueu o copo, num brinde, como quem deseja mudar de assunto. — A uma competição amigável! — disse, sorrindo. — A uma competição amigável — ecoou Clare, com um sorriso,
também. — Não podia imaginar, no entanto, como continuariam amigos depois que tirasse o cliente dele. Tocou o copo de Max com o dela e fitou-o. Os olhos dele refletiam bom humor e algo mais que fez as mãos dela tremerem e o coração bater com maior rapidez. — O vinho é ótimo — disse, depois de tomar um gole. — Não entendo por que ia tomar um vinho barato, afinal eu é que vou pagar, uma vez que convidei. — Mas eu é que devia pagar! — protestou ela. — E posso pagar! “Mas não posso me deixar gostar de você”, pensou, “então pare de ser tão terrivelmente simpático!” — Eu sei como são as coisas quando se monta uma agência: conta-se cada centavo... Não se preocupe com a viagem, Clare. Quando Durnberg convida é para valer. Vai ser um luxo. — Não vou pelo luxo, mas sim para trabalhar. — Então, será melhor fingir que se diverte, se quiser ver Durnberg feliz. — Por que me dá essas dicas sobre o cliente? — Não sei... — respondeu ele, alegre. — Pois eu sei. É porque acha que não tenho a menor chance de ganhar a concorrência. — Eu não seria burro a ponto de pensar isso. Mas acho que sua chance não é muito grande. — Há quanto tempo o conhece? — Fomos colegas de escola. Não estávamos no mesmo ano, mas nossos grupos se misturavam. Ele participou do teatro da faculdade os quatro anos que estudou lá. Foi nessa época que começamos a chamá-lo de Ham, encurtando seu segundo nome. Ela achou que o fato de ter feito teatro explicava os maneirismos e poses do empresário. Conhecera alguns alunos de arte dramática que não conseguiam deixar de representar também na vida real. Certamente Durnberg era um desses. — Corrija-me, se eu estiver errado... — dizia Max. — Você dirige uma agência de uma só pessoa, não é? Não vi secretária alguma quando estive lá, hoje. — Tem razão. Não tenho secretária. Mas tenho um computador... — E essa coisa vai cuidar do escritório enquanto você estiver na
Flórida? — Não — admitiu Clare. — Mas minha mãe pode dar uma espiada nas coisas, enquanto eu me encontrar fora. Ao dizer isso, ela tremeu por dentro, sabendo que não tinha outra saída. Uma parte de sua cabeça ocupara-se em tentar resolver aquele problema, desde o momento em que Durnberg propusera a viagem, e sua mãe era a única solução. Que Deus ajudasse a Agência de Seguros Pemberton! — Ela já fez isso, antes? — Já... Clare tentou não lembrar a última vez que a mãe a substituíra. Apagar todos os programas do computador não fora a pior coisa que ela fizera. Em dois dias Edna Pemberton fizera tamanha confusão que Clare levara duas semanas pondo tudo em ordem. — Tem sorte em ter alguém com experiência para ficar... Vou ter sérios problemas quando Glória me deixar e ela já pensa abrir sua própria agência: não vou só perder a secretária, como também ganharei uma competidora. Felizmente por enquanto não preciso me preocupar. É o que você pensa!, disse Clare consigo mesma, depois, em voz alta: — Não será desleal da parte dela usar o que aprendeu com você? — De jeito algum e vou encorajá-la. É inteligente demais para ficar trabalhando para os outros a vida inteira. — Então, quer dizer que a está encorajando? Ela pode acabar arruinando a sua agência! — Não posso trabalhar sob essa premissa, Clare. Acho que sempre se deve agir direito com os outros e espero que façam o mesmo comigo. Ela tem direito de lutar contra mim, desde que o faça com lealdade. Que ganhe o melhor. Era impossível não gostar daquele homem, e isso poderia estragar os planos de Clare. Disse, tentando fazê-lo reagir: — Você só fala por chavões ou está querendo me impressionar, mostrando que é um sujeito maravilhoso? Ele olhou-a surpreso e, mais ainda, ofendido. — Que horror! — tocou-se ela. — Desculpe... — Não tem nada... Mas, respondendo à sua pergunta, sim. Estou tentando impressioná-la. Na verdade, sou um tipo à-toa, mas quero que descubra isso quando for tarde demais.
— Como assim? — Acha-me um espertalhão? — E, antes que ela respondesse, prosseguiu: — Está agindo como se estivéssemos numa guerra, onde precisa achar que o inimigo é abominável, para ter coragem de matá-lo. Trabalhamos num sistema de livre empresa. Às vezes é preciso destruir gente boa para não se perder clientes e acabar pedindo esmola. Não se trata de caso pessoal. — E meu pai? Ele foi um desses “gente boa”? — Espero que não, mas pelo tom de sua voz, parece que você acha que sim. Não o conheci bem. Ela ficou ofendida por ele não conhecer bem seu pai, que o considerava seu inimigo número um. Era evidente que Max nem mesmo levara seu pai em conta, o que ele achava. A “guerra” fora do ponto de vista dos Pemberton, guerra de um só lado. — Tente imaginar por que ele nos convidou a ir para a Flórida. — Porque achou mais cômodo para comparar nossas propostas e decidir. — Talvez... Ela tratou de ignorar a insinuação na voz e olhar dele. — Pouco me importa o motivo dele. A minha proposta é melhor e Durnberg é um negociante esperto. É o que importa. — Então, está bem. Até amanhã, Clare Pemberton. — Até, Max Armstrong. Obrigada pelo vinho. Saiu do bar sentindo que o olhar dele acompanhava cada movimento de seu corpo esguio. De fato, ele a fitou até que desaparecesse. Ela era alta e boa parte dessa altura era devida às pernas esguias, longas e bem-feitas, coisa que mais admirava em uma mulher. Clare classificava-se em seu padrão... Terminou de tomar seu uísque depois que ela se foi: era marca boa e cara demais para ser desperdiçada. Nos últimos tempos ia tomando consciência disso, de modo doloroso. Ainda bem que a partir do dia seguinte ia beber por conta de Ham e, além disso, entraria em uma roda-viva: golfe, tênis, windsurf, corridas, natação e todos os outros esportes competitivos que o empresário adorava. Ele tinha prazer em derrotar os outros em tudo, mas principalmente fazia questão de vencer Max Armstrong. Mas por que não aceitar isso, se Ham continuasse a lhe pagar? E o que ele estaria pretendendo, com essa história de levar os dois para a Flórida? A única resposta que lhe ocorria era que Ham queria que ele desse
duro para continuar com a conta do seguro dele, para merecer a comissão que ganhava. O fato de a concorrência vir de uma bonita loira talvez instigasse o espírito brincalhão de Durnberg. Com certeza ele já se divertia imaginando Max tentando conquistar a moça e, ao mesmo tempo, não querendo deixá-la ficar com o seguro da empresa. E era o que Max estava querendo, mesmo, só que não sabia como consegui-lo. Clare o impressionara mais do que qualquer outra mulher que conhecera depois do divórcio, mas precisava continuar a ser o agente de seguros da Fairways. Não podia acreditar que Ham convidara Clare por estar pensando em mudar de agente. Ele adorava ter Max às suas ordens. Não. O empresário certamente montava mais um de seus jogos, para se divertir. Sentiu, então, pena da moça, mas não o bastante para desistir da concorrência. Com a pressão que Adele vinha fazendo, não podia se dar ao luxo de ser generoso. Pagou a conta e saiu. Calculou que se fosse depressa ainda pegaria Glória no escritório. Não queria incomodá-la em casa, por causa da viagem. Ela se casara há um ano. Lembrou-se do casamento, que fora uma surpresa geral. Todo mundo pensava que seu divórcio acontecera por causa da secretária e ela se casar com outro demonstrara que todos se haviam enganado. Deu partida no Porsche. O carro precisava de pneus novos e revisão geral, mas isso teria que esperar. Enquanto dirigia, pensava nas roupas que devia levar. Será que seu maiô agüentaria mais uma viagem? Duvidou se estaria em forma para aparecer com roupas sumárias. Sempre achara seu físico bom, até aparecer aquele surfistazinho com quem sua mulher fora embora. Agora, tinha oportunidade de ir para a Flórida com uma loira que nem trinta anos fizera e não queria que ela o considerasse um coroa. Desejava que uma mulher jovem e linda se apaixonasse por ele, nas areias peroladas das praias do Golfo. Mas havia um problema: Clare era uma jovem lindíssima, só que estava interessada nos negócios, não nele. O pior é que os negócios eram, também, os dele. E, claro, se ela não conseguisse o que queria, não estaria a fim de um romance. Suspirou, estacionou e saiu do carro. Do jeito que as coisas iam com Adele logo não poderia mais manter o escritório. Teria que voltar para uma daquelas salinhas de corredor de shopping-center, mais pobre do que a de Clare Pemberton.
Clare era uma nova raça de agentes de seguros, mas não pelo estilo de fazer negócios, apenas. Adorava olhá-la e seria uma pena se tudo acabasse com a maluquice de Ham. Gostaria de conhecê-la melhor. Tinha certeza que era esperta e honesta, duas qualidades que admirava. Lembrou-se de Clare na primeira vez que a vira, no escritório dela. A luz fazia seus cabelos brilharem como uma cascata de ouro, até que ela erguera o rosto e os olhos verdes o haviam fitado. Naquele instante abençoara a bola de golfe que fizera sua vidraça em estilhaços. Entrou no escritório às cinco para às cinco; Glória datilografava uma apólice que deveria ser entregue na manhã seguinte. — Como vai Ham Durnberg? — perguntou ela, sorrindo. — Aprontando alguma. Os conhecidos o haviam imaginado ligado àquela atraente ruiva, mas o fato é que a química entre eles não funcionava, nem mesmo quando ele se divorciara, ficando sozinho. Eram excelentes amigos, jamais amantes. — Sempre que você fica até tarde nessa máquina eu me sinto culpado por não comprar um computador... — Você não é do “tipo informático”, Max. — Sei, mas computadores fazem esse trabalho mais depressa. — Se você estivesse nadando em dinheiro, eu até que o pressionaria para comprar um. Mas não pode. Esqueça. A minha máquina de escrever é ótima. — Deixe que eu termino isso. Vá para casa, para seu maridinho. — Já está quase pronto e o maridinho vai entender. — Espero que entenda, pois você vai ficar uns dias aqui, sozinha. Durnberg quer que eu vá para a Flórida. — Outra vez? — Glória parou de escrever. — Olhe, já que vai para lá, por que não arruma uma licença na Flórida, assim poderia fazer o seguro também do Sugar Sands. — Nem quero pensar nisso! Aí teria que arranjar um agente só para atender essa conta, e Ham me arrastaria mais vezes para lá! — Mais grana, Max — lembrou ela, com o gesto típico. — Eu sei. E bem que preciso. Mas ele é difícil. Além disso, pode não querer me dar a conta de Sugar Sands, pois não agüenta me ver ganhando muito... — Esse perigo, não corremos! — comentou a moça, rindo. — Diga isso a Adele... — suspirou Max, sentando-se no canto da mesa.
— Durnberg quer me convencer que tenho um concorrente para a renovação do seguro do Fairways. Uma garota, Clare Pemberton, que pelo jeito tem uma proposta melhor do que a nossa. Ele quer que nós dois o acompanhemos à Flórida até que estude as duas propostas. — Esse homem sabe manipular! Ela é bonita? — É, sim. — Perigo! Pemberton... O pai dela não morreu há pouco tempo? Não era ele o agente de seguros? — Era. Ela ficou com a agência, sozinha. Parece que a mãe ajuda. — O velho Pemberton contentava-se com clientes pequenos, mas parece que a filha pensa diferente, se está atrás do Fairways... — Não vai conseguir. — Concordo. Mas tenho certeza que Ham vai fazê-la pensar que pode ganhar e pôr dúvidas na sua cabeça, também. — Tudo bem, enquanto for só um jogo, contanto que não seja verdade. — Nem se preocupe. Há dez anos essa conta é sua. O que Ham faria sem você? Ele adora ser mimado... — Talvez prefira ser mimado por um rostinho bonito. — Acha, mesmo? — Não... Observei-o, hoje. Ele encenou um encontro entre nós três, para complicar a situação. Clare não imagina onde está se metendo, coitada! Conheço Ham bem para saber quando está interessado em uma mulher. E não está. — E você? — Eu? Ela é uma garota! — retrucou Max, lembrando de sua fantasia juvenil com a moça. — Deve ter menos de trinta anos e o irmão é amigo de Tommy. — O que tem a ver? Repetindo: e você? — Sua pergunta é acadêmica. Mesmo que estivesse interessado, não posso imaginar que ela poderia vir a querer ter algo comigo... principalmente se não pegar o cliente. — Não pode imaginar? Max, seu ego vai mal! — Que nada! Olhe, acabe logo essa apólice e faça uma lista do que vai precisar ver quando eu estiver fora. — Certo, chefe! — Às vezes tenho dúvidas se sou “chefe”, mesmo. Ultimamente você vem forçando a barra comigo.
— Nossa! Você está de astral baixo, mesmo! Esse divórcio vem lhe custando caro demais. — E... — Max dirigiu-se para sua mesa, parando antes e olhando para a fileira de ursinhos numa prateleira. — Glória, lembra do que um personagem de Bambi dizia? Tambor, o coelhinho... — Não, chefe. Não gosto dos filmes de Dysney. Talvez fosse por isso que ele e Glória não haviam tido um caso. Adele também não gostava desses filmes: fora ele sempre quem levara os filhos ao cinema. E podia apostar que Clare vira todos e adorara. Decidiu pôr sua teoria à prova. — Você gosta de histórias de ursos, Glória? — O que sei sobre esses bichos, aprendi aqui. Por quê? — Por nada... — Ele pensou mais um pouco. — Acha que eu uso muitos chavões, quando falo? — Acho que você usa muita coisa, menos chavões! — respondeu a secretária, rindo. — Por quê? Quem lhe disse isso? — Uma loira. — Chamada Clare Pemberton? — Talvez... — Glória franziu os lábios e inclinou a cabeça de lado. — Por que está me olhando assim? — Max Armstrong, você está com todos os sintomas de uma paixonite aguda! — Ótimo! Era isso que eu queria ouvir! — E vou lhe dar um conselho: vá em frente, Max!
CAPÍTULO 3
Clare foi diretamente para a casa da mãe, pois teria que ir para a Flórida e só ela poderia ajudá-la. Max demonstrara acreditar que ela não lhe tiraria o cliente, e até insinuara que Durnberg divertia-se jogando um contra o outro. Não conseguia ignorar um desafio. A mãe ainda morava na pequena casa onde Clare nascera e crescera. O contraste entre o sobradinho e a mansão de Max Armstrong atestava a enorme diferença entre seu pai e o melhor agente de seguros de Flagstaff. Bill Pemberton sempre afirmara que não trocaria o sobradinho vitoriano por todas as casas elegantes da cidade; tinha certeza de que só se ficava rico por meios inescrupulosos, no entanto ela verificara que seu maior concorrente parecia ter mais escrúpulos do que um garoto inocente. Estaria fingindo? Encontrou a mãe na cozinha, fazendo bolo para distribuir à vizinhança. Vivia cozinhando para a família e amigos. Cortava bananas ao ritmo do rock que Joel ouvia em seu toca-discos, no quarto. Precisou gritar para ser ouvida e reclamou: — Se daqui se ouve assim, imagine como estão os ouvidos dele! — Clare, que surpresa! A mãe parou de dançar e cortar, para abraçá-la. Era bem mais baixa do que Clare: os filhos haviam herdado a altura do pai e as cores da mãe. Os cabelos brancos misturavam-se aos loiros e Edna Pemberton parecia ter menos de cinqüenta anos. — Desisti de pedir para abaixar. Essa é a minha menor preocupação com ele. Está fazendo um trabalho de química... — Ele é que vai ficar surdo! Eu era assim aos dezessete anos? — Não. Você sempre foi ajuizada e poderia ter começado a cuidar da agência logo depois de terminar o ginásio. Mas Joel, não: seria uma catástrofe... Clare riu: o irmão não poderia ser catástrofe maior do que a mãe em dois dias na agência. Ele vai para a universidade, mamãe. Decidi. — Eu também! Ah! Foi àquele encontro? Como se saiu?
— Ainda não sei... É por isso que vim aqui. Para tentar pegar Durnberg, preciso ir ao outro hotel-clube dele, na Flórida. Será que você... — Claro que tomo conta da agência! Vai ser até bom. Foi uma delícia conhecer aquela gente toda que ia ao escritório, quando fiquei lá. Adoraram meus bolos! A mãe dera descontos especiais a todos que tinham gostado do bolo dela. — Obrigada, mamãe, mas não precisa fazer nada para os clientes. E só atender ao telefone e anotar os recados. Se tiver dúvida, ligue para mim, vou lhe deixar o número. — Vai visitar Ron? — Não sei. Quando chegar lá, vou telefonar para ele. Ela ainda não pensara em Ron, desde que Durnberg falara na viagem, mas era importante falar com ele, pois era quem podia arranjar a licença para ela fazer o seguro sobre uma propriedade na Flórida. Preferiria resolver tudo por telefone, uma vez que um reencontro com o ex-noivo poderia ser difícil. — Acho que devo um jantar a ele, no mínimo — comentou a mãe, voltando às bananas. Quando surgiu essa possibilidade do seguro dos clubes de Durnberg, pensei que vocês dois... — Não, mamãe. Ron não é o homem certo para mim. — Sempre me senti meio culpada, achando que rompeu com ele para ficar aqui, quando Ron teve que ir para a Flórida. — Não — e ela passou um braço pelos ombros da mãe. — Se o amasse, de verdade, teria ido, mamãe. — Eu sei... — Ficou séria. — Não vai gastar demais, minha filha? — Vou como convidada de E. Hamilton Durnberg. — Ainda bem! Quando ele se tornar seu cliente não precisaremos nos preocupar mais com dinheiro. E se a convidou para ir, deve estar pensando em passar o seguro para você. — Ele convidou Max Armstrong, também. — Que grosseria! — Negócio, mamãe. Quer comparar nossas propostas, enquanto cuida dos problemas do clube-hotel de lá. — Cuidado com esse Armstrong, filha! — Você o conhece, mamãe? — Não e não quero conhecer gente que se exibe, morando nos melhores bairros e dirigindo Porsches! Ele tirou muitas contas do seu pai, é
pior que uma víbora! — Pois eu acho, mamãe, que... Ora, deixe para lá! — O quê? Clare percebera que ia defender Max Armstrong. Por que passara de repente para o lado dele?, pensou. Dali a pouco estaria elogiando aquele homem, como Joel. — Mamãe, tem uma mala para me emprestar? — Por quê? Você não tem? — Nunca viajo... — É mesmo. Ótimo que vá viajar, agora. Pode deixar que eu cuido de tudo no escritório. — Apenas anote os recados e não mexa no computador. — Ok! E não vou vender nada... mas confesse que arranjei novos segurados para você! — Mas perdi a maioria quando cobrei os prêmios. — Não sei por que a agência não os absorveu, afinal, o número de apólices vendidas aumentou, Clare! — Mamãe, prometa que só vai anotar os recados, por favor. — Claro, filha. Não se preocupe. Pense apenas em passar esse Armstrong para trás. Ele é esperto, mas você vai conseguir. Seu pai não era bom negociante, tenho que reconhecer. Clare não entendia como a mãe acusava Max de trapaceiro e ao mesmo tempo reconhecia a incapacidade profissional de seu pai. A culpa dos fracassos de Bill Pemberton não era de Max, embora fosse difícil aceitar isso depois de todos aqueles anos de condicionamento sobre a vigarice dele. — Não sei se papai era bom ou mau negociante, nem vou discutir o caráter de Armstrong, mas vou fazer o impossível para afastá-lo de Durnberg. Edna colocou a massa de bolo na forma. — Mas seja educada, filha. Não esqueça os bons modos. — Sim, mamãe... não vou esquecer. Na manhã seguinte, a milhares de metros do chão Clare imaginou até quando conseguiria ser bem-educada. Durnberg acabara de lhe oferecer um bloody mary. Max já concordara em beber com o amigo e ela precisava provar que agüentava álcool, tanto quanto eles, às seis e meia da manhã, ou recusar, o que provavelmente a faria perder pontos. Resolveu aceitar. — Então, agora freta aviões, Ham? — indagou Max, que tirara o paletó e parecia um homem em férias. — Os negócios vão indo bem, pelo jeito!
Clare estranhara ao vê-lo chegar com uma sacola pendurada num ombro, sem sinal de pasta. Seu tailler cinza, a pasta e a mala enorme pareciam pomposos perto da bagagem mínima dele. Não havia jeito; não podia trocar de roupa e precisava continuar com a pasta e a mala, pomposas ou não. Max levara vantagem por já conhecer o clube-hotel e saber o que devia usar. Iria precisar de munição para afastá-lo do empresário, mas não queria parecer preparada demais. Fingiu estar adorando o bloody mary, apesar de preferir suco de tomate sem vodca. — Os negócios vão bem, sim. Fretei este jatinho porque a empresa vem me amolando há tempos para experimentar seus serviços. — Durnberg parecia satisfeito, feliz. — Achei que hoje seria um bom dia para experimentar e para conhecer esta moça melhor. Mais uma vez Clare notou uma antipática condescendência no tom dele, como se Max e ela fossem crianças não muito inteligentes. Estavam sentados em lugares frente a frente, com uma mesa no meio, ela perto da janela e Max do lado oposto, na diagonal, ao lado do anfitrião que se encontrava diante de Clare. Ela dormira mal, pensando na possibilidade de passar alguns dias com Max. A realidade era pior do que imaginara; a atração física que ele exercia sobre ela tornara-se fortíssima e Clare lutava para escondê-la. A calma dele tornou-a ainda mais determinada a se controlar: dominaria as emoções a qualquer custo. — Como uma moça bonita como você ainda está solteira? — indagou o empresário, que já tomara metade de sua bebida. A moça irritou-se com a pergunta e conteve a custo uma das respostas ácidas que costumava dar. Tomou um gole de sua bebida; e conseguiu sorrir: — Sou exigente demais... — Admiro mulheres de bom gosto! — disse Durnberg, piscando para o amigo. — E você, Max? Com o canto dos olhos ela percebeu uma leve tensão nos maxilares de Armstrong e imaginou até onde iria a amizade daqueles dois. Teve impressão de que ele não gostava de Ham e isso aproximou-os mais. — É claro que admiro mulheres de bom gosto — respondeu ele sorrindo, apesar de Clare ter certeza que estava irritado. — Só que quanto mais bom gosto elas têm, menos gostam de mim... — Deixe de falsa modéstia, rapaz! — Ham voltou-se para Clare. — No ginásio ele era conhecido como “A Lenda” e as garotas que saíam com ele
formavam o “Exército de Armstrong”. — Impressionante — comentou ela, sem saber o que dizer. — Talvez eu deva esclarecer — disse Max, depois de tomar um gole de sua bebida — que Ham adora o mundo do faz-de-conta e que tem uma imaginação surpreendente. — Só que não a usei desta vez, meu velho. Se Adele estivesse aqui, diria que é verdade. Ela contava que uma incrível legião de mulheres desmanchou-se em lágrimas quando eles casaram. E não foram lágrimas de felicidade. — Ham, como vai seu tênis? Disposto a aceitar um desafio meu quando chegarmos ao clube? Clare sentiu-se aliviada com a mudança de assunto. Qualquer homem ficaria vaidoso com aquela menção ao seu magnetismo masculino, porém Max parecera bem pouco à vontade. — Desta vez você é um homem morto! — ameaçou Durnberg. — Acho que devo registrar minha raquete como arma mortal. — Voltou-se para Clare. — Viu como ele mudou de conversa? Não quer que você saiba a reputação dele entre as mulheres. Acho que desta vez vai apelar para a compaixão e mostrar-lhe como vive só e infeliz com o divórcio. Não acredite, moça, este homem é muito perigoso. — Ham, gostaria muito se você... — Estou brincando, rapaz! Que tal um joguinho de cartas para ajudar o tempo a passar? — Eu topo. — Max terminou de beber. — Tem mais disto? — Um suprimento enorme, amigo! Ham chamou a aeromoça, pediu mais dois bloody mary e um baralho. Clare percebeu o esforço de Max para relaxar e livrar-se da irritação. Ela imaginara que seu problema iria ser a profunda amizade entre os dois, no entanto o que havia entre os dois era uma velha rixa, pelo menos por parte do empresário. Compreendia agora que ele a convidara a fim de tornar as coisas mais difíceis para Armstrong, mas que de fato não pretendia mudar de agente de seguros. Era claro que gostava de ter poder sobre o amigo que invejara na escola e talvez ainda invejasse. No entanto, Durnberg era um bom negociante, caso contrário não teria tido tanto sucesso. E, assim, em última análise não seria normal deixar de lado as picuinhas e ficar com a melhor proposta? Ela esperava que o tino comercial sobrepujasse a necessidade de dominar Max.
O empresário jogava com profunda concentração, fazendo Max e Clare perder uma partida atrás da outra, exultando, todo animado, a cada vitória. Quando foi servido o café da manhã os dois homens pediram outro bloody mary e ela torceu para que nenhum deles fosse dirigir quando chegassem. Durnberg enrolava levemente as palavras e Max parecia não ter se alterado com o álcool que consumira, talvez por ser mais alto e bem mais encorpado. Ela percebeu que começava a sentir uma dorzinha de cabeça. Teve vontade de rir ao lembrar da mãe acenando e desejando-lhe boa viagem. Os dias seguintes prometiam ser os mais difíceis de sua vida. Nesse momento, Ham colocou as cartas na mesa, outra vez com ar vitorioso. — Vocês não são páreo para mim! — Levantou-se. — podiam treinar, enquanto eu descanso um pouco. — Acho que não adianta, Ham — disse Max, recostando-se no assento e estirando os braços. — Ganhou todas! Vamos parar? — Acabei com você, não é? — disse o outro, rindo. — É... — Abaixou os braços. — Então, paramos, a não ser que Clare queira continuar... — Desisto — declarou ela, observando-o. Quando ele erguera os braços, tivera o impulso maluco de se aninhar na proteção deles, com a sensação de que se deitasse a cabeça naquele peito forte e fechasse os olhos a dor desapareceria. — Vocês não são de nada! — exclamou Ham, sorrindo. — Quem sabe depois desta viagem estejam melhor. Comportem-se até eu voltar, então! — e foi para o fundo do avião. Quando ele desapareceu, Clare gemeu e massageou as têmporas, enquanto Max dizia, suave: — Se achou isto ruim, espere até aterrissarmos. Vai ficar muito pior. Ela abriu os olhos, encarando-o, preocupada: — Se sabia, por que veio? É claro que não está gostando. — A resposta é fácil: fazer os seguros dele vale a pena. — Como suporta três bloody mary antes de comer? — ela continuava massageando a testa e a nuca, gemendo. — Deixe que eu faço isso — propôs ele. — Não. Olhe, eu... — Sua voz morreu quando ele afastou as mãos dela e começou a massageá-la com pressão suave e firme. — Obrigada — sussurrou, enquanto a dor diminuía.
— Não há de quê. Vou lhe dar uma dica sobre bebidas para esta viagem: leve seu copo para onde for; sempre encontrará um lugarzinho para despejá-lo... Então, ela lembrou que Max se levantara durante o jogo. — Quer dizer que não tomou os três? — Nem sequer um inteiro. — E eu que achei que você era bom de copo! — exclamou, de olhos fechados, entregando-se à delícia da massagem. — Sou bom, sim, mas não uso esse talento quando estou com Ham, a não ser que seja preciso. Às vezes ele me obriga a um torneio de bebidas, então não posso escapar. — Torneio... A vida para ele é só disputas? — Deve ser. Mas a mania piora quando estou por perto. — Não imaginei isso... — comentou Clare, desejando que ele lhe massageasse as têmporas e a nuca pelo resto da vida. — Pensei que você tinha preferência por serem amigos. — Isso é o que ele diz. — Vi que ficou irritado com aquelas piadinhas bobas. — Menina esperta! — disse ele, baixinho. — Aí vem Ham. — Foi maravilhoso — suspirou Clare, abrindo os olhos. — Muito obrigada. — Às ordens. Ela ergueu a cabeça, devagar, e viu o empresário se aproximando com dois copos. Sorriu quando Max pegou o dele, agradecendo. Sabia que a bebida iria parar no ralo da pia do banheiro. Depois do toque mágico daqueles dedos, sentia-se aquecida e calma como nunca. Decidiu então que, por enquanto, esqueceria quem era Max Armstrong e o que ele representava.
CAPÍTULO 4
Clare parou junto ao meio-fio na calçada diante da entrada principal do aeroporto de Sarasota-Bradeton e ergueu o rosto para o sol. Apesar da determinação de se concentrar no trabalho, começou a animar-se com a perspectiva de uns dias na praia. Talvez fosse por causa do longo período sem férias, pensou, mas o fato é que estava gostando de se encontrar ali. Um Mercedes último tipo, com motorista, parou diante deles, para seu alívio: não confiaria em Durnberg ao volante. O empresário sentou-se ao lado do motorista e os dois acomodaram-se atrás. Ela tentava fingir que não se importava por estar tão perto de Max, porém não adiantava. Num gesto casual, ele passou um braço pelo encosto e tocou-lhe os cabelos. — Desculpe — disse, sem mudar de posição. — Gosto de me espalhar, se não a incomodo. — Não incomoda... E pensou que não se incomodaria, também, se ele a tomasse nos braços e a beijasse, mas isso era inconcebível. Tratou de se controlar, achando que a viagem de avião e a corrida pelas ruas ladeadas de palmeiras, de Sarasota, haviam alterado sua percepção da realidade, fazendo-a sonhar e transformar aquela viagem de trabalho em lazer. Como a vida seria boa, imaginou, se ela e Max fossem estranhos e se tivessem conhecido numas férias. Pôs um dedo sobre o botão da janela automática. — Importa-se se eu abrir? Quero sentir o cheiro do mar. — Boa idéia! — concordou Max, baixando o vidro do lado dele ao mesmo tempo. — Hum, que maravilha! — exclamou ela, aspirando o ar, enquanto o vento brincava com seus cabelos. — A temperatura está perfeita. Tudo é perfeito, pensou, menos o motivo de estarmos aqui. — Novembro é sempre lindo. Já tinha vindo à Flórida? — quis saber Max. — Não. — Nunca? — Ham virou-se para trás. — Então, precisamos dar a ela um tratamento de primeiríssima, meu caro Max!
Não!, Clare teve vontade de gritar. Algo lhe dizia que adoraria esse tratamento por parte de Max, mas não de Ham. __ Muito bem! — exclamou o empresário. — Podemos começar com tênis. Liguei para saber o programa, antes de sairmos de Flagstaff e há um torneio esta tarde. Vocês podem jogar, enquanto trato de uns negócios. Qual seu nível, Clare? — Não tenho idéia... Jogo um pouco. — Então, você entrará em C — determinou Ham, depois olhou para Max. — Meu velho amigo entra em A, a não ser que tenha piorado... — Piorei, sim. É melhor me pôr em C, também. — Pensei que você tivesse me desafiado, no avião. — Sim e o desafio continua de pé. Uma expressão de raiva momentânea alterou as feições aristocráticas de Durnberg, antes que retribuísse o sorriso. — Ele pensa que pode me vencer, de qualquer jeito! — Eu não quis dizer isso. Posso agüentar uma partida, é só. Caso me coloque num torneio com seus melhores jogadores, não terei forças nem para erguer a raquete, enquanto você corre atrás de seu rico dinheirinho, Ham... — Sei, entendi... Então está bem, vai para o C. Clare sentia-se fascinada pela batalha verbal dos dois homens. Era evidente que Max pretendia diminuir o outro, dizendo-se um fraco jogador de tênis, para derrotá-lo depois. Durante aqueles anos todos na certa ele aprendera a lidar com a atitude manipuladora do empresário, desenvolvendo suas próprias técnicas de guerra de nervos. Pensando nos dias que teria de passar com eles, sentiu-se jogada em uma arena, sem nada para proteger-se dos golpes que por acaso sobrassem para ela. Não era bem assim, pensou em seguida, Max a defenderia, como já o fizera uma vez. Era estranho ter que encará-lo como amigo e inimigo ao mesmo tempo. Ham bancava o guia turístico, mostrando a Clare os pontos interessantes da cidade. Quando atravessaram a estreita faixa de terra que levava a Longboat Key, ela viu o Golfo do México pela primeira vez e suspirou de prazer: — Estou fascinada com o mar, essa água toda! Acho que é por ter morado sempre no interior... O empresário meteu-se na conversa, antes de Max responder: — Em Sugar Sands temos todos os esportes aquáticos, Clare: windsurf,
pesca submarina, esqui, vela... — Que tal simplesmente nadar, tomar sol, catar conchinhas, admirar o azul do céu, assistir o incrível crepúsculo? — indagou Clare, rindo. — Pode fazer isso, mas não se vai a um clube-hotel como o meu para isso. Pode usar nosso equipamento, de graça! — Obrigada! — Clare relanceou os olhos por Max e viu sua expressão de mofa. — E posso perguntar-lhe, Ham, quando vai estudar a minha proposta? — Chegaremos lá! — respondeu ele. — Não se preocupe com isso, agora. Divirtam-se e esqueçam o trabalho, os dois. Clare rangeu os dentes, odiando aquele tom paternalista. Queria que ele a tratasse como profissional. Aquela viagem seria apenas mais um jogo entre Max e Durnberg, incluindo-a apenas para animar a competição? Pensou nas horas que levara fazendo a proposta, em seus esforços, com a ajuda de Ron, para se licenciar na Flórida, a fim de poder fazer o seguro do clube-hotel Sugar Sands, também. Apresentaria sua proposta nem que fosse nadando ao lado de Ham, naquele mar cor de esmeralda. — Chegamos — anunciou Durnberg, quando o Mercedes entrou em uma alameda ladeada por palmeiras e canteiros de flores. Tudo ao redor demonstrava bom gosto, e Clare achava que o empresário não combinava com o ambiente, pois seu estilo era rude, competitivo demais. Lembrou-se, então, que ele comprara aquele clube há dois anos e ainda não tivera tempo de imprimir sua personalidade ao local. O carro fez uma curva e parou diante de uma entrada. Através da passagem estreita entre os edifícios brancos, de telhados vermelhos, Clare viu a areia branquíssima que dava nome ao lugar e as águas cor de turquesa do golfo. — Lindo... — murmurou. — Aproveite, o trabalho não é tudo! — advertiu Max. — Vou tentar me lembrar disso. — Eu fico aqui — disse Ham, assim que o carro estacionou. — Santiago irá levá-los aos seus quartos. — Saiu e inclinou-se a fim de olhar os dois, pela janelinha. — Acho que dá para vocês pedirem almoço no quarto, e correrem para a quadra. O torneio começa daqui a uma hora. — Não tenho raquete — disse Clare, tentando escapar do jogo. — Não há problema — retrucou Durnberg. — Passe na loja, escolha uma e mande pôr na minha conta.
— Mas, Ham, eu não posso... — Claro que pode — riu, mostrando os dentes perfeitos. — O que não pode é entrar no jogo sem tudo que precisa... Ela entendeu o duplo significado da frase. — De fato. Obrigada por tanta generosidade — ironizou. — Não há de quê. Bem, até mais tarde. Santiago, chalé vinte e quatro para a senhorita, vinte e cinco para o cavalheiro. Verifique se tudo está em ordem. O empresário afastou-se e o motorista deu a partida. — Minha raquete está à espera no chalé vinte e cinco... — explicou Max. — Ham guarda-a, para eu não ter desculpa. — Nunca conheci alguém como ele — disse ela, em voz baixa, para Santiago não ouvir. — Pensei que uma volta no campo de golfe me prepararia para lidar com Durnberg. — Não se preocupe. Ele não espera que você seja tenista campeã; eu é que preciso competir com ele. — Não sei... Tenho a horrível sensação de que meu sucesso com ele vai depender de minha capacidade esportiva. — Duvido. Esporte o agrada, claro, mas ele se impressiona com quem demonstra capacidade em qualquer tipo de jogo. — É? Em que jogos você é bom, Max? Fora esportes... Já o vi no “jogo do copo” e no “jogo da conversa”. Que mais há em seu repertório? Surpresa, viu-o suspirar e desviar os olhos. — Sabe, Clare! Para ser franco, estou cansado de tudo isso. Ela não soube o que dizer. Esse devia ser o ponto fraco na armadura de Max, e o que ela tomara por confidência fosse apenas exaustão; quem sabe ele esperava que ela ficasse mesmo com o cliente. Isso explicaria o fato de ele não ter tirado licença para a Flórida e não ter oferecido uma proposta melhor do que a dela. O carro parou; seus chalés eram vizinhos. — Pode me dar a chave, Santiago. Eu me ajeito sozinho — disse Max, saindo do carro. — Pois não, Max — respondeu o rapaz, entregando-lhe a bolsa de viagem. — Mas não conte ao patrão que não carreguei sua bolsa e nem ajeitei a cama... — Você já me conhece bem — riu Max. — Como vai a Rosa? — Esperando de novo — o sorriso luminoso de Santiago se abriu mais.
— Assim ela jamais vai se formar! Também, não decide se quer ser engenheira ou mãe! — Pode ser as duas coisas — disse Clare. E admirou-se por entrar na conversa, percebendo que se ligara naturalmente a intimidade dos dois, como se fossem velhos amigos. — Eu já disse isso, mas Rosa acha que só ela sabe cuidar dos filhos. O que vou fazer? — É um problema comum... Deixe, eu mesma levo minhas coisas, também. — Não. — Santiago retirou a pesada mala do carro. — Está pesando uma tonelada e sou um cavalheiro! — Exagerei — riu Clare. — Max é que esta certo... — Fique por perto dele e tudo vai ser ótimo — aconselhou Santiago, olhando para Armstrong. — Venha ver seu chalé. Depois a gente se vê, Max. — Ok, San. Enquanto dirigia-se ao chalé, ela comparou as duas observações sobre Max: a de Ham e a do motorista. Durnberg insinuara que ele era perigoso, e Santiago, que poderia protegê-la. Dos dois conselhos, preferiu o segundo; confiava mais em Santiago. Mas, poderia confiar na própria avaliação? Ao entrar no chalé e olhar a parede de vidro da frente, que dava para areia, mar, céu e gaivotas, não pensou em mais nada. — Posso pôr as coisas no quarto, senorita? — Sim, obrigada. E, por favor, quero que me chame apenas Clare — disse, abrindo a porta e indo para o terraço. A praia, podia ver agora, tinha dois níveis: o mais alto sobre uma parede de pedra, onde ficavam os chalés, e descia-se para a praia por uma escadaria de madeira. Encantada, sem tirar os olhos da paisagem, ela descalçou o pé esquerdo e ia descalçar o direito, quando ouviu a voz de Max: — Se pensa andar pela praia, não há tempo... Voltou-se, ainda com um sapato na mão, então viu que o terraço era comum aos dois chalés. Embora houvesse uma grade entre os dois, era baixinha, não impedindo a passagem. — Tinha esquecido o torneio. Quem pode querer jogar tênis, tendo tudo isso? — Fez um movimento amplo para a praia. — Você já esteve aqui e acho que nem liga. — Por que pensa isso? — Sei lá... Mas acho que Ham não vai gostar se não obedecermos ao
programa dele. Mas, na verdade... Ela sentia a mesma excitação culpada de quando cabulava aula e ia passear com os colegas. — Também acho. Mas você quer arriscar? Clare pensou por alguns momentos. Se os dois desobedecessem Durnberg, ambos ficariam igualmente prejudicados. Além disso, não gostava de bancar a boneca nas mãos daquele homem, por mais que o quisesse como cliente. Sua proposta é que valia para isso, não um jogo de tênis. — Ao diabo o torneio! — disse, por fim. — Vou para a praia assim que mudar de roupa. — Encontro você aqui em cinco minutos. Se puser maiô, podemos até nadar. — Mas sem competir! — Combinado. Ela entrou e olhou ao redor. Que apartamento! O sofá era branco, com enormes almofadas macias, e ficava diante da lareira; havia mais duas espreguiçadeiras, uma mesa com tampo de cristal, quatro cadeiras brancas, estofadas. Havia uma quitinete, com frigobar, um banheiro com torneiras douradas e o quarto, também com móveis brancos. Ela andou pelo chalé inteiro, tocando tudo, saboreando aquele luxo. Foi lavar o rosto e as mãos e pegou um sabonete de uma bonita cesta de vime branco, sobre o gabinete de pia do banheiro. Verificou o que mais havia: loção para pele, xampu, creme para bronzear, touca de banho e... uma caixa de preservativos. — Clare, está pronta? — chamou Max. Levou um susto. Guardou rapidamente a caixinha e saiu correndo do banheiro. De maiô e uma toalha no ombro, ele a esperava à porta. Vendo-o quase nu, o coração dela pulou. — Entre, não vou demorar. Correu para o quarto, sem ver se ele entrava ou não. Tirou a roupa, vestiu o maiô, tentando não pensar nos preservativos. Sabia que hotéis de primeira forneciam essas coisas. Só porque os tinha à disposição, assim como Max, não queria dizer que era obrigada a usá-los. Entretanto, a idéia de fazer amor com ele parecia ter se mantido escondida em seu subconsciente, esperando a chance para vir à tona. Ele a atraíra desde o começo e lá estavam lado a lado, naquele ambiente idílico e alguma boa alma lembrara-se de lhes fornecer o necessário para controle de natalidade e doenças. Seria
coincidência ou faria parte do jogo de Durnerg. De qualquer modo, tudo a levava, perigosamente, para um envolvimento íntimo com Max Armstrong. Pegou a saída de banho branca, para usar com o maiô vermelho, e notou que suas mãos tremiam.
CAPÍTULO 5
Toda essa coisa foi arranjada, pensava Max, enquanto aguardava que Clare vestisse o maiô. Balançando os óculos de sol numa das mãos, olhou para as águas do golfo, que reverberavam, parecendo ouro líquido. Ham deve se divertir, vendo que eu quero conquistar e derrotar Clare, ao mesmo tempo. Desconfiara dessa jogada desde que ela entrara no escritório de Durnberg, em Flagstaff. Depois, viera o convite para a Flórida, agora os apartamentos conjugados, naquele ambiente de sonho. Preservativos no banheiro costumavam ser uma gentileza natural, mas ele desconfiava que tinham sido postos lá de propósito. Juntando tudo, sentia-se cheiro de conspiração. Ao fazer um teste, experimentando as portas que ligavam os chalés pelas salas, vira que se encontravam destrancadas e, então, Max tivera certeza das intenções de Ham. Tinha dúvida se devia ou não mencionar a porta a Clare, pois ela não conhecia o empresário direito e poderia achar que Max era um paranóico, interpretando qualquer coisinha como parte de um plano para envolvê-los. Os chalés conjugados poderiam ser explicados como mais convenientes para Ham, uma vez que ambos tinham os mesmos interesses. Quanto aos preservativos, não achava que era o caso de discuti-los com ela. Naturalmente, poderia tê-los jogado fora. Assim como poderia ter passado a trava no seu lado da porta e, agora, no lado de Clare. Era um modo de anular a jogada de Durnberg. Mas não o fizera e nem queria fazer, em parte porque ela o atraía e porque achava que poderia ajudá-la; se necessitasse de um ombro para chorar ao ver que Ham recusava sua insignificante proposta, ofereceria o seu, com boa vontade... Ouviu um barulhinho e voltou-se para ver uma loira de longas pernas, pronta para ir à praia, óculos de sol no alto da cabeça, j corpo brilhando de
creme, o elegante maiô valorizado pela saída de banho de renda. Sorriu, achando que lhe daria muito mais do que o ombro, para chorar. Se a chance era oferecida por E. Hamilton Durnberg ou pelo destino, tanto fazia: não a deixaria escapar. — Temos um desafio — disse, por fim, olhando-a. — Manter Ham feliz enquanto fazemos o que quisermos? — Não, mas pode-se dar um jeito nisso. Estou pensando em algo mais pessoal, entre nós dois. Gostaria que fôssemos amigos. — Eu também, Max, porém estamos atrás do mesmo cliente. Será que isso não vai interferir? — Talvez não, se prometermos que o perdedor não ficará com raiva do ganhador. — Está dizendo isso porque espera ganhar. — Pode ser — ele mergulhou o olhar no verde daqueles olhos. — Bem, pelo menos você é franco. — Na minha opinião, Ham nos trouxe aqui para brincar. É um modo sujo de tratar as pessoas, detesto isso, mas aqui estamos. Acho que ele vai continuar mantendo o seguro comigo, porque adora me dar ordens e não quer ficar sem esse prazer. Mas espero que isso não destrua a possibilidade de sermos amigos. — Tem muita confiança em si, não? — sorriu ela. — Imagina qual seria a sua reação se ele aceitasse minha proposta? Nesse caso, continuaria sendo meu amigo? — Claro que sim. Já disse o que sinto em relação a negócios e acho que não devem ser levados pessoalmente. — Então, nada atrapalharia nossa amizade, não? Nenhum de nós somos maus perdedores! Está combinado. Max torceu para que ela estivesse sendo sincera. Logo iria descobrir, mas enquanto isso talvez devesse firmar sua situação o bastante para agüentar a reação, caso ela não conseguisse tirar— lhe o cliente. — Vamos para a praia, já que está tudo bem — disse, pondo os óculos e estendendo-lhe a mão. — Vamos — ela também ajeitou os óculos de sol no rosto e deu a mão a ele. Max estranhou a naturalidade com que ela lhe deu a mão e teve uma sensação engraçada ao pegá-la: seu coração acelerou-se. Antes de chegarem à porta, o telefone de Clare começou a tocar.
Pararam e olharam para trás. — Bem agora! —exclamou ele. — Pode ser Ham. Deixamos tocar? — Melhor atender, tenho certeza que é ele — respondeu ela, soltandolhe a mão e dirigindo-se para o aparelho. — Pedi a mamãe que telefonasse, se estivesse precisando. Pode ser ela. — Se for Durnberg, o que vai dizer? — Não sei. Minto muito mal... — Quer que eu atenda? — Por que, você mente bem? —Não, mas posso dizer-lhe que vá, com o torneio, ao diabo. — É perigoso. Eu atendo. — Apanhou o fone. — Alô... — Ah, Clare! Graças a Deus! — exultou a mãe. — Pensei que haviam ligado para o apartamento errado. — O que foi, mamãe? Pensou em mil coisas, tais como um raio destruindo o computador, um assalto, uma inundação, um incêndio... — Sua planta está morrendo, filhinha! — O quê?! — As folhas estão amarelas, algumas até caíram... Acho que será impossível salvá-la... — Mamãe, ligou para dizer que minha planta está doente? — Claro, querida! Precisamos fazer algo, de imediato. Este escritório tem pouco oxigênio e... Clare tirou os óculos e pôs-se a bater com a haste no telefone, tentando controlar a impaciência. — Mamãe, se quiser comprar umas plantas pequenas, em lugar dessa grande, faça-o. Pago quando voltar. — Que ótima solução! Vou fazê-lo. Tudo bem aí? Clare observou as costas largas do homem parado à porta do terraço; seguiu a linha do pescoço semi-oculto pela toalha de banho, os ombros, os músculos e sentiu vontade de correr os dedos por eles. — Tudo bem, mamãe. — Ótimo! Já ligou para o Ron? — Ainda não. Sentiu-se ansiosa ao pensar que precisaria encontrar com ele, talvez jantar. Não devia tê-lo metido naquilo, mas na ocasião lhe parecera a melhor
solução. Não conhecia ninguém na Flórida. — Quando falar com ele, dê-lhe um abraço meu. — Sim. Mais algum problema? —Ainda não. Vou desligar, que você deve ter uma reunião importante, não? E boa sorte com esse Max Armstrong! — Obrigada, mamãe. Até logo. — Desligou e aproximou-se de Max. — Algum problema? — Nada sério... Ainda, pensou e esperou que a preocupação com plantas distraísse sua mãe. — Então, vamos antes que essa droga toque de novo. Não teremos sorte duas vezes. Quando desceram a escadaria de madeira e pararam para tirar as sandálias, ela imaginou ouvir o telefone e parou. — Não é seu telefone — disse Max. — Está ficando esforçada demais e tem que parar com isso. — Eu sou assim! — protestou ela enquanto corriam pela areia branca. — Pois vai lhe criar problemas. Ham adora gente certinha; costuma enlouquecê-las com suas exigências. Clare parou e soltou a mão dele. — Quer me convencer a desistir de pegar o cliente? Não adianta. — Fitou as lentes espelhadas dele, querendo ver-lhe os olhos. — Não quero convencê-la de nada. Talvez só esteja tentando suavizar o golpe. Não quero que se desaponte se não conseguir; Durnberg não é um cliente divertido. — Pouco estou ligando. Quero ampliar minha agência. Ele fitou-a em silêncio, depois resmungou algo. — Está com pena de mim? — indagou Clare. — Não perca tempo. Sei o que faço e talvez você venha precisar de consolo. — Pode ser — o rosto dele abriu-se num sorriso. — Já perdi tempo demais com E. Hamilton Durnberg. — Ainda bem... — Ela respirou fundo e apontou para o mar. — Veja... Velas ao vento, gaivotas planando, céu azul, nuvens brancas... É o paraíso! — Melhor do que uma quadra de tênis áspera... Vamos andar? — Estendeu-lhe a mão e ela aceitou. — Que cores incríveis, Max! Nunca pensei que a água pudesse
apresentar tonalidades tão lindas. Deve ser por causa da variação de profundidade. — Em parte. Ham disse que esse azul-esverdeado vem de pedras calcáreas. — Lindo! — murmurou a moça. — E calmo como uma piscina. É sempre assim? — Bem, não dá para fazer filmes de surf, aqui... — Acho ótimo! — riu Clare. — Afinal, não sei surfar. Aposto que você sabe. Ele ficou muito sério, de repente. O que dissera demais?, Perguntou-se ela. Mas antes que pudesse falar, ele sorriu: — Por que acha que sou surfista? — Porque é um atleta e... — ia elogiar-lhe o físico, mas se conteve. — Bem, é o que se espera de todo americano que já morou à beira-mar. Sabe surfar ou não? — Um pouco. O grande esporte aqui é catar conchinhas. — Não me diga que Durnberg faz competição disso, também! — Durante o jantar ele dá prêmios às mais bonitas. — Não agüento, Max! É impossível andar à-toa numa praia de Ham? — Não sei, mas precisa coragem... Quer tentar? — Ela fez que sim com a cabeça. — Então, venha. Desceram outra escada de madeira, mais estreita. Um muro de arrimo, feito com pedras, separava os dois níveis de praia e o inferior era quase deserto, talvez por ser uma hora da tarde e o sol estar muito quente. Deixaram suas coisas sobre uma pedra e saíram andando. Clare estava acostumada com as praias da Califórnia, de areia quase marrom, às quais fora algumas vezes, nas férias. — Esta areia chia! Parece que estamos andando num assoalho empenado, rangente... — Ela é muito fina e faz barulho quando pisada. — Interessante! Sempre achei que só havia um tipo de areia, mas parece que não... Oh! Conheço aqueles pássaros! São maçaricos! — Isso mesmo! Lembra... Ora, você é jovem demais para lembrar de um filme com Elizabeth Taylor e Richard Burton... — Vi na televisão e foi com ele que aprendi o nome desses pássaros. Lembrou-se da tórrida cena de amor do filme e imaginou se Max também se lembraria.
— O que achou dele? — Adorei... O filme era muito romântico e aquela resposta podia expor algo de seu íntimo. Primeiro Bambi, agora esse filme, pensou Clare. Ele ia achá-la uma bobinha sentimental. — Eu também. Seus olhos se encontraram, mas os óculos espelhados escondiam os dele. No entanto, a respiração dela acelerou-se e teve uma leve tontura. Será que ele percebera? Dominou-se e procurou levar a conversa para campo neutro. — Que buracos são aqueles, no chão? — Tocas de siris. Eles vivem enterrados na areia. — Mesmo? — ela ajoelhou-se para olhar os buraquinhos. — Quer desenterrar um? — perguntou ele, ajoelhando-se a seu lado. — Eu não! O siri merece sua privacidade! — Notou o sorriso de Max, imaginando se era de condescendência. — Deve me achar engraçada, por me preocupar com um siri. — Acho você maravilhosa. — Acha? — O coração dela parecia estar na garganta. — É difícil perceber o que você pensa, com esses óculos. — Melhor agora? — indagou ele, tirando-os. Clare assentiu. Muito melhor, porém mais assustador ver a chispa de admiração e desejo nas profundezas douradas daqueles olhos. — Não é justo você levar vantagem... — disse ele, retirando suavemente os óculos dela. Clare estremeceu como se Max a despisse. Será que suas emoções brilhavam-lhe nos olhos, com a mesma intensidade que as dele? Depois de um minuto sem respirar, ele puxou-a para si e ela não teve mais dúvidas. Apesar da incerteza de poucos segundos atrás, cair nos braços dele era a coisa mais simples do mundo. Resistir teria sido antinatural. Encantada, sentiu os dedos dele tocarem-lhe os ombros, enquanto o espaço entre os dois diminuía. Sentiu um formigamento antecipando o momento em que seus seios tocariam os músculos do peito de Max. Quando aconteceu, suspirou de prazer. Ele a abraçou com força e o calor, o volume entre as virilhas dele colaram-se ao seu ventre liso. Olharam-se profundamente. — Não tenho medo de você — murmurou ela.
— Nem quero que tenha. — Isto não vai mudar nada — viu uma luz estranha passar pelo olhar de Max. — Sobre a luta pelo cliente... — Espero que não. — Então, não pense que... — Não penso em nada — disse ele, com voz rouca — principalmente quando faço isto... Clare ansiava por aquele beijo. Quando seus lábios se encontraram, o marulho do mar pareceu aumentar de intensidade. A boca de Max era mais macia e sensual do que ela imaginara. Seu beijo passou de suave reconhecimento à calorosa promessa de como a amaria, se pudesse. Ela abandonou todo cuidado e entregou-se à persuasão daqueles lábios, à insistência da língua ardente. Ele perceberia o consentimento no beijo dela, esperaria mais depois de uma reação como aquela, porém a moça não podia evitar, enquanto sentia o gosto de uma paixão que ansiava Por conhecer. Perdeu a noção de onde estavam, até que uma onda suave tocou-lhe os pés. Assustada, afastou-se dele. — A água... — disse, com voz presa. — Não faz mal. — Ele sorria. — Está bem quente. Percebeu que Max tinha razão. As ondas mansas, acariciando-lhe os pés, como os beijos dele acariciavam-lhe os lábios, prometiam apenas prazer. Quando a onda refluiu, retirando areia de sob os pés dela, perdeu o equilíbrio e apoiou-se nele. — Estou aqui — sussurrou Max, abraçando-a com calor. — Eu sei... Com um suspiro, Clare fechou os olhos, sua respiração misturando-se à dele. Pouco antes que seus lábios se encontrassem, ouviram o grito de uma criança. Já não estavam sozinhos. Max soltou-a e viraram-se, vendo uma garotinha loira, de uns quatro anos, na escada, espiando-os. Logo a mãe apareceu no alto da escada, e desceram juntas. — Vamos nadar? — convidou Max, rouco. — Vamos... Clare tirou a saída de banho e jogou-a sobre uma pedra, depois aceitou a mão que ele oferecia e correram para o mar. — Respire fundo — disse ele. — Vamos mergulhar.
Sem pensar, ela segurou a respiração, mergulhou e encontrou— se outra vez nos braços dele, seus lábios salgados nos dela. O corpo, escorregadio e musculoso, enroscou-se no dela, exigindo-lhe habilidade de sereia para se manter submersa. Seus seios, ansiando pelo contato direto com a pele dele, pareciam querer escapar do maiô. Ela apertou-se contra Max, desejando que todas as barreiras caíssem, porém a necessidade de ar levou-os para a superfície, ainda agarrados. — Eu menti... — murmurou ele. — Sobre o quê? — indagou ela, deslizando os braços para a cintura dele. — Você perguntou se não se podia simplesmente andar pelas praias de Ham e eu disse que sim, porque a queria só para mim. — Eu o perdôo. A voz dela soou rouca e quando lambeu o sal que tinha nos lábios viu o desejo brilhar nos olhos dele, enquanto acompanhava o movimento de sua língua. Sem nada dizer, levou-a mais para o fundo, até a água chegar aos ombros dela. — Vai ter mais coisas a me perdoar... — disse ele, suave, passando os dedos sob as alças do maiô. — Ter você não e só o que eu desejo... O coração de Clare agitava-se, descompassado, mas ela sustentou-lhe o olhar. Aquele homem a fascinava com seus lances seguros de perseguição e a urgência que sentia nele despertou os anseios que há muito vinha reprimindo. Quando as mãos dele percorreram-lhe o pescoço e desceram para os seios, ela não protestou e eles pareceram tornar-se maiores, rígidos, esforçando-se para preencher as mãos que os acariciavam. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, com um tremor de violento êxtase proibido, enquanto ele acariciava os mamilos túrgidos, prisioneiros do maiô molhado. — Meu Deus, Clare! — As mãos de Max tremiam ao tocá-la. — Estou lutando para não arrancar esse maiô de você... — O pior é que não me incomodaria... — sussurrou ela. — Isso é o melhor, não o pior! — Ele olhou a praia, que ia enchendo-se de banhistas. — Aqui não... Olhe... — Max, que loucura a nossa! — Não. Somos racionais — disse ele, levando-a para a praia. — O louco é Durnberg, que nos trata como bonecos, esperando que a atração que sentimos um pelo outro confunda nossas cabeças. — Durnberg? Acha que é isso que ele quer? Que... que a gente transe?
— Ele não respondeu e ela insistiu: — É isso? — Talvez eu esteja errado — comentou ele, ao chegarem à pedra onde estava a saída de banho. — E se não estiver? Max, não gosto da idéia de agirmos do jeito que ele quer, como se fôssemos cobaias de uma experiência biológica. — E se pensarmos apenas no que está acontecendo conosco? — Prefiro pensar que a idéia foi sua, não dele. — Clare, a idéia foi nossa e não devemos deixar Durnberg desconfiar. — Quer dizer, vamos fingir que somos indiferentes? — Não vai ser muito divertido, pois desconfio que ele vai passar a maior parte do tempo com a gente, nos próximos dias. Aposto que vamos encontrar um recado dele no apartamento. Mas acho que poderemos dar um jeito. — É? Como? — Ele tem que dormir, não? — Max sorriu, tocando-lhe o rosto numa leve carícia. — E você, não? — indagou ela, quase sem fôlego. Os olhos dourados dele brilharam, cheios de encantamento e sensualidade. — Por quê? Acha que estou me aproximando da meia-idade e preciso descansar? — Não, mas... — respondeu ela, corando. — Olhe, Clare... — ele roçou-lhe os lábios com as costas da mão. — Acho que está na hora de você descobrir o que um homem de quarenta anos pode fazer...
CAPÍTULO 6
Clare e Max voltaram para seus quartos, lado a lado, como se não tivessem trocado beijos apaixonados. — Vou acompanhá-la até a porta para ver se a luz de recados do telefone não está piscando — disse Max. — Quando Ham descobrir que não fomos à quadra de tênis, sua mente controladora vai criar meios de nos pôr na linha. — Pelo que diz, estou admirada por ele nos ter deixado a sós durante tanto tempo. — É que tinha coisas importantes a resolver. Quando estiver livre, cuidado: nossas vidas pertencerão a ele. Ao chegarem nos degraus do terraço, ela notou que Max usava os óculos de novo e parecia aborrecido. — E se a luz não estiver piscando? — indagou. Ele parou, com a mão na grade e um sorriso tenso. — Seria um ótimo sinal, srta. Clare. Significaria que Ham ainda não saiu atrás de nós e que temos tempo... Um calor subiu-lhe ao rosto quando ela entendeu o que ele insinuava. A expressão ameaçadora criada pelos óculos espelhados fora transformada em apelo carinhoso pelo sorriso, e o coração dela disparou de novo. — Bem, acho melhor irmos ver! — e ela saiu andando. — Lindo... — murmurou ele. — O quê? — indagou Clare, tirando os óculos e procurando a chave na sacola de praia. — Seu jeito de andar. Gosto de olhar para você. Apesar do tremor das mãos, encontrou a chave e lutou para abrir a porta de correr. Tanta coisa seria decidida pela luzinha do telefone! Se estivesse piscando, seria o fim daqueles momentos a sós. Se não, Max poderia entrar, trancar a porta e fechar a cortina. Entraram e a praga dele ecoou no silêncio: a pequena luz vermelha pulsava, insistente. — Vou ver a minha — disse ele, tirando os óculos. — Poderíamos ignorá-la — sugeriu ela, ansiosa.
Ele atravessou a sala e tomou-a nos braços: — Obrigado por dizer isso, mas não daria certo. Se já nos procurou, ficará impaciente e acabará por vir esmurrar a porta. — Acompanhou a linha dos lábios dela com um dedo. — Seria um péssimo começo, não acha? Ela estremeceu ao calor daquele corpo quase nu contra o seu. Era incrível a atração física que ele exercia. — Talvez não tenha sido ele — murmurou, colando-se a ele. — Minha mãe pode ter ligado de novo. — Clare... — repreendeu ele, suave, apertando-a mais. — Estou com medo de você, Max — confessou ela, ofegante. — Medo desse poder que tem de me fazer esquecer tudo, menos da necessidade avassaladora que sinto de você. Medo de... — Acalme-se, querida. Não vou tirar vantagem disso para prejudicar seu trabalho. Você poderá não pegar os seguros de Ham, mas não por minha causa. — Soltou-a e deu um passo para trás. — Veja seu recado, que vou ver o meu. >> — Está bem... — Viu-o aproximar-se da porta de comunicação. — Não está trancada, Max? — Não. Estão abertas desde que chegamos. Quer trancá-las? — Não... Clare pegou o telefone e ligou para a recepção, sem conseguir pensar em qualquer recado bem-vindo àquela altura. Só pensava em ficar a sós com Max; ele era excitante e o ambiente perfeito. Era só esquecer o que viera fazer ali e teria os dias mais incríveis de sua vida. Atenderam e ela perguntou se havia recados. — Um momento... Sim, há três. Da sra. Pemberton, dizendo que comprou sete plantas; do sr. Durnberg, que reservou mesa para o jantar, às dezoito e trinta, e do sr. Ron Trilling, pedindo que a senhora ligue imediatamente para ele. Clare fechou os olhos. Teria que falar com Ron, possivelmente nesse mesmo dia. Agradeceu e desligou. Max deu uma batidinha na porta e entrou. — Então? Recebeu o recado para o jantar? É melhor do que eu pensava, pelo jeito ele quer nos ver às seis e meia e ainda são cinco horas... — Recebi mais recados, Max. Um de minha mãe e outro de um colega de trabalho daqui. Preciso ligar para ele. — E vai precisar encontrá-lo? — os olhos de Max escureceram.
— Talvez... — Então ligue logo para ele, antes que Durnberg apareça. — Max, desculpe, eu... — Não faz mal... Eu disse que não interferiria em seu trabalho e é um contato profissional, não? — Ela fez que sim. — Então, tudo certo. Mas se você estiver emocionalmente envolvida com alguém, eu gostaria de saber agora. Essa atitude franca não a surpreendeu; combinava com o que sabia dele. — Não há ninguém, Max. Fui noiva de Ron, que também trabalha com seguros, mas terminamos há tempo. Só vamos tratar de negócios. — Como uma licença para fazer seguros na Flórida? — Sim. Ron tratou de consegui-la para mim. — Parece que eu subestimei você — comentou ele, com um sorriso que tirou qualquer veneno que pudesse haver na voz. — Por que não faz a mesma coisa? — indagou ela. Gostaria que ele se protegesse melhor. — Flagstaff Fairways é o bastante para mim. — Não acha melhor para seu cliente ter o mesmo agente de seguros para os dois clubes? — Não conheço ninguém na Flórida. Você conhece. Talvez Ham me deixe com Flagstaff Fairways e lhe dê Sugar Sands. — Max, eu quero os dois. — Ainda não entendeu a mentalidade de Ham. Dar as duas contas a você não teria a menor graça para ele. — Não acredito que ele goste tanto de se divertir! — Então, verá. Bem, vou deixá-la — e encaminhou-se para a porta. — Você tem muito a fazer. — E você? — Acho que vou até as quadras de tênis. — Treinar para derrotar Durnberg? — Não. Para me convencer de que o derrotarei, se quiser. Ele voltou para seu apartamento, deixando a porta de comunicação aberta. Clare foi ao quarto pegar o cartão de Ron, para telefonar e resolveu fazê-lo de lá mesmo. Por mais que confiasse em Max, e confiava muito, ele não precisava saber de todos os aspectos da proposta de seguros para Durnberg. Bastava ter sabido que ela se licenciara na Flórida. Sentia-se
segura, pois ele não teria tempo de tirar a licença para apresentar outra proposta incluindo Sugar Sands. E nem parecia interessado nisso, demonstrando acreditar que Ham não o trocaria por ela. — Clare?! — atendeu Ron. — Quando chegou? — Hoje de manhã. Fui para a praia. — Linda, não é? Escute, já que seu amigo Durnberg nos deu esta oportunidade, vamos nos ver! Podemos jantar e discutir sua proposta. Tenho algumas dúvidas. Ela desejou não ter pedido a ajuda de Ron, mas ele poderia ser um fator decisivo para ela pegar aquele seguro. — Não vai dar para jantarmos, Ron. Durnberg gosta de programar o tempo de seus hóspedes e terei que jantar com ele todas as noites. — Será que ele está querendo passar uma cantada em você? — Não é nada disso. — Ela ouviu uma porta bater e sentiu-se triste: Max fora para a quadra de tênis. — Durnberg é muito manipulador. No momento ele está ocupado, por isso terei umas duas horas e meia livre. Se quiser encontrar-me agora... — rezou para ele não poder, ainda podia alcançar Max. — Agora? — Ele hesitou, então. — Claro, vou, sim. Passo aí já. Qual o número de seu apartamento? — Vinte e quatro. — Como é, Clare? Vai derrotar o velho? Em que apartamento ele está? — No vinte e cinco — respondeu Clare, dominando a vontade de rir. — Ele tem só quarenta anos, Ron! — Só? Pensei que fosse muito mais. — Começou a trabalhar quase criança. — Então, não tem diploma universitário? Vai ser fácil ganhar dele! Você fez tantos cursos de administração! — Acho que posso ganhar, mas não será fácil. Ele é muito capaz. E foi colega de escola de Durnberg. — Não se preocupe, pois sua proposta é genial. Vou já para aí. Podemos ir beber alguma coisa no St. Arm and Circle. Passou por lá quando foi para aí? — Sim, é lindo. — Tentou parecer entusiasmada, quando só queria ficar com Max. — Está bem, Ron. Consolou-se, pensando que aquela seria a única interrupção no tempo que teria com Max. Iria vê-lo no jantar, então...
— Clare, está me ouvindo? — Desculpe... O que você disse? — Que vai ser bom estarmos juntos, como nos velhos tempos... — Ah, sim. Até logo... Desligou antes que ele desandasse a falar nos “bons tempos”. Precisaria de paciência para as próximas horas. Quem diria que ia reencontrar Ron justamente quando iniciava um relacionamento com outro homem? Tomou um banho de chuveiro e pôs-se a secar os cabelos. Com a mão livre, abriu a gaveta em que jogara a caixinha de preservativos, olhou-a, jogou-a de novo na gaveta e. fechou-a. Desligou o secador. De sutiã e calcinha, foi até o banheiro de Max e viu que havia na cesta uma caixa idêntica à dela. Se nos tornarmos íntimos, pensou, pelo menos não precisaremos sair para fazer compras... Ia voltar para seu apartamento quando a porta do vinte e cinco abriuse e Max entrou, com uma raquete e uma lata com bolas de tênis. Olharam-se por segundos, até ele se recuperar da surpresa e fechar a porta. — Está precisando do meu barbeador? — indagou, largando a raquete, os olhos fixos na renda do sutiã. — P... pensei que... que você estava treinando. — Resolvi voltar, achando que talvez você não tivesse marcado um compromisso e... — Marquei, sim. Ron vem me pegar em dez minutos. Devia uma explicação, mas como dizer que fora xeretar os preservativos dele? — Não tenho segredos aqui, Clare. O que você poderia querer no meu banheiro? — Eu queria saber se... — sentiu que ficara rubra. — Se você recebeu as mesmas coisas que eu... que eu recebi... — E recebi? — perguntou ele, rindo. — Parece que sim... Bem, tenho que acabar de me vestir — explicou, passando por ele. — Pode me dar trinta segundos, Clare? — Trinta segundos? — ela sentia-se confusa. — É... Quero abraçá-la assim, toda em seda e rendas, decorosa e indecorosa... — Tomou-a nos braços. — Sabe que quando cora, fica todinha rosada? Pelo menos onde eu pude ver. — Max, não pensei que ia voltar. Eu estava só...
— Ainda bem que voltei... — Acariciou-lhe as nádegas. — Alem disso, você respondeu a minha pergunta; eu queria saber a mesma coisa. — Acha que é costume ou... Durnberg... — Tanto faz — respondeu ele, deslizando um dedo por dentro da beirada do sutiã. — Se quiser, a gente põe outros no lugar I destes preservativos, antes de irmos embora. — Tem certeza que... que vamos? — Seu coração saltava. — Sim, tenho. — Preciso ir... — murmurou ela, trêmula, e afastou-se, os olhos presos aos dele. — Vá... — respondeu Max, baixinho. — Obrigado pelos trinta segundos. Teremos tempo, mais tarde. Podemos dizer que estamos muito cansados e viremos dormir mais cedo... Mais vermelha ainda, ela voltou-se e voltou ao seu chalé. Escolheu um chemisier verde, sandálias brancas, brincos dourados. Quando Ron bateu à porta, quase havia esquecido dele. — Clare, você está ótima! O rapaz abraçou-a antes que ela pudesse evitar. Seus cabelos estavam mais longos, usava a mesma colônia e pouco mudara naqueles dois anos. Ela agradeceu e afastou-se, imaginando se Max ainda estaria no outro apartamento e se os ouvia. Ela não fechara a porta de comunicação, ao passar, e se estivesse aberta Ron notaria. Não podia olhar para trás e ver isso sem ele perceber. — Lindo apartamento — comentou Ron. — Poderíamos até ficar aqui e pedir bebidas, se você... — Não — ela era definitiva. — Vamos sair, eu prefiro. — Ok. Está pronta? — Deixe ver se esqueci alguma coisa... Olhou ao redor e viu a porta fechada. Max devia tê-la fechado, para não comprometê-la. — E a pasta? — perguntou Ron. — A não ser que você não queira falar de trabalho... — Quero, sim! — Ela correu ao quarto e pegou a pasta. — Depois acho que não terei tempo. — Que pena! — Ron parecia desapontado. — Tinha esquecido como você é linda! Fiz besteira deixando-a em Flagstaff! — Tomamos a decisão juntos, Ron, lembra-se? Prometemos ser amigos
e nunca mais falar no assunto... — Idéia mais cretina! — riu ele, divertido. — Há quatro coisas que não se misturam: trabalho e prazer, amizade e sexo. — Então, não somos amigos? — Somos sócios! — ele abriu a porta e saíram. Nas horas seguintes Clare esforçou-se para manter o clima entre eles frio e descontraído. Sabia que Ron não iria desistir de sua parte da comissão por ela não ter concordado em ficar no quarto com ele. Lembrou-se do que ele dissera sobre trabalho e prazer, amizade e sexo. Não acreditava que aquilo fosse verdade, mas, caso contrário, o que significaria em relação a Max e ela? Pretendia separar trabalho e vida pessoal, no que se referia a Max, ligando-se a ele apenas em busca de prazer. Será que daria certo? Reconhecia que ambicionava tudo: o cliente e Armstrong. Ele dissera que o cliente não lhe importava, mas que pretendia mantêlo... Antes das seis ela e Ron tinham revisado a proposta. Pediu— lhe que a levasse para o clube-hotel. — Perdemos a chance de assistir ao pôr-do-sol no mar disse ele, ao chegarem diante do chalé. — Queria tanto vê-lo em sua companhia, Clare! — Paciência... — respondeu ela, pensando “ainda bem!”. — É uma grande mulher de negócios, sabia? Por que não vem para cá e trabalha comigo? Já tem a licença e tanto faz cuidar do seguro de Flagstaff Fairways ou de Sugar Sands, a distância. — A resposta é a mesma de há dois anos, Ron. — Notou que os olhos dele eram muito juntos e já criava queixo duplo. — Vou tocar a agência de meu pai e ajudar minha mãe, pelo menos até Joel formar-se na universidade. — Esta é a terra da oportunidade, Clare, além de ser linda! — Flagstaff também é. Minhas raízes estão lá. — Algo me faz desconfiar que há um homem nisso. Vai me contar, garota? — Não. Nada tenho para contar. — Não acredito. Há um brilho especial nesses olhos verdes e sei que não é por minha causa. Está presa a Durnberg? — Não. Sou livre, Ron. — Que nada! Está presa a Flagstaff. — Pela família. — Ok. — Ele fingiu que acreditara. — Desejo-lhe sucesso com esta
proposta... Durnberg é o maior idiota se não fizer seus seguros com você. — Obrigada, Ron. Sem você, isso não seria possível. — Foi o que você disse, quando pagou a conta do bar. Mas gratidão é um substituto sem graça para uma boa transa... Pena que acabou, mesmo, Clare! A tristeza dele despertou nela o impulso de ser franca. — Acho que nunca houve nada, Ron — disse, docemente, pensando na noite que iria passar com Max. — Ah! Tenho certeza que há alguém! — Pode ser... — Estendeu-lhe a mão. — Até logo, depois a gente se fala. Olhou-o distanciar-se, feliz. O restante de seu tempo livre na Flórida pertenceria a Max. Girou a chave na fechadura, imaginando se ele estaria em seu chalé, aprontando-se para o jantar. Seria ousada o bastante para entrar no quarto dele, sabendo que ele estaria lá, talvez se vestindo? Entrou e viu que a porta de comunicação estava aberta. Havia luz acesa no apartamento de Max, porém ele não estava. Desapontada, entrou no quarto dele, também com a luz acesa, e viu um bilhete sobre o travesseiro: “Querida Clare, estou no bar com Ham. Venha, assim que chegar. Ma/*.” O primeiro pensamento de Clare, e ela não se admirou por isso, foi que Max devia estar tentando fazer pontos para Ham aceitar sua proposta. Talvez ele ficara abalado ao saber que ela se licenciara para fazer seguros na Flórida e que pretendia pegar o seguro dos dois clubes. Talvez devesse também passar algum tempo a sós com Ham. Depois do jantar seria um bom momento para lhe mostrar a proposta, em vez de correr para os braços de Max. Afinal, devia fazer como ele: proteger seus interesses, que em vez de esperá-la fora beber com Durnberg, como um cãozinho obediente. Se Max usava de estratégia para conservar o cliente, ela poderia usá-la, também, para conquistá-lo. Não se sentia muito bem tramando contra um homem que a abraçara com tanta ternura... Mas fora ele mesmo que lançara o desafio de manterem suas vidas profissionais e amorosas separadas. O que dissera, pensou, na primeira vez que se haviam encontrado? Algo sobre derrubar alguém para sobreviver, mas sem nada de pessoal. Pois ela teria que derrubar “alguém” e se ele falara honestamente o relacionamento deles não seria abalado. Não tinha escolha, a não ser pegá-lo pela palavra.
Retocou a maquiagem, vestiu um casaquinho leve, pegou a pasta e saiu, pensando em deixá-la na portaria para apanhá-la, caso Ham concordasse em discutir a proposta. A neblina desmanchava os contornos das árvores, o ar tinha cheiro de mar e plantas tropicais. Divisavam-se as luzes de veleiros e lanchões ancorados nas águas calmas. Invejou as pessoas que estavam no mar, aos pares, longe de tudo: amantes fugitivos da terra em casulos só deles. Imaginou-se num daqueles barcos com Max, embora a idéia fosse tola. Ele sempre vivera no Arizona e não devia ter o menor jeito para velejar. Repreendeu-se por estar ligando-se àquele lugar como se tivesse sido Max e não Durnberg que a trouxera para ali. Talvez a súbita atração que sentira por aquele homem houvesse sido provocada pelo ambiente. Pela primeira vez sentiu-se embaraçada por ter cedido tão facilmente a Max. Quanto dessa reação se devia àquele local que parecia maravilhoso demais para ela, que há dois anos não saía da rotina de trabalho? Entrou no saguão brilhantemente iluminado, deixando a pasta e o casaco na recepção. Eram quase seis e meia. Ainda os alcançaria antes de irem para o restaurante; pretendia escolher seu lugar à mesa. O ambiente era decorado com redes de pesca, conchinhas translúcidas, e Clare notou que várias pessoas tomavam coquetéis coloridos. Viu os dois num canto; diante de cada um havia um copo com líquido dourado e gelo. Gostaria de saber se Max já descobrira um vaso com plantas para jogar seu uísque. Pelo jeito de estarem recostados nas cadeiras, com as gravatas afrouxadas e pernas cruzadas, ela imaginou que já haviam bebido bastante. Torceu para que Ham estivesse lúcido o bastante para entender sua proposta, caso a apresentasse depois do jantar. Parou um momento, antes de ser vista, para observar Max. A imagem dele despertou-lhe uma ansiedade profunda, que nada tinha a ver com o lugar onde estavam. Embora encantada com o sorriso dele, pelos olhos cheios de carinho e alegres, sentia-se emocionalmente tensa pela força da expressão do rosto moreno, de traços fortes, fascinada pelo seu autodomínio, qualidade que notara no primeiro encontro e fazia— se presente mesmo naquele bar à meialuz. Se quisesse, poderia tê-lo para si, depois do jantar. Já haviam combinado isso e, fitando-o agora, ela ansiava pela oportunidade de se
aninhar nos braços dele. Pesava todas as possibilidades quando viu Max tirar uma caneta do bolso, escrever algo num papel e empurrá-lo para Ham. O empresário observou o que estava escrito no guardanapo, enquanto Clare prendia a respiração. Estava decidido: depois do jantar ela iria tratar de negócios. Max acabava de resolver por ela.
CAPÍTULO 7
Clare aproximou-se por entre as mesas e quando Max ergueu os olhos, a expressão de prazer em seu rosto quase anulou a decisão dela de se concentrar no trabalho, mas lembrou-se do guardanapo de papel e a intenção de Max, tratando de ficar sozinho com Durnberg. Os dois ergueram-se quando ela se aproximou e o empresário colocou o guardanapo no bolso. — Pontual! — disse, olhando o relógio. — Está linda, Clare. — Obrigada — agradeceu e leu nos olhos de Max um elogio sem palavras. — Acho que podemos passar para o restaurante. Ham passou um braço pela cintura da jovem e levou-a de volta pelo mesmo caminho por que viera, enquanto ela cerrava os dentes para dominar o impulso de afastar aquele braço. Não imaginara que em tão pouco tempo podia-se criar aversão ao contato de qualquer outro homem que não o preferido. — Max me disse que você esteve ocupada hoje à tarde. Aliás os dois estiveram, pois recusaram meu convite para o torneio de tênis. Ela ficou feliz por Armstrong estar atrás deles; se tivesse que encará-lo, iria corar. Explicou: — Recebi um telefonema de meu sócio aqui em Sarasota. — Eu sei. Já resolveu tudo com ele? — Já. — Ótimo, porque nós três vamos ter um dia cheio, amanhã. Também resolvi tudo esta tarde e agora poderemos apenas jogar e aproveitar a estada aqui. Saíram do saguão e seguiram por um corredor acarpetado que ia dar no restaurante. Clare percebeu que ela e Max calculavam a distância entre si,
tentando não se tocar. Virou um pouquinho a cabeça para sentir o perfume da loção após barba e o leve aroma de bourbon no hálito dele. O desejo de beijálo umedeceu— lhe a boca. Durnberg parou para falar com o maître e Max aproveitou a chance para inclinar-se na direção dela e murmurar: — Você está sensacional, embora eu prefira o modo como estava vestida quando a encontrei em meu chalé. Clare não teve tempo de responder, pois o empresário juntou— se a eles e o maître levou-os a uma mesa. Lutou para controlar os pensamentos; a presença dele, tão próximo, já era difícil, não precisava lembrar do incidente da tarde. A mesa deles ficava junto à ampla parede de vidro que dava para o mar. Automaticamente, o maître puxou uma cadeira para Clare, de frente para a vidraça, entre os dois homens. Ela se preocupou, temendo perder a cabeça ficando assim tão perto dele. Então, sorrindo, queixou-se de imaginária corrente de ar e pediu para mudar de lugar com Ham. Max olhoua com intensidade, enquanto ela sentava-se diante dele, a cabeça voltada para a vidraça, olhando o golfo e fingindo não notar. Estava decidida a dominar seus desejos, até resolver tudo. — Aceitam um aperitivo? — indagou o garçom. — Claro! — respondeu Ham e para Clare: — O que vai tomar? Ela hesitou e fitou Max. Achava que não beberiam mais depois de sair do bar. — Quero um uísque com soda — respondeu por fim, desafiando-o, silenciosamente, a rir. — Eu admiro mulheres que sabem beber! — exclamou o empresário. — Traga três, rapaz... a não ser que Max não queira. — Quero, sim — disse ele. — Jamais recuso uma bebida. — Nunca o vi rejeitando nada! — disse Ham, enquanto o garçom se retirava. — Max sabe aproveitar todas as oportunidades. — Mesmo? Nunca pensei nisso... Clare agradeceu por estarem à meia-luz, assim talvez Durnberg não percebesse sua reação, pois sabia algo a respeito e mais: encorajara aquele homem. Agora era a oportunidade dela, era sua chance de fazer negócios. — Eu cultivo a imagem descontraída — explicou Max — assim os clientes ficam à vontade. Mas, no fundo, sou um tipo muito tenso. Imagino que sim — comentou ela, levando o copo com água à boca e
sentindo-a tremer, fazendo o gelo tilintar. Então leve toda sua tensão para o campo de golfe, amanhã. Fiz reserva para as oito horas. — Mas eu não trouxe... — começou Clare. — Eu forneço os tacos — cortou Ham. O garçom voltou com os uísques e Durnberg fez o pedido, fazendo-a sentir que pretendia controlar até o que eles comiam. Quando o garçom se afastou, ele fez um brinde: — Ao espírito de competição! — tocou com o seu copo o de Clare, depois o de Max. Armstrong ergueu o copo na direção dela e bebeu, seu olhar brilhando, firme, sobre a borda. — Onde vamos jogar? Não há campo de golfe em Sugar Sands... — observou Clare. — Tem razão — concordou Ham, erguendo as sobrancelhas, surpreendido por ela saber disso. — Fiz um arranjo com o Longboat Key Club, e eles adorarão se formos jogar lá. Depois do almoço... — interrompeua quando o maître aproximou-se de Clare. — Srta. Pemberton, telefone. A pessoa disse que é urgente. Trago o telefone sem fio ou prefere atender no vestíbulo? Ela estranhou: apenas duas pessoas, a mãe e Ron, sabiam que se encontrava ali. Qual dos dois teria urgência em falar com ela? Resolveu evitar problemas: — Atendo no vestíbulo, obrigada — e levantou-se. — Por que não leva seu copo? — indagou Max. — Eu acho que... — então, lembrou-se do truque ensinado por ele e viu que se preocupava por ela. — É, talvez eu vá precisar... — concordou, pegando o copo. O maître acompanhou-a até o telefone, ela apanhou-o e esperou, nervosa, que passassem a ligação. Pôs o copo no balcão ao notar que estava bebendo, sem querer. Por fim, falaram do outro lado da linha. — Mamãe! O que foi, agora? — indagou. — Não podia sair do escritório sem falar com você. Arquivar pastas é uma chatice! — Eu sei que trabalho de escritório é monótono. Leve um livro amanhã, mamãe. — Não é isso! Tive uma ótima idéia e fiquei louca para lhe contar. Se
quiser, começo amanhã mesmo. — Começa o quê? — Pelo menos dessa vez ela ligara para perguntar, pensou Clare, aliviada. — Pretendo renovar seu sistema de arquivo, para dar um pouco de personalidade ao trabalho. Pastas são tão pouco interessantes, filha! — E baratas, mamãe! Não posso gastar muito e... — Encontrei um sistema de fichários baratíssimo quando fui comprar as plantas. Recebeu meu recado? Clare passou a mão na testa, pensando em beber o uísque todo que havia no copo. — As plantas fizeram uma enorme diferença e com um novo arquivo, moderno, o visual do escritório ficará lindo. — Renove só uma parte, o resto eu resolvo quando chegar. — Mas aí a liquidação de arquivos termina, Clare! Ela decidiu: era menos perigoso sua mãe lidar com as pastas e arquivos do que se inventasse outra coisa. Percebia que a criatividade dela jamais tivera chance de se manifestar, o que acontecia agora que o marido falecera e os filhos estavam criados. — Está bem... Mas cuidado, mamãe, não perca nada, nem misture os documentos. Estou transferindo tudo para o computador e ainda não terminei. — Quer que eu ajude? — Oh, não! Não precisa. Cuide dos arquivos. — Está bem, querida! Depois a gente se fala. — Boa noite, mamãe. Desligou e olhou o copo, com vontade de virá-lo garganta abaixo, mas tinha que ser cuidadosa, havia uma longa noite pela frente. Olhou ao redor e viu uma enorme seringueira num canto. Ao passar, derramou o uísque na terra, imaginando como a planta ia sentir-se. Max não lhe dissera se matara alguma com essa técnica. Max... Ele esperava que ambos pretextassem cansaço depois do jantar, mas ela pretendia romper o acordo e talvez isso marcasse o fim da ajuda dele, como a de lembrá-la para se livrar da bebida. Mas não podia preocupar-se com isso, pensou. Ele mudara o jogo indo ficar a sós com Durnberg, para falar de negócios. Então, também tinha direito de mudá-lo. Ao chegar à entrada do restaurante, parou para habituar os olhos à penumbra, depois foi para a mesa.
— Tudo bem? — indagou Max, preocupado. — Sim — respondeu ela, afastando a sensação de culpa. — Era... — ia contar, mas desistiu, pois não queria que Ham soubesse que sua mãe ficara tomando conta da agência. — Não tem importância. — Em geral telefonemas urgentes não são importantes — comentou o empresário. — As pessoas abusam da palavra urgente. — Bem, falávamos do programa de amanhã quando você saiu. Depois do almoço vou dar uma surra em Max, o Magnífico, na quadra de tênis. Quer assistir? — Não posso perder... — sorriu ela. E descobriu que precisava evitar o olhar de Max, porque seu coração disparava cada vez que o fitava. — Depois, podemos fazer um pouco de windsurf, se o vento estiver bom? Já andou de prancha à vela, Clare? — Não, nunca. — Max pode ensinar, não é, meu velho? Aprenda rápido, para fazermos uma regatinha. Ele sabe tudo sobre surf e surfistas... — Cuidado, Ham — a voz de Max soou cortante. Clare ficou surpresa com o ódio que brilhava nos olhos dele. Pelo jeito, surf e surfistas eram assunto proibido para se tocar com Max, e Ham acabava de provocá-lo. — Vamos ter um dia cheio, então. — Ela viu ali a abertura para fazer o que pretendia. — Será que então poderia ver minha proposta depois do jantar, Ham? — Sem olhá-lo, sentiu a confusão de Max. — Assim, poderá pensar nela antes do jogo, não é? — Você me pegou desprevenido, menina — Durnberg olhou para Max, depois para ela. — A partir das oito há música na nossa boate e achei que vocês dois gostariam de dançar. — Prefiro que veja minha proposta, Ham — insistiu ela, evitando olhar para Max. — Afinal, vim aqui para isso. — É, claro... — O empresário fitou-a. — Mas não estou vendo sua pasta, que não pode estar escondida embaixo desse seu vestido incrível. — Não duvido — comentou Max. — Ela é muito esperta. — Deixei-a na recepção. Depois de jantar, podemos ir para seu escritório e você examinaria tudo. Meu plano é ótimo. Ham tomou um gole de uísque, observando-a. — Está bem — disse, afinal —, embora eu ache desagradável roubar a
parceira de dança de Max. — Posso esperar, bebendo algo no bar, até vocês terminarem — disse ele, calmo. — Não estou com sono e dançar é uma ótima idéia, não, Clare? — É, sim — concordou ela. Se dissesse que estava cansada, pareceria que o plano para ficarem a sós continuava de pé. O pior é que já não sabia o que era melhor: dançar com Max ou voltar ao chalé com ele. Aquele relacionamento tornava-se a cada minuto mais explosivo. Durante a tarde acreditara que Max e ela poderiam ser amantes e competidores, mas a realidade da situação a deixara em dúvida. Não podia falar por ele; no entanto, por ela, se tivesse que escolher entre trabalho e prazer, ficaria com o trabalho. — Ok — disse Ham. — Clare e eu veremos a proposta depois do jantar, aí poderemos relaxar e nos divertir. — Por mim, tudo bem — disse Armstrong, terminando sua bebida, sem jogar uma só gota fora. O jantar foi excelente, porém Clare comeu mais por hábito do que por fome. Como Max previra, a cerimônia de premiação pela concha mais linda achada no dia teve lugar às sete e meia. Durnberg gabou-se de ter a melhor coleção de conchas da ilha e que venceria o campeonato dezena de vezes, se competisse. Clare imaginou quando, com tanta atividade, Ham achava tempo para catar conchas nas praias. Os homens começaram a discutir sobre tênis e ela ficou fora da conversa. Aproveitou para organizar o pensamento sobre os pontos principais da proposta que apresentaria dali a pouco. Tudo mais era um mar profundo no qual não estava preparada para se aventurar. — Clare, não me lembro de você ter dito que tinha um sócio aqui — indagou Ham, servindo vinho para si e para ela. — É que não sabia se teria tempo de falar com ele — respondeu ela, torcendo para ele mudar de assunto. — Faz tempo que trabalham juntos? — Não muito. — Interessante... — comentou o empresário, pensativo. Ela olhou para Max, que conhecia o fato de seu “sócio” já ter sido noivo dela. Como ele encarava sua relutância em falar sobre Ron? Poderia imaginar que haviam reatado o noivado e... Começou a sentir uma pontinha de dor de cabeça.
— Alguém quer sobremesa? Licor? — ofereceu Ham, fazendo um sinal para o garçom. — Não, obrigado. — Max ergueu-se, empurrando a cadeira. — Se me dão licença, vou dar um passeio na praia. Clare sentiu uma vontade louca de ir com ele, mas, claro, não podia. Durnberg começou a rir. — Andar depois do jantar? Está ficando velho, Max! — É que li um artigo onde diziam que andar é bom para o coração e na praia, melhor ainda. Ultimamente ando pensando no meu coração... — acrescentou, fitando Clare. — Meu Deus! Jamais pensei que um dia o Max beberrão iria pensar na própria saúde! — Você não pode entender, amigo, e Clare é jovem demais para dar valor a isso. Ela ainda precisa conquistar o mundo. A tristeza tomou conta dela, pois era evidente que Max se magoara com a rejeição. Haviam combinado pretextar cansaço e ir deitar cedo. Não queria machucá-lo, porém tinha direito de tentar progredir, era a número dois naquela disputa e precisava esforçar-se mais. Achava que ele tinha certeza que ela não ganharia e talvez até esperasse que desistisse, preferindo passar o tempo todo com ele. Mas não podia fazer isso. — Espero vocês no bar — acrescentou ele, olhando para Clare. Ela assentiu, sorrindo. Houvesse o que houvesse, ainda poderiam se mostrar civilizados. Enquanto dançasse com ele, poderia comentar que sabia que usara o tempo sozinho com Ham para tirar vantagem e que se achava com o direito de fazer a mesma coisa. Poderia, também, dizer que um caso entre eles seria muito romântico, mas impossível. Quando Max retirou-se, Ham inclinou-se para ela: — Acho que ele está apaixonado por você. — Não seja ridículo! — exclamou ela, esperando não corar. — Não há nada de ridículo, a não ser que você o considere velho demais. — Claro que não! — retorquiu ela, mais depressa do que desejava. Durnberg inclinou a cadeira para trás, as mãos cruzadas sobre o estômago, observando-a como o caçador observa a caça. Ela pôs o guardanapo ao lado do prato e retribuiu o olhar dele, com a maior frieza possível. — Posso pegar minha pasta e encontrá-lo em seu escritório, em cinco
minutos? — Seria ótimo — respondeu ele, sem mudar de posição, nem de expressão. Clare sentiu vontade de negar que havia algo entre ela e Max, mas compreendeu que isso só confirmaria a desconfiança do empresário. Começou a erguer-se e ele apressou-se a levantar e puxar a cadeira dela. — Permita-me... — murmurou, com o olhar ainda mais incisivo. — Sabe onde fica meu escritório? — Posso perguntar na recepção. — Você é muito esperta, mesmo... — Obrigada pelo jantar, estava delicioso. Ele acenou com a cabeça e ela saiu do restaurante, lutando contra o desejo de ir juntar-se a Max na praia. Sentia-se insegura sem ele. Mas também não se sentia segura com ele, só que por outros motivos. Pouco depois encontrava-se em frente de Durnberg, do outro lado da enorme escrivaninha. Havia uma porção de troféus nas estantes que cobriam as paredes. — Então, você é licenciada também na Flórida? — Sou. — Observou interesse nos frios olhos cinzentos. — Posso fazer um preço médio pelos seguros de Flagstaff Fairways e Sugar Sands. — Hum... — Inclinou-se para trás, fitando-a. — Nesse caso, quero informações sobre seu sócio, que cuidará das coisas aqui. Foi ele que lhe telefonou, durante o jantar? Ele não esquecera do telefonema, simplesmente aguardara até poder indagar de modo direto. — Não — respondeu, determinada a não dar mais informações do que o necessário. Ele esperou e, como ela nada dissesse, pediu: — Fale mais sobre Ron. — Ron Trilling é excelente agente de seguros. Conheço-o desde que cursava a Universidade do Arizona. Se você aceitar minha proposta, terá ótimo atendimento aqui. — Então, ele foi seu colega... — Os olhos cinzentos brilhavam. — Tiveram um caso? — Não entendo o que isso tem a ver — respondeu ela, segurando a pasta com força, como se procurasse apoio. — Tem, se quiser que eu leve sua proposta em consideração. Acho que
um relacionamento amoroso pode transformar negócios em... em nada. E tenho também um motivo pessoal para saber. Não quero que você engane meu amigo Max, caso esteja interessada em outro homem. Furiosa, Clare levantou-se, desejando sair imediatamente dali. Não valia a pena continuar aquela conversa. — O que é isso? — indagou Durnberg, fazendo-lhe sinal para sentarse. — Já sei o que pretendia saber: sua reação me diz que gosta de Armstrong, caso contrário não teria ficado tão furiosa. Sei que Max ficou meio preocupado com esse tal de Ron, mas pelo que vejo não precisava. — Ham — começou ela, procurando controlar a voz. — Eu fiz uma excelente proposta para você e, se aceitar, trabalharei em sua conta o melhor possível, mas gostaria que deixássemos os assuntos pessoais de lado. Ron poderá atendê-lo em tudo que for preciso, aqui. Se não se importa, vamos deixar Max e minha vida particular fora disso. — Que desmancha-prazeres você é! — exclamou o empresário rindo, exibindo todos os dentes perfeitos. — Gostaria que examinasse isto... — Ela abriu a pasta. — Vai notar que minha proposta é abrangente, embora não seja meu maior argumento de venda. No momento, a Agência Armstrong tem apenas os seguros de sinistros de seu hotel-clube de Flagstaff. Eu quero ser sua agente em tudo, inclusive seguro de vida e de saúde. — Espalhou os papéis diante dele. — Está preparada para deixar uma porção de gente sem emprego, não? — comentou ele, com um sorriso malicioso. — Não é problema meu. O que me interessa é o cliente. Você merece a facilidade de um simples telefonema quando surgirem problemas. Um homem com suas responsabilidades não deve perder tempo procurando que agente cuida de tal apólice. — Max está sabendo o que você pretende aprontar? — Eu gostaria de falarmos em Max Armstrong apenas a nível de comparação de propostas. — Ora veja! — exclamou ele, sacudindo a cabeça. — Proponho-me, também, a atualizar seu portfólio anualmente e a fazer as modificações que forem convenientes. Acho que a Agência Armstrong não faz nada disso. Ela achava que referindo-se à agência e não à pessoa, poderia convencer-se que criticava a empresa, não o homem. Seria tão mais fácil se ele fosse o indivíduo desagradável que supusera!
— Há anos Max não modifica nada. Você acha que é por preguiça? — Talvez seja falta de atenção... — ela engoliu seco. — A ex-mulher dele anda dificultando tudo. Antes do divórcio, queixava-se que ele trabalhava demais; quando o rapaz resolveu inverter a coisa, era tarde: já estavam muito distantes um do outro. Clare não queria saber daquilo. Quem escutasse Ham falar daquele modo pensaria que era amigo, mesmo, de Max, porém ela fora testemunha das invejas e zombarias. E. Hamilton Durnberg só se interessava por Max para humilhá-lo. E, infelizmente, ela iria ajudá-lo a fazer isso. Observou que ele se concentrava nos papéis de computador, imaginando que por certo o impressionara tentando controlar todos os aspectos de seus seguros. Tanto ele quanto Max a haviam subestimado e sentia-se orgulhosa pelo interesse de Ham. — Alguma dúvida? Quer discutir cada item? — indagou. Ele olhou-a como se tivesse esquecido de sua presença. — O quê? Ah, não. Por enquanto, não tenho dúvidas, mas precisarei examinar os números. Faremos o seguinte, vá buscar Max enquanto examino a papelada. Ela cerrou os dentes, contendo uma resposta malcriada. Aquele homem adorava dar ordens! Fechou a pasta, mas não se levantou. — Pode perguntar o que quiser e quando quiser — disse, teimosa. — Quando eu quiser? Cuidado, posso levar a coisa ao pé da letra. — Pode, mesmo — retrucou ela, erguendo o queixo. — Vá procurar Max — ordenou ele, acenando para ela sair. — Mandarei Santiago apanhar vocês às sete da manhã. Boa noite. — Você não vai à boate, dançar? — Eu? Não! Acho isso a maior chatice. Clare entendeu: não havia competição na dança; ao contrário, havia entendimento e colaboração. A não ser que um homem usasse dança a fim de competir por uma mulher, mas Durnberg não demonstrara disposição de querer lutar por ela. Descobriu, então, que nada sabia sobre a vida pessoal daquele homem, embora ele fizesse de tudo para se inteirar da vida particular dos outros. Duvidava que fosse casado e tivesse filhos. Em nenhum dos escritórios dele vira fotos de família. — Até amanhã — disse, mas ele já se absorvera nos papéis. Achou que agora teria uma chance; até então pegar aquele cliente fora
um sonho, mas conseguira interessá-lo no que oferecia. Sentiu vontade de sair dançando, mas controlou-se e, dignamente, encaminhou-se à recepção, onde deixou a pasta. A poucos passos dali Max estava à sua espera. Hesitou, pensando em ir para o chalé e trancar-se. Ele entenderia a mensagem que era, talvez, a melhor que tinha para enviar-lhe, naquela situação. Considerou, no entanto, que seria uma saída covarde. Iria encontrar com ele e dançariam pelo menos uma vez. Aproveitaria para explicar-lhe que o acontecido durante a tarde fora um equívoco e que era melhor os dois manterem distância, tornando-se apenas amigos. Encontrou-o sentado a um banquinho, junto ao balcão do bar, de costas para a entrada. Lembrou-se daqueles ombros fortes nus e sentiu a garganta seca. Não o deseje!, advertiu a si mesma. Aproximou-se e sentou-se no banquinho ao lado dele. — O que está bebendo, cavalheiro? — indagou. — Água — disse ele, firme. — Quer? — Quero. O coração dela disparara com aquele olhar que parecia envolvê-la. Por mais que fizesse, não conseguia colocar distância entre eles. — Veja aí uma H2O especial para a senhorita, John! — Pois não, Max! — Então? — voltou-se para ela. — Tudo resolvido? — Olhe, eu sei que você não esperava que eu falasse com ele hoje, mas, afinal, esteve sozinho com Durnberg antes do jantar. Eu o vi escrevendo num guardanapo e achei que lhe dava preços novos. Achei que merecia uma chance igual... — Era o que eu deveria ter feito mesmo! — riu ele. — E não fez? — Não. Dei a ele os pontos para nossa aposta sobre o jogo entre os Dolphins e os Bearsm no domingo. A água chegou e ela bebeu, tentando pôr os pensamentos em ordem. Bem, Max não aproveitara a oportunidade para falar de negócios... E daí? Queria dizer que sentia tanta segurança que não achara isso necessário. Logo descobriria que errara em ser tão complacente. — Vamos dançar? — sugeriu ele, afastando o copo. Ela achou que não precisava dançar para dizer a ele o que pensava. Da maneira que a presença dele a transtornava, era melhor ficar longe daqueles
braços e não dentro deles. — Max, acho que deixei o romantismo do ambiente me envolver, hoje à tarde... — disse, sem fitá-lo. — Eu sei. Agora, vamos dançar? — É isso que pretendo dizer: é melhor mantermos um relacionamento... platônico. — Mas só quero dançar com você, mais nada! — disse ele, com um sorriso tão sensual que a derreteu por dentro. — Aposto que a irmã de Joel não é do tipo de pessoa que promete e não cumpre! Ela pôs uma das mãos no braço dele, o olhar suplicante: — Não vai me obrigar a cumprir a promessa, vai? O olhar dele desceu do rosto dela para o busto e ao notar a respiração ofegante, respondeu, fitando-a de novo diretamente nos grandes olhos verdes: — Sim. É claro que vou.
CAPÍTULO 8
Ela começou a perder a batalha no momento em que Max rodeou-lhe a cintura com um braço, na pista de dança. A música latina impunha um ritmo sensual aos quadris. Jamais imaginara que a dança tinha tal poder. Ele não a apertava, deixando entre os dois um espaço que criava uma tensão torturante, mais sensual do que se a mantivesse colada a si. Clare lutava contra o desejo de apoiar a cabeça no ombro dele e deixar-se levar. Os movimentos elásticos de Max demonstravam seu controle, enquanto ela tinha profunda ansiedade. De repente, ele murmurou-lhe ao ouvido: — Por que mudou de idéia? Foi pelo seu amigo Ron? — Nada tenho a ver com ele. — Não sei... Antes de ele aparecer você quase derreteu nos meus braços. Depois, voltou a ser a mulher de negócios, até atendendo um telefonema durante o jantar. — Era minha mãe de novo... Apoiou-se no ombro dele, sentindo os músculos flexionarem, lembrando-se do prazer que sentira ao acariciá-los, nus.
— Sua mãe? Verdade? — Sim. Por falar nisso, obrigada... Joguei a bebida num vaso, com uma seringueira. Os braços dele tornaram-se tensos e, quase imperceptivelmente, atraíram-na mais para si. — Acho que seria melhor se tivesse bebido... — Para me atrapalhar na apresentação da proposta? — a voz dela saiu aguda, pela sensação que ele lhe causava. — Pouco estou ligando para isso! — e apertou mais, fazendo-a perder o compasso e tropeçar. — Então, queria que eu me embriagasse para aproveitar de mim — brincou ela, tentando recuperar a razão. — Seria ótimo... — acariciou-lhe as costas. Ela ficou em pânico, sentindo o desejo avolumar-se, ameaçando dissolver tudo o mais. Precisava quebrar aquele encanto. — É assim que gosta de mulheres? Bêbadas e dóceis? — Você ganhou. A voz dele tornou-se fria, o corpo rígido e a respiração, pesada. A música parou e ele soltou-a. Conseguira o que queria: ele não ia mais persegui-la, pois era agressivo na paixão, mas não violento. E essa descoberta fez com que gostasse ainda mais dele. A orquestra começou uma música mais agitada. — Quer continuar? — indagou ele. — Você manda. — Max, desculpe o que eu disse, foi grosseria. Acho que estamos exaustos e precisamos descansar. Gostaria de ir embora. Você me acompanha? — Ele fez que sim. — Deixei o agasalho na portaria, junto com a pasta... — Tem a ficha? — ele estendeu a mão, ela entregou-a, tirando— a do bolso do vestido. — Volto já. Poderemos ir pela praia, se você quiser. — Quero... Ficou olhando enquanto ele saía, reconhecendo que sabia instintivamente como feri-lo, atingindo-lhe o orgulho. Max Armstrong não precisava da ajuda de álcool para seduzir uma mulher, ela sabia disso mais do que ninguém. No entanto, já que criara uma distância entre eles, não ousava eliminála. Seu corpo ainda pulsava pelo efeito da proximidade do corpo dele. Por causa daquela profunda sensação que de lhe causava, quase não apresentara
sua proposta a Durnberg e não devia se esquecer dessa lição. Ele voltou, com o casaco dela no braço. Enquanto atravessavam a boate, muitas mulheres olharam para ele e Clare não as culpou. Desejou ser outra pessoa, pelo menos por uma noite, alguém livre, para amá-lo sem temer conseqüências. — Pode ser impressão, mas por instantes senti que ficou mais receptiva — comentou ele, pondo-lhe o casaco nos ombros. — E fiquei, sim — respondeu ela, querendo eliminar as hostilidades. — Lembra que sugeri que fôssemos amigos? — Sim. Mas eu não quero só isso. Falei para valer, quando propus separarmos o trabalho do nosso relacionamento. Mas, amigos? Você é jovem, mas não tão ingênua, Clare. Fitou os olhos dele. Não. Não era ingênua e desde o começo sabia que a palavra “amigos” era apenas um artifício. — Talvez eu tenha problemas... — disse, enquanto Max abria a porta e saíam para o terraço. — Sou jovem, não sou sofisticada. Uma mulher experiente sabe conduzir seus casos, de negócio e de amor, sem fazer confusões. — Talvez... — Ele segurou-lhe o cotovelo quando chegaram à areia. — Quer tirar os sapatos? — Quero, mas vou estragar as meias. — Quando estivermos mais afastados, poderá tirá-las também. Prometo não me transformar num monstro de luxúria. Ela riu, inclinou-se e tirou os sapatos. — Gosto de você, Max. Ah, como eu gostaria que fôssemos dois estranhos encontrando-se aqui numas férias! — Poderíamos ser. De certa forma, é o que venho sugerindo e achei que você tinha compreendido. Não devíamos nos reprimir pelo que somos. — Acha que deveríamos fingir sermos outras pessoas? — Não precisaremos fingir: pensei que entre nós iríamos mesmo ser pessoas diferentes. Ela sentiu-se em perigo, mas não poderia silenciá-lo, mesmo que tentasse mudar de assunto. — Não sei se entendi. — Vamos andando — sugeriu ele, abaixando a cabeça. Ela acompanhou-o, e Max não fez um gesto sequer para pegar-lhe a mão, enquanto caminhavam na areia branca.
— Um dia, uma mulher me disse que eu perdia o presente, pensando no futuro — disse ele, depois de algum tempo. Clare imaginou que fora a ex-mulher dele que o dissera. — Sim concordou. — Mas às vezes é preciso pensar mais à frente. — Eu até penso. Mas me preocupar, para quê? — Acredita que eu não devia me preocupar com o efeito que nosso relacionamento possa ter sobre minhas possibilidades de pegar os seguros de Durnberg? — Acredito. Você devia reagir ao momento, ser quem deseja ser em determinado momento. Se quiser ser apenas mulher de negócios, ótimo. Depois, uma amante sensual, melhor ainda. Não precisa ser a mesma pessoa o tempo todo. Ninguém o é e pode-se ser tudo que se quiser. Ela respirou fundo, o ar úmido e salgado convidando à descontração, mas tentou pensar com lógica. — Eu acho, Max, que a vida seria mais simples se não juntássemos sexo à nossa situação atual. — Simplicidade... Que me diz de encantamento? E de excitação? — Você sabe do jeito que me perturba, Max e... — Não, não sei. Estou tentando adivinhar... — Eu acho que adivinhou certo — confessou ela, imaginando se fazia a coisa certa. — Mas eu... Oh, droga! — Pararam. — Minha meia furou e o dedão está para fora. — Tire as meias, ninguém vai reparar. Quer que me afaste? — Por quê? O casaco é comprido, posso tirar as meias sem mostrar as pernas. Meu casaco é como um escudo e... — Ah, Clare! Você diz cada coisa! Parece que vou atacá-la, caso se descuide. — Desculpe... — Ergueu o vestido, tirou uma, depois a outra meia e enfiou-as nos sapatos. — Pronto. — Pensei que hoje em dia toda mulher usasse meia-calça — comentou ele, com a voz meio rouca. — Nem todas — respondeu ela, perturbada pelo desejo que transparecera na voz dele. — Max, eu não queria... E foi você que sugeriu que tirasse as meias, dizendo que não... não... — Pensei que fosse meia-calça. — Por que não acrescentou “Se você usar cinta-liga eu vou ficar louco de luxúria”?
Com dois passos ele chegou junto dela, tomou-a nos braços com tanta violência que ela deixou caírem os sapatos, e o casaco escorregou-lhe dos ombros. — Meu erro foi querer conversar, quando nós dois sabemos perfeitamente o que estamos querendo! — exclamou, zangado. — Mas, eu... Os lábios dele a silenciaram e com um gemido de rendição ela aceitou o ataque insistente de sua língua. Toda a ardente frustração de Max residia naquele beijo, que ela correspondeu com ardor apaixonado, trêmula e ofegante. — Pronto — disse ele, num sussurro. — Resolvido? — Sim... — ela não conseguia mais resistir. — Vamos — ele apanhou os sapatos, o casaco. Correram até o terraço do chalé. — A chave está no bolso do casaco — disse Clare, quando ele soltoulhe a mão para abrir a porta. As luzes estavam acesas. Ele trancou a porta de correr, fechou a cortina, jogou a chave sobre a mesa e encarou-a. — Parece assustada de novo — disse, tirando a gravata, desabotoando o colarinho e aproximando-se. — Quando você me abraça, tudo parece certo, mas quando se afasta não sei mais o que devo fazer. — Daremos um jeito nisso — pegou-lhe o rosto entre as mãos e fitoulhe os olhos —, pois vou abraçá-la a noite inteira. O corpo de Clare pulsou à promessa daqueles olhos dourados. — E o programa de Durnberg, amanhã, Max? — Não vou me preocupar com isso agora. E você? — Bem, acho que preciso de ajuda, para não me preocupar — retrucou ela, sentindo-se atrevida. — Vejamos o que posso fazer! — E abraçou-a, com força. — Oh, Max — riu ela. — Sinto-me como a Scarlett O’Hara! — Empatamos — confessou ele, pegando-a no colo e levando-a para o quarto. — Eu me sinto como Rett Butler. — O que vai acontecer agora? — Não sabe? — rebateu ele, pondo-a na cama e acariciando— lhe o pescoço. — Você, a moça de calcinha e sutiã que estava no meu banheiro, mexendo nas minhas coisas...
Os beijos desceram pelo pescoço dela, enquanto as mãos procuravam o zíper do vestido. — Max, não pense... A voz morreu num suspiro quando ele tirou o vestido, abaixou as alças do sutiã e beijou os seios nus, então, soltou-o e tirou— o, dizendo, emocionado: — Só penso que você é linda! — Mas não costumo... — seu corpo arqueou-se quando os lábios dele acariciaram os mamilos. — Nem pensei nisso — e beijou-lhe os lábios. Sem mais duvidar, ela fechou os olhos e entregou-se às sensações. A suavidade da língua em seus seios, os dentes mordiscando os mamilos com delicadeza, a aspereza da barba arrancando arrepios, os pêlos do peito dele... Acariciou-lhe a curva das orelhas e enfiou os dedos nos cabelos. Ele se afastou, com suavidade. Abriu os olhos e viu-o fitando— a com profunda emoção. Imaginou que os olhos dele refletiam o que ela sentia e teve medo. — Não, querida... Tudo bem — murmurou ele. — Nun... nunca pensei em me sentir tão, tão... — Ninguém pensa, acontece como um milagre. Olhos nos olhos dele, ela desabotoou-lhe a camisa e pôs as mãos no peito dele, sentiu o coração batendo loucamente de encontro à sua mão direita. — Sabe? — Ele tirou uma mecha de cabelos loiros da testa dela. — Desejo é maravilhoso, porém amor é mais. — Não faz sentido — ela o acariciava, sentindo o calor de sua pele. — Não podemos estar... — Não — tocou-lhe os seios, olhos nos olhos. — Claro que não. — É, claro que não. Clare puxou-o para si, beijando-lhe os lábios e afastando a camisa para apertar os seios doloridos contra a pele nua. Depois beijou-lhe o queixo, as faces, os lóbulos das orelhas, enquanto lhe arrancava a camisa. — Por favor — pediu, entre beijos —, tire tudo e venha para mim! Sem falar, ele foi até o banheiro. — Na gaveta — disse ela, sabendo o que Max queria. Ele voltou, pôs a caixinha sobre a mesa de cabeceira e ela não ficou embaraçada como pensou que ficaria. Fitou-o intensamente. Já sem sapatos e
meias, ele permanecia de pé, olhando-a com uma intensidade que a fazia tremer. Conteve um gemido quando ele levou as mãos à fivela do cinto. Lembrava-se daquela fivela oval pressionando-lhe o estômago quando ele a apertara nos braços, enquanto dançavam. Lembrou-se, também, de outra coisa, daquela rigidez exigente entre suas pernas, numa ereção que fingira ignorar. Agora esperava, com a boca seca, enquanto Max desafivelava o cinto. O ruído do zíper provocou arrepios em sua espinha e segundos depois ele encontrava-se vestido apenas com uma peça mínima que continha sua masculinidade intumescida. — Tudo — exigiu ela, antegozando cada segundo da nudez que se anunciava. Era magnífico, como ela já sabia, e o desejava com fúria que a encantava. Fitando-lhe os olhos ela venceu a curta distância que os separava, até quase se tocarem. Os bicos de seus seios roçando o peito dele e sua masculinidade contra seu ventre liso e sedoso. — Parece que a donzela relutante desapareceu — murmurou ele, em tom grave. — Você disse que eu poderia ser quem quisesse! Quer mais? — indagou Clare, baixinho, aproximando-se até esmagar os seios contra o peito musculoso dele. Max colocou as mãos nas nádegas firmes, redondas, e puxou— a mais para si. — Adoro o contato dessa calcinha... — Introduziu as mãos por dentro do elástico. — E mais ainda do que está por baixo — acrescentou, a respiração descompassada. — Quer que eu tire? — sussurrou ela. — Não, deixe comigo... — Puxou a calcinha para baixo, até chegar aos pés dela. Ergueu-se de novo. — Agora... — disse, estendendo os braços para ela. — Gostaria de adivinhar o que você quer que eu faça... — disse ela, fugindo dele, provocante. Max fitou-a, intrigado, ela sorriu e se aproximou; segurou-lhe as mãos e lentamente pôs-se de joelhos diante dele. — Imagino que você gostaria que eu o amasse — murmurou, soltando as mãos e acariciando a masculinidade ereta. — Clare!
O gemido de profundo prazer aguçou o desejo dela, enquanto, inclinada, demonstrava sua paixão. Max tinha razão. Com ele Clare era outra mulher, impetuosa, atrevida, entregue à alucinante sexualidade que ele soubera despertar. Amou-o, acariciando com os lábios e com a língua o membro viril, até que as pernas dele começaram a tremer e Max a fez pôr— se de pé. Quando olhou-o nos olhos, soube que aquele homem jamais a esqueceria. O beijo que os uniu foi dolorosamente profundo, suplicando algo que não podia ser expresso em palavras. Em silêncio, ele levou-a para a cama e puxou as cobertas, deitou-a. Clare ficou olhando para ele, os olhos verdes brilhantes como estrelas. — Não quero usar isto — disse Max, pegando a caixinha e abrindo-a. — Meu instinto diz para destruir todas as barreiras entre nós, mas vou usar. Não quero que você se arrisque. — Você também não deve se arriscar — murmurou ela. Não queria criar obrigações para Max. Não tinha a menor ideia do que o futuro lhes reservava e muita coisa poderia acontecer, destruindo a ternura que sentiam um pelo outro. Fechou os olhos e desejou que aquele momento fosse eterno. Sentiu o peso dele a seu lado, no colchão, depois os lábios ardentes beijando-lhe as pálpebras. Abriu-os e fitou-o, as mãos dele acariciando-lhe o rosto, o pescoço, depois os bicos de cada seio, em seguida o estômago, o umbigo, onde um dos dedos mergulhou. Ela prendeu a respiração quando as mãos deslizaram pelo ventre, depois pela rosada flor ardente e desceram pelas coxas, pernas, até os pés. Então, voltaram pelas pernas esguias detendo — se no ponto feminino que fremia pelo seu toque. Pressionando a palma da mão contra o úmido triângulo de pelos sedosos, crespos e loiros, ele afirmou a urgência de seu desejo com um toque penetrante na rósea flor de carne que a fez arquear-se e gemer seu nome. — Estou aqui — sussurrou ele, deitando-se sobre o corpo faminto de Clare. — Preciso muito de você. Clare sabia que se ele não a possuísse agora, suavizando aquela dor insuportável e maravilhosa do desejo, ela enlouqueceria. Segurou-o pelos quadris enxutos e ergueu os seus, enquanto ele impulsionava-se para a frente e a tomava, toda, num ritmo que Clare acompanhou instintivamente. Alcançaram juntos o gozo supremo, suas respirações e gemidos se misturando. Não se separaram e ela sentiu que ele recomeçava a guiá-la para
um ponto luminoso, colorido, de intenso prazer, mexendo-se ritmadamente sobre ela, sua masculinidade ainda pulsante, rija e cheia de força. — Ah, Max, é tão bom! — gemeu, maravilhada. — Vai ser melhor, querida — respondeu ele, arquejante. — Vamos... Venha comigo, Clare! — Sim — murmurou ela. — Max... Max! O corpo esguio arqueou-se, erguendo o dele numa força tão antiga e extrema quanto o mundo, enquanto alcançavam um novo clímax, mais profundo e intenso do que o primeiro. Ouviu o parceiro gritar seu grito de prazer e alegria, um eco perfeito do seu.
CAPÍTULO 9
Veio o longo silêncio do depois. Max permaneceu imóvel sobre o corpo suado de Clare. Não queria falar, com medo de acordar, descobrindo que tudo fora um sonho. Já não se sentia o homem maduro, quase velho, que vinha sentindo-se ultimamente. Vibrava, ansioso por mais amor. Clare fazia parte de sua vida. Estava... estava amando! Até então sua vida fora um deserto, e conhecê-la tinha sido como chegar a um oásis. Rezou para que não fosse uma miragem que desapareceria se ele continuasse com os seguros de Durnberg e ela ficasse sem nada. Clare moveu-se, ergueu a cabeça e ele desejou que abrisse os olhos para se perder nas profundezas verdes e descobrir-se lá dentro. Confiava nos sentimentos dela. As pálpebras tremeram e ele notou que estavam manchadas pelo verde da sombra e o negro do rímel. O batom desaparecera com os beijos apaixonados. Pensou que gostaria de ficar à porta do banheiro vendo-a aplicar a sombra e o rímel naqueles olhos lindos. Imaginou como ela se inclinaria para o espelho. O roupão abrindo-se e revelando os seios firmes, cheios. Ela abriu os olhos, lentamente. — Oi... — disse, com voz rouca. — Oi... — respondeu ele, feliz. Não imaginara. Clare sentia o mesmo que ele. Ela sorriu, ele beijou-lhe a covinha na face e perguntou: — Promete que não vai embora? Preciso fazer uma coisa. — Prometo. Ele levantou-se. Droga de controle de natalidade, pensou, indo para o banheiro. Fora cuidadoso nos dois casos que tivera depois do divórcio, pois tinha certeza que não iam dar em nada, e uma gravidez estava fora de questão. Mas desde o primeiro beijo soubera que com Clare era diferente. Com ela queria participar de atos de amor descuidados, antes de levantarem de manhã; de fazer amor, à noite, dormirem juntos e se amarem de novo no decorrer da noite.
Quando voltou do banheiro, ela cobrira-se com o lençol e deitara-se de lado, com a cabeça apoiada nas mãos. O rosto dele escureceu: Clare estava pensando, de novo. — Está com frio ou encabulada? — perguntou, parando ao lado da cama. — Estou pensando... — Imaginei — sentou-se na beira da cama. — Isso pode criar problemas. — E o que fizemos, não? — Não. Só se Ham descobrir isto aqui... — mostrou a caixinha. — Max, acha que ele... — começou ela, sentando-se. — Não. — Ele riu, abraçando-a. — Desculpe, não quis preocupá-la. Ham não é tão diabólico assim. — Hoje, quando fiquei a sós com ele, tive impressão de estar diante de uma cobra. — No paraíso? — indagou ele, beijando-lhe o ombro. — Talvez... E nós mordemos a maçã. Ele afastou os macios cabelos loiros e acariciou o pescoço esguio com a língua. — Então, é melhor comermos inteira... Provou o sal da pele macia, aspirou a fragrância que vinha dela, feita de colônia e suor, misturada com o cheiro dele. No restaurante, Clare fora bela e intocável, mas naquele momento pertencia a ele, deixando-o louco com os cabelos em desalinho e a maquiagem manchada. — Amanhã vou ser um livro aberto — suspirou ela, enquanto ele afastava o lençol. — Só de olhar meu rosto, Durnberg vai saber de tudo. Max continuou a acariciar-lhe o pescoço, as costas, e ela acabou relaxando. Então, ele indagou, malicioso: — Acha que ele vai adivinhar quantas vezes fizemos amor, só olhando para você? — Ora, Max — respondeu ela, com a voz arrastada — não seja bobo! Ele a fez deitar-se e olhou-a desde os cabelos loiros até as pontas dos pés rosados. Enfim, fitou os olhos verdes e viu-os brilhando de paixão: ela estava preparada para mais. — Se continuar me olhando desse jeito, Clare, perco a cabeça e vou querer mais, mais e mais! O sorriso e os olhos semicerrando-se fizeram o sangue de Max ferver,
diante do desejo intenso que julgara nunca mais poder sentir. Faria amor com ela muitas vezes, até conhecer cada centímetro secreto daquele corpo amado. Ia amá-la até ela revelar-lhe todas as fantasias que homem nenhum conhecia. Nas horas que restavam para o amanhecer, encheria aquele quarto com os gemidos de amor dela... e dele. Clare acordou com o barulho de chuveiro e um assobio. Erguendo-se sobre um cotovelo, observou o caos ao redor. Lençol e colcha estavam amassados, no pé da cama, com um travesseiro. O vestido e o sutiã encontravam-se amarfanhados no meio daquilo tudo. Ao lado da cama, a calcinha e a cinta-liga jaziam misturadas às roupas de Max. Tornou a deitar-se e ficou olhando para o teto. Havia sido uma noite de luta, pensou, sorrindo e imaginando como ocultariam aquela bagunça dos criados do clube. Com certeza, Durnberg tinha espiões entre eles. O som do chuveiro parou, mas o assobio, não. Espreguiçou— se, pensando como seria bom ficar na cama o dia inteiro. Incrível a energia de Max: todo aquele ânimo depois de passar a noite em claro. — Acorde e sorria! — Ele estava à porta do banheiro, uma toalha ao redor da cintura, outra enxugando os cabelos. — Meu Deus! Você é madrugador? — Como pode dizer isso? — Fingiu-se ofendido. — Acho que mostrei que funciono bem à noite e, muitas vezes... — Está bem! — riu ela. — É sempre tão alegre de manhã? — Não. — Ele pôs a toalha em volta do pescoço e se aproximou. — Mas depois desta noite, nada e ninguém mais poderá tirar este sorriso do meu rosto. Ela segurou as pontas da toalha no pescoço dele e ergueu-se diante dele, que cheirava a sabonete, xampu e... a Max. — A noite foi linda! — sussurrou. — Nunca mais vou esquecê-la, aconteça o que acontecer. — Não vale sugerir desgraça, logo cedo! Prefiro ouvir elogios! — Segurou-a pelas nádegas e atraiu-a para si. Ela entrelaçou os dedos na nuca dele e olhou-o: — Gosto do seu cheiro. — Agora? — riu ele. — Agora e antes... — Nada como o cheiro do amor com a pessoa certa.
— E gosto de olhar para você, mesmo quando está vestido. Gosto da sua honestidade, da sua atenção, da sua segurança e até do seu assobio, de manhã! Ele deslizou as mãos das costas dela para os seios enrijecidos. — Obrigado pelo elogio — murmurou. — Eu devia ter falado primeiro. Você não deixou nada para mim! O corpo dela ondulou de leve, enquanto as mãos dele, acariciando-lhe os seios, trouxeram lembranças da noite. — Mas não sei assobiar... — murmurou. — Eu ensino — disse ele, abraçando-a com um braço e tocando-lhe os lábios. — Primeiro, franza os lábios... assim... Depois, depois... Ora, o assobio que vá para o inferno! — exclamou, beijando-a avidamente. Depois, ergueu a cabeça: — Hum... Isto é perigoso. — Eu sei — disse ela, mordiscando-lhe o lábio inferior. — Queria ficar aqui o dia todo, não me interessa ver Durnberg jogando jogos idiotas. — Nem a mim — suspirou ele, afastando-a e segurando-a pelos ombros. — Mas ele é o cliente. Logo vamos passar o dia inteiro na cama, depois de resolver a parada com ele. — Mesmo que eu ganhe? Assim mesmo, irá para a cama comigo? — Moça, nada vai me impedir de fazer amor com você. Só se eu estiver morto! — Escreva isso e assine, pois vou pegar o cliente! Estou avisando, Max. — Ok — sorriu ele. — Considero-me avisado. Agora, para o chuveiro, pois não pode sair desse jeito... e se continuar desse jeito, eu não poderei sair daqui. Tenha pena, sim? —Está bem... — Beijou-o e foi para o banheiro. — Se tiver tempo, dê uma arrumadinha no quarto. Até parece que houve uma orgia aqui! — Procurei tanto a palavra para descrever nossa noite e você achou! — Max — ela pôs a cabeça fora da porta do banheiro —, quero que saiba que não costumo... Qual é a graça? — Você! — Ele riu mais. — Esta tão preocupada com o que eu possa pensar e não percebe que meu comportamento também é passível de crítica? — É verdade, Max, mas acho que você é um homem liberado. — Faço o possível... — Pois saiba que o respeito, apesar de ter ido para a cama comigo no segundo encontro! A gargalhada dele soou através da porta do box, que ela fechara.
Sentia-se otimamente. Havia ensaboado o corpo e os cabelos quando ele gritou: — O telefone está tocando! — e abriu a porta do box. — Não atenda, por favor, Max. — Prefiro que você também não atenda — disse ele, tirando a toalha da cintura e querendo entrar sob o chuveiro. — Mas preciso! — Ela saiu do box, pegou uma toalha e foi para o quarto espalhando espuma e água para todo lado. — Clare, querida! Como demorou para atender! — Qual o problema a esta hora, mamãe? — Precisava falar-lhe antes do dia começar. Acordei-a? — Não, mas eu estava no chuveiro — olhou para Max, com a toalha de novo na cintura, à porta do banheiro. — Que há? — Tremeu e enrolou-se na toalha, enquanto ele voltava para dentro do banheiro, na certa para se aprontar. — Um cliente está furioso comigo, mas estou fazendo o que você disse: nada de descontos, como no ano passado. — Qual deles, mamãe? Sentiu a esponja quente nas costas e soltou uma exclamação de susto. Voltando-se, viu Max com a esponja e um balde de água quente. — Clare! O que foi, minha filha? — Nada, mamãe. Tentou concentrar-se no que a mãe dizia, enquanto ele retirava a toalha e esfregava-lhe as costas. Era uma sensação tão boa que ela não teve coragem de pedir-lhe que parasse. — A sra. Boddiddle chegou, logo depois que liguei para você, ontem. Lembra como ela é gorda, filha? Ela trocou o fone de orelha, enquanto Max esfregava-lhe um braço. — ... e caiu em cima do carro, estragando a capota. — O que caiu em cima do carro? — perguntou Clare, começando a sentir-se idiota, com Max agora esfregando-lhe os seios e a mãe contando como a gordona caíra sobre a capota do carro. — Como ela conseguiu isso? — Estava examinando a calha da casa, perdeu o equilíbrio e caiu sobre a capota do Toyota. Claro, eu disse que o seguro não cobre isso. — Mas cobre, mamãe! — Clare mal conseguia controlar a excitação. — Queda de objetos... Ligue para ela, mamãe. Se conseguiu ir até aí queixar-se,
não deve estar tão machucada. — Não, só umas equimoses. Fez radiografias, não quebrou nada, mas o Toyota acabou! — Diga-lhe que mande consertar. — Precisava desligar, logo, Max começava a se tornar mais atrevido. — Alguma outra coisa, mamãe? As duas despediram-se, Clare desligou o telefone e atirou-se sobre Max, às gargalhadas. — O que foi? — indagou ele, com cara de inocente. — Você sabe o que é falar ao telefone, com a mãe, que conta a história de uma gorda que caiu em cima de seu carro, enquanto o amante da gente faz cócegas com uma esponja, sem mencionar outras... coisas? — disse ela, quase sem fôlego. Pouco depois os dois riam perdidamente, jogados na cama. — Não tem a menor graça! — disse ela, por fim, enxugando as lágrimas. — Então, do que estamos rindo? — indagou ele, ficando sério. — Vai ver que é efeito da falta de sono. Estamos tontos. — É... — O rosto moreno se tornou sério, terno. — Eu daria tudo para fazer amor com você, agora. — Ah, Max! — suspirou ela. — Não é justo! Não devíamos ser obrigados a nos vestir e sair correndo atrás de Ham! — Não é justo, mesmo. Mas é o que precisamos fazer. Vou para o meu chalé, fecharei a porta, me vestirei e depois vou desarrumar a cama, para fingir que dormi nela. — Acha que vamos conseguir manter segredo? — Vamos tentar... Agora, depressa! — disse Max, levantando— se. — Quando tornarmos a nos encontrar, teremos que fingir que somos amigos distantes. Ela obedeceu e tratou de se vestir depressa. Secou os cabelos e prendeu-os num rabo-de-cavalo. Calçou tênis, deu uma arrumação no quarto para disfarçar o que acontecera, guardou a caixa de preservativos no banheiro. A campainha tocou. Minutos depois, encontrava-se ao lado de Max, no assento traseiro do Mercedes de Ham, que ia na frente, com Santiago. — Descansaram bem? — indagou o empresário, voltando-se. — Maravilhosamente — disse Max. — Quanto a Clare, não sei, mas para mim o clima da praia é relaxante.
Ela sentia-se impressionada com o autocontrole de Max e, curioso, também sentia-se calma. Agiam como velhos conhecidos. — Os dois estão ótimos — comentou Ham, olhando para Clare. — Obrigada — disse ela, sustentando-lhe o olhar. — Será que posso jogar golfe com este tênis? — E cruzou as pernas para mostrá-los. — Se quiser, pode, mas eu gostaria de lhe oferecer... — Não precisa, assim se eu jogar mal, posso culpar o tênis. — Viu?, disse a si mesma, posso ser tão natural quanto Max, apesar da mão que me acariciou tanto estar tão perto da minha... E desviou depressa o pensamento, com medo de corar. — Você é que sabe — disse Ham. — Tomaram café da manhã? — Para mim não deu tempo — respondeu Max. — Dormi demais. — Você, o madrugador? Pensei que fosse levantar de madrugada, correr na praia e pedir um banquete, como sempre faz. — Devo estar ficando velho ou a cama é confortável demais. Quem tem problema de coluna precisa de camas como essas. Clare cobriu um sorriso com a mão. Max forçava a barra com essa história de homem de meia-idade. Pelo jeito de Ham concordar, parecia que o ardil funcionara. — Max, estou penalizado por arrastá-lo ao campo de tênis, à tarde. Problema de cotovelo, coração, coluna! Está uma ruína, meu rapaz! Vejamos como está no golfe. Vou pedir sanduíches e refrigerantes, o mínimo que pode fazer é conservar as forças, com uma boa alimentação. — E, preciso mesmo — Max esticou o dedinho e tocou a mão de Clare, que estava sobre o assento. — Detesto ser desmancha— prazeres. Ela rezava para agüentar o dia. Aquele toque mínimo de Max a fizera arder de desejo e só iria para os braços dele quando o negror da noite ocultasse sua paixão. Felizmente Max deu um jeito para ajudá-la a se controlar. Pegou um carrinho para ele e sugeriu que ela fosse no de Durnberg. O jogo de Clare foi passável, surpreendendo até ela mesma. Talvez por efeito do amor de Max, recebera um choque de adrenalina e de autoconfiança. Max jogou mal. Observando-o fazer uma baliza, ela quase perdeu o fôlego. O corpo dele era maravilhoso e de vez em quando brincava com Ham, dizendo que andava precisando de óculos. Perdia deliberadamente, tentando convencer o empresário que já não era o mesmo homem, inclusive com mulheres. Sabendo que ele era competidor por excelência ela agradeceu o
sacrifício que fazia para protegê-la. Não estando no mesmo cart de golfe com ele, não corria o risco das tentações que sua presença pudesse causar, mas em troca era obrigada a ouvir Durnberg falar de suas vitórias. — Sabe? — disse ele, parando o carrinho. — Eu tinha certeza que você e Max estariam arrulhando a esta hora, mas ele ficou surdo e cego ou então só pensa em negócios! — Eu vim aqui para trabalhar — respondeu ela, surpreendida pela brusca mudança de assunto. — De fato... Estudei sua proposta e fiquei impressionado. Você deu ênfase a coisas que Max nem pensou em oferecer. — Ótimo você aprovar os extras, mas minha intenção é oferecer-lhe um só agente para os seguros dos dois clubes-hotéis, de saúde e de vida. Sentiu o suor escorrer entre seus seios; parecia que ele levava sua proposta a sério. Ia ganhar o cliente. — Um só agente para tudo — murmurou Durnberg. — Não deixa de ser interessante, mas não sei. Estou com Max há muitos anos e me acostumei com ele. Para chutá-lo de vez em quando, pensou ela. E Max não desistiria da conta, apesar dos chutes. Era dinheiro demais para se jogar fora. — Tem alguma dúvida a respeito? — indagou, querendo desviar o assunto de Max. — Algumas, mas dá para esperar. Venha, vamos ver como ele se saíra agora. Clare pegou o taco e saiu do cart. Precisava de mais uma resposta: — Ham, não quero apressá-lo, mas... quanto tempo teremos que ficar aqui? Tenho trabalho na agência e... — Bem... acho que poderão ir embora amanhã. Pretendo decidir tudo logo cedo. Ela estremeceu. Teria mais uma noite com Max e, então, Durnberg escolheria o vencedor. Mais uma noite. Depois, não havia qualquer garantia e ela estava ciente disso.
CAPÍTULO 10
A bola amarela batia como disparo de arma de fogo nas raquetes de Max e Durnberg. O pescoço de Clare doía, acompanhando-a. Por fim, decidiu fixar a atenção em Max. Ela assistia ao jogo sentada a uma mesinha, na área coberta, tomando uma limonada gelada. Observava a camisa dele molhada de suor e admirava a capacidade como ele agüentava o jogo depois da noite maldormida. Esperava que não jogasse com tanta ferocidade por causa dela, pois não precisava provar-lhe nada. Desconfiava que o esforço ajudava-o a relaxar a tensão provocada por Durnberg. Viu o sorriso de satisfação, quando ele obrigou o adversário a mergulhar para pegar a bola. Ele ganhou o serviço, foi para o fundo da quadra e rebateu as duas bolas que Durnberg lhe mandou em rápida sucessão. Clare sentia-se tensa e excitada. Ele olhou-a, parecendo adivinhar-lhe os pensamentos. Levantou a bola, depois com um movimento de braço, disparou-a para o campo oposto. Durnberg errou, ela ia aplaudir, mas conteve-se a tempo. Disse, apenas, bela jogada, e continuou tomando a limonada. Até ali, recusara-se a tomar partido. Esperava que Max mantivesse o empresário ocupado, impedindo-o de observar as reações dela, que mal conseguia ocultar. Quando Max ia dar o sexto saque, um empregado do clube aproximou-se de Clare com um telefone sem fio. Minha mãe, outra vez, ela pensou. Talvez a sra. Bodiddle houvesse telefonado para a Comissão das Seguradoras antes que a mãe tivesse tempo de solucionar o mal-entendido. — Clare, minha filha, como vai? — Bem, mamãe. Parece que o sr. Durnberg gostou da minha proposta. O que foi? — tentou não pensar na conta do telefone; se pegasse o cliente não haveria problema. — Estou orgulhosíssima, filha! O arquivo está pronto. Quando abrir o arquivo, vai encontrar um lindo arco-íris, não aquelas horríveis pastas de
cartolina parda! — Ótimo, mamãe. E a sra. Bodiddle? — Ah! Foi meio fria no começo, mas pedi desculpa e tudo acabou bem... Clare, você faz pouco dos meus doces, mas quando ofereci um bolo a ela com o pedido de desculpas, delirou de alegria! — Maravilha, mamãe! — Também acho. Mas espere só para ver o arquivo! — O que fez com as pastas velhas, mamãe? — Aquelas coisas horrorosas? Joguei no lixo. — Mas, antes, copiou as anotações que fiz do lado de dentro? — Aqueles garranchos? Não entendi nada. Precisava copiar? — Pegue as pastas, depressa, mamãe! — Clare esforçou-se por não entrar em pânico. — Sei que parecem garranchos, mas eu entendo e são anotações importantes. Preciso das pastas velhas. Hoje é quarta, a coleta de lixo só será feita amanhã cedo. Fale com Joel para ajudá-la a recuperá-las. — Está bem, querida... — a mãe ficara desanimada. — Desculpe, mamãe, mas preciso mesmo das pastas. Devo chegar amanhã à tarde. O sr. Durnberg decidirá amanhã cedo. — Tenho certeza que ele vai escolher você! — Você é um amor, mamãe! Até amanhã! — Desligou e voltou-se para o funcionário, parado a discreta distância: — Obrigada — e procurou a carteira para lhe dar uma gorjeta. — Não, senhora, obrigado — disse ele. — O sr. Durnberg disse para não aceitarmos gorjetas da senhora, nem do sr. Armstrong. Ela olhou para a quadra e viu que os jogadores se aproximavam. Durnberg fez um sinal ao rapaz, pedindo mais três limonadas. — Quem ganhou? — indagou, enquanto eles sentavam. — Se não vivesse grudada ao telefone, saberia — respondeu Max, em tom provocador. — Era minha mãe, de novo. — Algum problema? — Não, ela... — olhou-o e pelo brilho malicioso nos olhos dele percebeu que lembrara do que faziam quando a mãe ligara da outra vez. Desviou os olhos, depressa. — Ela adora telefonar. Por isso, perdi a contagem. — Empatamos — disse Durnberg. — Max teve sorte. — É a única explicação — concordou ele, pegando a limonada que o rapaz trouxera.
—Vocês deram um espetáculo! — comentou ela. Acho que pretendiam impressionar os assistentes. — Eles se impressionaram? — Max sorria. — Não. Só quando os jogadores morrem. — Pois nunca me senti melhor na vida! — gabou-se Ham, embora ofegante e com a camisa molhada. — Quanto ao velhote aí, não sei. É limonada por causa dele. Antes bebíamos cerveja. — Limonada é bom! Nunca fez tanto calor em Flagstaff... — comentou Clare. — E que o ar está parado. — Durnberg enxugou o suor do rosto com sua toalha. — Não vai dar para fazer windsurf. Mas esqui-aquático dá. Você faz esqui, Clare? — Mal... — respondeu ela, não muito animada. Cansada como estava, podia até se afogar. Não imaginava como Max agüentaria: cansara-se mais ainda com o jogo de tênis. — Então, nós vamos ensiná-la, não, Max? — Claro, Ham — e ele nem piscou. Mas ela percebia que estava cansado, exausto, mesmo. — Ham — começou, procurando ajudar Max —, em vez de esquiar, não podemos ficar por aqui e discutir as dúvidas que você tem sobre a minha proposta? — Não pensara que a sugestão poderia parecer tática de negociação agressiva, mas viu a expressão aturdida de Max. — Quer dizer, Max e eu temos coisas a discutir com você, já que vamos embora amanhã. — Amanhã? Você não me disse nada, Ham. — Não deu tempo, companheiro... Clare me perguntou no jogo de golfe e eu disse que daria a resposta amanhã cedo. — Nesse caso, vale a pergunta: você tem dúvidas, depois de estudar a proposta de Clare? — Talvez sim — respondeu o empresário, pondo a toalha no pescoço. — Quanto tempo você levaria para tirar licença de fazer seguros na Flórida? — Não sei, Ham. Algumas semanas, acho. Teria que arranjar um contato aqui e não pensei que fosse importante. Seu agente de seguros na Flórida é ótimo. Por que se arriscar, dando tudo a um só... — Calou-se, olhou Clare, depois continuou: — É mais difícil cuidar de uma conta muito grande. Durnberg sorriu, malicioso, e ela sentiu o estômago se apertar. Ele se divertia! Queria estar a quilômetros dali. — Compreendo — murmurou o empresário. — Mas computadores
ajudam muito, Max. Você tem um? — Não... Clare não conseguia olhá-lo. Pela primeira vez ele via-se diante da possibilidade de ela ficar com o cliente e detestava ter que ver o efeito que isso lhe causava. Ele dissera que continuariam a relação, vencesse quem vencesse... — Bem — Ham levantou-se e fitou-os, satisfeito —, este não é lugar para esse tipo de conversa. Por enquanto, não vou decidir nada. Vamos terminar o jogo, comer alguma coisa, depois Clare e eu poderemos conversar. — Ok, Ham. Enquanto vocês dois conversam, aproveitarei para tirar uma soneca naquela cama maravilhosa. Ela podia adivinhar o que ele pensava: que aproveitara o jogo de golfe para tirar vantagem. Avisara-o que faria tudo para conseguir... — Olhe, Max — Durnberg deu-lhe uma piscadela. — Poderemos discutir esta noite... — Olhou para Clare, depois de novo para o amigo. — Lembra-se onde fechávamos negócios? — Esqueça, Ham. Desta vez, não. — Que pena! Não vai ser como nos velhos tempos? — Do que estão falando? — quis saber a moça. — Max e eu vimos uns bons shows... — disse Ham, enfatizando a palavra “show” para Clare entender que se tratava de espetáculo de striptease. — Bem, não vamos discutir, Ham. — Havia raiva na voz dele. — Por quê? Você não tem nada a esconder — retrucou o empresário. Jamais o convenci a levar uma daquelas garotas para casa. Pensei que precisasse de consolo, depois do divórcio... E talvez ainda precise. Sabe, Clare, Max era um agente de seguros divertido. Não é mais. Não sei por quê. Ela percebeu que as frases de Durnberg eram premeditadas: jogava verde para descobrir os sentimentos do competidor em relação a ela. Max, rejeitando o convite dele, poderia levá-lo a descobrir a verdade, e ela não queria vencer dessa forma. — Acho que deviam ir — disse, conciliadora. — Vou jantar no chalé e dormir. — Besteira! — exclamou Max, de cara feia. — Vamos jantar os três juntos. — Meu Deus! O que uma moça pode fazer para convencer alguém que quer ficar sossegada, uma noite? — disse ela, rindo e desviando o olhar.
— Decidido, Max, você perdeu! — riu Durnberg. — Vamos ao show esta noite. — Está bem — concordou ele, olhando com expressão intrigada para a jovem. — Então, vamos terminar o jogo. Já brinquei demais e está na hora de você perder. — Acha que vai me derrotar? Veremos! Sentindo-se um tanto frustrada, Clare viu-os afastarem-se. Talvez tivesse sido tola mandando Max ir ver mulheres nuas e solidificando a posição dele junto a Durnberg. Mesmo assim achava que a maré estava a seu favor. Engraçado, pensou, quando se determinara a tirar o cliente de Max, imaginara qual seria a emoção ao consegui-lo. No entanto, sentia-se confusa, com medo de ser infeliz, ganhasse ou não, pois ficara emocionalmente envolvida no resultado. Como queria que a afirmação dele fosse verdade, que negócios eram apenas negócios. Ao término do jogo, ele a surpreendeu derrotando Durnberg. Sabia que Max jogava bem, mas achava que deixaria o empresário ganhar. — Acho que há problemas com esta raquete! — rosnava o vencido, ao sair da quadra. — Os cordões estão frouxos! — A minha está ótima — disse o outro, imperturbável. — Acho é que precisa treinar mais, meu velho. — Com outra raquete, ganho de você! Vamos jogar e... — Nada disso, Ham! Se quiser revanche, deixe para outro dia. Estou morto e não vai querer se aproveitar de um velho cansado, vai? — Então amanhã, antes de você ir embora. Clare estava impressionada com a atitude independente de Max. De repente, começou a compreender: derrotando Durnberg, ele praticamente obrigava o industrial a mantê-lo como seu agente de seguros, caso contrário, ele não teria chance de provar que jogava melhor do que o outro. — Alguém quer nadar antes do almoço? — perguntou Ham, ao saírem da quadra. — Raramente nado no mar, prefiro a piscina. — Eu não, obrigado — recusou Max. — Aliás, acho que vou almoçar no chalé, pois não brinquei quando disse que vou dormir à tarde. Você acabou comigo, meu velho! — Ora! Max, que besteira! Mas não quero você choramingando atrás de mim, esta noite. Vá embora! Clare, quer nadar e almoçar na piscina? — Estou sem fome... — respondeu ela, não querendo ficar mais do que
o tempo necessário a sós com ele. — Posso tomar um chuveiro e encontrá-lo em seu escritório, daqui a uma hora? — Que moleirões, meu Deus! — exclamou o empresário, com uma careta desgostosa. — Está bem, daqui a uma hora, no escritório... ou prefere dormir um pouco também, Clare? Bem que ela gostaria, apesar de achar que Max talvez não se entusiasmasse tanto, sabendo que era uma competidora perigosa. — Não preciso dormir — respondeu. — Até logo, então. — Nem de outra coisa, pelo jeito — cochichou Max. Clare olhou-o interrogativamente, porém ele fitava o horizonte, como se nada tivesse dito. Quando Durnberg foi para a piscina e eles se encaminhavam para os chalés, ela falou: — Max, não queria que recusasse o convite por minha causa. Precisa ir com ele! — Talvez, mas perdi o interesse por esse tipo de coisa e, além disso, pensei que você quisesse ficar comigo. — Quero, mas tenho possibilidade de pegar essa conta... — Já percebi. — Então proteja-se! Não fique comigo esta noite; seria mais um motivo para ele descartá-lo. — E eu pensei que tivesse perdido meu charme! — riu ele. — Que vai fazer, Clare? Ensinar-me como não perder Ham? — Talvez — ela respirou fundo. — Isso não tem sentido, Clare. — Não tinha sentido você me dar conselhos, mas deu. Estou retribuindo. — Obrigado. — Chegaram à porta do chalé dela. — Vou ser obrigado a ver corpos que não me interessam quando só quero... — O quê? — Fazer amor com uma pessoa que me interessa muito! — Quem sabe dá para fazer as duas coisas... — Você me espera? — De modo algum! Vou estar na cama quando você voltar. — Isso está me parecendo um convite — disse ele, passando a mão de leve no braço dela. — Como gosta de ser acordada? — Tente adivinhar — respondeu ela, fitando os olhos dourados e lembrando como fora lindo o amor daquela noite.
— Eu acho que antes de você ir encontrar Ham podemos... — Max, precisa descansar. Vá dormir. — Detesto perder tempo dormindo. — É arriscado ficarmos juntos de dia. Tenha paciência... — Então, entre logo, antes que eu mude de idéia! Sentia-se tão atraída por ele que não conseguiu se mover. — Vá... — sussurrou Max e virou-a para a porta. Ela virou-se de novo, mas ele já fora embora. Podia simplesmente entrar no quarto dele e, quando se aninhasse em seus braços, ele não iria resistir... Então, lembrou como ele parecia cansado. Jogara sob aquele sol escaldante, enquanto ela tomava limonada e atendia ao telefonema da mãe. Pensou num bom motivo para Max dormir; ficaria bem descansado para um amor glorioso, quando ele chegasse à noite. Sorrindo, entrou no apartamento e foi para o chuveiro. Deixaria seu amado dormir.
CAPÍTULO 11
Durnberg tinha poucas dúvidas quanto à proposta de Clare. Questionou alguns pontos dos seguros de vida e de saúde. Pediu o telefone de Ron e ligou para ele diante dela, e mesmo ouvindo apenas um lado, ela concluiu que o empresário gostara de seu sócio. Depois de desligar, Ham sorriu para ela. Parecia o sorriso de um tubarão, pensou a moça. — Estou impressionado com sua eficiência. — Obrigada. — Max já foi assim eficiente, mas depois da história do surfista com a mulher dele, relaxou muito. Acho que não quis tirar licença na Flórida para ser agente também do Sugar Sands. Já tem complicações demais na vida. — Surfista? — indagou Clare, não podendo se conter. — Eu não lhe contei? — Ela fez que não. — Max sempre foi muito trabalhador, mas os problemas com a mulher o prejudicaram. Ela se queixava, mas acho que ele não a levava a sério. Quando um surfista vindo de San Diego abriu uma loja na cidade, Adele foi lá comprar roupas de escola para os filhos e encantou— se com ele... um desses tipos boa-vida, que sabem usar o dinheiro para se divertir... Acabou se afastando de Max e desde então ele nunca mais foi o mesmo. Clare sentiu o coração doer. Estava tirando o trabalho de um homem que se sentia por baixo. O que poderia fazer, agora? Retirar a proposta? Seria injusto com sua mãe, com Joel, com Ron, sem falar em sua própria carreira. Esse modo de agir poderia ser um suicídio profissional se Durnberg espalhasse o que ela fizera. Agora entendia a reação de Max quando o empresário mencionara surfistas. Era um caso doloroso e triste, comparou a primeira imagem que fizera daquele homem com a que tinha diante dos olhos, agora. Em vez do negociante convencido, louco por dinheiro que imaginava antes de o conhecer, via-o como um urso ferido... — Bem, Clare, vamos parar por aqui — disse Durnberg, erguendo e estendendo-lhe a mão. — Obrigado pela explicação. Amanhã, ali pelas nove,
darei a decisão. Está bem? — Está. Ela se ressentiu do forte aperto de mão, esmagando-lhe os dedos, dolorosamente. Homem sádico, pensou. Mas não era obrigada a gostar de seus clientes. Max não lhe dissera que as pessoas nada tinham a ver com o trabalho? — Vou marcar o vôo de vocês para o meio-dia — continuou ele. — Sabe? Pensei que você e Max iriam se apaixonar... — Não seria coisa muito profissional, não acha? — respondeu ela, sem saber de onde tirava coragem para encará-lo. — Você é dura, Clare Pemberton! Mais do que eu imaginei. Mas acho que Max sente-se atraído, assim mesmo... Notou que ele não queria sair comigo, esta noite? — Ele só estava sendo gentil comigo. — Não. Tinha esperanças, mas você acabou com elas. Pensei que arranjasse uma desculpa para ficar no chalé agora à tarde, lavar os cabelos, talvez... Não se interessa por ele, nem um pouco? Max sempre atrai as mulheres e... — Ele é muito simpático — disse ela, odiando-se por ser tão afetada —, mas meu objetivo aqui era me tornar sua agente de seguros, Ham. — E poderá ser... Falaremos amanhã. — Está bem. Muito obrigada por tudo, você foi muito hospitaleiro. — Gostei muito de receber vocês dois em Sugar Sands... Quem sabe um dia estejamos os três juntos aqui, de novo. — Talvez... Só que ela não conseguia imaginar em que circunstâncias. Se pegasse a conta, seria forçada a ir lá uma vez ou outra, mas é claro que Max não a acompanharia. Mesmo que aceitasse a derrota com cavalheirismo, não se podia exigir tanta tolerância dele. — Divirta-se esta noite, Ham — disse, saindo da sala. — Uma coisa é certa — respondeu Durnberg, rindo. — Max sabe se divertir e espero ter outra noite memorável com ele, hoje. Eu também, pensou ela, apesar de estar aflita com o que descobrira sobre ele e com o que ainda iria descobrir. Max reparou que a morena miudinha, no centro do palco, olhava com insistência para ele. Sorrindo, ela balançou os seios nus na direção dele, então conscientizou-se que devia estar olhando o tempo todo na direção dela, e a
moça não percebera que ele olhava sem ver. Seus pensamentos achavam-se ocupados por outra mulher, uma loira de longas pernas, na cama, à espera dele. O desfile das mulheres semidespidas agia como estímulo sexual por controle remoto. Não que as dançarinas parecessem com Clare, mas às vezes a redondez de um seio, a curva de uma anca o fazia lembrar-se da noite anterior. De repente, a excitação tornou— se quase insuportável ao lembrar-se dos gemidos dela. Do outro lado da mesinha redonda, Durnberg gritava e agitava uma nota de vinte dólares. A moreninha começou a descer do palco com movimentos sinuosos, entre gritos e aplausos. — Pegamos uma, rapaz! — exclamou Ham, agitadíssimo, batendo na mesa com a palma da mão. — Vai ser uma boa briga entre sua cara bonita e meu dinheiro. Olhe só que peitos! Max sabia que a moça estava com um olho nele e outro no dinheiro do amigo. Encarou-a, pois iria levar o jogo até certo ponto. Ham já o chamara de chato por ter se recusado a dançar com as moças disponíveis, no primeiro local que haviam parado. Por fim, Max conseguira que fossem para outra boate, prometendo a si mesmo que daria impressão de estar se divertindo, para acabar logo com aquilo. Infelizmente, abrira um mau precedente no ano anterior: os papéis do divórcio tinham chegado um dia antes de ele ir para a Flórida e ficar disposto a beber um pouco a mais e a usar tudo que era mulher que aparecesse para consolar seu ego ferido. Durnberg divertira-se naquela vez, pois o entusiasmo de Max levara muitas bailarinas para a mesa deles e o empresário passara a noite com uma delas, apesar de mesmo naquela ocasião ele não ter o menor desejo de transar com uma desconhecida. Ham preferia desconhecidas, observara Max. O medo de travar intimidade fizera dele um solteirão que quase não tinha amigos, homens ou mulheres. Fingia ser amigo de Max e era essa a arma que ele usava para pegar a conta de seguros do empresário. A morena deu uma paradinha na mesa anterior a deles, com os olhos em Max. Era uma boa bailarina, reconhecia, e por um momento fantasiou Clare dançando para ele, daquele jeito. Assustou-se ao perceber a intensidade com que a desejava. Os cabelos da moreninha caíam sobre os ombros, soltos como os de Clare, talvez por isso se lembrara dela no lugar da bailarina. Só que nada
tinham de semelhante. A morena tinha pernas bonitas, mas não tão longas e bem-feitas; usava meias rendadas e ligas vermelhas de cetim. A respiração dele parou ao lembrar de Clare tirando as meias na praia. Descontrolou-se de vez. Não que a liga fizesse essa diferença; era preciso desejar a mulher que a usava... Não desejava esta: tinha seios grandes, talvez feitos de silicone, e em cada um havia uma margarida vermelha. Sua pele era cor de cobre, mas ele não sentia atração por corpos totalmente morenos. As marcas mais claras do maiô no corpo de Clare quase o haviam enlouquecido. A moça continuou dançando e ao chegar perto dele tocou-lhe o rosto com uma das margaridas de cetim. A platéia urrava e aplaudia, enquanto ele quase sufocava com seu pesado perfume. Ele não sentia nada por ela, mas sua proximidade trouxe-lhe mais vividamente à lembrança o corpo de Clare, ondulando sob o dele, ao ritmo da paixão. Lutou contra a onda de desejo, não querendo que a moça pensasse que estava excitado por causa dela, que sentou-se em seu colo quando a música parou. — Como vai, meu bem? — miou, apertando-se contra o peito dele. — Bem — respondeu Armstrong, seco. — Max, se é assim, deixa a menina vir para cá — reclamou Ham. — Ei, benzinho, não sou bonito como ele, mas sou mais simpático! Ela passou uma unha longa, vermelho-sangue, pelo queixo de Max, dizendo, melosa: — Acho que ele é do tipo caladão, que eu gosto... — Nada disso! É um chato e eu sou muito mais rico! — afirmou Ham. — Não tenho preconceito contra homens ricos — sorriu a moça e foi para o colo do empresário. — Quando vim para cá, estava indecisa entre os dois bonitões, mas seu amigo estava mais perto — explicou a ele. — As mulheres sempre preferem Max; estou acostumado! — Mas eu não, amorzinho... — a mulher esfregou os seios no peito de Ham. Max acalmou-se; tudo poderia dar certo, desde que a moça concordasse em beber com eles. Preferia que ela não tivesse reagido tão rápido ao apelo do dinheiro e não gostava de ver mulheres naquela profissão, mas enquanto existissem homens como Ham, aquele comércio continuaria. — Tenho mais um número esta noite, depois estarei livre, querido — avisou a mulher, erguendo-se e afastando-se. — Eu espero — respondeu o empresário, de olhar mortiço. — Depois,
para Max: — Que foi? Ela não é seu tipo? — Não. — E aquela? — apontou para outra moça, que dançava. Max queria dar um jeito de escapar: — Você não vai acreditar, Ham, mas o sol forte de hoje me deixou com dor de cabeça... além de seu ritmo ser demais para mim. — Escute aqui, meu velho, não vá embora. Beba mais um, a dor de cabeça passa e você pega uma bonitona dessas. Sei qual é o problema. Ficou maluco por Clare, mas ela não quer nada com você. Besteira: uma mulher é tão boa quanto outra! — concluiu, com um sorriso quase idiota. — Isso não resolve, Ham. Preciso dormir e não quero atrapalhar você, desanimado como estou. A garota está a fim! — É, parece — ele estava feliz consigo mesmo. — Posso pedir a Santiago me levar? Ele volta antes de você terminar um uisquinho com a moça depois leva-os para... para onde você quiser. — Max, você me desaponta! Não presta para nada! — Não, mas você presta. Divirta-se, amigo. — Obrigado. Então, me procure amanhã, às oito, para tratarmos de negócios. — Oito não é muito cedo? Com a amiguinha que você arranjou hoje... — Devia me conhecer melhor, Max. Jamais deixo prazer atrapalhar negócios. — É verdade... Então, às oito. Enquanto estava dentro da boate, Max andou devagar, mas assim que passou da porta, correu para o Mercedes, onde Santiago ouvia música, sentado ao volante. Bateu no vidro e o motorista abaixou-o, surpreso. — Vou embora — disse, animado. — E o patrão? — Você volta para apanhá-lo. Acho que uma moça vai com ele. — Às vezes detesto este emprego! — exclamou o rapaz, bufando. — Eu sei. — Max sentou-se ao lado dele. — Arranje outro, então. — Esse é o problema. Ganho bem e tenho família para sustentar; não se despreza dinheiro, quando se tem responsabilidades. Mas às vezes é duro agüentar. — Diz isso a mim? — suspirou Max. — Um dia desses eu estouro e digo a ele onde pode enfiar seu dinheiro! — Eu queria estar perto para ouvir, Max!
— Do jeito que ando me sentindo, creio que vai ser logo. Vamos, então, Santiago? Posso abrir a janela? Preciso de ar puro. Colocou a cabeça para fora e aspirou o ar da noite. Que delícia se pudesse mandar Durnberg para o inferno. Mas com as exigências de Adele e os negócios indo mal, não tinha coragem. Mesmo que a ex-esposa não tirasse tudo que queria, havia os meninos. Adolescentes significam altos gastos, e ficar sem dinheiro iria ser um caos. Não. Não podia deixar Clare pegar os seguros de Ham. Além disso, odiava a idéia dela envolvida com um homem como aquele. Há anos o suportava, mas ela não tinha idéia de como podia ser canalha. Mas, por enquanto, ia esquecer isso tudo e se concentrar em amar Clare. A ansiedade por ela aumentava à medida que se aproximavam do clube-hotel. Quando Santiago parou diante do chalé, tremia pelo desejo reprimido o dia inteiro. A porta que dava para o apartamento de Clare estava aberta, e ele percebeu luz no quarto. Sentiu uma aflição gostosa no baixo— ventre, enquanto a certeza de que logo a teria nos braços vibrava em todo seu corpo. Tirando a roupa, encaminhou-se para o quarto sabendo, pelo silêncio, que ela estava na cama. Imaginou se estaria de camisola ou nua. Não importava. Adorava a sensação de tirar-lhe a roupa, revelando sua beleza aos poucos, tanto quanto o prazer selvagem de abraçar-lhe o corpo macio, nu. O abajur de cabeceira tinha luz suave e ela dormia. Percebeu que a caixinha de preventivos encontrava-se na mesinha ao lado do abajur. Sorriu. Outra não a deixaria tão à vista, mas a franqueza de Clare era uma de suas melhores qualidades. Vibrando de antecipação, viu que deveria tirar a camisola de seda azul-pálida que revelava as formas do bonito corpo. Ela afastara o lençol, durante o sono, e ele se amarrotara na extremidade da cama, cobrindo-lhe apenas os pés. Sentiu vontade de descobri-los e beijá-los, mas ainda não estava preparado para acordá-la. Acabou de se despir e ficou olhando o rosto bonito, franco. A suave tonalidade morena da pele era realçada pelo leve rubor do sol que tomara durante o dia; os longos cílios punham uma sombra suave sobre o alto das maçãs do rosto. Ajoelhando-se ao lado da cama, ele aspirou sua fragrância. Os lábios rosados encontravam-se entreabertos e a doçura do hálito obrigou-o a fechar os olhos, enquanto um arrepio de intenso desejo percorria— lhe o corpo. Depois de tantas horas assistindo a uma vulgar exibição de carne
feminina, sentia-se ansioso para amar Clare. Controlando-se, tocou-lhe o rosto com os lábios, depois beijou-lhe o lóbulo da orelha. — Amo você, Clare Pemberton — sussurrou. Seu coração abriu-se com essas palavras, mesmo sabendo que ela não ouvia. Era melhor assim, preferia que não soubesse, até a decisão de Durnberg. Ela mexeu-se e seus cílios tremeram. — Acorde, mulher belíssima — murmurou ele, mais alto desta vez. — Eu quero o seu corpo... — Hummm... — ela virou-se e abriu os olhos. — Max? — chamou, sonolenta. — Sim, Max — confirmou ele, deitando-se ao lado dela e inclinando-se para fitar-lhe os olhos. — Um Max que a deseja com uma loucura que você não imagina! — Max... — sorriu ela, passando os braços pelo pescoço dele. — Conseguiu escapar de Ham! — Precisei fugir, pois não agüentava mais. — Você está cheirando a cigarro e perfume barato... — É... — Ele escondeu o rosto entre o ombro e o pescoço de Clare. — De quem é esse perfume? — De uma bailarina — acariciou-lhe o quadril e beijou-lhe o pescoço. — Você dançou com ela? — Não... — Puxou a camisola para cima e deslizou a mão pela coxa acetinada. — Clare, se soubesse como preciso de você... — Max — ela fechou as pernas antes que a mão chegasse em sua intimidade —, por que o perfume dela ficou em você? — Porque ela sentou no meu colo — beijou-lhe a curva do seio. — Não tem importância, é que... — Como não tem? — Afastou-se dele. — Como e por que ela sentou no seu colo? — Pensou que eu olhava para ela, mas não era... eu estava pensando em você, olhando sem ver, só que ela encontrava-se à minha frente. — Está bem! — Os olhos verdes faiscavam de indignação. — E o que você fez depois de oferecer-lhe o colo? — Nada e não lhe ofereci meu colo! Ela se enganou, então Ham chamou-a para o colo dele e eu vim embora. Ela sentou-se na cama, de narizinho em pé, pálida de raiva.
— O que a bailarina vestia? — Vermelho. — O quê, vermelho? — Uma liga de cetim... umas margaridas nos... Ora, Clare! O que isso tem a ver? — Margaridas onde?! — Ah! Você está com ciúme! — Não estou! — Quem insistiu para eu ir com Ham, hein? — Mas não era para você deixar essa bailarina com margaridas nos... nos... — Mamilos? — Oh, Max! — Ela desviou os olhos. — De que tamanho? — indagou ela, sem olhá-lo. — De que tamanho o quê? — De que tamanho eram as margaridas? — Pequenas... — Você é horrível! — Ele segurou-lhe um braço e ela puxou— o. — Me largue! — Pare com isso! — Segurou pelo outro braço e puxou-a para si, embora ela lutasse para escapar. — Como se atreveu a vir aqui com esse perfume? — Eu não agüentava mais esperar — respondeu ele, apertando— a contra o peito. — Passei a noite olhando mulheres seminuas que não chegam aos seus pés e só conseguia pensar no que estava perdendo, em quem me esperava nesta enorme cama... — Mas deixou a bailarina sentar no seu colo. — Se eu a empurrasse seria embaraçoso para nós dois. Deixei a natureza agir e Ham ficou com ela. Quando ele resolveu passar a noite com a moça... fique quieta! eu pude escapar... — apertou— a mais contra si — e vir para cá. — Não dá, Max! Eu... Ele beijou-a e segurou-lhe o queixo quando ela tentou desviar o rosto. Queria convencê-la, queria verificar se ela ainda o desejava, certificar-se que não se enganara a seu respeito. A respeito dos dois, do que sentiam um pelo outro. Se não estivesse tão cheio de desejo contido, ele poderia rir do jeito que
ela tentava escapar e não corresponder ao beijo. Mas não tinha vontade de rir, ocupado demais em moldar seus lábios aos dela, tentando ultrapassar a barreira teimosa dos dentes cerrados. Devagar, muito devagarinho, os lábios de Clare foram se rendendo, com um gemido. Abriu-os e entregou a boca úmida à língua exigente, que a percorreu com ardor, aprofundando o beijo, até que a tensão abandonasse o corpo delicado. Por dentro da armadura fria em que se escondia, ela era dócil, ardente. Era a mulher com quem queria fazer amor. — Sua boba! — sussurrou ele. — Não sabe o que sinto por você? — Pensei que soubesse — redarguiu ela, endireitando o corpo. — Mas o perfume, a idéia de uma mulher nua... — Quietinha... — e ele sorveu-lhe os lábios de novo. — Deixe— me amá-la... O suspiro em resposta disse a ele que ela deixaria, e uma torrente de emoção apoderou-se dele. Segurou a camisola com ambas as mãos e tirou-a, descobrindo os seios que esperavam ansiosos, pela sua boca. A beleza dela, delicada, toda em tons de marfim e rosa levou-o às raias da excitação. Prendeu um mamilo entre os lábios, acariciou-o com a língua e saboreou o gemido rouco de prazer que passou pelos lábios entrecerrados de Clare. Então, sugou-o, fazendo-a jogar a cabeça para trás e enterrar os dedos em seus cabelos. Afastou-se um pouquinho, para contemplar a maravilha daquele corpo nu. — Adoro esta visão!! — murmurou ele, acariciando-lhe o ventre. — Você parece uma sereia. — E queria que eu fosse? Para satisfazer sua fantasia? — Não... — Inclinou-se e introduziu a língua no umbigo de Clare. — sereias não têm... — fez uma pausa e separou-lhe as coxas, suavemente — o “equipamento” certo. — Oh, Max! — ela quase gritou, quando a língua dele tocou a sua flor do desejo. — Mas... você... ah... Não se dominou mais e ele ouviu-lhe os gemidos e gritos com alegria, o tremor das pernas dela, o corpo arqueado, dizendo o quanto ele a excitava. A paixão de Clare aumentava e ele podia liberá-la, porém sabia que a sensação seria mais profunda e doce se a fizesse baixar, depois crescer de novo. Lentamente, seus beijos subiram para os seios, pescoço, queixo e lábios. — Quero você... — murmurou ela, faminta, comprimindo o corpo
contra o dele. — Quero... não suporto mais... — Um momento, amor. Volto já... — E odiando a interrupção, pegou a caixinha, preparando-se; depois, fitou os olhos verdes, apaixonados. — Quer repetir o que disse? — Não suporto mais... — ofegou ela, colando-se de novo a ele. — Sofro querendo você, Max... Quero você dentro de mim, bem fundo... Aqui... — e guiou a mão dele para o triângulo úmido, para entre suas coxas. — Você está pronta... — murmurou ele, mais excitado ao sentir a umidade dela. — Pronta para mim... — Agora... — gemeu Clare, de olhos fechados. — Sim, amor... Penetrando-a, sentindo os músculos dela tensionarem-se ao seu redor, ele pensou que ia morrer de prazer. O corpo de Clare arqueou-se e Max passou o braço pela cintura dela. Movimentando-se devagar, ela gemia de prazer, enquanto ele se afastava e empurrava mais, num ímpeto amoroso. — Max... Max... — as unhas dela enterraram-se nas nádegas enxutas dele, enquanto arqueava mais o corpo. Ele lambeu o suor que lhe corria pela garganta, enquanto os gritos e gemidos de prazer dela tornavam-se mais e mais selvagens. A aflição que sentia, ampliada pelas horas que passara pensando em tê-la nos braços, fez o corpo de Max agitar-se, sem controle, enquanto ele cerrava os dentes para não explodir em prazer antes dela. Clare começou a tremer violentamente e ele imobilizou-se por um segundo, penetrando-a com maior impulso quando os gritos de prazer aumentaram e o corpo esguio sacudia-se com a violência do gozo. Mais uma vez ele mexeu-se, incapaz de conter a necessidade de penetrá-la mais, de apertar o peito contra os seios endurecidos pelo amor. Max sentiu os olhos se turvarem e o mundo conteve apenas Clare e ele. Seus lábios se uniram e, afinal, ele explodiu em êxtase, com um prazer onde se misturava uma delícia quase dolorosa, de tão profunda. Depois veio a paz. Eu te amo! A frase ecoou em seu cérebro entorpecido, mas não foi dita, pois sua boca achava-se unida à dela. Devagar, ergueu a cabeça e fitou o rosto corado. — Valeu a pena esperar... — murmurou. — Max... foi... foi fantástico! — E isso só com três horas de sono. Imagine como seria, depois de uma noite bem dormida.
— Você quer dormir? — Eu não disse isso. — Max — ela acariciou-lhe o rosto. — Precisa saber que Ham me contou, hoje, sobre sua mulher e o rapaz da Califórnia... Ele esperou que a velha dor o magoasse, mas não aconteceu. A mulher de cabelos de ouro acabara com ela. — Não me admira Ham ter feito isso. Adora achar que fui abandonado por uma mulher, principalmente se a quiser. — Desconfiei disso. Não é da minha conta, mas a maioria das pessoas que passam por um divórcio tem dificuldades financeiras... — De fato — ele ficou tenso, pois não queria falar naquilo agora. — Sempre o considerei rico, mas hoje tive tempo para pensar. Se você perder Durnberg, vai ter problemas? — E se tiver? — Não sei — os olhos verdes ficaram angustiados. — Pois eu sei — ele beijou-lhe a mão. — Não fará a menor diferença. Lembra-se do que eu disse? — Negócios são negócios. Mas... Ele não queria que ela desistisse do cliente por sentir pena de sua situação; seria o pior final para a história deles. Precisava tranqüilizá-la, nem que falseasse um pouco a verdade. — Escute, Clare — disse, sorrindo. — Não se preocupe. Ficarei bem, haja o que houver. — Mesmo? — ele fez que sim. — Acho que a adoração de Joel pelo seu ídolo não é mal empregada. — Joel? — Sim... Meu irmão sonha ser igual a você e isso já não me preocupa mais. — Quer dizer que preocupou? — Sim, principalmente porque eu quero que ele vá para a universidade. Quando ele soube que você não se formou e que não tínhamos dinheiro... Calou-se, mas era tarde. Agora ele sabia que Clare precisava da conta de Durnberg para a educação de Joel. — Se eu continuar com Ham, vou conversar com Joel, Clare. Você está certa, ele precisa estudar e o problema do dinheiro pode ser resolvido. — Max, eu...
— Esqueça isso, agora — pediu ele, passando o polegar pelos lábios dela. — Não vamos pensar em nada até amanhã. — Mas... — Até amanhã — repetiu ele, baixinho. Acariciou com os seus os lábios inchados de amor, de Clare, enquanto o desejo apoderava-se dele outra vez.
CAPÍTULO 12
Quando Clare acordou, viu-se sozinha na cama e o quarto estava em silêncio. — Max! Você está aí? Não tendo resposta, levantou-se e viu um bilhete sobre a mesinha de cabeceira. Sorrindo, leu: “Tenho encontro com Ham às oito. Sei que ele vai recebê-la às nove. Esta é a parte não pessoal da nossa viagem, Clare, a parte do trabalho. Seja forte. Beijos, Max.” Sentiu um aperto doloroso no estômago. A parte boa terminara: E. Hamilton Durnberg ia decidir entre sua proposta e a de Max. O cliente significava muito para sua agência e a educação de Joel. Mas se ganhasse, o que seria dela e Max? Ele garantira que tudo daria certo, mas sentia-se apreensiva. A última noite com Max convencera-a de que não podia viver sem ele. Não era a pessoa certa para ela amar, porém amor era a única palavra que lhe vinha à mente quando pensava nele. Era incrível a paixão que ardia entre eles, porém havia algo mais profundo no que sentiam um pelo outro. Gostava da segurança e da bondade dele. Além de ser um amante incrível, fora bom, ajudando-a a escapar da manipulação de Durnberg; tivera várias chances de deixá-la dar passos em falso, mas não o permitira. O telefone tocou e ela atendeu, ansiosa. Talvez fosse ele, querendo falar-lhe antes de estar com Durnberg; ainda eram cinco para as oito. — Recepção. Tive ordem para acordá-la às oito — disse uma voz desconhecida. — Obrigada — murmurou ela, desapontada. Max dera um jeito para acordá-la em tempo. Contara consigo mesmo para não perder a hora e providenciara para que ela não se atrasasse. Era também por muitas dessas coisas que o amava. Alguns homens ofereciam flores, ele a cobria com uma porção de atenções delicadas. Pensar em flores a fez lembrar-se das margaridas da dançarina e ela riu, espreguiçando-se. Como fora idiota! Ainda bem que ele tivera paciência e agüentara até ela
recuperar o juízo. Talvez tudo desse certo, como ele dissera, concluiu, indo para o banheiro. Parecia que encararia tudo numa boa, mesmo que ela roubasse seu cliente. Aí, poderia ter tudo: Max e os seguros de Durnberg. Enquanto tomava banho e se vestia para o encontro com Ham, ela descobriu que amava mais seu corpo por causa de Max. Os seios que antes achava pequenos eram lindos naquela manhã porque ele os elogiara. Sentiase contente porque ele gostava de mulher com pernas longas. Pensava em parar de usar rímel porque ele dissera que seus cílios, claros, a tornavam mais vulnerável e sexy. Quando saiu para o sol da Flórida estava pronta para o que fosse que Durnberg lhe tivesse preparado. Se aceitasse a proposta dela, ótimo. Se não, procuraria outros clientes. Desde que Max ficasse em seu mundo, poderia fazer qualquer coisa. Viu Durnberg tomando café na mesa que haviam ocupado no primeiro jantar. Atrás dele, a paisagem parecia um comercial de revista turística. O sol punha dourados nas pequenas ondas e realçava as cores das velas que singravam o mar. A areia diante do clube achava-se enfeitada por toalhas coloridas e corpos bronzeados, enquanto gaivotas cortavam o azul do céu. Ela ficaria triste ao ir embora: não tinha visto o pôr-do-sol com Max, nem passeado num daqueles veleiros. Não haviam tido tempo de se deitar na areia, de catar conchinhas. Mesmo assim, adorara cada minuto passado ali. Se não fosse a presença de Ham, Sugar Sands seria o paraíso. — Olá, Clare! Toda de branco? Está linda e virginal esta manhã... Por um momento, ela imaginou se Max contara tudo a Durnberg, depois condenou-se por pensar aquilo. O empresário apenas exibia seu detestável comportamento de sempre. — Que dia lindo! — disse, ignorando a observação, enquanto um garçom puxava a cadeira para ela. — É. Sempre digo que deveria chover quando se vai embora daqui. — É um ponto de vista. — Clare verificou o cardápio e percebeu que morria de fome. Posso pedir alguma coisa? — Claro! O que você quiser. E ela pediu frutas, ovos, presunto, queijo, croissants e café. Depois, voltou-se para Durnberg: — Não vai comer? — Não, só quero café — fez um sinal ao garçom, que encheu as duas
xícaras. Clare imaginou que se Max já tomara o café da manhã o garçom limpara a mesa, pois não havia qualquer sinal. Ele já devia saber a resposta. Quanto tempo Durnberg brincaria de gato e rato com ela, demorando para dizer sua decisão? Admirava-se da própria calma, mas isso era porque agora tinha outras prioridades, e o empresário não podia manipular seus sentimentos. — Então, Clare, dormiu bem? — indagou ele. — Maravilhosamente, obrigada. E não é mentira, pensou. Dormi pouco, mas muito bem. — Pensei que estivesse preocupada com a minha resposta. — Não, Ham — fitou-o nos olhos. — Apresentei a melhor proposta que podia e não posso fazer mais nada. — Eu sei... — Os dentes perfeitos brilharam num sorriso sem calor. — Eu disse a Max que você é fria, dura de roer! Ela baixou os olhos, para não demonstrar seu deleite entregando tudo àquele homem calculista. Max e ela haviam combinado guardar segredo, não iria estragar tudo. — Levo meu trabalho a sério, só isso — disse, firme. — Concordo. Por isso resolvi entregar todos meus seguros a você: de vida, saúde, bens, os dois clubes. Ela ficou paralisada, tentando aceitar o que ouvira, pois parecera-lhe que ele falara em outro idioma. — Ficou chocada, Clare... Não esperava? — Não... não tenho certeza. Afinal, você trabalhou tantos anos com Max. Queria sentir-se orgulhosa, mas só conseguia ver a imagem de Max fitando-a, na noite anterior, dizendo que tudo ficaria bem, mesmo que ele perdesse o cliente. Ficaria? — Max não pensou em meus interesses, como você mesma disse. Apesar de nossa velha amizade, não posso deixá-lo cuidar de meus negócios. Ele está defasado. Não tem computador, nem licença na Flórida. Boa jogada a sua, tirando a licença antes de saber se ganharia a concorrência ou não. O garçom trouxe o que ela pedira e Clare perguntou-se como poderia comer tudo aquilo. Os dois ovos fritos pareciam fitá-la como olhos acusadores. Sentiu que precisava defender o homem que amava das acusações frias do empresário, mas se o fizesse revelaria suas emoções, sua
profunda ligação com Max. O que realmente desejava era sair do restaurante e procurar Max, para lhe dizer como recebera a notícia... mas não podia largar Durnberg ali, sozinho, logo depois de ele lhe dar sua conta. — A cobertura pela Agência Armstrong continuará até 15 de janeiro, que seria a data da renovação, claro, mas vou preparar tudo para que minha agência continue, imediatamente, a lhe dar cobertura, Ham — explicou ela. — A renovação do Sugar Sands deverá ser a primeiro de março... — É, primeiro de março — concordou o empresário, fitando— a com atenção. — Os seguros de vida e saúde deverão ser substituídos gradualmente, não precisaremos esperar a renovação. Vou entregar tudo ao seu contador, assim que chegar a Flagstaff. — Ele já está a par da mudança e a espera — sorriu o empresário. — Agora que tudo acabou, posso lhe dizer que a trouxe para cá a fim de atormentar o velho Max, mas você agiu como uma perfeita profissional. Agora, espero que continue firme, sem relaxar o atendimento, como ele fez. — Claro. — Coma. O pior já passou e a comida vai esfriar. — Sabe, Ham — ela ergueu-se, afastando a cadeira. — Acho que o certo é ir procurar Max e ver se ele não ficou ofendido. Eu o admiro e detestaria se nos tornássemos inimigos só porque... — Ele não está mais aqui, Clare. Quando lhe dei a decisão, pediu a Santiago que o levasse ao aeroporto. Acho que vai pegar o avião das dez. — Como assim?! Não entendo... Pensei que fôssemos juntos, ao meiodia. Ela lutava para controlar as emoções, mas o pânico aumentava. Max tinha ido embora. — Acho que você vai voltar sozinha. Ela olhou o mar brilhante. Se ele fora embora, queria dizer que não estava bem. E se ele não estava bem, ela também não poderia estar. Precisava enfrentar a amarga verdade: ganhara o cliente, mas perdera o homem que amava. — Ei, Clare! — Joel chamou-a de sua mesa, na agência, na manhã do sábado seguinte. — Dá para você ler isto? — disse, entregando-lhe uma pasta velha. — Há algo esquisito no meio do número de telefone... — Ai, ai... — suspirou a mãe, agitada. — Essa deve ser uma das que
ficaram manchadas por causa do resto de pizza que também joguei no lixo. Clare afastou a pilha de pastas novas, coloridas e brilhantes, e as velhas, gastas e sujas. Levantou-se, esticou o corpo cansado e foi até a mesa de Joel. Pegou a pasta que ele lhe estendia e tentou ler. — O que é? — perguntou o irmão. — Pimentão, cogumelo ou talvez anchova, pelo cheiro... — Estou falando do número. Além disso, é lingüiça, não pimentão! — Tem razão, Joel. As manchas de lingüiça são rodelas e as de pimentão formam como pedrinhas... De repente, ela jogou a pasta de lado e cobriu o rosto com as mãos. — Não agüento mais! — exclamou, angustiada. — Porcaria, não? — apoiou o irmão. — Se acha que as pastas estão sujas, precisava ver a mamãe, depois que ela revirou o lixo, para recuperá-las. Eu desci do meu quarto e senti um cheiro azedo, podre... Era ela! — Ainda não acredito que fez isso, mamãe! — repreendeu-a Clare. — Disse que chamasse o Joel. E se alguém a visse, fuçando o lixo? — Ah! Eu não diria que era a minha mãe a ninguém! — Joel ia ter prova no dia seguinte. Estava escuro e ninguém me viu. — Ah, mamãe! — A moça não pôde deixar de rir. — Reconheço que você tem iniciativa. — E consegui as pastas de volta! — orgulhou-se a mãe. — É mesmo... Clare olhou as pastas velhas espalhadas na sala. Os três haviam decidido passar o fim de semana copiando as anotações. — Vamos refrescar o ar? — indagou Joel, pegando um tubo de spray. — Também não suporto mais esse cheiro! — disse a sra. Pemberton. — Joel, vá buscar sanduíches para nós, é quase meio-dia. — Quê? Ninguém quer pizza?! — caçoou ele. — Vá logo! — e Clare jogou uma pasta no irmão. — E o dinheiro? — Pegue aqui. — Ela pegou a bolsa, entregou-lhe duas notas de vinte dólares. — Deve dar. Uma das vantagens de ter conseguido Durnberg como cliente era não ter mais que quebrar a cabeça por causa de dinheiro. Embora não fosse receber a comissão antes de dois meses, sabia que não precisaria mais economizar. — Vai dar se eu descobrir uma liquidação de sanduíches! — disse Joel,
guardando o dinheiro. — Alguém vai querer caviar? — Vamos parar com isso, garoto? — repreendeu-o Clare. — Ok! — Ele foi para a porta, dizendo. — Legal a gente ser rico! — É... legal — concordou ela, desanimada, voltando à pilha de pastas. — Ainda vai dar para copiar algumas, até ele voltar. — Clare, desculpe... Tudo isso por minha causa! — Que nada, mamãe! — Ela ficou triste pela expressão aflita da mãe. — Foi uma idéia genial e meu arquivo ficou lindíssimo! — Mas você está tão deprimida, filha! Também, tem que copiar tudo isso, além do cheiro e... — Nada tem a ver, mamãe — explicou ela, depois de hesitar um pouco. — Por que está assim, então? Se não fosse essa bagunça, estaria toda feliz por ter derrotado aquele Armstrong. Por minha causa, em vez de festejarmos, vamos passar o fim de semana entre essas pastas fedidas! — Mamãe, eu... Clare não planejara contar à mãe sobre Max, mas também não queria que ela se sentisse culpada daquela tristeza. Sem que notasse, lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto. — Filha, querida! — A mãe abraçou-a e ela chorou livremente sobre aquele peito carinhoso. — O que é isso? O que foi? — E ninava Clare como se fosse uma criança. — Não quer me contar? — É... É o Max... E Clare contou toda a história. Quando terminou, viu-se sentada, os olhos secos, esperando pelo apoio da mãe. — Foi muito mesquinho, não acha, mamãe? — Pelo jeito, você sente algo profundo por esse homem. — E daí? — Ela não se preocupou em negar. — Ele não sente nada profundo por mim. — Pode sentir, filha — disse a senhora, com cuidado. — E se a perda do cliente o colocou em má situação? Um homem como você o descreveu não procuraria uma mulher se não tivesse meios para dar-lhe o que precisa... — Mamãe, ele disse que não haveria problema se perdesse Ham. Acho que ficou com o orgulho ferido e não tem coragem de enfrentar quem o derrotou, principalmente sendo mulher e muito mais nova do que ele! — Então, vai deixar as coisas assim mesmo? — Acho que sim.
— Diga, Clare: se Max fosse à falência, você se importaria ou viveria com ele assim mesmo? — Claro que viveria! Gosto dele, não de seu dinheiro! — Então, pelo menos devia dizer-lhe isso, antes de fechar definitivamente a porta entre vocês. — Mamãe! Pensei que não gostasse dele! — Só sabia de Max o que seu pai me disse. O que você contou, como ele a ajudou, alterou o que eu pensava. — Sempre a favor dos desprotegidos da sorte, não? — sorriu Clare, tentando brincar para esconder a emoção. — E, acho que sim. Pelo que soube agora, sinto pena de Armstrong. Ele perdeu a mulher, os filhos e, agora, seu maior cliente. Não que eu ache que deva devolvê-lo, pois esse dinheiro significa muito para nós e você o merece. Mas ele precisa saber que você não se importa se ele tem dinheiro ou não. — Acha que devo ir falar com ele?! — Sim e o mais depressa possível. Quer mesmo vê-lo, não é? — Sim... — respondeu ela, com um nó na garganta.
CAPÍTULO 13
Clare preferiu ir ver Max no escritório dele. Seria mais seguro do que em casa. Poderia procurá-lo com o pretexto de tratar de assuntos do Flagstaff Fairways, já que a conta ficaria com ele até janeiro. Se a recebesse mal, sairia imediatamente. Se percebesse que a mãe tinha razão, abriria o coração. Resolveu arriscar-se na segunda-feira de manhã. A mãe ficaria tomando conta da agência, coisa que faria mais vezes no futuro, pois Clare percebera que com Joel adulto ela estava se tornando amarga, sentindo-se inútil. Fazia bolos e doces para os vizinhos, transformara a agência em uma selva colorida, só para sentir-se útil, para ter o que fazer. Ia mesmo precisar de uma secretária, então resolvera oferecer esse emprego à mãe, a partir de janeiro. Domingo nevou pela primeira vez em Flagstaff e depois daqueles dias quentes na Flórida ela sentiu dificuldade em se acostumar com casacos, echarpes, malhas, botas e luvas. Em Sugar Sands não tivera que se proteger contra o tempo, nem contra Max. Em sua terra, Arizona, não sabendo o que iria enfrentar, precisava de toda proteção possível, física e emocional. Entrou no prédio depois de limpar os pés no capacho. Pelo painel na entrada, viu que o escritório de Max ficava no fundo do corredor. Foi até lá, tirando as luvas. Pairava no ar um cheiro de madeira antiga, cera e cigarro. O bairro era elegante e sóbrio, muito diferente do bairro em que ficava a agência dela, num prédio de shopping center. Começou a entender por que todos preferiam fazer seguro com Max Armstrong. Na porta havia o nome dele e o ursinho que ela conhecia tão bem. Sentiu tudo, menos segurança, e enxugou as palmas das mãos, suadas. Ia ser mais difícil do que pensara. Através da porta, ouviu o ruído surdo de máquina de escrever. Tinha esquecido que havia uma secretária. Sentiu mais coragem ao saber que não ficaria a sós com ele. Abriu a porta. Uma ruiva sensacional ergueu a cabeça e desligou a máquina. — Em que posso ajudá-la? Confusa, ela olhou para a enorme mesa, ao fundo da sala, à qual Max
encontrava-se sentado. Ao vê-la, ergueu a mão num cumprimento, como se visse um amigo comum. Ela sentiu-se gelar, porém não podia desistir. — Queria falar com o sr. Armstrong. — E, resolvendo mostrar maior intimidade, acrescentou: — Com Max. Observou a ruiva, imaginando que se tratava de Glória, a moça que ele treinara tão bem que ia abrir sua própria agência. Difícil acreditar que só houvera ligação profissional entre os dois. — Sou Clare Pemberton — disse. — Oh! Clare! — A ruiva arregalou os olhos. — Por favor, sente-se. Max a atenderá logo. Ela agradeceu e não querendo olhar para ele, pegou uma revista, depois observou a sala. A parede em frente tinha uma estante cheia de ursinhos de pelúcia, os olhinhos de contas fixos nela. — Vocês não sabem por que vim aqui! — murmurou, sem querer, para os ursinhos. — Disse alguma coisa? — indagou Glória. — Não, nada — respondeu ela, tirando a echarpe que parecia querer enforcá-la e desabotoando o casaco. Notou que a secretária a olhava com curiosidade e imaginou se ela saberia do que houvera na Flórida. — Max — disse Glória, assim que ele desligou o telefone —, Clare Pemberton está aqui e... — Olá, Clare! — A expressão dele era indecifrável. — Bom dia, Max — levantou-se e se aproximou, dizendo a frase decorada. — Tenho uma dúvida sobre a cobertura de Flagstaff Fairways. — É? — Ele deu a volta na mesa para ir ao encontro dela. Clare sentiu vontade de gritar sua saudade e atirar-se nos braços dele. Por que havia ido embora da Flórida daquele jeito?, queria perguntar, mas dominou-se. — Imaginei que o encontraria aqui, hoje... — Glória, por favor, me dê a pasta, sim? — Pois não... Ah, Max, acabo de ver que o pó de café acabou. Vou comprar, se puder me dispensar um pouquinho... — Como assim, Glória? Acho que você... — Não vou demorar nada! — insistiu a moça, pegando o casaco e saindo. — Está bem... — ele pigarreou, sem jeito.
— Esquisito o jeito dela, Max — comentou Clare, quando ficaram a sós. — Ela sabe que... — Só que nos conhecemos, mas acho que ela é adivinha... Não contei nada. Acha que iria falar de você assim? — Claro que não, mas... — O que quer saber da apólice. Pensei que tivesse todas as informações. — Nem todas... Era uma doce tortura vê-lo e lembrar. Estava com o terno que usara no dia em que tinham se conhecido. Observou os movimentos elásticos, quando ele abriu o arquivo. O dele não era todo colorido... Gostaria de contar-lhe o que a mãe fizera, o resultado do incidente com a sra. Boddidle e o Toyota. Mas sentia-se muito tímida, incapaz de renovar a intimidade que tinham em Sugar Sands.. — Está aqui — ele abriu a pasta na mesa de Glória. Ela armou-se de coragem. — Max, não vim aqui por causa disso. — Por quê, então? — o olhar dele era frio, cortante. — Você disse que a perda de Durnberg não iria afetar nossa relação, mas quando o perdeu sumiu sem uma palavra... — Respirou fundo. — Quero saber por quê. Os olhos dourados refletiam dor e ele desviou-os. — Você já ouviu falar em namoro de férias? — indagou. — Mas não foi isso que... — Depois que a transação comercial e o suspense terminaram, compreendi que o que nos unira fora a tensão e o ambiente de conto de fadas. Bobagem acreditar que havíamos criado algo que duraria no mundo real. — Não! — Ela apoiou-se na cadeira da secretária. — Não pode desprezar desse jeito o que houve entre nós. Tenho certeza que significou algo para você. — Foi bom enquanto durou, Clare — sorriu ele. — Você é mesmo tão insensível ou tem medo que eu saiba que se encontra em dificuldades financeiras? Não ligo para isso e... — começou a tremer, sua voz quebrou-se. — Meus negócios vão bem — disse Max, encarando-a. — Este lhe parece o escritório de um homem falido? — As aparências podem enganar, Max.
— Clare — ele encostou-se na mesa de Glória, fitando-a —, vá para casa e esqueça Flórida. Não teve importância. — Você está mentindo! — Os lábios dela tinham se tornado gelados e doíam. — Está mentindo por um orgulho masculino idiota. — Pense o que quiser. — Está bem. Se um dia perceber que o amor é mais importante do que o orgulho, ligue para mim. — Adeus, Clare. Ela não respondeu, recusando a se despedir. Não tivera aquela chance na Califórnia e não a queria agora. Não iam romper! Pegou a echarpe, a bolsa e abriu a porta, quase atropelando Glória ao sair para o corredor. A secretária entrou na sala sacudindo a cabeça. — Acho que não aproveitou direito o tempo que lhe dei, chefe! Só se ela saiu correndo para comprar o buquê de casamento... — Duvido... Max voltou para sua mesa, com ar cansado e infeliz: mandar Clare embora tinha sido quase tão horrível quanto entregar os filhos à custódia de Adele, ao se divorciar. — Ela é linda! — comentou Glória, pondo o pacote de café na mesa e tirando o casaco. — E vi pelo seu olhar que o ama muito. — Ela pensa que me ama. Está enganada. — Posso me sentar? — perguntou a moça, dirigindo-se a uma das poltronas diante da mesa do chefe. — E tenho escolha? — rebateu ele, com um sorriso triste. — Não. — Sentou-se e apoiou os cotovelos sobre a mesa, — Quero saber por que expulsou a moça. — É muito atrevida, moça! Isso é porque se acha indispensável? — Não. É porque você agora precisa de uma amiga, não de uma secretária. — Errado. Preciso de dinheiro. — Então, é isso? Sei que as coisas não estão fáceis, depois que perdemos Durnberg, mas não estamos... — Estamos — cortou ele, tenso. — Tenho que fazer outro pagamento grande da parte de Adele na agência. Já estudei a situação um milhão de vezes e sem a renovação de Flagstaff Fairways não poderei pagar. Depois do Natal colocarei minha casa à venda. — Que pena! Sei que você adora aquela casa.
— Não mais, porém os meninos gostam dela e quis mantê-la para eles. Por isso só vou vender depois do Natal, se eles souberem antes, vão ficar com as férias estragadas. — E Adele? Não pode lhe pedir que espere? Talvez aconteça alguma coisa e não precise vender a casa. — Já tentei... — Ele passou a mão pelo rosto exausto. — Engoli o orgulho e falei com ela. Adele acha que sou sentimental em relação à casa e à ligação dos meninos a ela. Não quer aceitar que Tom e Brian amem a casa, se não se sentiria culpada por tê-los tirado de lá. — Por que essa mulher quer sugar seu sangue? — Porque não dei suficiente atenção a ela, quando éramos casados — explicou ele, desanimado. — Ainda sente raiva e quer em dinheiro o amor e carinho que não teve. — Entendo... Mas é que você trabalhava demais, chefe. Sei que sua ausência deve ter sido ruim para ela, mas... — Ela cansou, Glória. — E o que isso tem a ver com Clare Pemberton? Está furioso com ela porque tirou seu cliente, Max? — Seria hipocrisia, não acha? Sempre disse que amigos e negócios nada têm a ver... — Então, por que ela saiu daqui chorando? — Para seu próprio bem. — É?! Pois estava bem melhor quando entrou! — Daqui a algum tempo isso passa, Glória. Clare está subindo na vida e não deve ser arrastada para baixo por um homem de meia-idade, com problemas financeiros. — Max, estou com uma vontade de estrangular você! — Por quê? — ele surpreendeu-se com tanta veemência. — Porque você tomou a decisão por ela. Resolveu que é um peso, sem lhe dar chance para contradizê-lo. Pode ser que ela não ligue para a sua situação financeira. Pelo que percebi, não é mulher que julga o homem pela conta bancária. — Não entende, Glória! Ela é jovem e impressionável. Depois dos dias que passamos juntos na Flórida, encantou-se comigo e não tem frieza bastante para tomar uma decisão equilibrada, por enquanto. — Ah! Então, no que se refere a emoções, ela não é muito esperta, mas você, homem experimentado, é?
— Isso mesmo. — Besteira! — Gostaria de saber quantas secretárias dizem isso ao chefe sem arcar com as conseqüências! — Só as ruivas. — Sou azarado, mesmo! — ele sorriu. — Max, ouça o meu conselho: vá atrás dela, vale a pena! — Que nada! — Lembrou-se dos olhos verdes, do sorriso lindo, daquela boca feita para beijos e seu peito doeu. Mas teimou: — Eu teria de viver na sombra dela. Clare ficará muito melhor sem minha companhia. Clare saiu da agência de Max sentindo-se derrotada, mas ainda agarrada à convicção de que ele estava embaraçado por causa da falta de dinheiro e não queria que ela soubesse o quanto a perda de Durnberg como cliente o prejudicara. Se tivesse provas dos problemas financeiros dele, poderia enfrentá-lo e exigir a verdade, sem deixá-lo fugir. No mês seguinte, tentou imaginar de que modo obteria essas provas, sem resultado. Na tarde de Natal, ela, a mãe e Joel abriam os presentes junto à árvore de Natal, na agência, quando o rapaz avisou que ia até a casa de Max, visitar Tom e Brian. Clare decidira ir para casa com a mãe, porém nesse momento decidiu ficar ali e esperar a volta do irmão. Se Max estivesse contando centavos, ele lhe diria. Ficou lendo um livro, depois que a mãe saiu, a fim de passar o tempo. Afinal, cerca de onze da noite, Joel entrou, batendo as botas para livrá-las da neve. — Muito frio lá fora? — indagou ela. — Não muito e está lindo! — respondeu ele, tirando o gorro e alisando os cabelos com os dedos. — Nós três esquiamos ao luar. Max me emprestou seus esquis. Ao ouvir o nome dele, o coração de Clare saltou. — Você conversou com Max? — Um pouco. Ele mandou lembrança, o que achei legal, depois do que você fez com ele... — Como vai ele? Quero dizer, como vão eles? — Bem. Pensei que as coisas estivessem piores por lá, mas está tudo legal. Max continua o mesmo.
— Então, quer dizer que o Natal deles está sendo bom — perguntou, sem conseguir mudar de assunto. Não queria pensar no que significavam os acontecimentos, se Max ainda continuava rico. — Ótimo. Tom ganhou um computador e Brian um aparelho de som incrível. Até as janelas vibravam! Depois, Max disse para a gente ir esquiar, não sei por quê, mas adorei. Esquiar no clube de golfe com a neve fresca é sensacional. Amanhã à noite vamos esquiar de novo. Clare tinha ímpetos de gritar. Max não ligava para ela, fora apenas um passatempo para ele e, se ela não lhe tivesse tomado o cliente, provavelmente continuaria se divertindo à sua custa. No entanto, demonstrara maior capacidade profissional do que ele e talvez o tivesse humilhado. E chegara a achar que ele era um homem com autoconfiança! — Mana, o que foi? Tudo bem? Ela percebeu que a árvore de Natal estava completamente desfocada diante de seus olhos e que seu rosto mostrava-se molhado de lágrimas. — Ah, você sabe como é, nesta época do ano — desculpou— se, enxugando as lágrimas. — A gente fica sentimental, Joel. — Aconteceu alguma coisa entre Max e você, em Sugar Sands? — indagou o rapaz, depois de fitá-la por alguns instantes. Ela procurou sustentar o olhar do irmão. Ele sempre fora muito esperto. — Não, Joel — respondeu, respirando fundo. — Não aconteceu absolutamente nada.
CAPÍTULO 14
No fim da primeira semana de janeiro, Clare foi chamada ao escritório de Durnberg, no Flagstaff Fairways, para receber o primeiro pagamento. Sabia que não era necessário ir lá, que podiam depositar em sua conta bancária, mas dominou a irritação despertada pela exigência. Tratava-se de um bom dinheiro e do início de nova era para a Agência Pemberton. Chegara a ouvir com prazer a história de um chalé danificado por uma árvore que caíra. Até quinze de janeiro, Max era o responsável pelos danos e tivera o azar que acontecesse duas semanas antes da renovação do seguro. Clare atribuíra o acidente à justiça divina e até permitira-se rir. Conseguira ensinar a mãe a lidar com o computador e ela estava sendo de grande ajuda. Pensava em Max ao chegar no hotel-clube. Embora furiosa com ele, sentia uma saudade enorme. Quando ia passando diante da casa dele viu o cartaz “Vende-se” espetado no jardim. Trêmula, mal conseguia dirigir, o coração em tumulto. Ele estava com problemas de dinheiro. Mentira para ela, por orgulho, pensou, angustiada. Compreendeu, então, que sua última extravagância fora dar presentes caros aos filhos, que seriam pagos quando vendesse a casa. Assim que se livrasse de Ham, correria para o escritório dele, decidiu. Ou, talvez, poderia telefonar para ele e convidá-lo para tomar algo com ela. A agência não era um lugar ideal para a conversa que pretendia ter, nem para o que planejava fazer... Beijá-lo. Beijá-lo muito, com paixão. Vibrando de esperança, entrou no escritório de Durnberg. — Como passou o Natal, Clare? O meu foi jogando tênis com um profissional. Fiz o homem suar a camisa e, no fim, ele disse que precisava que eu lhe desse umas aulas! — Então, deve ensiná-lo — retrucou ela, irritada com tanta arrogância. — Não tenho tempo. Mudando de assunto, ouvi dizer que você se divertiu com o chalé que uma árvore arrasou... — É, mas não devia... — disse ela, envergonhada. — Quem vai ficar na fogueira agora sou eu.
— Pobre Max... Ele ficou mal porque a quantia a pagar é alta. Ainda não acertamos os detalhes. Ela teve uma sensação esquisita com a certeza de que o empresário a fizera vir ali porque esperava Max. Aquele homem era bem capaz de uma brincadeira assim. E nem precisou virar a cabeça quando ouviu passos atrás de si. Sabia quem era. — Olá, Max! Coincidência Clare estar aqui... Como nos velhos tempos, não é? Clare voltou-se, devagar. Max lembrava um rancheiro, com o chapéu Stetson e jaqueta de couro. Um rancheiro furioso, a mão branca de tanto apertar a pasta, os olhos dourados emitindo um brilho ameaçador. — Você preparou isto, não, Ham? — disse, gelado. — Não, exatamente. A hora é coincidência. Ela já estava de saída, mas ficamos conversando e você chegou. — Não acredito. — O tom de Max continuava frio, calmo. — Sei que é um filho da mãe que manipula os sentimentos dos outros para se divertir. Segurou Clare aqui de propósito para deixá-la constrangida ao me ver espernear. Há anos você vem aprontando comigo, mas ela merece tratamento melhor. Aviso— o que se descobrir que anda abusando dela eu... — Que é isso? Ameaça? — o empresário riu, nervoso. — Está brincando, não é, Max? — Experimente, então. — Max, está levando isso longe demais! — exclamou Ham. — Acho que não. Tome cuidado, meu velho. Posso não ser mais seu agente, mas estou de olho em você... de longe, graças a Deus! — Voltou-se e foi para a porta. — Espere um minuto! — ordenou Durnberg, imperioso. — Ainda não terminamos. Precisamos falar sobre a indenização. — Faremos isso por correspondência — retrucou Max, voltando-se — e vou usar luvas para pegar em suas cartas, para não tocar no seu veneno. — Vai pagar caro, Max Armstrong! Não pode falar assim comigo. Vou dar um jeito para que não pegue mais um só seguro nesta cidade! — Não vai conseguir isso, Ham. Trabalhei conforme a lei e vou continuar a fazê-lo, até o dia quinze. Uma coisa que nunca mais farei é me humilhar. Pegue o seu seguro e engula! Virou as costas, saiu e Clare teve vontade de aplaudir. — Ele vai se arrepender! — rosnou Durnberg. — Vou notificar a
Comissão de Seguros, vou sujar o nome dele... — Não vai, não. Sem pensar, Clare se pusera de pé. Devia estar com medo, mas teve certeza que enfrentaria aquele homem, de qualquer jeito. — O que você disse? — indagou ele, roxo de raiva. — Se você fizer qualquer coisa contra Max, testemunharei a favor dele. Sei como você age e ouvi sua ameaça. — E quem é você? Uma menina que irá ganhar muito dinheiro caso se comporte direitinho! Só isso! — Falei sério, Ham. Se fizer alguma coisa contra ele, terá que se haver comigo. — Que emocionante, um querendo proteger o outro! — os olhos gelados do homem brilhavam. — Talvez eu tenha me enganado com vocês. Acho que algo aconteceu na Flórida. — Isso não é da sua conta. — Então, falemos no que é da minha conta. Não sei se vou mesmo contratar a sua agência de seguros. Você nada recebeu até agora, não? Ela já esperava por aquilo; o homem lhe dava mais uma chance de rastejar. Pegou o casaco, a bolsa e ergueu-se, encarando-o: — Sr. Durnberg, como cliente, o senhor significa muito para mim e minha família. Vai ser duro perdê-lo. — Ele sorriu, maldoso. — Mas ninguém me obrigará a vender a alma pelo trabalho. E ela saiu sem olhar para trás. Voltou imediatamente para seu escritório e contou tudo que acontecera à mãe, que a apoiou totalmente. — Agora, vá atrás de seu homem, menina! — disse a senhora, empurrando-a porta afora. Ela tentou. Não sabia onde ele morava, procurou Glória que lhe deu endereços de amigos e de lugares onde Max poderia estar. Foi várias vezes à casa dele, ao escritório e não o encontrou. Por fim, resolveu ficar na agência, com Glória, esperando por ele. — Quando Max não vai voltar, liga dizendo onde está — explicou a secretária. — Este dia tinha que chegar, Max precisava cansar de Durnberg e largar dele. Não sei como agüentou tanto tempo! — Acho que eu sei... — disse Clare. — Procurou, primeiro e sempre, pensar na mulher e nos filhos. Duvido que ela tenha sequer imaginado que Max lhe dava provas de amor aceitando tudo que vinha daquele homem.
— Acho que é isso mesmo... Agora, vocês estão livres dele. Se eu pudesse encontrar esse meu chefe cabeça-dura e obrigá-lo a raciocinar! — Os homens nunca sabem direito por que os amamos... Max acha que tem de ser um homem de sucesso para me atrair, mas a única coisa que quero dele é seu amor... — Olhou os ursinhos nas prateleiras. — Uma vez pensei que esses ursos eram um bom truque... agora sei que são o símbolo perfeito para Max. Você gosta de histórias de ursos? — Engraçado, ele me fez essa pergunta, antes de ir para a Flórida... Olhe, Clare, vocês têm que se juntar. Combinam muito. Se ele não aparecer, o que faremos? — Não sei. Eu acho que vou ficar aqui esperando, com os ursinhos. Então, ela teve uma idéia. — Vou depressa, antes que a loja de brinquedos feche. Se Max aparecer, faça qualquer coisa para ele ir ao meu apartamento... Se não conseguir, pode deixar, não se preocupe. Mas à meia-noite ela estava preocupada. Onde Max estaria? Em casa, não podia ser. Já teria se comunicado com ela. Começou a andar de um lado para o outro na sala do apartamento. Decorara-o com móveis lisos, as paredes eram claras, o ambiente agradável. Sentou-se no sofá e tirou os sapatos. Recostou-se e fechou os olhos. Não ia dormir, embora estivesse muito cansada... O som das batidas a fez saltar. Quase duas horas. Seria Max? Com o coração aos pulos, correu para a porta, espiou pelo olho mágico e sorriu. Era ele, com um enorme urso no colo. Ela abriu a porta e ele entrou sorrindo. — Lindo, é isso que pensa de mim? — Clare fez que sim com a cabeça. — Acha que sou tiete dos filmes de Walt Dysney? — Ela fez que sim, de novo. — E acha que essa é a base da nossa união pelo resto da vida? — E... — disse ela, num fio de voz. — Está enganada. — Ele encostou o urso na parede e tirou o chapéu. — Enganadíssima! — Quando ela ia protestar, continuou. — Temos muito mais do que isso! — Aproximou-se e tomou-a nos braços. — Temos um amor de corpo e alma! Beijou-a, Clare começou a chorar, mas ele pareceu não notar as lágrimas salgadas em seus lábios. Continuou a beijá-la como se nunca mais fosse parar. Ele a amava. Ainda não sabia que ela deixara Durnberg, pensava que continuava com o seguro dele, mas queria seu amor, assim mesmo. Pouco depois, tiravam um a roupa do outro, no sofá. Ele a fez deitar-se e tirou-lhe a blusa, enquanto acariciava-lhe os lábios com a ponta da língua.
Abriu o sutiã, tirou-o, cobriu os delicados seios com as enormes mãos. — Estava ficando louco sem você — murmurou. Ela arqueou as costas, enquanto ele acariciava-lhe os mamilos. — Pensei que só me quisesse na Flórida — gemeu. — Quero você em qualquer lugar, Clare! Como fui tolo! Será que me perdoa? — Só se fizer amor comigo agora mesmo — intimou ela, abrindo o zíper da calça dele. — Vim correndo para cá, sem pensar, sabe? — Gemeu, quando ela passou a mão pelo elástico da sunga, esbarrando em sua virilidade avolumada e ardente. — Espere... não estou preparado, você pode engravidar... — E o que tem isso? — ela continuou a acariciá-lo. — Quero você agora. Vamos ter filhos, só assim poderemos ver todos os filmes de Dysney... — Eu te amo! — exclamou Max, fitando-a, emocionado. O desejo queimava-lhe as entranhas quando ele tirou a saia de Clare, depois soltou a cinta-liga e sem se preocupar em tirar as meias enfiou as mãos por dentro da delicada calcinha de renda e rasgou-a. O som do tecido rasgando pareceu enlouquecer Clare, que abaixou a sunga dele, tirando-a, depois puxou-o para si. Uniram-se e ao primeiro toque aveludado dele ela perdeu a respiração. Max hesitou, depois penetrou-a, fundo, com um gemido de êxtase. — Clare... — pronunciou o nome dela como se acariciasse um diamante perfeito. — Clare, meu amor, minha vida! — Eu te amo, Max... — disse ela, apaixonadamente... — Você... Interrompeu-se, elevada por ele aos píncaros do prazer. Naqueles momentos de silêncio, os olhos deles disseram-se tudo que palavras não conseguiriam exprimir. Max apertou mais o abraço e os dois viajaram no espaço sideral, envoltos em ondas de gozo indescritível. Depois, mergulharam no nada, um nos braços do outro. O frio da manhã acordou-os. Abraçados, foram para o quarto, deixando-se cair na cama e dormindo até os raios de sol, ainda pálidos, tocarem-lhe os rostos cansados, mas felizes. Clare acordou e viu Max apoiado em um cotovelo, fitando-a. — É a primeira vez que acordo de manhã, com você perto de mim — comentou, alegre.
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